JESUS VOLTARÁ PEDALANDO, E GANHARÁ UMA GHOST BIKE.

Ghost Bike. a bicicleta pintada de branco e pendurada num local onde um ciclista morreu atropelado, para lembrar seu martírio.

Ghost Bike de um gari, em São Paulo, atropelado e morto enquanto pedalava em uma calçada. Foto de William Cruz. Clique na imagem.

Antes de tudo, saiba que eu sou um marrano. Um verdadeiro marrano. E como tal,  realmente a ciência está reabilitando algumas ideias de Jean-Baptiste de Lamarck, afirmando que fatores ambientais criam alguma forma de impressão genética que impacta descendências, Meus ancestrais convertidos à força ao cristianismo e mesmo assim perseguidos apenas por serem o que eram, legaram à minha geração na família essa desconfiança generalizada que eu, irmãos, primos, e as gerações anteriores, sempre tiveram com quem bateu no peito em nome de Jesus. Pois no passado em seguida logo apareciam pessoas carregando lenha para nos queimar, enquanto dividiam nossos parcos bens. Sim, falo da Inquisição, tanto na sua vertente católica quanto na sua vertente protestante.

Não posso dizer que eu seja exatamente ignorante, portanto não vejo nenhum problema na figura doce de Jesus. O problema está quem usa seu nome para mover guerras, para enriquecer, para matar, ou simplesmente faz uma leitura totalmente errada da noção da graça em Agostinho. Pessoas acham que a graça da qual fala Agostinho é alguma imunidade pra fazer qualquer besteira e mesmo assim adentrar os reinos dos céus. E não é nada disso que Agostinho escreveu.

Da mesma forma, não enxergo essa mesma doutrina nas 95 teses de Lutero. O que vejo é sim uma pregação em torno da ação amorosa, não da compra de graças doando dinheiro pra igrejas diversas, seguindo líderes religiosos que parecem dizer: “Jesus e o caminho e eu sou o pedágio.” É nesse sentido que seleciono 3 das 95 teses que Lutero publicou em 1517, citadas daqui:

31 Tão raro como quem é penitente de verdade é quem adquire autenticamente as indulgências, ou seja, é raríssimo..

43 Deve-se ensinar aos cristãos que, dando ao pobre ou emprestando ao necessitado, procedem melhor do que se comprassem indulgências.

44 Ocorre que através da obra de amor cresce o amor e a pessoa se torna melhor, ao passo que com as indulgências ela não se torna melhor, mas apenas mais livre da pena.

Mas o brasileiro adora a falsa doutrina da graça. A doutrina que diz que ele está salvo e a prova disso é seu progresso, representado pela posse de um carro. Em nome de si, de suas prioridades, passa por vima dos que estão em vulnerabilidade.

Vulnerabilidade é estado transitório. Uns permanecem nesse estado muito tempo, outros apenas ao sair à rua. Brasileiro sabe que sair à pé exige que esteja no seu espaço de territorialidade para ter um mínimo, mínimo mesmo, de segurança: suas calçadas.

Mas e quem está numa bicicleta? Há anos digo, repito (e já fui repetido por um prefeito) que ciclista é o “sem terra” do trânsito. O desterritorializado. Aquele que não deve circular na calçada e no asfalto é espremido por ônibus, carros e motos, vale dizer por todos os motorizados. Os que se acham dotados da graça, não importa qual seja.

E, como tal, acham que podem tudo. No limite, matam. Matam por qualquer motivo. Matam pois dirigem bêbados, pois dirigem de forma a terem a carteira de motorista cassada e continuam a dirigir assim. Dirigem falando no celular. Dirigem achando que têm preferência no trânsito.

Veja o vídeo abaixo:

Conseguiu entender a história? Raul Aragão, ativista de Brasília, foi atropelado no sábado passado, no dia 21/10, e faleceu no dia 22. Hoje à tarde, voltando do velório, o grupo de ciclistas amigos de Raul foram agredidos por um motorista.

Na sexta-feira, dois jovens de 17 anos, voltando da escola onde estudavam em suas bicicletas, foram atropelados e mortos na Zona Sul de São Paulo por um motorista bêbado. A notícia está aqui.

Na Bahia, em Teixeira de Freitas, o publicitário Derik Lira foi atropelado com dois colegas. Morreu recebendo socorro médico. Foi nessa noite de ontem, 23 de outubro. Velório agora à tarde. Notícia aqui.

Pois bem. Minha amiga Julie foi morta na Av Paulista gritando “Olha eu aqui!”, em 2012.  Meu amigo Igor foi morto em 2013 num assalto: derrubaram-no da bike de cromo pra levá-la. Caiu na pista e um caminhão pegou-o. Saíram os ladrões rindo.

Em agosto de 2004 minha prima estava num táxi que foi atingido pelo carro particular dirigido por  um bêbado casado e com filhos que carregava prostitutas. E assim meu tio enterrou a filha no Dia dos Pais.

O fato é que nós que estamos em nossas bicicletas, sem atrapalhar a cidade com barulho, sem poluir ar ao nos deslocarmos, sem lotar ônibus, metrôs ou trens, sem congestionar as vias, somos um nada.

Aqui em São Paulo, quando um prefeito resolveu fazer algumas obras que nos protegessem até o Ministério Público agiu contra. Não esquecemos que a promotora Camila Mansur preferia nos ver mortos a ver uma faixa vermelha na Av. Paulista.

E o atual prefeito se elegeu com a bandeira de nos tirar as tímidas proteções dadas pelas ciclofaixas pintadas no asfalto.

Se pedalo na minha minha reclinada sou tachado de palhaço, se pedalo numa bicicleta comum, acontece o que aconteceu ontem enquanto eu pedalava – a caminho do trabalho e dele voltando – na Av. Salim Farah Maluf, na Zona Leste de São Paulo.

Eu sinceramente não entendo esse mundo. Ou até entendo. Afinal, Num país onde o presidente protege escravizadores e abandona escravizados, um senador que é gravado aventando a hipótese de assassinar um primo, um prefeito pretende dar ração animal para pobres, onde transexuais e homossexuais são mortos nas ruas, traficantes se dizem evangélicos e ameaçam mães de santo, e claro, motoristas podem matar adoidado ficando impunes ou quase, e assassinos de ciclistas ficam impunes, a realidade não poderia ser diferente.

Pois os que mataram meu amigo Igor não foram sequer identificados. O motorista que derrubou minha amiga Julie não foi processado. O assassino de minha prima, inicialmente condenado como homicida doloso, em recurso teve seu crime recaracterizado como culposo e sua condenação baixou pra pouco mais de 2 anos, cumpridos em sursis…. Livre.

Nesse país, se a doce figura de Jesus, de fato voltar, a se ler pelos relatos de seus contemporâneos, voltará pedalando, ele que adentrou Jerusalém não numa biga, num carroção, num cavalo… Mas num burrico.

Voltará pedalando ao lado dos mais vulneráveis, pedalando entre travestis. E sofrerá novo martírio, pelas mãos dum motorista bêbado, dum ladrão insensível, com os aplausos de toda uma população.

E então uns poucos ciclistas pintarão sua bicicleta de branco e a pendurarão num poste. Para que não muito tempo depois a ordem pública  remova-a e a jogue no lixo, para que, ao final, ninguém seja salvo.


Só há dois líderes religiosos cristãos com quem converso. Gildeão e Flávio. Um teve o pai ciclista morto num atropelamento. Outro de vez em quando leva o filho pra pedalar.  Só esses dois não agitam meus genes, pois gato escaldado tem medo de água fria, cachorro mordido de cobra tem medo de linguiça. De resto, há muita gente em nome de Deus ou não agitando chaves de carros: todos os que saem de concessionárias felizes. Os modernos fariseus. Os semeadores da morte. Os que não estão nem aí pra que ali no canto pedala sua bicicleta.

 

 

 

4 Respostas para “JESUS VOLTARÁ PEDALANDO, E GANHARÁ UMA GHOST BIKE.

  1. “E como tal, se realmente a ciência está reabilitando algumas ideias de Jean-Baptiste de Lamarck”

    Jean Piaget, aos 12 anos de idade, já havia mostrado isso com seus experimentos sobre reprodução de moluscos no lago de Neuchatel…

  2. Com este post, Odir completou seu retrocesso do Positivismo ao Iluminismo e deste para a Patrística desabrida.

    No processo pulou e ignorou Baruch Spinoza (que alias zanzou meia Europa pra evitar ao mesmo tempo ser marrano e judeu – e de nascença Português sob unificação ibérica, involuntariamente contra-sebastianista) e São Tomás de Aquino, Beato Hugo de São Vitor e Abelardo de Paris.

    e por falar em sebastianismo, seu post tá pra lá de sebastianista…

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