ROUBOS DE BICICLETAS: um grande obstáculo à expansão do seu uso como transporte

roubos, e não furtos, podem competir com a violência no trânsito como obstáculo à adoção do modal como transporte em São Paulo. e isso pois os mais atingido são da classe C , D e E.

caso raro: bicicleta roubada na Ciclovia do Rio Pinheiros recuperada pela Plícia de São Paulo.

caso raro: bicicleta roubada na Ciclovia do Rio Pinheiros recuperada pela Plícia de São Paulo.

Pesquisa da Associação Ciclocidade apontou que 57% dos usuários de bicicleta como transporte são das classes E, D e C, sendo que 40% dos usuários ganha até 2 salários mínimos. Veja mais dados no vídeo abaixo da Renata Falzoni.

Ora, qual o perfil desse tipo de usuário de bicicleta, e que compõe a maioria dos que sofrem furtos e roubos de seu veículo?

Informa o jornal “O Estado de São Paulo” que uma bicicleta é furtada ou roubada a cada meia hora no Município. O link da matéria está aqui – e abra em aba anônima para poder ler.

Pois o perfil daquele que tem sua bicicleta subtraída é em grande parte das classes C, D e E. Afinal, as bicicletas que são furtadas ou roubadas raramente custam, quando novas, mais do que 3 ou 4 mil reais, e constituem o objeto de desejo, no caso destas que atingem esse preço, dos membros das classes C, D e E.

As bicicletas tem uma característica muito diferente dos carros. Uma bicicleta de competição de nível profissional está em torno de 20 a 50 mil reais. Esse é um valor que pode ser conseguido por um membro da classe D, e Celso Anderson, um dos proprietários da loja Anderson Bicicletas, mas também comentarista de competições ciclísticas em canais a cabo, cansou de relatar em transmissões das grandes voltas que é comum chegar a pessoa simples, com o dinheiro guardado na meia, e pagar à vista uma bicicleta cara, muito cara, não raro do mesmo modelo usado por um campeão internacional.

Pois nenhum motorista pode chegar à uma concessionária e comprar um carro de Fórmula 1 igual ao de um campeão mundial da modalidade. Mas em comunidades e grupos  de compra e venda de bicicletas e peças nas redes sociais, é visível a quantidade de suspensões que custam 5 mil reais, quadros que custam 8 mil reais, rodas que custam mais de 1 mil reais, sendo vendidas e compradas por pessoas que não chegaram à classe C.

É fato, quem gosta de bicicleta no Brasil, com raras exceções, não é o mais rico. Mas em todo bairro tem a galera do pedal, do passeio noturno, dos que pedalam aos domingos, dos que usam a bicicleta para trabalhar, e, como indica a pesquisa do vídeo lá em cima, em sua grande maioria, fazendo trajetos acima de 5 km.

Classes A e B usam outros modais. a classe B em seus carros blindados, a classe A em seus helicópteros. Sim, essas pessoas não encontramos na rua.

Classes C e D sempre ostentam seu poder de compra. Classe E, se puder, também ostentará.

A ostentação é da cultura do brasileiro, há séculos. Não à toa as teologias e ideologias da ostentação, do sucesso não derivado do esforço, mas da sorte, da esperteza, do talento nato, da graça divina, ou da força, são valorizadas. Da teologia do sucesso aos programas de prêmios na TV (reality shows como o BBB, programas que “ajudam” pessoas – explorando sua imagem aproveitando para fazer marketing de produtos, entre outros), todos valorizam a ostentação  desligada do processo de obtenção do bem. Não é por acaso que sempre se atribui à divindade o sucesso na obtenção de um bem. Seja que divindade for.

Todos ostentam. Quem joga futebol de salão ou de campo todo final de semana ostenta sua chuteira. Quem frequenta determinadas igrejas ostenta ternos e carros. Até o corpo é objeto de ostentação, pois quantos não usam fotinhos de pessoas com aparência alterada por plásticas tentando comprovar que feiura é apenas sinal de pobreza, pois plá$tic$ tudo resolvem?

revista Veja, publicidade, merchandising e outras formas de tornar voc?ê menos feliz.

revista Veja, publicidade, merchandising e outras formas de tornar voc?ê menos feliz.

Lembremos, esse é um país de falsos doutores. mais do que verdadeiros.

Mas a arapuca da ostentação, no caso das bicicletas, se mescla às diferenças de poder de compra, do gosto por um equipamento um pouquinho melhor e etc.

Um coleguinha, de classe não muito alta, mas viajante inveterado, daqueles que dão a volta ao mundo com 10 reais, em viagem à Europa comprou usada, muito barato, uma bicicleta com rodas aro 28 (aqui 29 ou 700c, escolha a nomenclatura que quiser) , com peças Shimano Alívio e um dínamo garrafinha preso à roda traseira. Pagou menos que a Caloi de quadro de aço que usa antes. Num dos locais onde ficou hospedado na Europa por couch surfing. os moradores da casa questionaram o seu entusiasmo pela compra daquela bicicleta. E ele gastou um tempo explicando que, no Brasil, o grupo Shimano Alívio não é o mais barato disponível da linha, e era usado pela classe média… Os rapazes europeus, com suas bicicletas full Campagnolo Record, não entenderam, pois lá um grupo Shimano Alívio é o mínimo que se instale numa bicicleta.

Já a ladroagem de bicicleta, também não entende do assunto. Convenhamos, ladrão de bicicleta não é nem de longe a elite da bandidagem. É pé de chinelo por excelência. Pode saber desta ou daquela marca, mas rouba bicicletas….

E também tem como vítima classes C, D e E, e ao contrário de celulares e carteiras, esse ladrão subtrai um bem com o qual o dono tem uma relação toda especial. Afinal, não à toa pessoas dão nomes próprios às suas bicicletas. Não fazem isso com celulares, mas com bicicletas sim.

Ladrão de bicicleta talvez por isso seja o ladrão mais odiado nas grandes cidades. Não é incomum que quando pegos sejam linchados, uma vez que há pelo  menos 1 linchamento por dia no Brasil. Nesse sentido, é importante ler essa entrevista do sociólogo José de Souza Martins. Destaco uma frase sua, na entrevista, sobre a causa dos linchamentos:

“As instituições não funcionam. A Justiça é morosa, é cara, é complicada, é lenta. Você não vai discutir a legalidade do linchamento em um grupo que viu uma criança estuprada por um adulto. Ninguém vai esperar um processo porque já está convencida de quem cometeu o crime. A instituição judiciária no Brasil sempre foi um luxo para quem pode pagar um advogado, para quem conhece as regras. Nós temos duas sociedades, uma que segue as regras do estabelecido e outra que não as segue porque não concorda com elas.”

É uma questão de tempo para que aconteça um linchamento, ou uma agressão grave, a algum desses ladrõezinhos de bicicleta em São Paulo. Dado que o uso da bicicleta aumenta mas também amentam os roubos, dado o fato de que as pessoas se apegam a esse bem, dado o fato que já há grupos de “vigilantes” dos locais de roubo falando em pegar e agredir os ladrões, e haja ciclista que já esteja portando alguma forma de arma própria ou imprópria.

Pois lembremos. As classes E, D e C, no Brasil, não são exatamente cultoras dos direitos humanos, o que dirá dos direitos dos acusados criminalmente. É comum que defendam pena de morte, e quando ocorrem chacinas, exultam ao saber que o morto possui alguma “passagem”. Uma parcela considerável da população brasileira vê as mortes de presos com uma certa satisfação, e quantos, nos últimos dias em que facções digladiavam-se em presídios Norte e do Nordeste, não queriam que se fechassem as portas e deixassem se matar mutuamente os presos, até que todos estivessem mortos?

Sim, o grosso da população defende com veemência a violência contra criminosos, e por isso votam e querem votar em candidatos populistas que  defendem medidas inconstitucionais como pena de morte, ou simplesmente mais policiamento e mais violência policial.

Ora, desse caldo, o que se pode esperar, diante da recorrente ineficiência do Governo do Estado de São Paulo em manter a segurança par aseus cidadãos? Lembremos, há anos não se abrem concursos para delegados em São Paulo. Durante a noite, de cada três delegacias, duas fecham e a terceira responde pela área das três. Diante da incapacidade do Governo do Estado de São Paulo, acusado inclusive de fazer acordos com facções criminosas, conforme essa notícia, é até estranho que até agora não tenha surgido algum caso de violência brutal ao se pegar um ladrão em flagrante.

É uma questão de tempo, ante a ineficiência do Governo do Estado. E eu só sei duma coisa: quero estar bem longe quando isso acontecer.


Post Scriptum: para alguns, a reclamação dos ciclistas é mero mimimimi. Mas esse é um dos fatores que inibem o uso da bicicleta como meio de transporte. E também aumenta muito o ódio à ladroagem. Lembrando que o ato de violência é antecipado pela desumanização do outro. Assim como o ladrão não vê a vítima como gente, como humano igual, é natural que a vítima do crime violento tenha a mesma reação. É o ódio mútuo, que aprofunda as fendas sociais até o limite da grande violência.

 

 

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2 Respostas para “ROUBOS DE BICICLETAS: um grande obstáculo à expansão do seu uso como transporte

  1. Eduardo Lourenço Pinto Jr

    Faz muito tempo… Foi no dia 11 de setembro de 2001 pra ser mais exato… Eu fui a São Paulo e entre meus afazeres, comprei um quadro Alfameq Tirreno para montar uma bicicleta para meu filho mais velho, que à época completava DEZ ANOS de idade… Guardei a data, pois foi exatamente no dia do atentado ao World Trade Center…

    Levei dois anos para montar a bicicleta, pois o dinheiro não tava sobrando e eu tinha dois objetivos:

    – Montar uma bicicleta com material da melhor qualidade possível
    – Ensinar um pouco de mecânica ciclística para meu filho

    A bicicleta ficou pronta e no ano de 2009, meu filho entrou na faculdade e foi estudar em outra cidade (São Carlos – SP)… A bicicleta, obviamente foi junto com ele. No dia 02 de maio de 2011 (coincidência ou não, foi o dia da morte de Osama Bin Laden…), meu filho foi assaltado e levaram sua bicicleta…

    Dois dias após, a polícia prendeu o meliante e uma foto da bicicleta foi inclusive publicada num jornal da cidade…

    Aí começou a enrolação… Cada dia que meu filho ia à polícia, era uma nova desculpa para não liberarem… Um mês depois, disseram a ele que HAVIAM DEVOLVIDO A BICICLETA AO CRIMINOSO (que já havia sido solto), pois este alegou que a bicicleta lhe pertencia…

    Na verdade, sabemos que a bicicleta não foi devolvida… Alguém na polícia, viu, gostou e resolveu “ganhar de presente”…

    Nessas horas, só acredito em Deus… O que vem de seres humanos, seja de que lado estiverem das grades, não me inspira confiança…

  2. Quem gasta tempo, paciência, dinheiro e tem afeto por ter montado peça por peça a própria bike para depois, numa manhã de domingo, uns “não humanos” a tomarem a tapas… eu sou do tipo que se encontro esse bandido, e se possível, além de linchar, a vontade é jogar do alto da ponte no rio pinheiros.

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