POR QUE A SHIMANO MANTÉM GRUPOS DE 7 E 8 MARCHAS?

Existem o marketing. Existe a demanda. Marketing quer induzir uma certa demanda, mas a demanda por sua vez nem sempre se submete ao marketing.

As inovações possuem um limite: o corpo do ciclista. E em matéria de tecnologia ciclística, lembremos que as novas tecnologias não substituem as antigas, mas apenas se soma à elas.

Fator Q. Quanto maior a distância entre um pé e outro, pior o desempenho.

Não podemos pedalar de pernas muito abertas: há uma distância que os pés podem ficar um do outro, ao pedalar. Quanto maior essa distância, menor o aproveitamento da força aplicada aos pedais, ou melhor, do esforço do ciclista.

Grame Obree, recordista em velódromo, inovador em tecnologia, dizia que a distância ótima entre um pé e outro é de apenas a largura duma banana. Na prática pedalamos com distâncias maiores.

Essa distância é o fator Q. Esse fator vai limitar a expansão do número de pinhões nos cassetes.

As bicicletas de estrada bem mais antigas usavam gancheiras traseiras com distância de 126mm. Posteriormente, com as catracas de 7 velocidades, pularam para 130mm. Nas MTTBs, pra permitir uma raiação mais forte, passaram a usar a largura de 135mm, pois as pedivelas também respeitavam uma distância maior entre os pedais, por conta da largura da roda traseira.

Afinal, a corrente poderia pegar na roda.

Pois há um segundo fator pra complicar as coisas: a corrente não pode trabalhar muito na diagonal. Ou seja, não pode torcer muito. Quem está usando os sistemas de 1 coroa e cassetes de 11 ou 12 velocidades já reclama de como a corrente não atua bem nos pinhões das pontas, e se vê obrigado a usar uma coroa especial para que a corrente não saia, para que a corrente não caia, pois já está trabalhando no limite da torção.

E cada vez usando correntes mais finas. Por um motivo: a partir do momento em que adicionaram um pinhão a mais no cassete de 7 velocidades, aumentaram a largura do cassete para o seu limite. Usaram a mesma corrente e o mesmo espaçamento entre os pinhões no cassete (e por isso trocadores de 8v de câmbios traseiros funcionam bem com cassetes de 7v).

Quando criaram cassetes de 9 velocidades, não podendo haver a expansão lateral do cassete, tendo o cassete que caber no mesmo núcleo, a solução foi diminuir o espaço entre os pinhões. E assim fizeram até 10 velocidades, sempre diminuindo o espaço, 11 velocidades, 12 velocidades…

Com 11 velocidades as conhecidas diferenças de espaçamento entre sistemas da Campagnolo e da Shimano ficaram tão pequenas que caíram nas margens de tolerância….

Mas….

Marchas em bicicletas são apenas combinações entre rodas dentadas. às vezes queremos mais combinações, às vezes não precisamos. Quem compete no XC por exemplo, quer a combinações necessárias para quela prova. Quem compete na estrada também. A turma do sistema de coroa única, nos fóruns nacionais e estrangeiros que discutem bicicletas e peças, não raro reclama as opções que tem que fazer em razão da baixa gama de marchas no sistema de coroa única: ou faltam marchas leves, ou faltam marchas pesadas.

Mas isso não é problema pra quem compete e pode configurar a bicicleta de forma específica para cada competição.

Mas pode ser problema para outros usuários.

Dou um exemplo por mim, que moro numa parte da cidade de São Paulo caraterizada pro muitos morros. Gosto de ter uma marcha nas minhas bicicletas bem leve que me permita rodar entre 1,3 e 1,5m por pedalada. Assim pedalo em algumas ladeiras sentadinho, tranquilo, carregando peso ou não, estando cansado ou não, estando com fome ou sono ou não.

Numa MTB com roda 26×1,90 é a relação com coroa de 22 dentes e pinhão de 34 (mega range!). 22×34. Numa speed com pneu 700cx23mm, é a mesma relação. Numa MTB com rodas 29×2 pol seria a relação 22×38. Se essa mesma bicicleta estiver com sistema de coroa única, seria uma relação 28×50 pra ter a mesma marcha.

Agora, eu sou um maluquinho que gosta de descer que nem um doido algumas ladeiras também, e aí adoro marchas pesadas. Aí preciso de coroas grandes e pinhões pequenos.

Em resumo, eu gosto de bicicletas com sistemas de marchas de grande amplitude. Meus trajetos têm relevo muito variado.E também gosto de rodar.

É sabido que peças com menos material podem durar menos. Quem pedala com mais de uma bicicleta já percebeu que as correntes de 7/8 velocidades duram mais que as de 9v, que por sua vez duram mais que as de 10v, que duram mais que as de 11v… Isso quando falamos de correntes do mesmo fabricante e de materiais equivalentes.

Por outro lado, há a escala de produção.

Assim, que pedala sabe que uma corrente de 7/8 velocidades é baratinha comparada com as demais.

Alguém que use a bicicleta para ir ao trabalho, pode rodar mais de 200 km por semana só se deslocando ao serviço. Houve uma época que meu trajeto diário era de 20 km pra ir, outro tanto pra voltar. E se resolvesse fazer mais alguma coisa além de ir e voltar ao trabalho, durante a própria semana, os trajeto aumentavam. Controlava deslocamentos entre segunda e sexta, e toda semana pedalava, apenas de segundas às sextas, entre 200 e 350 km.

Pense nos custos de manutenção.

Lembremos também que boa parte dos usuários são da classe C, D e E. Term manutenção barata é necessário. Correntes baratas (pois produzidas em maior escala) e que duram mais…

Isso explica a permanência dos sistemas de 8v. E os de 7v?

Pois bem, não falei ali em cima que ao pular de 7 para 8 velocidades acrescentaram um pinhão apenas, usando um núcleo mais longo?

Os cubos de 7v permitem que se monte uma raiação com a parte do lado direito mais inclinada e menos vertical. Portanto, permitem rodas mais duradouras.

Aqui nos permite uma nova digressão : os freios a disco diminuíram a resistência da roda pois deixaram a raiação, do lado esquerdo, mais vertical e menos inclinada.

A questão é crítica, tanto que a indústria desenvolveu a tecnologia “Boost” com cubos mais largos para aumentar a resistência da raiação, diminuindo os ângulos de inclinação dos raios, torando as rodas mais fortes. Mas colocando o Cassete mais para fora, a “linha” que deve seguir a corrente também se altera, para fora. Para não alterar o fator Q, a indústria criou pedivelas com coroas mais próximas do braço direito das pedivelas.

Claro, tudo isso custa. E por mais que seja uma delícia pedalar uma bicicleta com a última tecnologia, você não quererá prender sua bicicleta cara num poste… Ou seja, há demandas e demandas. Necessidades e necessidades.

Confiabilidade e preço baixo, esses são o mote dos grupos de 7 e 8 velocidades. É a confiabilidade, inclusive, que mantém em produção as alavancas de quadro e seus filhos, os thumshifters, que nada mais são do que alavancas de quadro montadas no guidão, na horizontal.

Alavancas de quadro Shimano SL-r400, modelo 2018. 8v atrás, 2ou 3 (frição) na frente.

As alavancas de quadro e thumbshifters possuem uma característica: trocadores esquerdos, para câmbio dianteiro, por fricção e não indexados. Isso permite montar qualquer câmbio dianteiro com qualquer pedivela….

Pois a indústria fez questão de manter câmbios dianteiros com puxada diferente entre modelos de estrada e modelos para MTB.E aí, quer colocar uma pedivela de MTB numa speed, pois você mora nos Alpes e precisa de marchas mais leves? funciona. Quer colocar guidão reto num quadro de speed, manter a pedivela original e seu câmbio? Funciona!. Quer evitar o barulinho incômodo da corrente pegando no câmbio quando está meio cruzada, dando só um toquinho na alavanca? Funciona. Quer não ter que ficar regulando câmbio dianteiro? Funciona…

E alavancas de thumshifters tem outra característica: Praticamente não quebram nunca.

Claro, claro, não possuem a quela troca ultra rápida e precisa que você necessita numa competição. Mas são a solução para uma série de montagens diversas para bicicletas de uso urbano. Tanto que até hoje há fabricantes fazendo thumbshiters a fricção, não indexados!

Thumshifter dDia-Compe, não indexado, funciona com cassetes de 7 a 10v.

Ora, sendo assim, por qual motivo Shimano não faria também essas peças?

Pois bem, observemos o grupo Tourney. Na persão MTB, peças par auso urbano. Na versão de estrada, também. Sempre no padrão 7v. Tourney A070 é o grupo para estrada, possui STIs, pedivelas duplas e triplas. Cubo traseiro para espaçamento de 130mm, mas para 7v. podendo assim construir-se rodas traseiras mais fortes.

O grupo Tourney para MTBs possui diversos trocadores, entre o thumbshifter clássico e o rapid fire. E isso é importante, pois par auso urbano pessoas podem ter necessidades diferentes. Dou um exemplo dos trocadores rotativos, Gripshift da Sram ou Revoshift da Shimano. São muito criticados por muita gente, mas dependendo das condições da mão da pessoa, das suas dificuldades e deficiências, podem ser a única opção de uso. Eu, que porto uma leve deficiência na mão direita, por exemplo, sempre que posso fujo dos sistemas de gatilho que exigem bastante do dedo indicador.

Aliás, por conta das minhas dores, não gosto nem dos rapid-fires nem dos Ergos da Campagnolo, por conta da orelhinha de acionamento. Prefiro sempre os trocadores que posso acionar de várias formas distintas, com dedos diferentes.

Shimano concentro no grupo Claris para estrada as opções tanto para recreação quanto para cicloturismo. Nesse grupo de 8v temos uma gama de trocadores que vão de STIs a rapid-fires passando por alavancas de quadro, pedivelas duplas e triplas, câmbios dianteiros idem. E também manetes de freio que funcionam com freios ferradura e cantilever. Permite o uso de cassete com pinhões de até 34 dentes, oque ajuda na subida em combinação com a coroa de 30 dentes da pedivela tripla. É uma opção para quem quer montar a partir de um quadro de estrada uma bicicleta leve para cicloturismo em asfalto e pisos pavimentados. Da mesma forma, para montar uma bicicleta para fazer audaxes. Não é difícil, com esse grupo, montar uma bicicleta pesando menos de 11 kg e até abaixo dos 10 kg, para brincar nos audaxes e fazer viagens com pouca bagagem.

Além, obviamente, de usar uma bicicleta com guidão drop para o transporte urbano, sem tanto medo de prender num poste. Ou você prenderia num poste sua bicicleta de fibra de carbono full Dura Ace?

Então, perca o preconceito quando for montar aquela bicicleta pra rodar na cidade, para viajar e para fazer os longos audaxes. Se o bolso não permite que você use só 10v atrás, não tenha medo de usar 7 ou 8v atrás. Mais importante do que ter a bicicleta XPTO é pedalar. Pois não adianta nada ter uma bicicleta de 40 mil e reclamar que suas pernas estão ardendo por conta daquele passeio dominical de meros 30 km.

Pedalemos, pois.

 

 

 

 

 

 

 

Uma resposta para “POR QUE A SHIMANO MANTÉM GRUPOS DE 7 E 8 MARCHAS?

  1. Isso diz tudo:
    “Mais importante do que ter a bicicleta XPTO é pedalar. Pois não adianta nada ter uma bicicleta de 40 mil e reclamar que suas pernas estão ardendo por conta daquele passeio dominical de meros 30 km.”

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