PEDAL PLATAFORMA: a ressurgência.

Graveleiros e mountainbikers começam a recuperar o uso dos pedais plataforma, e abandonam os pedais clipless. A indústria já percebeu a tendência.

https://www.bikemag.com/gear/components/pedals/konawahwahii/Kona Wah Wah II – clique no link e leia uma uma reportagem sobre esse pedal.

Você, eu e outros que usamos pedais de encaixe já passamos alguma vez na vida por uma situação constrangedora: cair estando parado. Simplesmente por algum motivo qualquer não desclipamos a tempo, e vamos ao chão como uma jaca caindo do pé.

Isso aconteceu comigo três vezes no mesmo dia, justo o primeiro dia em que usei um pedal de encaixe numa estradeira, no ano de 2000. Era um pedal Look, que eu ainda tenho guardado em casa. Três vezes eu caí pro lado esquerdo, e como quando se cai clipado, o joelho bate com tudo no chão. Criei um cacoete: eu desclipo o pé esquerdo a cada frenagem, a cada parada, e às vezes faço o movimento mesmo usando um pedal plataforma.

Uso pedais clipless desde aquele dia. Tenho pedais Look, Shimano de estrada e MTB, Egg Beater (Candy), tive Welgo, e até uns mistos, que são plataforma e clipless (pedais assim usei numa Surly LHT).

O pedal clipless, ou pedal de encaixe, coloca o pé numa única posição (alguns tacos permitem uma leve rotação do pé), e apoia o peso essencialmente só no taco. Com o tempo, as sapatilhas foram elas tornando-se plataformas rígidas: solas bem rígidas pra permitir a maior transferência de força aplicada pelo pé ao pedal. Para não haver desperdício de força aplicada, ou minimizar esse desperdício.

Se você já pedalou usando tênis de corrida, provavelmente já sentiu que o tênis com seu solado macio absorve parte da força que você faz.

Em tese, posicionando o pé na posição perfeita de fit você não apenas terá o melhor desempenho possível, mas não terá lesão. Colocar o taco mal posicionado gera lesão. E aí o devido cuidado ao colocar o taco, e pedalar com a sapatilha adequada ao seu tamanho de pé.

Pois bem. O que se tem descoberto nessas décadas de uso do pedal clipless? No downhill eles nunca foram populares. Mais recentemente, alguns mountainbikers (gringos) e muitos graveleiros começam a abandonar o pedal clipless. Entre os que usam a bicicleta no cotidiano, para transporte, muitos usam pedais plataforma para poder pedalar com calçados comuns, outros procuram sapatilhas o mais parecidas possível – não apenas na aparência, mas no caminhar também – a tênis, calçados comuns.

Mas qual o motivo de mountainbikers e graveleiros abandonarem o pedal clipless? Os motivos são muitos. Um primeiro motivo é poder tirar o pé do pedal rapidamente. O downhill ensinou isso, e com mountainbikers e graveleiros cada vez fazendo trilhas mais complicadas, de vez em quando é preciso se tirar o pé do pedal muito rapidamente, para um apoio qualquer, evitando-se uma queda.

O segundo motivo é o uso de outros calçados que não as sapatilhas. Pois anda-se, empurra-se a bicicleta. Principalmente se estamos praticando aquela modalidade de cicloturismo conhecida como bikepacking: carregando a tralha pra acampar sem usar bagageiros, trafegando em trilhas.

Um terceiro motivo é um controle diferente da bicicleta, mais baseado na gravidade, no peso do ciclista sobre os pedais.

James Wilson, um treinador americano inclusive de mountainbikers profissionais, já em dezembro de 2012 publicou um “Flat Pedal Manifesto”, que pode ser lido aqui, em inglês. A Kona, fabricante de bicicletas, há algum tempo equipava suas bicicletas de demonstração com um pedalzinho plataforma que fez sucesso: Wah Wah, agora na versão Wah Wah 2. Esse pedal foi copiado por diversos fabricantes. Copiado pois muita gente começou a usá-los, e não apenas o pessoal do downhill e free ride.

A volta dos pedais plataforma, que nunca foram embora, tem sido um movimento silencioso, contínuo. Muitos são os motivos, que variam desde uma busca por uma outra experiência de pedalar, mais livre, mais despreocupada, passando por praticidade (buscada por usuários urbanos e cicloturistas) e até motivos médicos.

Eu conheço pelo menos três pessoas cujos ortopedistas diversos recomendaram não usar pedais de encaixe. Os motivos eu ouvi de um outro ortopedista: fazer sempre o mesmo movimento, na mesma posição, pode gerar lesão de esforço repetitivo. Eu não sou um especialista no assunto, mas com colegas que trabalham ergonomia do trabalho aprendi que LER não se tem apenas agindo da forma incorreta. A se perguntar se o corpo humano, desenvolvido por milhares de anos, deslocando-se no terreno irregular da natureza, não evoluiu para a diversidade dos movimentos, e não para a repetição.

A minha experiência de 2 décadas de uso de pedal de encaixe é: usando-os tenho a sensação de pedalar melhor, mais conectado com a bicicleta. Mas meus números, de pangaré ciclístico, não mostram isso. Em bicicletas reclinadas gosto de pedais de encaixe pois não preciso ficar posicionando os pés pra cima. Mas nas bicicletas comuns, já viajei usando pedais de encaixe e usando pedais plataforma. Nos últimos rolês durante a pandemia, fui duas vezes de São Paulo a Piracicaba usando pedais de encaixe e uma vez de São Paulo a Aparecida usando pedais plataforma. Não senti diferença no desempenho. Usei calçados diferentes nos pedais para Piracicaba: na primeira vez uma sapatilha tipo tênis, cujo desenho interno me criou desconforto no pé, e na segunda vez com uma sandália Shimano que sempre achei confortabilíssima. Nas duas vezes que fui pra Piracicaba, pedalei por cerca de 11 horas, tempo o suficiente para um mal posicionamento dos tacos aparecer. Não apareceu.

A se notar que já usei essa sandália Shimano em diversas viagens de vários dias, sandália tão usada que recentemente a sola onde se pisa, que circunda o espaço para instalar o taco e não interfere nele, teve que ser colada, pois descolou. Com ela descolada, a superfície da sola parecia de uma sapatilha de estrada com um taco Shimano pra pedal SPD

Planejei para essa semana uma viagem de vários dias, encurtada para apenas 3 dias por conta da frente fria que me pegou de surpresa. O relato está no post anterior a este, neste mesmo blog.

Conforme relatei, acabei com dor no tendão de Aquiles esquerdo. A dor não é no pé, o que seria problema da sapatilha, nesse caso a sandália Shimano. A dor não é no joelho ou tornozelo, que seria um sintoma do mal posicionamento do taco, ou de um pedal torto. A dor é no tendão de Aquiles esquerdo, me perseguiu desde o final do primeiro dia da viagem e piorou no terceiro e último dia, quando começou a também doer de leve o tendão de Aquiles direito.

Em vários momentos, eu desclipei e pedalei assim desclipado, com o pé em outra posição, pra aliviar a dor.

Um colega que também faz audaxes, fez mais dois bike-fits e nenhum destes bike-fits conseguiram eliminar dores no joelho usando pedais de encaixe. Abandonou-os, já vendeu os pedais, sapatilha e etc.

A diversidade anatômica humana é grande. Pessoas são altas, baixas, corpulentas, magras, mas sobretudo possuem formatos de ossos, tendões e músculos ligeiramente diferentes. Além disso, há a história pessoal de cada um: o nível de desgaste das articulações, os traumas sofridos. Conta-se que Eddy Merckx, após ser atropelado, passou a ser um obcecado por fit das bicicletas, chegando a parar no meio de provas pra ajustar a altura ou o posicionamento horizontal do selim, por exemplo. Eu fui atropelado quatro vezes (tá uma coisa na qual ganho do Eddy Merckx) e também me sinto meio desconjuntado às vezes. No meu último atropelamento, meu pé esquerdo foi um tanto esmagado, e um pouco torcido. Andei de bengala por um mês. Não quebrou nada, mas desde então ele incha um pouco mais que o pé direito nessas situações em que o pé incha, por ficarmos em pé tempo demais, por exemplo. Passei a usar um número maior de sapato, de 41 pra 42.

E essa última viagem me fez lembrar duma outra viagem, há 2 anos, quando usei pedal plataforma e uma sandália. É incrível como nossas pernas são pequenas maravilhas, e o corpo encontra a posição mais adequada para fazer o movimento. Numa outra viagem, usei pedais plataforma e um par de tênis de futsal, rígidos e leves, que comprei na Décathlon. Também não tive problemas. Nestas duas viagens e na viagem desta semana, eu estava com a mesma bicicleta, uma Specialized Tricross que é confortabilíssima, com o guidão lá nas alturas graças a um extensor de espiga. O que mudou? Mudou apenas um elemento: os pedais.

Bom, ao menos essa bicicleta voltará a ter pedais plataforma.

E o desempenho? Pois bem, eu sou um pangaré ciclístico. Existe a realidade e o que sentimos da realidade. Usando pedais de encaixe eu me sinto mais conectado à bike, par ao bem e par ao mal. Tenho a sensação de pedalar melhor. Embora saiba que a pedalada girada seja um mito, percebo o movimento de empurrar e puxar (não confundir com abaixar e levantar) o pedal melhor usando os pedais de encaixe. Mas meus números, porcamente apurados, não indicam melhor desempenho usando pedal clipless. Então fui procurar dados melhores.

Este artigo científico aqui afirma não haver diferença de eficiência entre o uso de pedais plataforma e de encaixe. Já este artigo científico aqui achou diferenças, mas atribuiu-as mais às solas rígidas das sapatilhas.

Ora, temos calçados de solas mais rígidas e pedais de plataforma ampla. Pois como há sapatilhas e sapatilhas, há tênis e tênis, e pedais e pedais.

Para pedalar com tênis, os de sola mais rígida funcionam melhor. Há opções da própria Shimano, feitas para o Downhill. Há tênis da linha Five Ten da Adidas, projetados pra pedalar (leia aqui o texto do site Bikepacking, testando um tênis desse por 800 milhas, usando pedais plataforma numa gravel bike). Mas nós brasileiros, temos uma opção muito mais acessível: tênis para futsal. Esses tênis costuma ter a parte da frente da sola, que entra em contato com o pedal, um tanto rígida. Mas suas solas são lisas, boas para andar no pavimento. Se você é graveleiro que pega trilhas, talvez um tênis/chuteira para futebol society, que possui travas baixinhas e sola também rígida, pode ser uma opção.

Tênis de skate também possuem solas rígidas, são boas opções pra uso urbano e na estrada.

E os pedais plataforma? O lendário Kona Wah Wah está na segunda versão. Há opções no mercado diversas, para todos os bolsos, dos mais baratos aos mais caros, dos mais pesados aos mais leves. Eu tenho uns Wellgo M248DU simples, de corpo e gaiola de alumínio, eixo de aço. Algumas bikes minhas usam esse pedal, confiável, mas não muito leve, mas também não muito pesado, e com refletores e possibilidade de instalar firma-pé. Estou à procura de outros pedais, melhores.

E aos poucos vou me desfazer dos diversos pedais de encaixe. Talvez mantenha só nas estradeiras. Gravel, MTB e bicicleta de uso urbano ficarão com os pedais plataforma. As dores nos meus pés, tendões e etc, pedem isso.

2 Respostas para “PEDAL PLATAFORMA: a ressurgência.

  1. Obrigado pelo texto, muito rico de informações. Tinha pensado em tênis de skate, os de futsal e futebol society podem ser uma alternativa bem interessante.

  2. Cara, você foi uma referência pra mim quando estava querendo montar uma hibrida, curto muito seus posts. Se puder reconsiderar pois blogs como este estão sendo cada vez mais raros. Entendo sua decisão apesar de ficar muito triste, e te desejo boa sorte

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