das alegrias do pedal

as pessoas experimentam uma forma refinada de alegria, de felicidade, ao pedalar, ainda não aprenderam a exprimi-la da forma adequada, e talvez nem a consigam. mas vamos tentar entender?

eram 17hs de um dia de julho, um pouco frio. F* fazia sua primeira cicloviagem, junto como namorado, errara na hora de compor os pertences dos alforjes, trouxera roupas demais, e a bicicleta pesava. para chegar à tal pousadinha na beira da estrada de terra de minas, na verdade só uma casinha simples que a dona alugava uns quartos e fornecia café da manhã, enfrentariam ainda uma longa subida de terra, cheia de pedras, 

haviam pedalado o dia inteiro, ela estava com fome, um pouco de sede e aquela ladeirona adiante. e a bicicleta pesada… foi pedalando e colocando nas marchas mais leves até que, angustiadamente, percebeu que não havia marcha ainda mais leve. e, naquela que seria a marcha mais leve, foi fazendo força com suas pernas de moça da cidade.

apertava os pedais com força. pedalou em pé em alguns trechos onde conseguia se equilibrar. foi a hora de pedal mais longa de sua vida, até agora. mas chegaram ao topo onde estava a casinha. o namorado chegou um pouco antes, já tinha descido da bicicleta e começado uma conversa com a dona da pousadinha, quando F*  chegou, e desceu da bicicleta, com um suspiro. e o namorado percebeu naquele rosto cansado uma luz naqueles olhos que parecia não conhecer, nunca ter visto. perguntou como ela estava, e num sorriso rasgado, cansado mas rasgado, ela respondeu: “ótima nunca estive melhor em toda a minha vida!”

horas depois, ao publica uma foto no instagram, F* percebeu que não achava palavras para descrever o que aquela subida pedregosa lhe proporcionou. todas as palavras eram … insuficientes.

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chimpanzés e gorilas já foram filmados em algumas formas de rodas, fazendo barulhos compassados, e gritando, parecendo gostar muito dos sons que faziam, em grupo.

já humanos gostam de música, de duas formas, uma de forma pública, em comum, e outra, de forma “interna”, não raro individualmente.

a primeira forma é partilhada com todos os demais. a segunda não.

a percepção de música se dá, na primeira forma, um tanto superficialmente, e na segunda forma, com um grau de atenção muito mais profundo. nem todos gostam dessa segunda forma de se ouvir música.

na primeira forma, os grandes shows, festas de rua e etc.  na segunda forma, os shows pequenos, mais intimistas, os fones de ouvido, uma música tocada com um cuidado maior.

seja ouvindo pink floyd, joão gilberto ou a royal phillarmonic orchestra tocando beethoven, a audiência não raro não é exatamente uma festa. pessoas não dançam, apenas se concentram em ouvir.  é interessante que a forma de dança acoplada a essa forma de ouvir música é a dança para se ver: o ballet.

e por isso se entende como stravinski compõe “a sagração da primavera” tendo em mente nijinski, que fez a coreografia. e se concertos reúnem muitas pessoas, há um número ainda maior de pessoas que ouvem essas músicas em solitário, com fones de ouvido.

o interessante é que isso vale para todos os estilos musicais, não apenas para música erudita: uma caixa de CDS de itamar assumpção editada há algum tempo fez muito sucesso e esgotou rapidamente. afinal, sem pre foi ele “acusado” de fazer uma música popular “refinada” demais…

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ocorrem ao redor do mundo sempre grandes pedais. grandes grupos de ciclistas às vezes encontram-se em grandes enxames.

mas essa não é a regra.

ciclistas não raro pedalam em solitário ou em duplas, trios, quartetos, raramente em grupos ligeiramente maiores.

há mais viajantes solitários dando a volta ao mundo em bicicleta do que em grandes grupos, ou mesmo duplas.

pois a fruição do pedal é muito individual. e é interessante como grandes viajantes dispensam fones de ouvido ao pedalar. “a música atrapalha o momento”, contou-me alguém certa vez, como se eu não soubesse…

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“real leitura de mundo apenas a pé ou em bicicleta, mas a pé é muito lento…”, certa vez escreveu renata falzoni.

eu enxergo como duas leituras de mundo diferentes.  ou não.

no pedalar, há algo de “zen”. as pessoas não compreendem direito essa palavra, não raro dando a ela algum significado para um estado de torpor ou algo parecido.

não, zen é enxergar as cosias por elas mesmas. sem o véu da ilusão. é iluminação, no sentido budista: esclarecimento. ver pela luz, ver às claras.

isso provoca uma forma de alegria também um tanto inexprimível.

como entender a inclinação de uma subida senão pedalando morro acima? apenas quem sobe pelas próprias pernas entende por qual motivo as cidades sempre se formam nas partes baixas… e prédios altos só depois da invenção do elevador….

de outro lado, aquela looooooonga descida…. qual downhiller consegue explicar par ao outro o que sentiu naquele salto? consegue descrever o salto, mas descrever aquele átimo de tempo no qual flutuou….

no videozinho abaixo, alguém compilou trechos de outros vídeos de mountain bike downhill. note a escolha da música, os ângulos de filmagem, o andar lento das imagens em alguns momentos. é a tentativa de exprimir o que passa na cabeça de quem está fazendo esses percursos.

nesse outro videozinho, há uma câmara subjetiva, para tentar passar o que o ciclista vê ao percorrer a pista:

mas ver pela câmara não é estar ali. não é…

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o zen, ao contrário de outros ramos do budismo, permite a “pequena iluminação”: kensho.

é interessante, pois nós, humanos, somos apenas feixes de sensações incompletas.

enxergamos um espectro pequeno de cores, e designamos todas as cores além do violeta de “ultravioleta”, e todas as cores abaixo do vermelho de “infravermelho”. mas não a vemos.

da mesma forma existem os “ultrassons” e “infrassons” – tudo o que não ouvimos além e aquém da capacidade dos nossos cada vez ais surdos ouvidos.

não enxergamos os vírus e bactérias que nos adoecem. e sequer entendemos a economia na qual estamos mergulhados.

atribuímos riqueza ou pobreza à sorte ou azar, o mesmo fazemos com nossos relacionamentos amorosos e tudo o mais.

o tempo todo tomamos decisões baseados em sensações, ordinariamente incompletas, incompletas…. e sim, a vida se torna uma aventura pois estamos o tempo todo dando saltos no vazio.

mas percebemos isso?

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o mundo nos tange nesta ou naquela direção. as pessoas andam tão chapadas que precisam das loucuras de carnaval para não… deprimir-se?

os domingos comuns são momento de desespero por alguma forma de satisfação, que preferencialmente gere muitas fotos nas redes sociais: ao infeliz é necessário aparentar estar feliz.

que se note a quantidade de fotos de pratos de comida. aliás, pratos lindos, mas nem sempre saborosos.

um mundo hiperreal… como nos descreveu brilhantemente baudrillard.

simulamos o que não temos  e dissimulamos o que temos. perdemos a noção de real e irreal, por isso vivemos no hiperreal.

pessoas não sabem dizer a que distância moram de onde trabalham: apenas respondem que moram a uns 50 minutos daqui ou dali….

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mas a bicicleta nos trás à realidade. as subidas são subidas, as descidas deliciosas, os buracos no asfalto desconfortáveis, o cheiro do diesel queimado pelos caminhões é percebido como poluição, e o tombo, ao contrário do cinema, é sim bem dolorido…

a fome depois do pedal é de comida. a sede é de água, e a banana retoma todo o seu infinito sabor…

é o corpo recuperando a sensação de ser corpo. de ser ele mesmo. de ser o que se é.

todo ciclista descobre, no decorrer do tempo, qual seu tipo físico. descobre suas habilidades e suas dificuldades.

todo ciclista descobre oque é, de fato, e o trânsito o lembra o tempo todo: memento mori, memento mori

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essa real leitura de mundo é, por si só, uma forma de iluminação, de alegria, de felicidade.  uma forma que não cabe em palavras, mas que cada um entende.

afinal, quem que já pedalou uma longa subida ao final de um dia, sentindo todo o peso das coisas e do cansaço, que não entendeu o olhar faiscante da F* que citei no início desse texto? quem não fez um alonga descida para entender que os vídeos de downhill que postei acima não conseguem transmitir o que sentimos? qual randonneur não entende aquele olhar de plenitude do novato ao completar pela primeira vez os 200 km?

mas como explicar a quem nunca experimentou isso?

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a alegria plena é sempre inexplicável. não é traduzível em palavras.  mas quem já a sentiu entende, percebe, quando o outro a sente.

pois alegria é isso: sentimento. apenas isso. de resto, as coisas são o que são. e nada além.

e assim, só o ciclista entende por qual motivo o cachorro coloca a cabeça pra fora da janela do carro.🙂

 

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