uma mudança de mentalidade?

hoje foram vistoriados mais alguns quilômetros de ciclofaixas ciclovias no centro de são paulo. jilmar tatto, secretário de transportes, chegou pedalando, e não apenas  pedalou para as fotos.  sabe-se que ele tem ido aos eventos da secretaria, sempre que possível, numa bicicleta. está tornando-se um ciclista urbano e percebe-se isso pelas suas declarações, repercutidas pelo vá de bike, nesse link aqui.

jilmar tatto em sua bicicleta. só falta tirar o capacete pra caracterizar o momento cycle-chic na frente da sala são paulo.

jilmar tatto em sua bicicleta. só falta tirar o capacete pra caracterizar o momento cycle-chic na frente da sala são paulo. foto de antonio miotto

quer colocar mais de 1000 km de ciclovias ciclofaixas em são paulo. não sei se são ciclofaixas ou ciclovias pois elas não têm a separação física dura que cilovias possuem em relação às ruas circundantes, nem são apenas uma faixa pintada no chão, como devem ser as ciclofaixas. elas são pintadas em vermelho, conforme o padrão internacional, e são separadas das vias circundantes com tachões e sinalizadores. alguns acham muito, outros acham pouco, outros preferiam uma separação constituída por um muro de concreto de 2 metros de largura, e eu não acho nem muito nem pouco, mas acho demais! demais da conta, como se diz…

separo duas frases do secretário: “É uma cidade que não se preparou, não está planejada para o pedestre e nem para o ciclista. Então é um movimento de mudança de cultura e do ponto de vista ambiental, que a cidade está precisando.” “O usuário do carro geralmente é um cara mais duro, travado, ele é um cara estressado por natureza. Não sei se é porque ele tá dentro do carro, fechado. E quem usa a bicicleta é um cara mais… de bem com a vida. A impressão que dá é isso.” (os grifos são meus).

separei essas duas frases pois elas sintetizam duas visões, uma visão muito mais voltada ao todo, à cultura da cidade e aos seus fatores ambientais, e a visão microscópica do indivíduo, do ponto de vista existencial: o bom-humor do ciclista em contraposição ao mau-humor do motorista.

sabemos que essa gestão incorporou como política a ser seguida justamente a orientação do artigo 6º da lei de mobilidade urbana, que estabelece diretrizes a serem seguidas pelas cidades. sim, a diretiva é privilegiar o coletivo sobre o individual e o não-motorizado sobre o motorizado. pois ao contrário do que pode parecer ao superficial senso comum, não somos todos iguais no trânsito e alguns modais devem ser privilegiados em detrimento de outros inclusive em razão de fatores ambientais.

claro, implantar 400 km ou mais destas ciclovias pela cidade será um trabalho e tanto. mas percebe-se um esforço para de fato fazer isso. ao contrário de gestões anteriores, de kassab e serra,  onde a bicicleta ou era algo a ser ignorado ou tratado com má-vontade, ou oportunidade pra negociatas, essa gestão optou por um modelo de baixo custo e rápida implantação da estrutura cicloviária, mesmo que com problemas pontuais, de modo a criar um fato consumado (mesmo que depois se tenha que melhorar a estrutura). mas, como o roberson já pontuou, “o que cada vez está mais claro, é a intensão de interligar e criar uma malha cicloviária, que inclua mais pessoas nesse modal, não necessariamente pessoas que já pedalam onde não se tem estrutura, mas aquelas que só se sentiriam a vontade  em algo mais permanente“.

são novos tempos para são paulo? parece-me que sim. a formiga já começou seus passos curtos mas firmes, mas falta atravessar a montanha, nesse caso, atravessar a ponte.

sim, bate-se nessa tecla não apenas eu, mas muita gente. para os já pedalam por aí, as pontes ainda são um grande problema, e para os gestores, de fato é algo que vai dar trabalho para implantar uma estrutura cicloviária, em razão da arapuca representada pelas alças de acesso rápido que existem antes e depois de cada ponte sobre as marginais. problema piorado na ampliação das marginais, obra de kassab prefeito e serra governador.

mas lembremos que o prefeito fernando haddad não tem nada a perder. segundo  a veja s- ele está isolado dentro do próprio PT e com baixa popularidade. ora, então, não tem nada a perder em implantar ciclovias e ciclofaixas a torto e direito. um homem sem nada a perder é o mais perigoso, diz a sabedoria milenar. pois é capaz de tudo.

e haddad parece imbuído no intuito de “fazer o que deve ser feito”, e o que deve ser feito é resultado de lei, repise-se: lei de mobilidade urbana.

o detalhe é o seguinte: ao contrário do que dizem alguns, essa obra não está sendo feita sem consulta aos ciclistas. foi anunciada a rede, com presença de ciclistas no lançamento, e quem acompanha as obras sabe muito bem onde está o próximo trecho. sabe-se também que há vistorias periódicas e basta ir lá e conversar diretamente com o secretário ou seus auxiliares.

o que não há é um canal engessado de comunicação, formalizado, fora do conselho municipal de transporte, onde já há um representante titular (felipe aragonez) e um suplente (felipe fernandes), ocupando a cadeira que cabe aos ciclistas.

dificilmente haverá um canal formalizado envolvendo alguma entidade de direito privado. há óbices legais, uma vez que o princípio da isonomia prevê que qualquer cidadão tenha o mesmo direito, portanto uma entidade qualquer não pode ter privilégio de comunicação em detrimento a qualquer cidadão, que lhe seja associado ou não. é isso que muitos não compreendem. e claro, quando a implementação desse plano for além do centro expandido, quem tem que participar é o usuário local.  um morador da zona sul dificilmente entenderá as necessidades do ciclista da zona norte e vice-versa. mesmo no que tange à questão crucial, a travessia das pontes. as pontes da zona sul são diferentes das pontes da zona norte. necessidades específicas bem diferentes, mesmo que a necessidade geral seja a mesma: travessia segura desses locais.

ressalte-se que a CF garante que ninguém seja obrigado a associar-se ou manter-se associado pra exercer seus direitos básicos, inclusive o direito de petição.

portanto, a legitimidade das instituições formais (associações e etc) que representam ou tentam representar movimentos sociais está no âmbito da defesa dos interesses desses movimentos sociais, e não na defesa de determinados lobbies de empresas, muitas vezes sob a forma disfarçada de patrocínio ou apoio financeiro.

isso é uma prática nefasta tão comum no brasil, mas tão comum, que há pessoas que não conseguem conceber um movimento social que não tenha interesses escusos por trás. lembro-me de um aluno que nsistia em me perguntar “quem estava por trás”, “quem financiava” o MPL. para ele o MTST também é obra e alguma empresa ou vereador. ele sempre me dizia sobre as diversas associações de bairros onde morou: “sempre tem um comerciante ou um político por trás! sempre tem! sempre fazendo o povo de bobo!”

claro que essa generalização é falseadora, mesmo que haja por aí interesses escusos por trás de algumas associações de bairro, de alguns sindicatos e etc. e essa generalização, juntamente com a criminalização crescente das lideranças de instituições formais representativas de movimentos sociais, que leva cada vez mais à informalidade: para atestar a legitimidade do movimento, os coletivos tomam o lugar das associações. o fenômeno é nacional, e não restrito ao micro-cosmo do ciclo-ativismo, muito menos ainda ao micro-micro-cosmo do ciclo-ativismo paulistano.

então, o que se vê nesse fenômeno é que o grau de legitimidade da fala de quem se propõe a representar é dado pela percepção de sinceridade de sua fala por parte de quem pretende representar. voltemos ao exemplo do MPL e do MTST: pode-se discordar dos seus métodos, mas evidentemente atuam nos interesses dos seus representados. ou alguém duvida que o MPL lute por tarifa zero no transporte, e o MTST lute por solucionar o problema de moradia dos seus associados?

então é nessa sinceridade de fala, medida por ações claras e inequívocas e não por conchavos escusos em gabinetes de vereadores, que reside a maior ou menor legitimidade de instituições formais nascidas de movimentos sociais.

claro, é preciso ressaltar aqui que não me filio à teoria do agir-comunicativo de j. habermas, tão prezado pelo nosso prefeito de são paulo. então, embora eu fale de falas sinceras e insinceras, não acredito no agir comunicativo forte ou fraco de j. habermas, pois isso pressupõe, segundo o próprio habermas, que as partes se coloquem num patamar d e igualdade. e há sim diálogo na desigualdade, diálogo desigual, que é o único possível entre estado e o cidadão.

o que alguns ainda não perceberam é que a velha política de conchavos e canais escusos tem se tornado progressivamente superada no brasil. ela é herança  tanto do período escravagista, onde o “jeitinho brasileiro” surgiu pra aliviar a opressão imposta ao escravo urbano, e acentuou-se na ditadura militar, onde os canais escusos tanto serviram pra livrar A ou B de alguma masmorra e encaminha-l@ a algum exílio protetor, quanto para que alguns espertos conseguissem vantagens, como um certo diretor de empresa que virou prefeito e governador nomeado de  são paulo.

suzana nogueira (CET) discute a questão das pontes com membros do coletivo CICLOZN

suzana nogueira (CET) discute a questão das pontes com membros do coletivo CICLOZN – foto de antonio miotto

hoje gestor público moderno aprendeu que é melhor não falar com os lobbies, mas diretamente com os cidadãos. ainda não se desenvolveu uma tecnologia que faça isso por canais formais. o decreto presidencial que cria os conselhos populares é uma tentativa de fazer isso. e um dos seus defeitos, segundo alguns de seus detratores, seria o de encaminhar o país para uma democracia direta.

(particularmente, não vejo problemas em sermos uma democracia direta, ou algo próximo a isso. a suíça tem um sistema extremamente participativo, não imune a falhas, não-perfeito, mas muito mais direto que o nosso. não são imunes a lobbies, mas lá acho que não tem nenhum vereador despachante preocupado em emplacar bicicletas.).

bom, é fato é que, em diversos setores da sociedade, há uma mudança após junho de 2013. se de um lado há recrudescimento ao desrespeito aos direitos fundamentais do cidadão por parte do aparelho repressivo, de outro há gestores que buscam canais diretos de comunicação com a população, passando ao largo dos antigos canais enviesados por parlamentares e lobbies. ainda não sabem como fazê-lo de forma não contaminada por interesses escusos, mas tentam. talvez seja esse o sentido da fala repetida por jilmar tatto, de querer jogar frescobol ou peteca com os ativistas paulistas.

claro, 2014 não 2002. são novos tempos. o fato é que nunca esperávamos que algum prefeito ou secretário de transportes falasse a sério quando prometesse 400 km de ciclovias. estávamos acostumados com promessas tão sinceras quanto essas. e agora que vemos o asfalto pintado de vermelho, o olhar é de assombro e, no máximo, críticas pontuais: alguém discorda da diretiva da bidirecionabilidade das ciclovias, outro reclama de buracos, alguém cita um carro estacionado na faixa, ou um poste que está no caminho e precisa ser removido, entre outros detalhes que serão sanados com facilidade.

é fato, são tempos novos, nova cultura urbana aflorando, e que apresenta novos desafios. talvez um dia viremos copenhagen. e daí talvez aqui se ouça o que uma vez o JP amaral ouviu lá, ao procurar por lá as pessoas do ciclo-ativismo local:

– aqui não tem. e precisa? – perguntou o ciclista dinamarquês, apontando as ciclovias do entorno.

esse dia há de chegar. e aí voltaremos às discussões que de fato interessam: materiais de quadros, qualidade de peças, formas de enraiamento das rodas, tipos de pneus, alforjes, roteiros de viagens, competições, capas de chuva, e outras questões dinamarquesas. pedalemos, pois.

 

 

 

 

5 Respostas para “uma mudança de mentalidade?

  1. O que mais me incomoda nesse momento é os vereadores que se dizem a favor da bicicleta em SP e fazem parte da Frente Parlamentar de mobilidade, NENHUM deles foi sequer ou mandou assessores pra prestigiar uma conquista para a cidade!

  2. Permita-me discordar biosbug. Na plenária da Ciclocidade no Centro Cultural havia pelo menos um representante do Ricardo Young

  3. Sim, professor Odir, momento extremamente marcante para a cidade de modo muito, muito mais amplo inclusive do que apenas a questão da mobilidade por bicicleta.
    O prefeito está apostando seu futuro político numa tacada dificílima, jamais sequer considerada por outros prefeitos antes, muito menos pelos outros candidatos da última eleição. O candidato derrotado que foi ao segundo turno inclusive já teve sua chance e foi triste, foi um “beija-mão e abre portas” aos velhos interesses.
    Eu estou muito surpreso, tenho inclusive críticas técnicas ao que vejo pintado am alguns trechos, mas jamais vou municiar uma midia carniceira doida por manchetes negativas. As questões técnicas são todas de solução rápida, coisa fácil, já ter outro prefeito assim, com a decisão política de fazer estrutura cicloviária em massa na cidade, de priorizar a MAIORIA em ônibus, de restringir privilégios de quem é favorecido desde o nascimento…difícil de novo tão cedo…então é agora ou nunca !
    E ó, nem votei nesse prefeito, tomei tanta cintada de político pela vida que atualmente duvido antes e primeiro espero mostrar a que veio, depois voto. Ele está agora na minha intenção de voto, vamos ver como se comporta sobre todas as questões que me incomodam nessa cidade, mal estamos na metade do mandato.
    Ah, e depois que São Paulo for mais amigável ao ser humano, então discutimos mais sobre gerações de peças, compatibilidades, quadros, ajustes…rs

    Márcio Campos

  4. Esse Jilmar Tatto explica ciclovia mas não explica a ligacão dele com as Cooperativas e o PCC… E diz estar de bem com a vida…

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