Cansei.

o cicloativismo de sp foi um movimento muito vibrante. mas perdeu-se depois da influência das migalhas dos bancos. e eu cansei.

Já foi assim. Pedalar na paulista era tomar geral da PM. estando de bermuda e chinelo ou todo fantasiado de corredor do Tour de France, tomava geral, era mandado embora. pois não estaria andando à metade da velocidade máxima, que era de 70 km/h.

Era a interpretação errada do artigo 219 do CTB, obviamente ignorando a parte final, que permite velocidade menor que a metade na pista da direita. em resumo, era pra tirar bicicleta das avenidas.Então começamos as bicicletadas. primeiro dentro do movimento anti-globalização da virada do século. Se não sabe o que é isso, é a turma que era capaz de jogar uma torta na cara tanto do Ricupero (PSDB) quando do Genoino (PT). A pauta era barrar a ação das mega corporações que era promovida pelos EUA e, sim, estávamos do mesmo lado do Michael Moore, da Naomi Klein, do Antonio Negri, do Julian Assange e etc. Rádios livres, meninas fazendo curso de Wen-Do, gente plantando horta em terrenos os mais diversos, straight-edgies se auto denominado veganos e etc. Muito sorvete na Soroko, ouvindo Rage Against The Machine e Bikini-Kill.

Bicicletada começa, primeiro uma lista nacional, depois outra lista só pra São Paulo, outra pra Porto Alegre e etc. Tempos de alterno-mundismo. “Pense globalmente, aja localmente“.

Fui pro interior dar aulas, voltei 6 anos depois. A coisa tinha andado, mas algo tinha mudado. Márcia tinha morrido. Bicicletada endureceu. Aprendemos a falar com a mídia.  Tinha gente muito boa nisso.

Mas o diabo já tava ali. As pessoas precisam sobreviver, né? Pagar suas contas. E aí sempre a brasilidade, aquilo que é jabuticaba, aquilo que é nosso, vem e contamina tudo, degenera tudo, ou muda tudo, sei lá.

Brasil é país de renda precária, de vínculos trabalhistas precários, de intensa concentração de renda, e classe média é só o nome prum proletário que ganha um pouco mais, mas ou paga aluguel ou compra casa pagando em trocentos milhões de anos e vendendo carro, roupas do corpo, fundos do FGTS, pra dar entrada na compra do imóvel que fica pequeno se tiver que receber uma visita ou tiver mais de um filho.

E nesse país, como o estado sempre falha nas suas funções, há uma ampla sistemática que permite transferência de fundos a entidades que complementem a atividade estatal. É o chamado 3º setor.  E instituições financeiras tem muuuuuuito dinheiro pra distribuir por aí. Deduzem do lucro, e ainda fazem marketing em cima.

Petrobras, por exemplo, durante anos e anos sustentou diversas associações que faziam cursos de complementação da educação para jovens em situação de risco em comunidades pobres de cidades onde ela atuava. Curso de audio-visual pra estudantes do ensino médio lá naquela cidade praiana? Tava lá uma associação que fazia isso, contratava alguns jornalistas formados pra dar esses cursos. E claro, pra gerenciar tudo isso, também remuneração.

Terceiro Setor virou oportunidade de emprego. Por qual motivo seria diferente no mundo das bicicletas? Todo mundo ou quase todo mundo vê isso como natural, não é? Afinal, contas precisam ser pagas, e nem sempre se consegue abrir uma bicicletaria, ou ter um blog com grande audiência pra ter patrocínios (já aviso, esse blog aqui não é patrocinado e os anúncios são da worpress, e eu não recebo nem quero receber nem um centavo), ou trabalhar na grande mídia e etc.

E aí, claro, os esquemas diversos. Coisas de Brasil. Afinal, tem que pagar condomínio, tem que pagar luz, água, roupa pra filho, é boleto pra todo lado na vida de muita gente. E tem gente querendo comprar apartamento, ou até mesmo afagar o ego e se sentir importante sendo chamado pra reunião secreta com instituição financeira.

Eu mesmo, né? Taquei a bicicleta numa tese de doutorado numa certa escola antiga aí. Essa tese vou mudar um pouco na redação e publicar, pois os amiguinhos do mundo acadêmico estão citando. E como não sou Paulo Coelho nem Gabriel Chalita, ou outro autor de auto-ajuda, não é pra ganhar dinheiro esse futuro livro. Não sei ganhar dinheiro com bicicleta, e quando vendo uma normalmente é com prejuízo: comprei, usei, mandei fazer revisão troquei peças e quando vendo o preço tá menor do que gastei. E tem gente que ainda reclama, então f….-se.

Na prática, estou um pouco cansado das discussões de dentro do centro expandido de São Paulo. Ah, eu moro a bem mais que 10 km do limite do centro expandido. Sou periférico, não importa o tamanho do meu diploma ou da casa onde moro. E ainda sou branco, hétero, homem. Não há lugar de fala pra mim, e nem eu procuro mais. Sobre lugar de fala, esse excelente texto do Pablo Ortellado explicita bem o conceito. Portanto, que as mulheres falem pelas mulheres, que os gays falem pelos gays, que os trans falem pelos trans, os negros falem pelos negros e assim por diante.

Até por quê muitas das atividades que eu adorava, por problemas diversos não consigo mais exercer. Adorava ensinar pessoas a pedalar, mas meu ombro não aguenta mais segurar as pessoas nas bicicletas. Nos últimos tempos eu só ia dar palpite e ajudar quem tava ensinando. Hoje no máximo consigo fazer um ou outro que já sabe pedalar andar na minha reclinada. Ou fazia quando ainda usava a reclinada vermelha, a atual, preta, tem uma posição ainda mais difícil de aprender a usar.

O que é bom. Sou periférico, não é? Pois é. Eu pertenço àquele grande grupo de usuários de bicicleta que não aparece nas contagens, que pedala onde a CET não coloca o pé e não existe marronzinho, E onde caminhão passa por cima e no máximo aparece como atropelamento no twitter do corpo de bombeiros. Se me derrubarem da bicicleta pra levá-la não aparece ninguém pra me levantar.  E ninguém colocará ghost-bike. E claro, aqui pichação tem outro sentido: marcação de território, presença de facção, presença de boca. e etc.

Dentro do centro expandido o ativismo tem lá suas formas de renovação em curso. Sabrina Duran aponta o dedo aqui, leia. Mas há uma renovação com gente que eu gosto e admiro, e cito algumas pessoas  nas quais presto atenção e  não ganham dinheirinho de banco: Marina Harkot, Ana Carol Nunes e Rafaella Basile. Todas com metade da minha idade e o dobro de capacidade de realização. Admiro, sério.

Eu cresci numa família com pouquíssima discriminação de gênero, onde homens trocam fraldas e mulheres trocam pneus de carro, se for o caso, e não é assim apenas na minha geração. Minha avó paterna talvez seja a primeira mulher do Brasil a ter carteira de motorista profissional, lá pela década de 1940, e uma tia-avó andava de bicicleta até quase 80 anos, para ir ao supermercado e etc. Só isso dá a medida.

Vejo nessas 3 moças que eu citei uma boa capacidade de construção que vai além do que quem veio antes é capaz de perceber. Se vai acontecer ou não, eu não sei. E hoje não me preocupo mais. Tem mais gente na luta: Gabi Vuolo, Carlos Aranha, Rafael Calabria, e etc. Mas que caminho as pessoas tomarão? Não sei. Isso é com elas.

Hoje, sinceramente? Só me preocupam as informações técnicas com um recorte voltado para o baixo custo, que é o que os colegas da Zona Norte usam e podem usar. Dura Ace DI apenas como curiosidade, mas aro 26 pra pessoas com menos de 1,70, isso me interessa discutir. Foto de carro em ciclovia vou bater, e se puder ir às bicicletadas, irei. Gosto das oficinas comunitárias, de discutir catálogos da Trek de 20 anos atrás, de discutir largura de pneus. Mas cansei de plenárias, de disputas de egos entre pessoas, de disputas de lideranças, de dissensos ou consensos.

E não, não acredito no caminho da política institucional,  partidária e etc. Boa sorte pra quem se candidatar, mas não é meu caminho.

Lembre, eu sou leitor de Negri, Naomi Klein e etc. Eu pertenço à multidão e tenho consciência disso. Eu sei que pertenço não aos 1% ou 0,5% ou até menos da população mundial ou brasileira que detém mais de 50% dos bens. Eu sei que pertenço aos restantes 98%, 99%, 99,5% do Brasil, do mundo.

Não tenho nenhuma ilusão e acho bom ser mais um grão de areia, como todos são. É leitor ou leitora, insignificância é seu nome e ninguém é especial pra ninguém. Assuma isso e seja livre. Nascestes só e morrerás só. Todo o resto é vaidade e correr atrás do vento.

A luta pela bicicleta tem vários fronts. Um deles é fazer banco colocar bicicletário em todas as agências e parar de financiar compra de carro particular, senão #issomudaomundo é mero greenwashing rasteiro.

Ainda há muita luta pra deixar as cidades mais humanas e, portanto, mais seguras. Cidade linda é cidade sem congestionamento e, no meu gosto, sem Romero Brito. E com todas as construções  possíveis cobertas de trepadeiras.

Mas vivemos em tempos de Trump, Dória, Temer, Marine Le Pen, Putin, Alckmin, Crivella, Bolsonaro, Greca, e etc. Ou seja, há muito retrocesso em curso, e é preciso ter pautas mais avançadas. O mundo progressidta está meio sem bandeiras, mas eu acredito que a fronteira é ambiental, e não na linha Marina Silva, mas na linha Arne Næss. Arne Dekke Eide Næss, pra saber de quem eu falo.

Então, boa sorte aos ativismos diversos. Eu só falo por mim e pelo meu pedaço. Estou vendendo minhas bikes de cromo e só olhando reclinadas, que é o que eu posso pedalar. Ah é, elas não sobem, são pesadas, não dá pra pedalar em pé, são esquisitas, parece bicicleta de palhaço de circo, cadeira de rodas, eu fico ridículo, quero aparecer… Tô nem aí pras críticas.  Só eu sei das minhas dores no corpo.

Então, cansei.

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12 Respostas para “Cansei.

  1. Obama, Odir…, todos se vão? Tá ficando chato.

  2. Odir, também me sinto um pouco cansado. Talvez a gente precise simplesmente de descanso. Nas viagens sempre nos perguntam: mas pedalar assim não cansa? E sempre respondemos: sim, cansa, depois a gente descansa.

  3. O problema do cicloativismo é que tem ativismo demais e ciclo de menos.
    Todo mundo quer ser rebelde, quer aparecer, quer ser anticapitalista (o que isso tem a ver com pedal?).
    Tem política demais e bicicleta de menos! Esse mesmo blog, para cada comentário sobre bike ou peças ou técnicas tem oito falando de política (e agora critica os outros…).
    Eu queria ver esse pessoal que fica fazendo discurso político subir o Paiol ou a Luminosa…

    • hehehe, a volta do velho troll. vc sobe o paiol todo dia indo pro trabalho de bicicleta ou é daqueles que acha que bicicleta e só passeio e treino?

      • Não subo o Paiol todo dia… Mas subo quando preciso, vou trabalhar de bike todos os dias (8km) e pedalo mais de 1000km por mês.
        E o mais importante não fico de mimimi na internet pq o Itaú não deu dinheiro para o meu blog ou pq eu não sou o presidente dos ciclomaconheiros…

      • espero que essa menção a reclamar de não ter dinheiro do itaú ou ser presidente de “ciclomaconheiros” nãoseja referente a mim, pois configura injúria.

  4. Aee Ogum!lembro de vc do pedal.com.br. dei uma sumida de lá, muitas “estrelas”(pessoas com vaidades) que “ciclistas” legal seu Blog brother, abraço!

  5. De advogado para advogado…

    Peço que leia com atenção tudo o que EU escrevi (desconsiderando SUAS suposições), e me mostre aonde está configurada a injúria contra você.

    • insinuando que eu deseje dinheiro de um banco para patrocinar meu blog, quando primo por não ter patrocínio, nem desejo ser presidente de ciclomaconheiros, para o seu governo. Então, vá trollar ooutros em outro lugar.

  6. Eduardo Lourenço Pinto Jr

    No dia em que me provarem que o conservadorismo leva o mundo pra frente, eu vou me tornar um conservador…

  7. Eduardo Frederico Luedy Marques

    Massa. Um amigo me indicou a leitura e eu super me identifiquei com seu cansaço. Mas me identifiquei também porque já tive uma reclinada. Adorava ela, mas acabei vendendo. elas nãop são muito práticas para cidades caóticas (como Salvador e, em especial, Feira de Santana – onde passo metade da semana). Mas, sim, são deliciosas de pedalar. Ainda vou voltar a ter uma. Grande abraço.

  8. É bem o que disse mesmo, quando os interesses financeiros estão acima do verdadeiro ativismo (e não fazer videos escandalosos pra encher o ego como vi esta semana, por vezes malditas ciclovias) a esperança de melhoria se esvai para o ralo. Ao invés das pessoas progredirem financeiramente por seus méritos, estes se apoiam no dinheiro do bancos e a imparcialidade vai pros ares em troca de algumas centenas de milhares de reais anuais deduzidos do irpj. Toda aquela treta do ciclobr pq eu queria tirar aquela vergonha de dirigentes que desviavam os recursos em benefício próprio, a maioria dos blogs de ditos cicloativistas que continuam a fazerem midias dos locais burgueses até o dia que tomarem o pé na bunda dos bancos e se vitimizarem aos amigos perdidos, mas nessa hora as máscaras já cairam.

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