EVOLUÇÃO DAS BICICLETAS: o caminho é reclinado

elas surgiram junto com as bicicletas de quadro diamante. todas derivadas da bicicleta de segurança. vetadas pela UCI, seguiram seu caminho e hoje apontam os caminhos do futuro, queira a UCI ou não.

evolução das geometrias.

evolução das geometrias.

Assim: imagine um veículo fechado, com duas pessoas, e a alguma carga. Não é um carro. Nem tampouco uma bicicleta. É um veículo híbrido, usando motores elétricos e pedais. Veja o vídeo abaixo, até o final, e perceba a carga que ele carrega:

É o Zeppelin, veículo híbrido. mas a se notar a posição dos pedais: à frente de onde se senta, e não abaixo. Esse detalhe é importante.

Usando os pedais à frente, obviamente não usamos a musculatura superior para pedalar. Todavia, as costas são apoiadas. Permite-se assim fazer força o suficiente até para estourar os joelhos, se se quiser.

Um segundo fator: na bicicleta comum, estamos montados. Isso significa que estamos apoiados nos ísquios. E a posição mais à frente, mais aerodinâmica, é condicionada pela posição dos ísquios: quanto menor a distância entre eles, mais fácil inclinar-se para frente sobre o selim.

Mas pedalando-se sentado esse fator é irrelevante. Ou seja, essa diferença anatômica entre as pessoas desaparece.

O segundo fator é a posição aerodinâmica. Numa bicicleta comum, a 30 km/h, o gasto energético do ciclista é de 60% a 80% direcionado a vencer a resistência do ar.

Se olhar a tabela abaixo, chamo a atenção par a acoluna que mostra o percentual de força necessário para andar a 20 MPH. O padrão é a bicicleta de cicloturismo: todas as demais são comparadas de acordo com o X de força que se usa para uma bicicleta européia de cicloturismo andar a 20 milhas por hora. Algumas bicicletas exigem mais esforço. Mas entre as reclinadas, referenciadas na tabela como HPV (Human Powered Vehicle), temos os menores percentuais.

clique na imagem.

clique na imagem.

Ora, inobstante a UCI tenha tornado as reclinadas ilegais para suas corridas em 1934, essa tecnologia evoluiu por fora.

Na tabela abaixo, a linha em azul mostra a evolução do recorde da hora em velódromo reconhecido atualmente pela UCI. Em verde, os recordes  que a UCI tornou ilegais posteriormente, como o recorde de Graeme Obree. E em vermelho, a evolução das reclinadas no recorde da hora.

hour-record

O atual recorde da hora, pelas regras da UCI, é de 2015, de Bradley Wiggins, que percorreu 54.526m. Pela IHPVA, em 2009, Sam Whittingham, percorreu 90.600m em uma hora.

Bicicleta Varna Tempest. Carenada, com tração dianteira. Pilotada por Sam Whittingham.

Bicicleta Varna Tempest. Carenada, com tração dianteira. Pilotada por Sam Whittingham.

É outro mundo? Sim, são outras concepções. Quando se coloca um ciclista treinado e adaptado em uma reclinada, ele pedalar muito mais rápido. Se os ciclistas não profissionais que estão batendo esses recordes tivessem a assessoria que os ciclistas profissionais possuem, esses recordes seriam ainda maiores.

Trata-se da eficiência aerodinâmica: quanto menor o perfil, mais aerodinâmico. Mas claro, não precisamos no cotidiano de veículos como a Varna Tempest, que exige um certo cuidado ao se adentrar.

O ciclista deitado, os pedais à frente da roda dianteira, que é a roda que possui tração.

O ciclista deitado, os pedais à frente da roda dianteira, que é a roda que possui tração.

Aerodinâmica e conforto, simultaneamente? Apenas reclinadas podem fornecer. E não é de hoje.

Horizontal Bicyclette Normale. M Challand, 1986

Horizontal Bicyclette Normale. M Challand, 1986

Mas sua produção aumentou nos anos 1930, foram esquecidas nos anos 1940 em diante, até o ressurgimento nos anos 1970. Em 1976, fundada a International Human Powered Vehicle Association, hoje World Human Powered Vehicle Association.

Hoje, pela WHPVA, o recorde da hora está em 91,556m. Batido em 2 de agosto de 2011, pelo suíço Francesco Russo. Sim, mais de 90 km rodados em uma hora!

Frqncesco Russo em sua Eiviestretto. Clique na foto para ler mais.

Frqncesco Russo em sua Eiviestretto. Clique na foto para ler mais.

Ora, para o dia a dia pessoas usam outros veículos. Velomobiles, triciclos reclinados carenados, fazem sucesso entre reclineiros em climas mais frios.

Mas nos climas mais quentes, como no Brasil (frio aqui é raro, nunca neva a não ser na Serra Catarinense, mas mesmo assim é neve esporádica) , carenagens, se usadas, apenas para melhorar a aerodinâmica, não para proteger do frio.

Reclinadas são democráticas, mas de outra forma. Se por um acaso muitas são de fabricação artesanal, com muita gente ao redor do mundo fazendo sua própria bicicleta, por outro lado, não é todo mundo que se equilibra numa reclinada de duas rodas. Ou seja, não é o dinheiro que determina o acesso a elas, mas o conhecimento, a abertura da mente a outras possibilidades, e a capacidade de equilíbrio, no caso das reclinadas de duas rodas. No caso dos triciclos, isso não é necessário, mas sempre é necessário adaptar a musculatura.

Usar uma reclinada no Brasil significa fazer um imenso sucesso entre alguns grupos da sociedade, como pessoas em situação de rua, mas receber o desprezo de outras. Andando com a minha por São Paulo, converso com lixeiros e ciclistas usando capacetes raramente retribuem meu cumprimento. No trajeto de ontem, por exemplo, nenhum outro ciclista me cumprimentou. Mas tive conversas ótimas no trânsito com motoristas de ônibus, vendedores ambulantes, catadores de material reciclável e etc. Se um ciclista me cumprimenta, é meu amigo, com certeza.  (E uma amiga veio há algum tempo me dar um toque: a reclinada me deixa barrigudo… E eu só ri.).

Mas, no exterior, como no videozinho que postei lá em cima, seguem os estudos e experimentos da indústria sobre esses veículos. Se, no Brasil, isso é visto como bicicleta de maluco, na Alemanha já há há muito tempo uma feira dedicada a esses veículos, a Spezi – Spezialrad Messe. O mundo das reclinadas é o mundo onde todos pedalam. Pois handcycles também são reclinadas, normalmente com 3 rodas, triciclos.  E triciclos reclinados também são usados, por exemplo, por pessoas com alguma deficiência, ou mesmo nenhuma deficiência. Trikes não exigem equilíbrio, e são bem aerodinâmicos.

Paul Pitchard, um grande montanhista, hemiplégico após um acidente, em seu trike pelo Himalaia. Clique na foto e leia uma entrevista com ele e veja mais fotos.

Paul Pitchard, um grande montanhista, hemiplégico após um acidente, em seu trike pelo Himalaia. Clique na foto e leia uma entrevista com ele e veja mais fotos.

Cicloturistas descobrem reclinadas, engenheiros que projetam veículos híbridos, pessoas com alguma deficiência (como eu), e gente com mente mais aberta também as testa.

No ritmo em que estão crescendo as vendas de triciclos reclinados no exterior, se percebe uma tendência. Ainda mais quando se vê a quantidade de gente que os conjuga com motores auxiliares elétricos, pra tornar a pedalada mais leve.

Mas não nos enganemos: nunca serão a maioria das bicicletas, inobstante suas vantagens, pois a indústria tem outros interesses.

Quer uma prova? O melhor nó pra amarrar os sapatos é o nó direito com alças. simples e funcional. Mas 99% das pessoas ao redor do mundo usam o nó cego com alças, que fica torto e se solta. E a indústria então vende soluções: calçados com velcro, com outras formas de prender os cadarços e etc. Afinal, aprender a dar o nó correto não custa, portanto não vende a novidade. E se todos usassem Linux, não seriam necessárias as vacinas anti-vírus e Bill Gates também não seria um biliardário.

É. o mundo sem bicicletas é  o mundo analógico. As bicicletas, o mundo digital. As bicicletas comuns, Windows. A mais caras, Mac Os. Reclinadas? Linux. Outro mundo, outras linguagens, sem o glamour da maçã ou as janelinhas por onde entram vírus.

E como Linux, difíceis de usar, tem que reaprender coisas, é coisa de velho,de brega e não sobem morros e blablabla… Mas pra quem aprendeu a usar… Sorry, o futuro é reclinado. Ah sim, aparece a barriga… Né? E isso é tão importante….

 

 

 

 

 

Anúncios

11 Respostas para “EVOLUÇÃO DAS BICICLETAS: o caminho é reclinado

  1. Eduardo Lourenço Pinto Jr

    O problema das reclinadas, nem é a pseudo-dificuldade de subidas… O problema é o irritante atrevimento de contestar o “status quo”…

    Aqui em minha cidade, há um encontro semanal de ciclistas para um pedal leve de final de tarde em trajeto exclusivamente urbano… É uma pequena legião de ciclistas com suas bicicletas na quase totalidade MTB`s, full-suspension, 29er e coloridas “roupas ciclísticas” rigorosamente na moda…

    Aí eu entro na troupe, de camiseta velha (e furada) e calção mais velho ainda (ambos de fibra de algodão, pois num país como o Brasil, vestir polímero elastano é um quase-suicídio…) com minha Biomega Amsterdam “sem marchas” (na verdade tem OITO marchas bem escondidas dentro do cubo traseiro…) e sem corrente…

    Me sinto vestido com o manto da invisibilidade… E minha bicicleta, nem é reclinada…

    • ligue o f….-se. no meu caso meu ombro não permite usar outra bicicleta mais. então, uso uma reclinada, com a plaquinha de pessoa com deficiência, e mando se danar o desprezo alheio.

      • Eduardo Lourenço Pinto Jr

        O f…-se é a tecla mais inteligente já inventada pelo ser humano…

        O dermatologista me mandou usar protetor solar na careca… Eu ligo a tecla f…-se e uso chapéu no meu dia-a-dia, independente de onde esteja…

        Todo mundo escreve com caneta esferográfica (o que sempre me deu dor na mão…). Eu ligo a tecla f…-se e uso caneta tinteiro, que além de não doer a mão, não é descartável…

        Todo mundo gosta da extrema precisão dos relógios quartz (não sei pra que, se a maioria é impontual…). Eu ligo a tecla f…-se e uso relógio a corda manual… E de bolso…

        Morro de rir com as propagandas de cartuchos triplos de lâminas de barbear… Caros e descartáveis… Também liguei a tecla f…-se e me barbeio com a velha e boa navalha…

        Adivinha se com bicicleta eu faço diferente…

  2. A ideia das reclinadas me agrada,tenho muita vontade de construir uma para mim.

    Mas tenho algumas dúvidas:

    – Como é andar com elas no trânsito? Uma das vantagens da bike “normal” é que vc fica mais alto que os carros e tem uma grande visibilidade, ficando mais embaixo é mais difícil?

    – Ela é ágil para mudar de direção, desviar de obstáculos, etc?

    – Ela é pior nas subidas só por ser mais pesada (eu peso 90km isso não importaria muito para mim) ou pela posição de pedalar vc acaba gerando menos potencia?

    – Tem com “empinar” para subir em calçadas ou dar um bob (pulo) para evitar obstáculos?

    Desculpe a ignorância… Nunca andei em uma bike dessas.

    • Reclinadas tem muitas geometrias. Algumas mais ágeis, outras menos. Não, não dá pra dar o “bob”. mas não raro não precisa também. A agilidade pra desviar de obstáculos depende do entre-eixos. Reclinadas mais leves e mais rígidas sobem tão bem quanto uma bicicleta comum, desde estejamos com a musculatura adaptada para elas.Há diversos planosna internet para fazer sua própria, mas uma opção é comprar uma pronta. Novas, no Brasil, com a Zöhrer ou Solyom. Aparecem com frequência usadas no OLX ou Mercado Livre, algumas de fabricação artesanal e bem baratas.

    • Vinícios P, a visibilidade depende do tipo de reclinada. Mas há um detalhe que faz muita diferença: É impossível não chamar atenção pedalando uma reclinada. As pessoas vão olhar, rir, falar, gritar, etc.
      De qualquer forma, com o tempo você vai aprendendo a ver mais além e se virar no trânsito urbano.
      Eu comprei minha reclinada sem nunca ter visto uma de perto e não tive maiores problemas no trânsito.
      Abraços!

  3. Eduardo Lourenço Pinto Jr

    Você potencializa extremamente o torque ao pedalar reclinado… Lembra da brincadeira de criança de empurrar o guarda roupa com as pernas e as costas apoiadas na parede??? Tente com um pé empurrar o mesmo guarda roupa e com o outro pé firme no chão…

  4. Vinicius P, a minha não é tão baixa, então não sinto grande diferença não.

  5. Adorei! Já tive uma zohrer e a vendi. Gostava imensamente de pedalar com ela, mas umas coisas acabaram e desestimulando: era muito comprida e difícil de guardar no meu apartamento (não dava pra prender na garagem) e chamava muita atenção (isso me cansava…) Mas me deu vontade agora de voltar a ter uma.

    • o Pedro Zöhrer tem uns modelos sob medida que podem ser desmontados. o Davilson Solyom já fez recli dobrável. na Falta de espaço, às vezes guardo a minha em pé. o Pedro também desenvolveu um ki de guidão por baixo pra EXD que a torna mais fácil de guardar também, por não ter aquela imensa mesa e o imenso guidão. Ainda não testei esse kit, mas gostei dum vídeo que vi. E quantoà zoação, arranjei uma solução: fones de ouvido e cara de surdo.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s