CATRACA NEM NA BICICLETA!

enviado especial do CicloZN faz relato gonzo de ato do Movimento Passe Livre contra mais um aumento de tarifa de ônibus e metrô, perpetrado pela dupla Dória-Covas.

viva o cassete, e sem cacete! catraca, nem na bike, vá de cubo com cassete!

A desculpa era comprar um canivete com chave Philips. Mas não havia como pedalar no centro sem nem passar na frente do Teatro Municipal onde haveria a concentração da manifestação puxada pelo Movimento Passe Livre, contra o aumento para 4,30 (quatro reais e trinta!) para as passagens de metrô e ônibus.

Trânsito fechado já ali na Xavier de Toledo, a bicicleta descia gostosa com seus pneus fininhos naquele concreto liso, na contramão do fluxo normal, mas não era um dia normal. Delícia descer suavemente naquela via interditada aos automotores.

Mas o povo já caminhava em direção ao prédio da Prefeitura. E aí, quebradeira, como das outras vezes? Não, afinal desta vez os infiltrados agitadores bagunceiros hoje estão no (des)governo federal e não tem prefeito do PT pra ser desestabilizado pelos atos duma direita raivosa que coloca a culpa na esquerda. Então quebradeira não teve.

Não, sem quebradeira, desta vez tinha até bandeira da Juventude do PT. E claro, também do PSTU, de sindicatos e etc, mas se sobrepunham as bandeiras rubro-negras dos antifascistas e neo-anarquistas, autonomistas e etc. Na prática, quem se manifesta de fato são esses, e não quem vem pela política institucionalizada.

Sabe o que é isso? E por qual motivo se fala em passagem livre, passe livre, ausência de catracas?

Aí véio, tem que sacar algumas coisas. Primeiro, tem que sacar o Teorema do Chifre, cujo enunciado diz: “o desconhecimento não implica na inexistência.” Resumindo, não por que você ignora algo que isso inexista, não aconteça, ou você não tenha. Exatamente como chifre. Ou  qualquer outra coisa ou fato.

E transporte, bicicleta tem algo relacionado a política? Como não, mané? Política vem de pólis (πόλις) palavra grega pra cidade. Política é a arte de viver na cidade, discutir seus problemas. Aí, reclamou de buraco no asfalto? Está fazendo política. Quer ciclovia? Tá fazendo política. Achou ruim o aumento da tarifa? Tá fazendo política.

Então, não por que você desconhece a ligação entre bicicleta e política que ela não exista. Exatamente como o chifre, o seu. Mas ali na manifestação ninguém parecia ignorar esse vínculo entre as coisas da cidade, nesse caso, o aumento da tarifa, e política.

E aí, a pergunta: transporte tem que ter catraca? Como não? Pode ser sem catraca? Ora, o SUS não é sem catraca? E qual a taxa e matrícula na escola pública? Ué, não tem? Por qual motivo saúde não tem catraca, escola não tem catraca e ônibus e metrô tem?

Ué, se não tiver catraca e tarifa  as pessoas vão ficar se transportando à toa? Não podemos perguntar o mesmo pela saúde? Pelo fato da sáude ser sem catraca, tem fila pra gente tomar injeção só por ser “de graça”? Então, no artigo 6º da Constituição Federal, o transporte está elencado ao lado da educação e da saúde. No entanto, as tarifas de transporte estão aí, e cada vez mais caras.

O fato é o seguinte, não sejamos ingênuos. Transporte com tarifa dá lucro pra muita gente, jogando o custo dum direito pro próprio cidadão.  Um exemplo prático, uma vez citado pela Renata Falzoni: no 1º dia de greve dos ônibus, o trabalhador fica em desespero. No 3º dia de greve dos ônibus, é o patrão que entra em desespero. Na prática, quem se beneficia do transporte são os empregadores, que não pagam esse transporte. Da mesma forma, o setor imobiliário pode continuar sua especulação e vender moradias cada vez mais longe dos locais de trabalho, estudo e lazer do cidadão. Tem lógica levar 2 horas pra ir e outro tanto pra voltar pras suas atividades diárias? 4 horas é 1/6 – um sexto – do seu tempo de vida de 24 horas. De segunda a sexta, são 20 horas da sua vida indo e voltando amassado, num transporte. Metade da carga de trabalho semanal mais comum de todo mundo. Pra trabalhar e receber por 40 horas, o cidadão periférico gasta pelo menos 60 horas.

E no final de semana, quem pagará múltiplas passagens, levar mais do que as duas horas habituais pra chegar num lazer? Uma família inteira gasta quanto pra ir da Vila Jacuí ao Parque do Ibirapuera?

Sim, preço do transporte é barreira pro mais pobre ter lazer. Isso piora sua qualidade de vida. Isso diminui sua expectativa de vida. Isso aumenta o ressentimento social que é um dos componentes definidores da conduta criminosa. Pois quem é do direito já sabe de todas as pesquisas sobre crimes: não é a pobreza que causa crime, é a desigualdade social. É assim no Brasil e no resto do mundo inteiro. A intensa desigualdade causa viradas violentas, revoltas, revoluções. Assim começou tanto a Revolução Francesa quanto a Russa, e também os massacres de Ruanda. Idem pras facções criminosas atuais ao redor do mundo. As máfias, por exemplo, os italianos, e mesmo as máfias orientais.

E aí, tá a fim de guilhotinas no meio da rua? Não? Então se liga e começa a perceber que não é Deus que cria os pobres e os ricos. Aliás, JC certa vez declarou que é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha que um rico entrar no Reino dos Céus. E quem é rico? Dizem alguns alunos meus, lutadores da perifa: rico é quem dorme 8 horas por dia.

Mas maaano!, o protesto seguiu, não sem um monte, um monte, muitos mesmo, PMs de escudo. Sei lá, acho que esperavam o quebra-quebra perpetrado pelos provocadores quinta-coluna de sempre. PM pressionando.

A faixa da foto de cima estava na rabeira da manifestação e uns bons 50 metros atrás dela, ciclistas empurrando as bicicletas, em linha. Ué, ciclista em protesto de tarifa de ônibus? Claro, a gente tava de bike, viu a manifestação e colou nela. Um bom tanto de gente de bike, uns 10, fizeram isso. Sabe como chama isso? Empatia. Coisa meio rara hoje em dia. Mas quem pedala desenvolve.

Em nome da lei e da ordem os fardados iam pressionando atrás. Afinal, manifestação travou a Rua da Consolação inteira. Travou o trânsito de São Paulo. E tem mais que travar mesmo. Pois CPTM para todo dia, sem protesto. Metrô para todo dia, sem protesto. O trânsito tem que parar de vez em quando também, é uma questão de isonomia.

Aliás, como muita gente tuíta todo dia: CPTM tem tanta falha e lentidão em razão de “obras de atualização” que já deveria ter virado disco voador. E metrô? Se não falha, é projeto mal feito mesmo. Já viu que horrorosas as estações da Linha Amarela, a Linha 4? Escadas no meio da plataforma, atrapalhando a circulação das pessoas. E a Linha 2, Verde? Quando avançará pra Zona Leste? Ah, não sabia? tem projeto, mas os terrenos desapropriados da Vila Formosa e do Jd. Anália Franco estão lá, mofando, crescendo mato, criando mosquito.

E a PM pressionando os ciclistas que iam no fundo, até que viatura foi de leve pra cima da roda duma bike. Pluft! Roda de speed é dura, né? Caiu a placa da viatura, a roda não fez nada… Olha só, agente público gerando dano na viatura…

A questão é a seguinte: já parou pra pensar que uma cidade é uma grande operação econômica? Numa empresa, se uma das suas múltiplas atividades gera um custo demasiado grande, ela dá prejuízo. Então: São Paulo, como outras cidades, está empurrando a classe trabalhadora pra longe dos seus locais de trabalho e estudo. E isso custa.

No limite, o trabalhador, se puder, larga o busão e usa bicicleta. Duvida? Acorde cedo e vá ver quantos ciclistas passam por hora às 5 horas da manhã na ciclovia da Av Inajar de Souza, lá na Brasilândia, lá perto do Terminal Cachoeirinha. Pois eu digo, da última vez que fiz isso; mais de 100 ciclistas por hora. E isso não é opção pela bicicleta, é pura necessidade. Aliás, muitos, muitos mesmo sem luzinhas pois não têm dinheiro pra pilhas e etc. Gente que passa uma semana pra consertar um furo pois não tem 5 reais pra fazer o conserto.

Problema de transporte é problema de urbanismo. Mas a se perguntar: é problema ou realmente deseja-se que os pobres morem longe para virem trabalhar durante a semana, mas não poderem jogar bola no mesmo parque no domingo? Num pais onde tem prédio com elevador e entrada de serviço, é de se pensar isso. Sim, os meios de transporte são meios de contenção social, contendo a mobilidade de quem não tem ou não pode usar constantemente um carro, e não pode morar nas centralidades.

Quando eu morava numa caríssima jaulinha na Bela Cintra, nem bicicleta precisava usar.  Fazia tudo a pé. Minha bike não saía do apertamento pra rodar menos de 100 km. Agora, morando no fundão, tenho espaço pra várias bicicletas e não respiro a poluição da região central, mas perdi a conta de quantos eventos deixei de participar simplesmente pelo fato da Linha 4  Amarela do Metrô-SP não funcionar em alguns domingos. Fiquei com fama de eremita solitário, mas sou simplesmente um morador da periferia.

A manifestação subiu a Consolação por um bom tempo. Mas lá na frente a PM barrou todo mundo: Paulista não! Fetiche: não pode  manifestação na Paulista, a não ser usando camisa da Seleção da CBF e na frente da Fiesp. E esquizofrenicamente bradando contra a corrupção usando uma camisa da CBF. 🙂 🙂 :))  Só pode ser “rebelde a favor”.

Manifestação sábia, dispersa. Afinal, já sabemos o script: bomba de efeito moral, muito gás de pimenta, rostos ardendo, olhos inchados, bordoada de cassetete, bala de borracha e um processo por terrorismo. Isso é Brasil, fio. Reprimindo o povo e suas demandas desde 1500. Duvida? Ouça e veja a letra desse sucesso do longínquo ano de 1973. Claro que os militares censuraram a música.

Mas vamos entender. há uma imensa galera pensando e repensando as questões sociais atuais. E não dum ponto de vista teórico distante, como os velhos marxistas esperando uma apocalíptica revolução mundial. Ou cristãos de centenas de séculos atrás esperando o juízo final. Pois não há tempo de esperar: quem tem fome tem pressa, dizia Betinho. E a gente não quer só comida, cantavam os Titãs. (vou para de citar velharias, juro).

Não, falo de gente que tá discutindo a qualidade da comida de hoje. Por exemplo, discutindo se devemos continuar carniceiros e elaborando cardápios veganos completos.  (Em tempo, não sou vegano mas adoro a comida duma rede vegana de restaurantes, Barão Natural. E minha intolerância à lactose adora comida sem laticínio escondido em molhos e etc. E todo ochá mate gelado delicioso a um preço fixo!).

Falo de gente que não usa drogas, não toma nem café. Que discute estéticas, corta o cabelo diferente, usa tatuagens com sentido (pra elas, claro), alargadores, mas tem corpos limpos de um monte de intoxicações da comida industrializada.

Falo de gente que discute a sério as questões de gênero. Da terceira ou quarta onda de feminismo, que é muito diferente das anteriores. De homens que não tem medo de trocar fraldas de filhos. Aliás, de homens que lavam louça sem que com isso o pinto caia de podre. Pois o machão brasileiro é frágil demais, se ele lavar a própria cueca sente compulsões pra sair desmunhecando… Só pode ser isso. E como ele é homofóbico, não pode lavar a cueca, sacou? Nem uma louça. Nem passar uma camisa.

Aliás, todo mundo que adora terno deveria passar camisas e calças sociais de vez em quando. Deixar tudo pra esposa ou gastar  uma grana na lavanderia e vender a alma pruma empresa pilantra só pra pagar um visual é vender sua alma pro capeta, gente!

Pois está acontecendo uma coisa nas sociedades urbanas atuais. A grande multidão global em pontos aqui e ali se organiza de forma comunitária contrariando os ditames do grande capital. Exemplos? Na Praça das Corujas, no bairro de classe média alta do Alto de Pinheiros em São Paulo moradores locais organizaram uma horta comunitária.

Em Curitiba, já há poucos anos, a comunidade ciclística construiu uma Praça. A Praça de Bolso do Ciclista teve as pedrinhas do piso, e todo o seu equipamento, construído tudo com as mãos de ciclistas voluntários.

Na zona Norte de São Paulo, no Jardim Peri, ano passado, depois que a Gestão Dória/Covas descontinuou o programa de Ruas Abertas que permitia aos domingos na Av Koshun Takara, no JD Peri, as crianças brincarem livremente, a comunidade local fez uma plenária com 800 pessoas na qual cerca de 740 votaram pela continuação disto. Hoje a própria comunidade, em horário certo, aos domingos, interrompe o trânsito dos motorizados e a Avenida Koshun Takara fica livre pras crianças brincares, pra jogarem bola, pra pedalarem.

Em diversas cidades ciclistas organizam oficinas comunitárias. Em São Paulo, a Mão na Roda. Na França e até na Tunísia os eventos da Vélorution organizam também oficinas comunitárias, passeios, aulas pra aprender a pedalar.

recado dado. leia mais, dirija menos.

São exemplos pontuais de como comunidades autonomamente começam a tomar rédeas daquilo que Habermas chamava de “gramática da vida”. E o fazem tendo consciência ou não de estarem fundindo ideias do marxismo e do anarquismo, mas jogando fora suas políticas. Reconhecem que o mercado não resolve tudo mas não propõem revoluções sangrentas: estão resolvendo problemas aqui do mundo real, dos problemas cotidianos.

Lembra do Teorema do Chifre que citei lá em cima? Então, conscientemente ou não essas pessoas estão sendo autonomistas: anti-autoritários, praticando autogestão, organizam-se em redes, opõem-se às burocracias de estados capitalistas ou comunistas. Isso é muito diferente da antiga política dos partidos, dos sindicatos, das instituições. É outra coisa, e é bem século XXI.

Repito, com ciência disso ou não, estão praticando os princípios desta tão nova forma de esquerda que nem os teóricos políticos conseguem enxergar direito.

Aliás, organização em rede e não em instituição é uma grande marca deste início de século XXI. Facções criminosas organizam-se em rede, assim como direitistas em geral: racistas, machistas, anti-comunistas raivosos e etc. Mas da mesma forma os mansos e pacíficos que só querem comer um pouco melhor e mais saudavelmente, querem menso violência no cotidiano, querem que seus filhos possam brincar alegremente na rua, querem ir pedalando pro trabalho sem serem atropelados, querem plantar e sentar à sombra de árvores, também organizam-se em rede.

Por isso a manifestação do MPL ontem não teve violência: não estavam presentes os agitadores, odiadores e provocadores. Só os que querem que se cumpra o Artigo 6º da Constituição Federal Brasileira:

Art. 6º São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição.     

Nada além.

E sem catraca, desde sempre. Afinal, já pagamos impostos, por qual motivo pagar também tarifas? Tem algo errado aí. Pensa um pouco que você percebe.

 

 

 

 

 

 

 

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