bicicletas X nazismo em rede

hoje 130 anos do nascimento do monstro líder dos nazistas. alguns apontamentos são necessários.

Reichsautobahn Berlin-München. 1939. Sem bicicletas, só carros.

O século XXI será num ponto profundamente diferente do século XX.O século XX viu os estertores da sociedade disciplinar descrita por Foucault e o início da sociedade de controle descrita por Deleuze & Guattari. Se preferir outra chave de compreensão,a de Bauman,  o século XX foi o auge e a queda da sociedade dura e o século XXI será marcado pela sociedade líquida.

Mas conceitos de esquerda e direita não mudaram. Mudou a chave autoritária, não a libertária (de esquerda ou de direita). Não à toa que foram redivivas nos anos 1990antigas ideias tanto do velho anarquismo quanto do velho liberalismo. Mas limpas daquilo que parecia anacrônico nessas correntes.

Assim, de um lado os neoliberais mantiveram a bandeira da liberdade de enriquecer dos antigos liberais mas não não mantiveram outras liberdades. Um antigo liberal não seria contra casamento entre pessoas do mesmo gênero, pois isso seria um ato de liberdade. Já um neoliberal não raro e quase sempre se mostra no mínimo conservador, senão retrógrado, nesses temas.

Da mesma forma, os antigos anarquistas viam no estado seu maior inimigo, mas nos novos anarquistas, autonomistas, veem na estrutura estatal um instrumento de combate contra o novo inimigo: as corporações gigantescas. E lutam pra livrar as estruturas estatais da colonização pelos grupos econômicos.

ß – De 1934 em diante o governo nazista de Adolf Hitler forçou ciclistas a usarem ciclovias. Ciclovias de má qualidade em detrimento às vias pavimentadas ao lado, por onde trafegavam os veículos motorizados. Tratava-se de tirar as bicicletas da frente. Adolf Hitler é quem começa a construção das Autobahns, e promoveu as autoestradas sem ciclistas e outros não-motorizados.

O século XX foi marcado pelas  instituições, o século XXI pelas estruturas em rede. As primeiras controla informações, a segundas circulam informações e controlam sua validade. A sociedade disciplinar, dura, institucional, controla os jornais. A sociedade de controle, líquida, em rede, desqualifica  (ou não) os jornais.

ß – Os governos totalitários do século XX empastelaram jornais. Hitler promoveu queima de livros. Stalin os censurava.

Mas os conceitos de esquerda e direita permanecem válidos. A esquerda ressalta a igualdade como pressuposto para a organização social. A direita ressalta a desigualdade e a hierarquia social como pressuposto para a organização social.

Estes conceitos permanecem válidos: uns lutam por oportunidades iguais para todos, outros ressaltam superioridade de alguns.

ß – Stalin, na União Soviética, promovia a igualdade do cidadão socialista. Uma igualdade estabelecida por uma regra dura. Assim, no Exército Vermelho mulheres lutaram ao lado de homens. E não havia qualquer tratamento diferenciado específico: cólica poderia ser considerada desvio pequeno-burguês, corpo mole. Lyudmila Pavlichenko foi uma atiradora superior a Vasily Zaitsev. Ele, conhecido por filmes, teve 242 mortes confirmadas. Ela, 309.

As sociedades em redes facilitam a criação de redes que atuam como clusters, como espaços fechados. Estabelecem chaves para quem acessa ou não a rede, e estabelecem em alguns casos hierarquias. Apenas uma rede pode combater outra rede, segundo Hardt & Negri.

ß – Embora mais jovens desconheçam, o governo de Hitler estabeleceu os “arianos” como superiores os demais. E alguns considerados indesejados, eram eliminados dentro do espaço dominado pelos nazis. Quase 6 milhões de judeus é a cifra mais repetida. Mas é preciso lembrar de ciganos, eslovenos, homossexuais, testemunhas de Jeová e etc. Melhores cifras aqui.

Mas como os conceitos de esquerda e direita sobrevivem, hoje tomam outra roupagem. A lógica neoliberal da direita não é dura com o a lógica totalitária de Hitler. Não não promove o genocídio da forma clássica, mas exerce uma necropolítica: cria espaços pra deixar morrer. Neste sentido Achille Mbembe é um autor necessário.

Por outro lado a lógica neo-anarquista, autonomista, tem defendido sistematicamente as porções do estado de bem-estar social hoje sob desmonte que promoviam formas de igualdade: saúde pública, educação pública de qualidade e igual para todos, igualdade de gênero, étnica e etc.

ß Nas guerras, batalhões de ciclistas não foram muito comuns, mas nas guerrilhas, bicicletas foram muito usadas. Na Guerra do Vietnam a “trilha de Ho Chi Minh” foi amplamente cruzada por bicicletas carregando até 180 kg de suprimentos. Leia mais aqui.

A esquerda promove a igualdade, a direita a diferença. No caso dos neoliberais, a diferença leva ao descaso com os “inferiores”. Assim, os republicanos americanos são contra um sistema público de saúde, cada um que cuide da sua. Mesmo que um percentual expressivo da população fique sem cobertura e outro maior ainda possua uma cobertura precária, sem os recursos que você verá assistindo ao Dr House. Se quer entender, leia esse post aqui num blog de brasileiros nos EUA. Em resumo, se vc é um loser, que se dane, morra seco.

E as bicicletas? Ora, se os perdedores, os pecadores, os infiéis, os fracos, que se danem, não há espaço para ciclistas também. Tanto não se investe em caminhos seguros e muito menos em compartilhamento de vias. Afinal, que circule o mais forte e o mais rápido.

ß- O urbanismo reflete muito de uma sociedade, inclusive a escolha pelo seu não-planejamento. O Barão Haussmann remodelou Paris de forma a evitar os levantes populares. Já São Paulo privilegiou o transporte de massa radial – todas as linhas levam ao centro – e o transporte livre dos motorizados de forma perimetral – é a lógica dos anéis. Hoje uma pessoa sem carro leva horas pra fazer o trajeto entre Itaquera e São Miguel Paulista. E muito menos tempo para fazer um trajeto maior até o centro, para o trabalho. Nos finais de semana a população é mantida em seus bairros: trens em manutenção supressão dominical de linhas de ônibus,  maiores intervalos… Tudo de modo a desestimular o cidadão periférico a tentar usufruir dos equipamentos do centro, de hospitais a museus. Hoje a idade média ao morrer do cidadão do Jd Paulistano é de 81,58 anos, e da Cidade Tiradentes, 58,45 anos. Mais dados aqui.

O nazismo reforçou a diferença no limite da morte. Seus valores circulam. Se não se matam negros em campos de concentração, a estética negra passa a ser moldada e restrita, encerrada em guetos: boné e periferia viram sinônimos, por exemplo. Embora como cantem os Racionais, não há “pobre dono de aeroporto”, e não se plante pés de coca nem se fabriquem fuzis nos morros cariocas, não há efetivo combate a tráfico ou milícias, pois o mercado mundial de drogas e armas é gigantesco, mesmo que na ponta gere mortes, dos losers, dos perdedores, dos subalternos, e etc. Nesse sentido, vale a leitura dessa dissertação de mestrado, de autoria de Mathias de Melo Quaresma Netto, que trata da economia da droga e sua financeirização.

O fato é que mais recentemente, políticas por mais uso de bicicletas rareiam e restringem-se, não raro, a apenas sistemas privados de compartilhamento com  cobrança por tempo pedalado. Rareiam construções de estrutura viária de proteção ao ciclista e, quando feitas, apenas retiram a bicicleta de frente do carro.

Indústrias automobilísticas conseguem tratamentos tributários diferenciados, mas a indústria ciclística não, e amarga altos tributos, encarecendo bicicletas, o que em parte explica algumas bicicletas custando mais que veículos motorizados.

Na outra ponta, os dados sobre o cidadão comum que usa transporte público, por si só, transforma-se em fonte de renda. Não à toa a atual gestão da Prefeitura de São Paulo força identificação dos usuários – cartões individuais com foto e tudo para as integrações são um exemplo – pois esses dados por si só permitem o aperfeiçoamento da publicidade.

A se lembrar que reconhecimento facial para publicidade já é uma realidade. Sim, você está sendo filmad@ o tempo todo.

Aí outro problema para as bicicletas: Bicicletas não possuem placas. Bicicletas não exigem o uso de cartões identificados. Bicicletas não tem sistemas de localização. Bicicletas não deixam de funcionar aos finais de semana. Bicicletas permitem liberdade ao trafegar.

Isso é um pesadelo para a mentalidade nazi que tudo controla e ordena, hierarquiza e segrega.

Por isso é que na medida do possível se torna o pedalar inseguro. Por isso não se fiscaliza o artigo 201 do CTB (um metro e meio do ciclista!), por isso  os 1800 km do plano cicloviário traçado pelos ciclistas para São Paulo está longe de estar completo, por isso não se forçam empregadores e universidades a terem bicicletários e vestiários decentes, por isso fabricantes de bicicletas nunca tiveram isenção de IPI, ICMS ou o que for, por isso sequer o mercado de bicicletas não produz modelos adequados a quem destoa do modelo corporal do vencedor: alto e atlético. Afinal, se a menina de 1,58 quiser usar bicicleta para o transporte, não achará nenhum modelo disponível…

ß- Hitler usou a GESTAPO como forma de controle populacional. O mundo contemporâneo organiza-se em redes de controle. Diversos são os bancos de dados, que permitem acesso a este ou aquele bem ou serviço. Cadastro de bons ou maus pagadores são um exemplo desta lógica.  A lógica contemporânea deve muito aos métodos de controle e propaganda desenvolvidos nos 12 anos de governo nazista. Goebbels é estudado em faculdades de publicidade.

Diversos elementos do velho nazismo estão redivivos: o machismo, o racismo, o anticomunismo visceral (que chama de comunista tudo o que não é seu espelho) e sobretudo o profundo desprezo pelos “inferiores”.

Apenas a forma como isso se dá não é mais a forma dura das grandes marchas de uniformizados. Não há mais campos de extermínio sistemático. Não se queimam livros e obra de arte na praça pública.

Mas se deixa queimar o Museu Nacional. Não se tiram os professores judeus das universidades, mas se deixam as universidades secarem progressivamente. Não se promove o trabalho escravo, mas se retiram suas garantias. Não se matam os negros de forma sistemática, mas se atiram em famílias negras, e claro, deixam os negros pobres matarem-se entre si. E etc, etc etc.

Tudo, como antes, sob o aplauso de parte da população que aplaude.

Afinal, ninguém mandou você pedalar uma bicicleta numa avenida, né loser? Ainda mais sem capacete, seu pobre? Tá reclamando do quê, sua comunista? Vai pedalar em Cuba!

_______________-

Adolf Hitler (20 de abril de 18889 – 30 de abril de 1945) era um anticomunista visceral, embora hoje no Brasil os idiotas digam que ele era de esquerda. Talvez revire no túmulo por conta disso. Mas depois abra um sorriso ao perceber que das estruturas do Estado Brasileiro que estão em desmonte, só estão sendo desmontadas aquelas que tratam de direitos básicos do cidadão, pois o forte tem a força, e o fraco só tem a lei. Seu espírito redivive  a cada defesa da liberação de armas, da lei “João da Penha” e etc.

Paradoxalmente suas ideias circulam hoje mais livremente num dos países menos “puros” racialmente. Mas se raça não importa mais – a não ser para a PM – o racismo estrutural reina, assim como a promoção do modelo feminino de esposa-parideira e submissa. Se não há o fascínio pelo uniforme negro das SS, desenhado por Hugo Boss, há o fascínio pelo terno caro, desenhado por Hugo Boss. Hitler sobrevive no gosto pelos ternos, no discurso do sucesso pessoal, na negação da luta de classes, no desejo de “levantar a cabeça”, se “destacar”.  Hitler sobrevive na doutrina que separa os “salvos”, “plenos”, dos demais. Afinal, extrema-direita é extrema-direita, não importa a cor da bandeira.

5 Respostas para “bicicletas X nazismo em rede

  1. Post denso sobre valores que não morreram com seus grandes perpetradores.

    A bicicleta é um símbolo libertário e, mesmo com as tentativas de cooptação capitalista, segue com um meio de expressar e exercer a liberdade.

    Vou ler as citações!

  2. Uma visão um tanto tacanha, do tipo: Se você não é “PT ou de esquerda” vc é de extrema direita. Tudo o que é de direita é ruim, confunde-se liberalismo econômico com o de costumes…

    Como são/eram tratados os homossexuais nos regimes de esquerda?

    Em qual país comunista a igualdade prevalecia? Vide como vivem os governantes da Coreia do Norte/Cuba/Venezuela comparados com o resto do povo… O abismo é maior do que em qualquer país capitalista.

    Sobre o Museu Nacional pode colocar o incêndio na conta do PSOL que se não me engano é de esquerda, a UFRJ (responsável pelo Museu) foi loteada para o partido.

    A grande malandragem da esquerda é que quando comparada a Stalin ou Pol Pot dizem que a comparação é absurda (concordo) mas a comparação da direita com Hitler é válida!

    Em tempo, a melhor definição sobre esquerda e direita em tempos modernos é:

    Você sabe quando um país é de direita quando as pessoas querem ir para lá e o governo controla a entrada.
    Você sabe quando um país é de esquerda quando as pessoas quer ir embora de lá e o governo controla a saída.

    • como são tratados homossexuais em países de esquerda como Suécia, que os sociais-democratas estão há décadas no governo? ou Holanda, pioneira na liberação das drogas? (e nas ciclovias como política pública também) pois é, assim como nem toda direita é autoritária como os nazistas, nem toda esquerda é autoritária como os stalinistas. sugiro dar uma melhorada nos seus estudos sobre ciência política. um bom livro sobre só os conceitos de esquerda e direita é do falecido Norberto Bobbio: “direita e Esquerda”. pronto, uma resposta menos tacanha do que o velho balblabla binário sobre Cuba, Venezuela, Coreia do Norte e etc. em tempo. esquerda tb não é só o PT. aliás, esquerda não é só gente de partido, assim como direita não é só gente de partido.

      • A Suécia e a Holanda dois países com livre mercado e com as economias entre as mais dinâmicas do mundo são de esquerda?
        o capitalismo nórdico é de esquerda?
        Só pq o partido que governa tem socialista no nome não quer dizer que o país seja de esquerda, é a mesma besteria em que os bolsonaristas se apoiam para dizer que o nazismo (nacional-socialismo) era tb de esquerda!

        Não discuto que esses países tem maior preocupação com a rede se assistência social, mas Portugal e Inglaterra também tem agora vão dizer que a Inglaterra é socialista também?

        Existem estados americanos onde a Maconha é liberada, o que define um país como de esquerda é o apoio a ciclovias e liberação das drogas?

        Endento que Norberto Bobbio foi um grande cientista político e ativista nos anos 70 mas se não me engano sai de cena no início dos anos 80 para depois retornar como crítico do Berlusconi, gosto da obra dele mas discordo em muitos pontos, acho muitos conceitos ultrapassados e muito do que ele escreve se aplica sobre a Itália, não valendo para o resto do mundo.

        Em tempo, o nazismo não era inimigo da bicicleta, a própria Alemanha sob o comando de Hitler, incentivava bicicletas e até se utilizava de esquadrões de ciclistas na guerra.

    • O cara traz fatos sobre a bicicleta ser um símbolo e um meio de liberdade e qualidade de vida e você vem com estas ideias mofadas. Vá pedalar e arejar as ideias!

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