por uma são paulo mais humana

escrevo hoje de curitiba. periodicamente venho para cá e fico pelo menos alguns dias. é uma cidade diferente  de são paulo. nem melhor nem pior, mas diferente.

mas moro em são paulo e sou ciclista. há quanto tempo sou ciclista? talvez desde o século XIX. sou ciclista há 4 gerações, incluindo a mim. ciclista é qualquer um que esteja em cima duma bicicleta. e eu sou um desses. infelizmente uns neo-sinhozinhos acham que o rapaz de periferia com bicicleta de selim baixo “dando grau” não é ciclista. é sim. qualquer um, mesmo criança, que esteja em cima duma bicicleta é ciclista naquele momento. e é um ser humano.

tandem  quádrupla, anos 30. no guidão, o construtor, meu tio-avô, que era filho de ciclista.

tandem quádrupla, anos 30. no guidão, o construtor, meu tio-avô, que era filho de ciclista.

são paulo, tal como outras cidades brasileiras, perdeu um pouco a dimensão do humano, da humanidade. o estranho é que cidades são invenções humanas, para humanos habitarem. hoje são paulo é um emaranhado de vias sempre congestionadas.mas quem as congestiona? carros e motos. máquinas.

o que é um ser vivo cercado por uma tonelada de lata? um paulistano. que normalmente não enxerga sua cidade de perto, apenas separada e esquadrinhada por uma janela, de carro.

perdemos a dimensão humana da cidade. perdemos a dimensão da sociedade como tal. e, quando queremos enxergar essa dimensão humana, ela é sempre filtrada pelos nossos preconceitos.

um exemplo é o atual plano de construção de 400 kms de ciclovias que o prefeito haddad começou a implantar. como iniciativa, apoio. mas não deixo de apontar o erro brutal, crasso:não começou pelas pontes.

sim, deveria ter começado pelas pontes e pelas periferias, mas começou pelo centro. talvez por ser um morador do centro tanto o prefeito quanto o secretário de transportes. ou talvez por só ouvir ciclistas do centro. ou talvez por também faltar coragem em mexer nas pontes. ou tudo isso junto.

o olhar desconfiado da mulher do povo, em vermelho: é assim que o povo olha para os políticos.

o olhar desconfiado da mulher do povo, em vermelho: é assim que o povo olha para os políticos.

ao fazer dessa forma, deixou de sobreaviso os ciclistas das periferias. afinal, como sempre, tratando quem mora além-rios como cidadão de segunda classe. e, portanto, alimentando o eterno ressentimento social. afinal, quem não vem ao meu bairro não me representa. quem não pedala no meu pedaço não sabe o que eu passo e portanto não pode falar por mim e nem apontar soluções pra mim. e no além rios, abrimos espaço a unha para a bicicleta.  assim, não tememos o trânsito da região central. mas as pontes ainda são empecilho para muita gente que pedala no além-rios. e isso foi citado várias vezes no debate feito pela ciclocidade acerca do projeto de 400 kms de ciclovias.

se você lê esse texto, dá a impressão de que isso não foi ventilado na reunião. mas foi, eu estava lá. aliás, primeira pergunta feita foi sobre… pontes! e não fui, note-se. foi alguém que sequer conheço.

e claro, alguma correção de rota precisa ser feita. note nessa entrevista com ronaldo tonobohn, superintendente de planejamento da CET. perguntado sobre pontes e viadutos, respondeu:

“O Itaú encomenda todo ano com o Cebrap uma pesquisa de perfil de usuário e esse ano nos procuraram para pautar essa pesquisa. Pedimos uma avaliação sobre travessias de pontes. Passamos para eles 100 viadutos e pontes na cidade em função de importância na rede cicloviária, do ponto de vista da periculosidade e que estivesse dentro do orçamento para fazermos algo.

Eles pesquisaram 20 delas (17 pontes e 3 viadutos) em uma análise estatística sobre utilização, número de ciclistas e composição de tráfego. Temos uma base de dados grande. Passaram para a gente o resultado e estamos trabalhando esses dados com as nossas informações internas de mobilidade, além de fazer simulação de tráfego e desenvolvimento da cidade para uma política cicloviária. Isso dá uma base de dados muito interessante para começar a formular uma política para resolver isso.

Já passei ao prefeito o resultado. Ele me perguntou se a topografia de São Paulo era um problema para a gente. Disse que hoje não, pois temos equipamentos nas bicicletas que aliviam isso. Tem ponte que com pequenas intervenções é possível resolver, o problema são as alças de acesso.”

onde está o erro nessa fala? (além obviamente de usar os dados de um banco). o erro está em basear as intervenções onde já há o uso da bicicleta. ora, não se precisa de ciclovia em via que o ciclista já trafega normalmente. é onde ele NÃO trafega que a  ciclovia ou outra estrutura é necessária.se o ciclista dá uma volta danada pra pegar a ponte X mesmo quando a ponte Y representaria fazer um trajeto mais curto, não é na ponte X que se deva fazer a intervenção, mas na ponte Y; pois, se pegarmos um exemplo dessa lógica, as estatísticas dirão que há poucos ciclistas na praça campo de bagatelle, e ali portanto não seria necessária uma infra-estrutura. é justamente pelo fato de ser um dos locais mais inóspitos para o ciclista em toda são apaulo é que a praça campo de bagatelle precisa de intervenção. pois ciclável é e tem que ser toda a cidade, até por força do inciso II do artigo 6º da lei 12.587/2012.

aliás, o artigo 5º dessa mesma lei determina que se oriente a política de mobilidade pelo acesso universal e pela sustentabilidade ambiental. assim, bicicleta é prioridade sobre os carros. por força de lei. dessa forma, se há alças de acesso às marginais que precisam ser fechadas para a bicicleta passar com segurança, fundamento legal para esse ato há. falta apenas mudar a mente rodoviarista dentro da administração pública que pensa assim.

claro, isso é impossível, dirão alguns. como diziam em amsterdam ou copenhagen há anos atrás. é sempre impossível esse tipo de mudança, quando se faz corpo mole ou quando o problema não os atinge. claro, há alguns que apenas tentam reforçar suas carreiras de “consultores”.. sabemos quem são, todo mundo sabe. existe uma sabedoria inata ao povo, ao estamento mais baixo da sociedade: sabemos quem quer apenas nos enrolar. foram esses que a revolução francesa soube decapitar, apenas pra lembrar um exemplo histórico.

o que o secretário não percebeu é que a periferia quer jogar frescobol sim. quem não quer é o centro, que está interessado no não sucesso do prefeito. afinal, na ultima eleição, em quem votaram, de que lado estavam? as pessoas pensam que os outros não lembram?

sim, ponte é pauta importante. pauta importantíssima pra quem mora fora do centro expandido, pois pode ser o fato que define a resposta à seguinte pergunta: pedalar ou não?

decisões precisam ser tomadas. mas quem as toma e baseado em que? não sabemos ainda. essa fala não chegou à periferia. então, a desconfiança permanece. o povo continua usando o vestido vermelho, mas o olhar é o daquela senhora da foto ali de cima.

mas pra ver como é possível, veja esse vídeo ótimo da natália garcia:

e só pro paulistano ficar doente, favor assistir o videozinho abaixo. já pensou se a avenida são joão não tivesse o minhocão, mas um imenso calçadão? ah, é. curitiba não tem grandes pontes. mas copenhagen tem, né? amsterdam também. assim como nova york.

em tempo. a periferia adorou a ideia do prefeito de revogar esses contratos com bancos que alugam bicicletas. sim, licitação e bicicletas ofertadas além daquele centrinho. isso sim é um serviço público, e não mero greenwashing.

(e claro, quem não atravessa ponte pode discutir isso? acho que  não… então secretário, jogue frescobol com quem tá a fim, pois o além-pontes quer sim resolver esses problemas e não ficar fazendo joguinho com vereador da oposição. afinal, na periferia somos humanos. desconfiados, mas humanos. joque a bola, que nós a devolvemos, melhorada. só queremos uma cidade para nós também).

 

 

 

 

 

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