SÃO PAULO: BICICLETAS COMPARTILHADAS PRA QUEM?

São Paulo inaugura novo sistema de compartilhamento de bicicletas, mas de novo sem incluir esse sistema no efetivo sistema de transporte da cidade.

Ah, bicicletas novas, aro 24, 12 horas perto de terminais… tudo isso é irrelevante. A lógica continua a mesma, e piorada.

O antigo sistema de bicicletas compartilhadas sofria de depredações… Mas porquê né? Ora, ele já nasceu elitizado, e aí o periférico social (pois periferia urbana é cada vez mais um conceito social, e não apenas geográfico, se duvida disso, tente morar na “Cracolândia” que geograficamente é bem central…) não se reconhecia no sistema. Quando não há senso de pertença não há cuidado, mas pode haver predação.

E assim uma bicicletinha laranja do Itaú aparecia lá no fundão da Zona Norte despida de suas partes plásticas por módicos 80 reais. Semana passada eu fotografei uma repintada e com outra relação de marchas, numa cidade do interior de São Paulo, parada num poste…

Geograficamente continuam as estações muito mal distribuídas, ou melhor, distribuídas apenas pela lógica do negócio. Só estão presentes onde há poder de compra. Pois perde-se a gratuidade da primeira hora (que passa a custar o equivalente a duas passagens de ônibus). A novidade é um empréstimo de até 12 horas perto de alguns terminais de ônibus escolhidos a dedo. Quais? alguns que começaram a adensar ao redor de si uma classe média.

Repito, periferia não é mais um conceito geográfico, mas social. E em São Paulo, imóveis próximos a estações de metrô e terminais de ônibus tiveram saltos de valores brutais nas últimas décadas. E ninguém aluga bicicletinha laranja pra pedalar até 15 quilômetros de distância. Então, quem vai pegar bicicletinha laranja no terminal da Vila Nova Cachoeirinha e ir lá pros morros do Jd Paraná, do Jd. Vista Alegre,ali no entorno do CEU Paz? Quem vai de bicicletinha laranja do Terminal Vila Nova Cachoeirinha pro Jd. Carombé, pro Jd. Damasceno? (ah, é, nem sabe onde é? Google Maps é pra isso!)

Quem vai pegar laranjinha em estão inexistente ali nos fundos da Rua Conselheiro Nébias, limites dos Campos Elísios com a Barra Funda? Não tem também.

E isso por qual motivo? Ora, simples, não é sistema de transportes. De fato, a Prefeitura de São Paulo não está levando a sério um sistema de bicicletas compartilhadas como parte do efetivo sistema de transporte público, mas como negócio do transporte, como é o Uber. Pois usa a mesma regulamentação utilizada pra enquadrar Uber, 99 Táxis e outras, que são operadoras de tecnologia de transporte credenciadas, OTTC. Pra entender esse ponto, leia a nota da Ciclocidade nesse link aqui.

Nessa nota da Ciclocidade, em tintas suaves, a outra crítica: se o sistema é canadense e está presente em grandes cidades do mundo, São Paulo terá o sistema como em Nova York e com os defeitos desse sistema. Pois ao redor do mundo o sistema tem forte subsídio público pra baratear ou zerar seu custo ao cidadão. Mas em Nova York, como aqui em São Paulo, o poder público não entra com nada, e o sistema se elitiza, encarece e não atende a quem mais precisa. Pois acaba usando o sistema quem pode comprar uma bicicleta.

Agora, a cereja do bolo: sem dinheiro público e sob gestão do prefake Dória que não por acaso se diz “gestor” e não político, e promove grupo de negócios, claro que essa é mais uma oportunidade de lucrar com queilo que deveria ser serviço público, e não fonte de lucro.

Rádio Sens faz um texto explicitando as “ligações perigosas” do sistema. É, quem tá ganhando dinheiro com isso aí é Luciano Huck, é Serttel, é um emaranhado de empresas ligadas entre si que já operavam o sistema antigo, e provavelmente o sucatearam – em vez de melhorá-lo, ampliá-lo e torná-lo universal. Leia o delicioso texto aqui. E entendam o porquê afirmarem categoricamente:

Nosso ponto defendido até aqui é que a Tembici não é apenas uma empresa de mobilidade urbana nova, com administração moderna, que está interessada em promover o uso da bicicleta em São Paulo. Há diversos grupos de interesse por trás e são relacionados com as mesmas pessoas que sucatearam o antigo sistema para implementar um novo, mais lucrativo.

Claro, o testo faz um cálculo errado do custo das bicicletas, pois só os cubos nexus custam 500 reais. Mas as interligações societárias são interessantíssimas…. Luciano Huck é sócio de um zilhão de start ups, mas porquê? pois é bonzinho? Não, lucro mesmo,  caro leitor, cara leitora.

E qual é o problema de um sistema voltado ao lucro?  Simples: deixa de ser voltado ao cidadão e passa a ser voltado ao consumidor. Cidadão é quem tem direitos, consumidor é quem tem poder de compra. No Brasil, todo mundo é titular de direitos mas nem todos possuem poder de compra.

Ou seja, funciona exatamente pela lógica do Uber, do 99 Táxis…  E não pela lógica constante do artigo 6º da Constituição Federal que diz que transporte é um dos direitos fundamentais do cidadão. Estado tem que atender a todos, empresa tem público alvo, target

Ah, mas como o sistema vai se sustentar? Essa é a perguntinha clássica de quem não entende a diferença de serviço público e bem de consumo ofertado no mercado. Pergunto de volta: não deveria a vacina da febre amarela ser cobrada? Afinal, custa vacinar…. E quem não tiver dinheiro que morra… né? Captou a ironia? Não? Quer que eu desenhe?

Já é um absurdo transporte ter catraca e tarifa, pois saúde e e educação já funcionam sem tarifa. E se bicicleta compartilhada integra a sistemática de transporte, deveria ter ao menos subsídio, senão custeio total  pela organização estatal. Mas como não visto assim pelo #jestor que não diferencia gestão pública de administração de empresas (o engraçado  que até um bastião da defesa da iniciativa privada, dos negócios e etc que é a Fundação Getúlio Vargas diferencia bem essas cosias, oferendo cursos separados de administração de empresas e administração pública), esse sistema não tem participação efetiva no seu custeio de subsídio do Município de São Paulo.

Em resumo, a lógica continua errada. Propositadamente errada. E por isso vai ter os mesmos problemas. As bicicletas continuarão a ser depredadas, senão furtadas e roubadas (afinal, furto e roubo são coisas bem diferentes). O que eu já imagino daqui a algum tempo é uma oferta maior de rodas aro 24 usadas em sites de venda de coisas usadas. Vai ficar mais barato montar uma bicicleta com aro 24, menor, mas não infantil, para alguma moça menos alta…

Muita gente não quer aceitar, mas toda vez que há desigualdade no acesso às coisas, humanos reclamam. Meu palpite é que isso é uma característica biológica, portanto impossível de ser contida.

No vídeo abaixo, que é um excerto duma palestra de Frans de Waal, um renomado primatólogo e etólogo, um experimento é feito com macacos-prego. Dois macaquinhos tem que fazer uma tarefa simples, devolver uma pedra dada, pra ganhar um prêmio. Um macaco vê o outro. Só que um macaco ganha fatias de pepino como prêmio, outro ganha deliciosas uvas. Observe que o macaco que ganha os pepinos se revolta, e o macaco de ganha as uvas fica na dele, ignorando a revolta do outro.

Ora, se esses nosso primos distantes assim agem, e nós temos tantas falas contra a injustiça social, não há semelhança? Não é de se esperar comportamento igual?

Pois há uma imensa população em São Paulo que se sente alijada de acesso às coisas. Por qual motivo uma meia dúzia, uma minoria, não partiria até pra violência em determinadas situações?

Essa forma de distribuição do acesso a essas bicicletas acentuará diferenças. Inclusive pelo fator de exigir cartão de crédito do Itaú, custo da primeira hora em 8 reais (mais caro que uma integração ônibus-metrô) , e sua distribuição elitizada de estações.

sistema londrino de bicicletas compartilhadas, quando era patrocinado pelo banco Barclays. um dia alguém corrigiu a propaganda gratuita que os usuários faziam pro banco usando essas bicicletas.

Mas o que esperar de algo que venha dessa gestão de São Paulo, e de um banco? Não dava pra esperar coisa diferente, né?

E depois ninguém sabe por qual motivo o Brasil é tão violento…. Como dizia um amigo meu carioca, um dia o morro desce. Hoje foi um dia em que a Linha Amarela, no Rio de Janeiro, foi várias vezes interrompida por tiroteios. Aqui em São Paulo, há poucos anos, um amigo meu foi empurrado da bicicleta numa situação de roubo, e foi atropelado por um caminhão. Morreu aos 18 anos. Tudo por uma bicicleta.

É necessário lembrar: quem interfere nos sistemas públicos, não importa se de saúde, transporte, moradia ou educação, acaba por gerar também efeitos no setor de segurança. Assim a sistemática de condomínios fomentou assaltos, a oferta de celulares de valores altos fomentou assaltos e por aí vai. Humanos sempre olham para o lado, e se sentem em desvantagem, reagem. Como os macaquinhos do vídeo acima. E se alguns viram nas bicicletas compartilhadas apenas formas de ganhar dinheiro, não reclamem depois dos seus efeitos. Mas, afinal, esse é um país onde ricos pagam poucos tributos. Mas gastam bastante em veículos blindados, seguranças…. Será que pararam pra fazer conta? Pois não se pode ter apenas o lado bom das coisas.

Esperemos pra ver o que virá. E claro, como sempre, ali no fim da linha azul do metrô , seja na Zona Norte, seja na Zona Sul, há praças, e nenhum bicicletário. São extremos, não interessa… Banco não olha…. Nem a Prefeitura…

Depois reclamam de vidraças quebradas. Assim são as coisas. Não há nada de novo debaixo do sol.

(E lembre, quem elogia esse sistema ou tá fora da realidade ou tá ganhando alguma coisa. Fique esperto.)

cicloativismo raiz. sem patrocínio, só trabalho voluntário, só doação de pobre pra pobre. Rua Jornalista Octávio Ribeiro, 100. visite se quiser ajudar. só pra tirar fotinho e posar de bonzinho, não precisa aparecer.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Anúncios

Uma resposta para “SÃO PAULO: BICICLETAS COMPARTILHADAS PRA QUEM?

  1. Pingback: Opnião: O novo Bike Sampa e o fim do compartilhamento de bikes em São Paulo – Rádio Sens | Rádio e Podcast independente, alternativa e colaborativa. 24h.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s