APPs de rotas e a nova campanha contra o “JAYWALKING” ciclístico.

no começo do século XX, uma campanha de “segurança” “limpou” as ruas de pedestres e ciclistas para carros acelerarem. hoje, os aplicativos de rotas tiram os ciclistas de estradas com acostamento e os jogam para estradas secundárias, sem opção.

“Jaywalking”. A campanha que retirou pedestres, ciclistas e não-motorizados das ruas dos EUA.. Já ouviu falar? Pois sim, antes as ruas eram das pessoas, depois se tornaram dos carros apenas. Hoje no mundo inteiro é um parto explicar pra motoristas que a via é para todos. Como se vê no filme acima, de San Francisco, em 1906.

Não só nos EUA. Olhe no filme abaixo, Berlim em 1900:

Mas chegaram os anos 1920, os automóveis cresceram em número e velocidade, e começou a campanha para retirar as pessoas das ruas. Claro, sempre co o discurso da segurança.

cartazes americanos criticando o andar nas ruas.

cartazes americanos criticando o andar nas ruas.

Essa história é melhor contada nesse link aqui, em inglês.

Algo parecido tem ocorrido hoje,mas outros meios.

A bicicleta, desde o final do século XX, tem retomado seu espaço nas ruas. Embora com forte oposição. Vamos lembrar que as primeiras ciclovias na Alemanha nazista serviam basicamente para tirar as bicicletas da frente dos carros, uma vez que Adolf Hitler era fascinado por automóveis. E lembrando que GM e Ford era companhias fortes na Alemanha Nazista. Sobre GM e os nazis, leia aqui. E sobre trabalhos forçados na Ford na época nazi da Alemanha, leia aqui.

No início da retomada de espaços pela bicicleta, a cabeça de planejadores ainda era rodoviarista. Tanto que o investimento é em ciclovias. Amsterdam começa suas ciclovias nos anos 70, por exemplo.

Mas a questão não é ciclovias, é retomada das ruas!  Pois é besteira imaginar que a cada quilômetro de rua haver um quilômetro de ciclovia. A grande questão é a convivência. A Holanda só deu um passo sério nesse sentido no final dos anos 90, modificando a responsabilidade do motorista no atropelamento de ciclista: até forte prova em contrário, a culpa é do motorista e pronto.

Essa foi a forma utilizada para fazer o motorista holandês dirigir com cuidado e aprender que não, a rua não é exclusiva para carros.

Mas, muito além da Holanda, o surgimento das MTBs no final dos anos 80 e sua popularização pelo mundo revigorou o cicloturismo. E se multiplicaram os viajantes em bicicleta ao redor do mundo, desde os que dão voltas ao mundo aos que fazem viagens de final de semana.

E aí, como explorar os trajetos? Antes, através de mapas, preferencialmente mapas topográficos. Papel, papel, papel… Mas a escolha do trajeto é feita pelo ciclista.

Depois, com a tecnologia do GPS, e o avanço da tecnologia da informação, vieram os sites e depois os aplicativos que traçam rotas.

Num primeiro momento, que maravilha! Você indica alguns pontos e o programinha traça a rota seguindo as ruas pela sua mão de direção. Que beleza. E informando a altimetria, dado que permite você calcular se vai fazer aquele trajeto de 50 km numa estrada em 2 horas ou em mais de 6 horas…

Pois essa tecnologia ia bem até uns 2 anos atrás, quando os algoritmos mudaram e passaram a escolher caminhos “seguros”.

Virou uma loucura. Dou um exemplo. Do ponto A ao ponto B há 1 km de distância e em linha reta o caminho é feito pelo largo e plano acostamento dê uma rodovia. Pois o seu app talvez faça você dar uma volta gigante pra evitar esse ponto.

Há pouco mais de um ano eu deixei me levar por um APP desses ao ir da minha casa, na ZN de SP, até Parelheiros. O APP me fez cruzar por uma comunidade que tinha uma rua interrompida por uma barricada incendiada, passando por uma boca de fumo – aliás, quando vi me olhando estranho, parei e pedi informações justamente pra quem tava me olhando estranho. Estava sem capacete, de boné, com uma bicicleta mais simples. Antes de me darem informação,perguntaram de onde eu vinha. Explique que vinha da Zona Norte, estava indo pra lá de bicicleta pois não tinha dinheiro pra passagem…

Por sorte, ou por ter convencido o grupinho de rapazes ali, um deles, que tava sentado no fundo, soltou essa:

– Tu sobe por ali, ó, pega às direita e depois às esquerda, se alguém embaçar ali fala que o Sapão mandou tu ir por ali.

Eu fui, e passei.

E claro, poderia ter sido roubado, não fui por presença de espírito, mas tudo isso pois o APP me tirou duma avenida grande, com limite não muito alto, e plenamente ciclável.

O que está acontecendo é que os algoritmos desses aplicativos ou sites onde se traçam caminhos estão voluntária ou involuntariamente fazendo uma campanha parecida àquela do Jay-Walking: deslegitima, para o próprio ciclista,  a passagem por vias que cabe a ele decidir se são seguras ou não. No máximo o aplicativo ou site poderia indicar que tipo de via é aquela, e não simplesmente tentar loucamente afastar o ciclista daquela via.

note que o desenhador automático evitou o caminho mais curto, por que?

note que o desenhador automático evitou o caminho mais curto, por que?

Na imagem acima, se você observar, o desenhador automático, magnético, evitou a estrada que ia pelo caminho mais reto e desenhou uma grande volta. Qual o porquê?

Um algorítimo burro, pois essa estrada evitada é segura, muito usada por ciclistas e até já foi usada como trajeto de competição oficial de estrada.

Isso ocorre só com essa estrada? Não, ocorre aos montes. Se tentarmos traçar caminhos que sigam grandes rodovias com amplos acostamentos – não raro bem utilizadas por ciclistas, como a Rodovia dos Bandeirantes, em São Paulo, as ferramentas magnéticas não funcionam….

Isso pois a dita inteligência artificial está tentando escolher por você o caminho mais seguro. Mas sem ter os dados que você possui pra tomar decisão.

O problema é mais acentuado nos sites e APPs que usam o OpenStreetMap com base. Mas também acontece com o Google Maps. Algumas rotas que você desenha o Google Maps entende como rota exclusiva para carros e não calcula a altimetria. Se você muda para o modo bike, ele retraça a rota, obviamento pegando estradinhas paralelas, não raro em terra, e aumentando consideravelmente o trajeto.

O fato é que, intencionalmente ou não, esses mecanismos estão afastando cilicistas de caminhos já utilizados, deslegitimando sua presença ali.

Lembrando que, na legislação brasileira, só são interditas às bicicletas as via urbanas expressas, que não possuem nem cruzamentos, semáforos nem acesso a lotes lindeiros. Em São Paulo, por exemplo, só têm essa característica as vias centrais das Marginais e a Av 23 de Maio. Todas as demais vias da cidade são cicláveis. Embora muitos calculadores não saibam disso….

A exemplo da rotatória da Praça Campo de Bagatelle. Hoje há ciclovia que nos encaminha pra lá. Pra quem vai do centro, a ciclovia nos deixa quase na rotatória, e não há perigo em circular com os carros pra quem vai virar à direita e seguir pela Rua Voluntários da Pátria. No outro sentido, o entorno do Campo de Marte não é apenas ciclável, mas é ponto constante de treino de pessoas que circundam esse pequeno aeroporto dentro do perímetro urbano. Mas os calculadores lhe afastam dessa rotatória de toda forma neurótica….

O fato é que esses algoritmos usados, em nome de uma certa segurança, podem forçar você, ciclista, a dar voltas imensas. Então, use-os mas não confie neles. E teste sempre outras rotas.

 

 

 

 

 

 

 

 

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3 Respostas para “APPs de rotas e a nova campanha contra o “JAYWALKING” ciclístico.

  1. Bom, se deixar levar pelo traçador de rota desses apps é um erro besta. Eu sempre escolho as rotas que quero é ignoro as sugestões dos apps

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