bicicletas entre a civilização e a barbárie

precariedade, ou simplesmente descaso, ou simplesmente a visão touperística do mundo. o que caracteriza as políticas para as bicicletas, senão tudo isso, nesse brasil? se é que existem essas políticas…

ciclovia em joinville - SC, em frente ao museu da bicicleta.. em obras? cresce mato entre as pedrinhas...

ciclovia em joinville – SC, em frente ao museu da bicicleta.. em obras? cresce mato entre as pedrinhas…

era um dia de semana de janeiro. eu e minha querida amiga juliana estávamos pedalando pela -SC-406, que não é exatamente uma estrada, mas uma das antigas estradas de florianópolis que hoje são mais grandes avenidas do que qualquer outra coisa.

florianópolis não devia ser cidade. antes era nossa senhora do desterro, apenas a freguesia ali perto do continente, da ponte. mas inventaram de unir as demais freguesias todas por estradinhas, pois era por mar que se comunicavam.

mas tudo virou um município só com núcleos diversos espalhados, ligados por vias estreitas… e em janeiro o trânsito é simplesmente infernal. o sistema de ônibus tem terminais nos locais mais improváveis, e claro, assim sendo, motos e carros são a escolha de quem pode.

trafegávamos pela tal rodovia que logo passa a ser chamada de joão gualberto soares. ao lado, uma pseudo ciclovia. bonitinha, mas feita em blocos!

sim, projetistas e especialistas que não pedalam mas se formaram em alguma faculdade dos infernos, inventaram de fazer ciclovias em blocos, ditos ecológicos, que em tese são porosos e drena água. claro, a hora de fazer a construção ecológica é sempre aquela de hora de fazer a pior opção possível para o ciclista.

esses blocos são apenas um pouco melhores que paralelepípedos, que são o pavimento mais odiado por ciclistas.

mas insistíamos em pedalar ali, e claro, alguém estacionou um jipão na ciclovia. nos obrigou a ir pra estrada, tomamos uma puuuuta fina de carro, reclamamos com quem tava no jipão pela folga.

mas adiante o jipe nos alcança  e os ocupantes começam a gritar conosco, justamente num ponto onde meu pneus mais largos ainda permitiam pedalar da ciclovia dos infernos, mas as rodas da bicicleta da ju ficavam com os raios estalando: os blocos todos desalinhados pela pressão do peso de algum caminhão que manobrou ali. ju ia pelo cantinho, no asfalto.

o jipão emparelhou e começaram a nos xingar, retrucamos, tentaram no fechar, iam jogar o carro pra cima de nós, nos atropelar, quando muita gente gritou e o jipe entrou num posto de gasolina.

situação incomum? não em florianópolis. em pouco mais de um mês, duas ghosts bikes numa outra dita estrada, que deveria ser apenas uma avenida.  no dia em que saí de florianópolis, dia em que foi instalada a primeira ghost bike – não foi na instalação, por falta de coragem mesmo, depois de tantas que já instalei – mais adiante tomei fina e buzinada. e quando parei pra fotografar aghost bike, um fotógrafo fotografou-me ali. também ciclista, apesar de estar num carro: chamava-se leo e não tinha mais coragem de pedalar pro ali – inobstante uma pseudo-ciclovia, uma faixinha pintada no acostamento.

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em blumenau há algumas faixas para bicicleta.  desconectadas, em péssimo estado. o atual prefeito prometeu construir 100 km. nada saiu das promessas.  carros tiram finas sem dó. ciclista blumenauense acostumou a a pedalar nas calçadas. até os passeios noturnos fazem isso. é a insegurança institucionalizada. minha amiga sheila guiou-me pela cidade sem nunca deixar de me fazer observar os detalhes. foi um anjinho ao me guiar pela cidade.

blumenau tem um grande problema: boa parte da cidade está construída no lugar errado, em áreas instáveis. e só agora investe mais pesado na canalização de esgoto. para o ciclista, no que resulta? bom, todo mundo sabe como no brasil, fica o asfalto assim que uma tubulação é instalada: remendos horrorosos.

e claro, as boras sempre na faixa da direita do asfalto. onde também passam ônibus e caminhões pesados. buracos, ondulações e etc, são a regra, e quem sofre é o ciclista.

o terror cotidiano do blumenauense é a chuva: deslizamentos, enchentes. e aí, o que sobra para as bicicletas? obviamente, nada. ciclista é sempre o sem-teto do trânsito: pedestre tem calçadas, motorizados reinam nas ruas, e ao ciclista, nada.

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em joinville o giovanni guiava-me. na vila nova, até um trecho de ciclovia. uma hora ela desapareceu, e então giovanni explicou-me: “ela está aí debaixo desse monte de terra e areia.” carros entram e saem, trazem os detritos e fica por isso mesmo.

em frente ao museu da bicicleta, uma insólita ciclovia para MTB: na verdade uma obra incompleta há muito tempo. então está lá o caminho, a placa de sinalização….e um monte de pedriscos. intransitável.

mas em outros locais ainda há uma ciclovia aqui e ali.  ms ficou-me a impressão de que foram feitas apenas para tirar ciclistas das ruas. afinal, essa é a origem delas: hitler fez a primeira ciclovia, e era para deixar as avenidas livres para os carros.

aliás, a ligação do nazismo com a indústria automobilística é profunda. e tem muita ligação com a ideologia da supremacia da força. (embora, forte, para mim, é quem pedala e caminha, não quem tem dinheiro pra ter um carro).

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em pomerode,  “a cidade mais alemã do brasil”, onde toda escola municipal é bilíngue, pedalei tranquilo. uma cicloviazinha no centro.  mas dificuldade pra parar a bicicleta diante dum museu. e quando fui de blumenau a joinville pedalando, quando passava por pomerode, na saída, a grande buzinada e a fina assassina que quase me derrubou. e sim, o carro era de pomerode… turistas dirigem devagar lá, admirando a cidade. locais, nem sempre…

mas em pomerode, numa bicicletaria, foi onde comprei um tubinho da vipal com remendos, cola e etc, pelo preço mais barato que encontrei nos últimos tempos, pelo menos a metade do que tenho visto aqui em são paulo.

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em curitiba, a antiga rede “cicloviária” – um amontoado de calçadas compartilhadas – está sendo reconfigurada e realmente algun trechos estão virando ciclovias. mas os 300 km de ciclovias novas prometidos pelo prefeito gustavo fruet está longe de ser alcançado e não será.

sim, o prefeito mentiu. trouxe para a gestão uma série de sérios e valorosos cicloativistas, que estão dando o sangue trabalhando dentro da gestão. mas não há aquela decisão política forte de realizar a promessa, por parte do prefeito.  isso é evidente, pois se houvesse, a rede tria sido de fato implantada.  o poder público sempre pode escolher, e gustavo fruet não escolheu, de facto, a bicicleta.

e então, no ano de 2015, no espaço de um mês… 6 ciclistas morreram atropelados.  e não dá pra confiar numa prefeitura que retira uma ghost bike em razão da passagem de um dignatário estrangeiro. desculpem os coleguinhas de curitiba, mas não dá. bom, se fosse feito aqui em SP, acho que o prefeito já teria apanhado em praça pública de um monte de ciclistas (não é exagero, rolaria violência física sim por parte de alguns menos equilibrados).

e nem sombra de mudança em algumas estruturas viárias de curitiba: avenida manoel ribas, um dos locais mais perigosos por onde pedalou meu amigo cauê rangel em sua estada por curitiba.

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eu cheguei em são paulo no final de janeiro. na volta, no ônibus, tentei lembrar em qual cidade do paraná ou de santa catarina na qual pedalei que não tomei pelo menos uma fina agressiva.

hoje, sem sombra de dúvida, e não é afirmação apenas minha mas de muita gente no meio do pedal, são paulo é a cidade mais segura para se pedalar. e isso a torna “de facto” segura para pedalar, um paraíso para os ciclistas? nem de longe.

ao chegar em SP já peguei uma ciclovia com trechos se desfazendo, na avenida cruzeiro do sul. outro trecho, que estava com a parte de cimento praticamente terminada em dezembro de 2015, continua mais ou menso do mesmo jeito.

no trecho em asfalto que peguei para casa, algumas finas agressivas. na ciclovia da avenida engenheiro caetano álvares, buracos. agora houve um recapeamento em alguns trechos: aquele recape que gera um asfalto bem onduladinho…..

recape não pintado,os carros invadem a área antes delimitada.

nos pontos de cruzamento de várias das ciclovias/ciclofaixas de são Paulo, havia balizadores, hoje já arrancados pelos carros nas curvas. são em plástico. tá errado, deveriam ser trilhos de trem e floreias de concreto.

num desses cruzamentos, eu tenho vontade de conseguir deslocar uma grande pedra e colocar como balizador. aquelas pedras legais, que se o carro pega, arrancam a roda, tiram o motor do lugar. assim quem sabe, fariam a curva corretamente.

cheguei em são paulo um dia depois do atropelamento de claudio clarindo. indignação entre os amigos.  mas abemos que o motorista será indicado por homicídio culposo, com tantos depoimentos sobre a forma como dirigia desvairadamente.

mas pegunto: e daí? cadê o trabalho de prevenção das polícias rodoviárias? cadê a necessária doutrinação das pessoas desde cedo para os ricos e sobretudo responsabilidades ao conduzir um veículo automotor?

não há. conheço tanta gente que diz orgulhosamente que dirige sem ter carta…..

é carnaval. na quarta-feira de cinzas algum boletim da polícia rodoviária federal contabilizará mortos nas estradas federais, o mesmo será feito pelas polícias rodoviárias estaduais.

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mas bicicleta é sempre problema, né?  leia essa notícia do vá de bike: em belo horizonte bloco de carnaval de ciclistas é dispersado pela PM, com direito a viaturas atropelando ciclistas e etc.

surreal…. simplesmente surreal!

mas, ao mesmo tempo, isso denota bem o papel que a bicicleta e o ciclista tem na sociedade brasileira: um nada, um cisco a ser afastado, um problema.

não é o ciclista um efetivo sujeito de direitos. no máximo é preciso acalmar um monte de ciclochatos que gritam, ao invés de morrerem atropelados calados.

é sintomático o último grito de minha amiga juliana ingrid dias, ao motorista de ônibus que a assassinou atropelou: “olha eu aqui!

os ciclistas são os mais barulhentos entre os invisíveis do brasil.  mas ainda assim invisíveis.

nenhuma política cicloviária seria necessária se respeitado o artigo 201 do CTB.

sim, bastaria que qualquer motorista, a qualquer tempo, em qualquer via, mantivesse a distância de 1,5 metro do ciclista, lembrando sempre da preferência desse no trânsito.

“e quando a pista não dá 1,5 metro pra passar?” ora, que mude de faixa e se impossível, que aguarde, com se estivesse atrás de um caminhão, por exemplo. é isso que manda a lei.

mas ninguém cumpre. e ninguém faz cumprir. e esse é o pior.

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mas… num país onde lei é um troço que é visto com estranheza pelo mais bem posicionado na sociedade, onde os enriquecidos fazem questão de não se submeter a ela, sempre dando um jeito dela escapar – vide o caso do atropelador e agora homicida absolvido thor batista – não é de se estranhar que o ciclista sinta-se sob uma espécie de estado de exceção: a lei existe, é válida, pode ser cumprida, mas o estado escolhe não cumpri-la ou escolhe não exigir seu cumprimento.

e por isso temos mortes de ciclistas e  pedestres.

não é uma questão de educação, pois se assim o fosse, estrangeiros no brasil também não deixariam de cumprir nossas normas.

o que difere nos países de centro é a exigência até agressiva do cumprimento das normas. um exemplo: em boa parte da europa vigora um alógica no trânsito: o motorizado responde objetivamente pelo atropelamento do não motorizado, em qualquer situação.

claro, ao não motorizado é vetado transitar por certas vias: autbahns, por exemplo. mas elas são muito poucas e mais raramente ainda dentro das cidades.

um tio postiço meu, há uns 20 anos, na alemanha, atravessou a via fora da faixa de pedestres – coisa que um alemão em sã consciência não o faria, claro. os 3 carros que vinham pela via pararam imediatamente, freando com tudo,quase batendo um no outro. e só voltaram a se mover pois viram que esse meu tio entrou numa farmácia e ficou lá.

o porquê deste comportamento é claro: quem atravessa fora da faixa deve ser doido. se é doido, é incapaz. se incapaz, a pena pelo atropelamento é ainda maior….

não é uma questão de educação, mas de exigência do cumprimento da lei, simples assim. mas quando se exige….

em são paulo, há uma alça de saída da marginal tietê vetada a carros. há placas distantes até 2 km avisando. mas.. “não há como não entrar”, diz um motorista desatento.  ou seja, não há como dirigir em linha reta? outra desculpa é que se tem que passar por ali. obrigatoriamente? pois há um zilhão de outras possibilidades, mas o motorista “tem” que passar ali. leia a notícia.

o que mais me espantou, de fato, foi a reação de motoristas à interdição, em 2015, da rua domingos da costa mata…. interditada por algumas semanas em razão da possibilidade de um desabamento, mas todo dia a CET colocava cavaletes e toda noite eles eram retirados.

presenciei motoristas descendo dos carros e tirando balizadores.  uma vez recoloquei os balizadores e quase fui agredido por um desses motoristas.

nunca desejei tanto que houvesse um desabamento, bem na hora em que estivessem passando um desses motoristas.

o que é o comportamento desses motorista senão uma touperice fenomenal?

mas não enxerga um palmo à frente do próprio umbigo é característica do brasileiro: não luta por melhor escola pública, coloca o filho numa escola particular; vota em que faz viaduto e não em que faz metrô; prefere quem lhe defenda contra o plano de saúdo do que quem melhore a saúde pública para não precisar de plano de saúde. e claro, não questiona as concessionárias públicas que arrebentam o asfalto, simplesmente compra um jipão e acha normal usar um carro rural em meio urbano.

toupeiras, toupeiras, toupeiras…

nem pra enxergar que cada bicicleta a mais é um carro amenos a lhe congestionar o caminho.

a touperice impera. e não poderia ser diferente num país cujo histórico escravocrata impediu sempre as pessoas de pensarem. afinal, até a chegada da família real era proibido instalar indústrias… inventar soluções?

num país onde o conhecimento técnico é tido como superior ao conhecimento de humanidades – ah, o povo de humanas tem que fazer miçangas, né? – obviamente o estado faz e sempre vai fazer as escolhas de atuação eticamente erradas e falhar como estado.

para ilustrar, lembro-me bem duma conversa com um diretor de banco que explicava-me por qual motivo preferia contratar estagiários para o banco entre os estudantes da escola polítécnica da usp – engenharias! – do que da escola de economia, administração e contabilidade:

“é assim: se eu chego para o estagiário de economia e pergunto pra calcular como eu faço para atingir um tiro na cabeça da velhinha que está no topo do prédio vizinho, ele me pergunta: ‘mas por que atirar na velhinha?’, e quando eu peço o meso par ao estagiário de engenharia, ele só me pergunta: ‘qual a direção do vento para eu calcular melhor a trajetória da bala?’. eu preciso que atirem na velhinha, não que me digam o que eu poso ou não fazer!”

obviamente as coisas não são exatamente assim. há economistas preocupados em enriquecer mesmo que empobrecendo a população e engenheiros que agem com ética.  mas essa também não é a regra… pois no brasil falta de ética reina em todas as profissões.

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bom, não há o que se esperar dos poderes públicos em geral sobre a bicicleta. não há incentivo: estados poderiam muito bem isentar de ICMS bicicletas e seus componentes. seria um inventivo e tanto,mas não o fazem. prefeitos – com a honrosa exceção de fernando haddad – descumprem as promessas de construção de ciclovias feitas em suas eleições em 2012 – e claro, todos tem um zilhão de desculpas para justificar a mentira na campanha de 2012 (pois se prometeram sabendo que era impossível, mentiram, se não sabiam, são incompetentes) – as fiscalizações de trânsito continuarão não ocorrendo e ciclistas continuarão sendo penalizados simplesmente por existirem e resolverem se deslocar de forma não poluente.

uma sociedade que ata quem deveria aplaudir não caminha na direção correta. não mesmo.

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este é um ano eleitoral. que os ciclistas de cada cidade aprendam a comprometer os candidatos e façam pressão contínua depois de eleitos. que não temam jogar tomates e ovos podres nos prefeitos que prometeram quilômetros de ciclovias e não as construíram. que aprendam que vereadores pilantramente aparecem em época de eleições e depois somem. e que prefeitos não querem cumprir a lei 12.587. e portanto, se não o fizerem, que sejam denunciados ao ministério público e esse também esculachado em praça pública se nenhuma medida tomar.

só a pressão funciona. e como não se faz omelete sem quebrar os ovos, não temam nunca pararemo trânsito, usarem narizes de palhaço em sessões de câmaras de vereadores, de perseguir prefeitos em todos os eventos que apareçam, perguntando de ciclovias, e etc.

pois lembrem: o sem teto, o sem terra do trânsito é o ciclista. o que não tem espaço territorializado e morre por isso.

e nunca se esqueçam: não é assassino apenas quem aperta o gatilho, quem fabrica a arma também o é, assim quem a vende também.

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existe uma luta eterna entre a civilização e a barbárie. civilização vem da vida em cidades. do viver entre pessoas assimétricas cujas relações não são pautadas pela mera força, como acontece na barbárie.

barbárie se manifesta pelas relações pautadas pela força: o mais forte pode mais. assim os bárbaros invadiram o império romano e forma destruindo as instituições romanas. os mais famosos desceram de alguma região do nordeste da europa e varreram tudo, saquearam roma – onde obras de arte se perderam pra sempre e fundaram um estado no norte da áfrica. eram os vândalos. clique no link e entenda o porquê da palavra “vândalo” ter o significado atual.

depois de milênios de história, percebeu-se paulatinamente que civilização implica não apenas em direitos iguais respeitados,mas também as diferenças existenciais respeitadas. não se trata de apenas ter direitos iguais entre homens e mulheres,mas também em perceber suas especificidades, p. ex, campanhas de saúde especificas para cada gênero.

civilização então implica na aplicação do conceito de justiça em particular descrito por aristóteles, que usa como exemplo a capacidade de medir da flexível régua de lesbos: uma fita métrica, que melhor mede nossos corpos e portanto os lê melhor.

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numa guerra, a primeira lei a ser sacrificada é a lei de trânsito. rapidamente os veículos militares passam a ter preferência, por fim em batalhas ninguém respeitará, por motivos óbvios, um semáforo vermelho…

a guerra é a disputa pela força. são forças opostas, de várias formas, confrontando-se.

guerra e barbárie são tão intimamente ligados que muitos as vêem como sinônimos. e na guerra, a força maior, o mais forte, se sobrepõe.

é o contrário da civilização, que permite a convivência pacífica entre assimétricos pois o mais forte reconhece o mais fraco e o respeita, em qualquer situação.

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e trânsito, pode ser barbárie? veja o vídeo abaixo e note o que acontece quando o mais forte, o motorista do ônibus, ignora, simplesmente ignora o mais fraco, o ciclista em sua bicicleta:

se você observou o vídeo,percebeu que o ônibus simplesmente “passou” ao lado do ciclista. não reduziu velocidade, não desviou. qual o resultado? um pai de família brutalmente trucidado.

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processos civilizatórios não se dão sem conflitos.  não raro resultam de grandes viradas, ditas revoluções, ou de grandes guerras. alguns dos países hoje tidos como civilizados forma simplesmente arrasados há pouco mais de 70 anos, durante a II guerra.

esse dado é interessante pois essa grande desgraça que é a guerra, às vezes permite simplesmente apagar antigas estruturas sociais. entre os curdos, ora em guerra com o daesh, no oriente médio, se constrói paulatinamente uma sociedade bem igualitária do ponto de vista de gênero.

no brasil, as desgraças vão acontecendo paulatinamente, e portanto cotidianizando-se.

no brasil, as grandes desigualdades são vistas como normais. e todo qualquer esforço para minimizá-las  comumente é mal-visto. justamente por terem sido “normalizadas”, cotidianizadas.  não houve grandes rompimentos com o passado, como o japão, cujo histórico de escravização de outros povos se encerra quando recebem duas bombas atômicas.  ou mesmo uma alemanha, que depois de um histórico horroroso de barbárie durante o nazismo, é invadida e dividia em dois países e passa décadas refazendo-se.

a questão não é educação.  países do dito primeiro mundo tem algo como 25 a 27% de sua população com ensino superior completo. o brasil tem cerca de 16 % (e roubando nos números, pois cursos como administração de empresas em alguns países da europa não são considerados universitários, mas técnicos de 3º grau); o país com maior nível de escolaridade é a rússia. onde mais de 50% de seus habitantes possuem formação superior.

mas veja que bela compilação de “road rage”, batidas idiotas e etc no trânsito russo:

essa compilação abaixo é mais interessante:

ora, o que não é a rússia um país que passou de uma estrutura medieval a uma ditadura em 1917, e como tal permaneceu até a virada dos anos 1980 a 1990, e desde então ainda não se tornou uma democracia efetiva?

uma ditadura caracteriza-se pelo império da força, e pelo suprimento dos direitos fundamentais básicos do cidadão. na prática, toda a população começa a entender que é a força que prevalece, portanto, não é de se estranhar a incrível quantidade de compilações de vídeos russos de briga no trânsito.

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civilidade é um processo histórico complexo, mas sempre começa pelo respeito ao mais fraco, pelo respeito a procedimentos previamente acordados, existe isso no brasil?

esse país se caracteriza pelas relações de força. patrão e empregado não se vêem em relação de coordenação, mas de subordinação. greve, um instrumento legítimo de negociação salarial, é tido como mera bagunça. manifestações públicas, um direito em qualquer democracia, aqui é visto como arruaça, às vezes até pelos próprios manifestantes. e polícia? é o abrigo do cidadão nesse país?

não, menos de 10% dos homicídios são solucionados, e de apenas de 5 a 8% deles tem o homicida punido. o índice nos EUA é de 65%, para comparar. e outra comparação perturbadora: em 5 anos, a polícia paulista matou mais que todas as polícias dos EUA juntas.

certa vez, conversava com um coleguinha americano, sobre esses dados. comentava ele que, tendo os EUA pena de morte e maior população carcerária do mundo, a polícia americana era mais branda que a brasileira, afinal o acusado chegava vivo na delegacia para ser preso, exercia direito de defesa e etc…. bem diferente daqui.

no brasil reina a barbárie.3 linchamentos por dia, homicídios a torto e direito, ineficiência policial, educação e saúde sempre em frangalhos, urbanismo inexistente, e uma desigualdade social tamanha que faz com que grande parte da população não tenha acesso ao mínimo para uma vida digna mas… o mercado de luxo cresce 45% ao ano.

essa é a receita perfeita para a existência de uma constante violência, como no rio de janeiro, onde morro e asfalto se estranham, e até matam ciclistas em ciclovias esfaqueados.  isso é apenas um exemplo.

em são paulo, sabemos os pontos onde nas manhãs de domingo, os ciclistas que estejam com uma bicicletinha um pouquinho mais cara são assaltados.  o que é feito? obviamente nada.

não há civilização onde é cada um por si e deus por todos. não há.

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a vida é precária. no brasil a vida é precária. aqui definitivamente a frase de marx e engels, no manifesto do partido comunista, faz todo o sentido: tudo o que é sólido desmancha no ar.

certo mesmo nessa vida apenas a morte. e real apenas a dor. mas esta pode ser minimizada. dizia o buda que a causa da dor é o desejo. de fato, todo desejo é fonte de frustração e dela a dor.

eu ando cansado de um monte de cosias. preciso de uma suspensão dianteira nas minhas bikes, mas da última vez que passei com uma marin 1995 (sim com uma suspa de mais de 20 anos!), uns moleques numa subida correram atrás pra me tomar a bike. não me alcançaram.

estou cada vez mais propenso a montar uma cabrita qualquer com as peças mais baratas do mercado. pois, de fato, tá foda, pra usar a expressão mais correta.

e mesmo assim se corre riscos. mesmo assim se sai de casa todo dia confiando nas forças do além pois as forças do aquém estão contra.

mas é carnaval… as pessoas tão lá pulando, pulando…  a vidinha de todo mundo continuará a mesma caca de sempre, mas é carnaval… você merece.

(ah sim, vou continuar escrevendo em minúsculas, afinal, os plagiários continuam por aí, que pelo menos tenham um pouco mais de trabalho pra disfarçar o plágio.)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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