RECLINADAS: GEOMETRIAS

atendendo a demanda dum colega ciclista, uma pequena descrição das variações das geometrias de bicicletas reclinadas.

no PBP-2015: low racer, tração dianteira. alguma dúvida acerca do conforto e velocidade dessa bicicleta?

bicicletas reclinadas têm variações gigantescas de geometrias. muito mais que as bicicletas com quadro diamante (“diamond frame”, DF), que são o padrão das bicicletas de montar, comuns.

isso deixa muita gente confusa, então vamos mostrar um pouco essa variação.

primeiro vamos falar das bicicletas de tração traseira, não importando a posição do guidão, já explorada no post anterior, que pode ser lido aqui.

I – RECLINADAS DE ENTRE-EIXOS LONGO (LWB)

as mais antigas reclinadas, todas, tinham entre-eixos longos. por isso são conhecidíssimas lá fora, pela sigla LWB (long wheel base). elas tem a roda dianteira bem à frente da posição da pedivela. às vezes usam roda dianteira grande, do mesmo diâmetro que a roda traseira, e têm um raio de curva grande.

Tour Easy Classic da Easy Racers.

são muito estáveis, e muita gente adora viajar com essas bicicletas, que permitem uma posição confortável, com a pedivela mais baixa que o banco, e mesmo assim mantendo a aerodinâmica.

Rans X-stream. essa foto é de um dos competidos que na equipe de 4 venceu em primeiro lugar a Race Across America em 2009.

sendo assim tão longas, não são muito ágeis para curvas no trânsito, e claro,  meio trambolhudas para guardar e transportar. e sua montagem pede cabos e conduítes longos, nem sempre facilmente encontráveis, quando se monta com guidões por cima. com guidões por baixo o problema de cabos e conduítes é resolvido.

Zöhrer Capoeira, montada com guidão por baixo.

 

II – RECLINADAS DE ENTRE-EIXOS CURTO – SWB

são reclinadas com a pedivela posicionada à frente da roda dianteira. isso torna o entre-eixos curto (em inglês, short wheel base – SWB), o que a torna muito ágil em curvas. por outro lado, acaba implicando numa posição de pedivela mais alta e, dependendo da geometria, corrente passando ao lado da roda dianteira.

Zöhrer Racer Sport. 26X26, com guidão open cockpit.

costumam ser mais leves, com quadros mais rígidos. em razão da posição mais alta da pedivela, usam bancos mais inclinados para trás, fazendo com que muitas sem muito aerodinâmicas. mas com menor entre-eixos, são menos confortáveis que as LWB. dada a posição mais reclinada do banco, muitas exigem o uso de retrovisores.

Zöhrer Under Control, guidão em U, por baixo.

são mais curtas, portanto mais fáceis de carregar e transportar. mas mais propensas – dependendo do desenho do quadro –  a interferências dos calcanhares nas rodas. não permite ver onde a roda dianteira está passando.

Solyom Fox. entre-eixos bem curto.

praticamente todas têm direção direta, dispensando varetas ou cabos. algumas possuem desenho bem simples, sendo normalmente as preferidas para fabricação caseira ou artesanal.

Solyom Fly, com guidão esquilo. essa bicicleta é bem rápida.

quando dotadas de guidão por baixo, costumam ter o visual considerado mais “radical” ou mais incomum.

algumas possuem uma distribuição de peso que joga bastante peso sobre a roda dianteira, sendo que ficam muito estáveis com alforjes atrás. assim se tornam bem estáveis em cicloturismo.

III – RECLINADAS COM ENTRE-EIXOS LONGO COMPACTO – CLWB

essas bicicletas derivam das LWB, adotando a mesma geometria básica: pedivela atrás da roda dianteira, todavia, muito mais próxima da roda. assim, usam rodas dianteiras menores para diminuir a interferência da pedalada na roda dianteira, nas curvas.

uma CLWB full suspension da Cannondale, nãomais em produção.

são as reclinadas mais fáceis de se aprender a pedalar, e já foram as mais populares nos EUA, tendo perdido o mercado apenas quando os triciclos – trkes! – se tornaram mais populares. no Brasil são de longe as reclinadas mas comuns, dada a alta produção em série da Zöhrer, do modelo EXD, em alumínio. eu tenho uma e adoro pedalar nessa bicicleta.

Bacchetta CLWB de 2007.

elas tem o mesmo problema de cabos das LWB: exigem cabos e conduítes longos para freio e câmbio traseiros, quando usam guidão por cima.

Minha Zöhrer EXD Turismo, 26×20. na sua parte inferior pode receber alforjes para dois pares de alforjes traseiros, fora a possibilidade de carregar mais coisa num bagageiro traseiro.

algumas dessas bicicletas são bem compactas, usando duas rodas de aro 20 ou mesmo roda traseira de aro 20 e dianteira de aro 16.

Solyom Hope, 20×16, com suspensão traseira.

IV – RECLINADAS DE TRAÇÃO DIANTEIRA

reclinadas de tração dianteira possuem 3 tipos principais.

reclinadas com sistema de corrente torcida ou de flexão de corrente, em que a caixa da pedivela é fixa e a corrente torce quanto o garfo vira pra esquerda ou pra direita.

ZOX 26. note o garfo em vermelho e o sistema de roldanas.

é o sistema utilizado pelas alemãs ZOX e pelas bicicletas de tração dianteira da brasileira  Zöhrer.

Zöhrer mini FWD. rodas pequenas, aro 20, deixaram a bicicleta bem compacta e fácil de transportar. com guidão open cockpit.

uma segunda forma de se montar reclinadas com tração dianteira é construir com o movimento central móvel (em inglês, moving botton bracket, MBB). deriva dos kits desenvolvidos pela Cruzbikes, que eram kits para transformar bicicletas comuns, DFs, em reclinadas.

MTB full suspension infantil convertida com kit Cruzbike.

como tempo, a Cruzbike foi montando bicicletas próprias e hoje não vende mais kits.

Maria Parker em sua Cruzbike Vendetta, vencedora da RAAM em 2013.

muitas reclinadas de fabricação artesanal usam esse sistema. um exemplo é Daniel Uram, do Rio de Janeiro, que usou uma bicicleta de fabricação sua usando esse sistema para percorrer o Paris-Brest-Paris (1200 km!!!) em 2015.

foto de respeito. radonneur deve ser um ciclista completo, capaz de pedalar bastante e fazer a manutenção e os consertos de sua própria bicicleta. Uram foi além: fabricou a sua. máximo respeito! modelo: Speed D6

a terceira forma de montar bicicletas com tração dianteira é usar o sistema de quadro articulado.

Flevo 20 x 20

nesse sistema, o quadro dobra, normalmente com a articulação embaixo do banco.

Python, de fabricação artesanal. acima da seta vermelha, o ponto onde o quadro articula. o tamanho da rod =a dianteira é determinado no projeto de acordo com o tamanho das pernas do ciclista, uma vez que a roda dianteira estará entre as pernas do ciclista.

essas bicicletas são consideradas difíceis de se aprender a andar. mas quem aprende gosta muito.


a se notar que esses são apenas os tipos principais de geometrias de bicicletas reclinadas, havendo subdivisões não exploradas nesse texto. exemplo é a divisão entre as “racers”, bicicletas focadas em velocidade, muitas usadas em brevets, que costumam ser divididas em “high racers” (normalmente SWB), “medium racers” (normalmente LWB) e “low racers” (normalmente SWB e às vezes com tração dianteira com sistema de flexão de corrente).

afora todas essas variações, há triciclos, quadriciclos e etc. mas sempre algo em comum: muito conforto. e quase sempre aerodinâmica superior a bicicletas comuns. afinal, por isso, foram banidas pela UCI em 1934. muito avançadas para os dirigentes da UCI, até hoje.

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links para dois fabricantes brasileiros em atividade, com os quais você pode inclusive encomendar bicicletas sob medida.

ZÖHRER

modelos em alumínio e aço. grande variedade de geometrias.

SOLYOM

bicicletas em aço, grande variedade de modelos.

se quiser fazer a sua reclinada, a ATOMIC ZOMBIE vende projetos de inúmeros modelos. compre o planinho, os tubos de aço, pegue a serra e a máquina de solda e divirta-se. e para ter ideia doque tem lá, veja o videozinho abaixo de uma LWB com guidão por baixo e suspensão traseira. acho que é a versão ciclística daqueles carros antigos, Galaxie, Landau….hehe

 

 

 

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