A BICICLETA CONTRA A BARBÁRIE, pra além da direita e da esquerda.

Nas democracias, há um limite a ser respeitado: o limite da barbárie, da brutalidade. Não há democracia se esse limite é cruzado.

Ignaz Schoupal (1921-2014) , na Tchecoslováquia, em data incerta. Uma das vitimas da II Guerra, veio ao Brasil. Tornou-se pai da ciclista Sofia. Bicicleta, o sonho da liberdade.

Imagine a cena: a mulher vê pela TV alguém que elogia o seu estuprador e torturador. E a pessoa que o elogia, o faz para atingi-la.

É algo suportável? Se você é mulher, ou não sendo mulher, você suporta isso como “liberdade de expressão”?Pois bem, pense: a liberdade de expressão pode ferir a dignidade? Nas democracias consolidadas não. Onde isso acontece, comumente a tal liberdade de expressão é, na verdade, liberdade de opressão, pois exercida apenas pelos membros dos grupos hegemônicos.

Se você não consegue entender por qual motivo uma camiseta onde se lê “100% negro” utilizada orgulhosamente por uma jovem negra, não é racismo, talvez você ainda não tenha entendido o que seja racismo.

um livro a ser lido. “O futuro das democracias: uma defesa das regras do jogo”

E aí talvez você tenha dificuldade de perceber como a lógica do trânsito é discriminatória.

Mostremos a ligação dos pontos.

A brutalidade, a barbárie, faz o discurso da força, pura e simples. É a negação da democracia, que se caracteriza pelo seguimento das regras do jogo. A barbárie passa por cima dessas regras. Impõe sua força.

Ora, para passar por cima, é preciso desconsiderar. Coisificar. Discriminar negativamente, negar humanidade.

Assim se escraviza. Assim se estupra. Assim se mata. Assim se agride.

O discurso pró carro, pró V8, pró retirada de ciclovias, é discurso de força. É o passar por cima de todos que não estejam na mesma situação.

Veja o caso dos v8, motores altamente poluentes, mas que alguns têm prazer em acelerar mesmo que isso implique em contribuir para mortes (lembrando números das pesquisas de Paulo Saldiva na FMUSP: 4.600 mortos ao ano em São Paulo por males causados ou agravados pela poluição que é em sua ampla maioria produzia por veículos automotores).

Para além dos v8: a retirada das pouquíssimas ciclovias em um desenho urbano que privilegia o carro, o que não e senão o exercício da força, a criação de condições para evitar que não motorizados diversos circulem?

não é preciso estar em maior número pra ser hegemônico. basta ser mais forte. E daí se pisa no resto.

A brutalidade, a força, dirige-se contra os grupos não hegemônicos. Pode ser contra ciclistas. Pode ser contra mulheres. Pode ser contra negros. Pode ser contra homossexuais. Pode ser contra pobres. Pode ser contra estrangeiros.

Agora voltemos à camiseta onde se lê “100% negro”. Ela não contém um discurso racista, pelo inverso! Seria racismo usar uma camiseta escrito “100% judeu” na Alemanha, no período em que aquela nação viveu sob o nazismo?

Assumir-se como negro num país onde a pirâmide social escurece à medida que chega na perto da base, onde as salas de aula embranquecem a cada avanço de série, ficando bem clarinhas no nível universitário, onde negros ganham salários bem menores que brancos, e são a maioria dos assassinados, é, antes de tudo, ato de coragem, e coragem de assumir a imagem que é historicamente desfavorecida, pra dizer o mínimo.

Acaso é sexismo a cota minúscula para candidatura de mulheres pelos partidos políticos? Num pais onde mais de 50% da população é feminina, o Congresso é esmagadoramente masculino. Não tem algo errado aí? Talvez devêssemos ter uma cota de 50% dos cargos do legislativo pra mulheres…. Pelo menos em matéria de gênero o Congresso Nacional nos representasse com mais legitimidade.

Mas muita gente confunde as coisas. Não entende que a cota pro menor não é discriminação, e precisa não ser um limite. Explico.

Adolf Hitler cria a primeira ciclovia. Mas não para proteger ciclistas, mas para triar os “fracos” ciclistas do caminho dos carros. Afinal, lembremos que ele era um grande entusiasta dos motores: fundou a Volkswagen, entre outras coisas. Seu discurso era da exceção, contrário aos direitos, e em nome duma certa supremacia branca eliminou milhões de pessoas.

Acima, o famoso discurso de Winston Churchill pregando a resistência a Hitler. Churchill, um grande nome do Partido Conservador inglês, de direita, era um defensor da luta contra a brutalidade, contra as práticas bárbaras dos regimes totalitários, dentre as quais, a tortura.

Pois nas democracias há direita e esquerda, mas não se admite discursos a favor de torturadores, contra negros, contra mulheres, e contra qualquer grupo não hegemônico. Por isso é preciso entender: Dória ou Alckmin são de direita. Já Bolsonaro, é a barbárie. Nesse sentido, favor ler essa notícia no site da BBC, a notável instituição jornalística inglesa.

E as bicicletas? É preciso lembrar: devem haver ciclovias, mas bicicletas devem poder circular por toda cidade. Ciclovia tem que ser refúgio, não campo de concentração. Proteção, e não prisão.

Quem grita: “Vai pra ciclovia!” pro ou pra ciclista que está na rua, está fazendo o discurso da barbárie.

Note,a relação entre o forte e o fraco é desigual. Aristóteles (384-322 aC.) em seu “Ética à Nicômaco” nota como a justiça é a rainha das virtudes, ao falar da caridade: o elemento central da caridade é doar. Mas só é caridade se temperada pela justiça: dar do maior ao menor, e não o menor dar ao maior.

Por isso, nos combates urbanos, há uma assimetria fenomenal: o carro que se joga pra cima do ciclista é opressão, e o ciclista que chuta a porta em retorno, é defesa. É a mesma lógica da camiseta…. Ou da cota pra mulheres nos partidos.

Lembre a questão da assimetria. Nas democracias, pŕncipalmente as nórdicas (Finlândia, Suécia, Noruega, Dinamarca, Islândia), as assimetrias são reconhecidas e se faz o possível pra serem diminuídas. Na barbárie, as assimetrias são reforçadas.

tem mais é que retomar o espaço ocupado pelos carros!

E assim como é esquizofrenia ser negro e nazi, é esquizofrenia pedalar e “bolsonarizar”. De boa, é bom ter uma certa coerência. E se informar melhor, pra não passar vergonha. Pois uma coisa é ser de direita, outra coisa é ser imbecil.

E a barbárie? ?Façamos como Churchill: “We shall go on to the end. We shall fight in France, we shall fight on the seas and oceans, we shall fight with growing confidence and growing strength in the air, we shall defend our island, whatever the cost may be. We shall fight on the beaches, we shall fight on the landing grounds, we shall fight in the fields and in the streets, we shall fight in the hills; we shall never surrender.”

Os nazis não passarão. Pedalemos pois. Pois bicicleta é civilização.

 

 

 

 

 

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3 Respostas para “A BICICLETA CONTRA A BARBÁRIE, pra além da direita e da esquerda.

  1. Obrigado pelo post esclarecedor. Seus textos estão entre os mais densos e bem escritos do que resta da Blogosfera.

  2. Palmas para o belo texto! Que crônica fantástica.

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