Trump, Temer, Dória…. e a bicicleta esmagada.

Quando os grandes se mexem, os pequenos sofrem. Um pequeno movimento do elefante e milhões de formigas são esmagadas.

Mapa da antiga Rota da Seda. Os caminhos por mar ainda são percorridos pra levar produção chinesa para Europa, e assim Shimano chega na Alemanha.

Mapa da antiga Rota da Seda. Os caminhos por mar ainda são percorridos pra levar produção chinesa para Europa, e assim Shimano chega na Alemanha.

A eleição de Donald Trump para presidente dos EUA (com apenas 25% dos votos dado o alto índice de abstenção), o golpe que levou Michel Temer à presidência deste país aqui (eleito apenas par aser vice, assumiu sem ser eleito pra tanto), a eleição em primeiro turno de João Dória à prefeitura de São Paulo (com votos em número inferior às abstenções…) vão impactar o uso das bicicletas não apenas em São Paulo, no Brasil ou no mundo.

No mundo antigo o Império Romano não era apenas uma estrutura de poder. Era policêntrico, com várias capitais. Latim e grego eram línguas oficiais, dependendo de que lado do Império se estava, mas conviviam com línguas locais. Os pobres, a massa, só falava a língua local, as altas classes dominavam 2 ou 3 línguas.

Hoje a indústria da bicicleta ao redor do mundo está com sua produção globalizada. Empresas do sudeste asiático dominam a produção. Giant, por exemplo, fabrica pra inúmeras marcas. MAs o monopólio da produção não existe, pois se fabrica em outro lugar. Dorel Indústries, que possui Cannondale, adquiriu Caloi justamente por sua fábrica na Zona Franca de Manaus, para produzir em drawback e exportar para os EUA, para a Europa, ou eventualmente vender no Brasil e no resto da América Latina.

Trump em um de seus Rolls-Royce. Mexicanos e muçulmanos em bicicletas, saiam da frente!

Trump em um de seus Rolls-Royce. Mexicanos e muçulmanos em bicicletas, saiam da frente!

O Império Romano era riscado por inúmeras estradas. No auge, havia mais de 400 mil km de vias romanas ligando os mais distantes rincões do Império, afora as hidrovias conhecidas: os caminhos marítimos e fluviais. O Mediterrâneo, cercado pelo Império Romano, era o Mare Nostrum.

A indústria mundial de componentes de bicicletas está concentrada no sudeste asiático. Sturmey-Archer, tradicional fabricante inglês, hoje é da Sun-Race, chinesa. Câmbios de bicicletas, para troca de marchas estão com fabricação praticamente toda concentrada no sudeste asiático. Apenas fabricantes pequenos fazem peças especiais fora daquele ambiente.

Os imperadores romanos vestiam a seda púrpura. Que era fabricada na China. A Rota da Seda, não com esse nome, começa a ser traçada no segundo milênio antes de Cristo, antes do surgimento dos pequenos Reinos de Israel e Judá, e antes de Ramsés II ser imperador no Egito, e muito antes de Roma surgir até como mera cidade da Magna Grécia.

Donald Trump elegeu-se presidente da nação que representa certa de 25% do comércio mundial prometendo retomar a produção industrial americana. Promessa que se sabe impossível, não há coo recuperar a grande indústria automobilística de Detroit. Mas Levantará barreiras aqui e ali e não tem o menor cuidado com o deficit público americano que é dos mais altos. o FED, sabendo disso, já planeja levantar os juros dos títulos americanos, e isso tem causado  a saída dos capitais investidos em outros mercados do resto do mundo e a volta dos capitais à praça americana, para ser investido nos títulos americanos. E as bolsas ao redor do mundo baixando, baixando… E o dólar se valorizando diante de todas as moedas.

O Império Romano se expandiu e passou a tributar todas as áreas. Estacionava tropas, e distribuía justiça. o Pretor era líder militar, governo laico e juiz. As elites locais tinham que trabalhar junto com a presença romana. Pôncio Pilatos era præfectus romano na Palestina, englobando Galileia, Judeia e etc. Herodes Antipas era tretarca e tinha origem local. Alianças entre elites locais e os ocupantes era a regra. Assim se mantinha o controle sobre a área, sem precisar de muita presença militar, e podendo incluir entre as tropas oriundos da própria região. O controle era feito, assim, com a adesão de parte da população controlada.

Os capitais atualmente não possuem nacionalidade. São compostos de fundos bancários diversos. Fundos de pensão, clube de investidores. Não raro grandes fundos são compostos de economias de assalariados. Ou os capitais investidos pelos bancos compõem-se dos depósitos de correntistas. Um dinheiro que não gera consumo, mas atrai renda. Epstein & Montecino (University of Massachusetts Amherts), neste artigo aqui mostram como o sistema financeiro hoje drena parte considerável da renda dos americanos e impede o crescimento econômico. Semelhante estudo já foi feito no Brasil por Ladislaw Dowbor. Sobre os pressupostos dos ajustes econômicos, melhor ler esse artigo de Luiz Gonzaga Belluzzo.

O dinheiro fluía para Roma por diversas formas. Seja pelos lucos da venda de produtos que vinham de outros cantos do Império, seja pelos pedágios nas estradas, seja pelos tributos diversos. Nas grandes cidades do amplo Império Romano, a posso de determinados bens, uso de determinadas roupas e etc eram praticamente obrigatórios. Assim como contribuições aos templos. Nos rincões afastados a vida era mais simples, mas mais pobre.

Nas grandes capitais do mundo a vida pressupõe a posse de um celular inteligente, um smartphone. Acesso às redes de Wi-Fi se facilita ao máximo. Em São Paulo, redes de 4g estão amplamente disponíveis, e há diversos pontos de fornecimento de Wi-Fi livre. Aplicativos não apenas para chamar um carro, mas para saber onde está o ônibus, para descobrir que linha pegar, para acessar serviços os mais diversos. Na praça da Rua Ibiraiaras, no Jd Vista Alegre, nos rincões da Zona Norte de SP, pertinho do CEU Paz, no final da tarde de um domingo não há lugar para sentar: estão todos usando a rede pública de WI-FI com seus smartphones. O irmão motoboy de um amigo que mora no Jd Carumbé teve a motocicleta furtada e as fotos do ladrão amplamente divulgadas nas redes sociais acessadas nas periferias da Zona Norte. Foi recuperada no mesmo dia. Em compensação, no Maranhão, apenas 10% da população tem acesso a qualquer forma de internet… E inúmeros pontos de Santa Catarina não tem sinal de celular algum.

O Império Romano tolerava dentro de suas fronteiras conflitos de baixa intensidade. Espártaco e seus colegas gladiadores revoltados só foram combatidos efetivamente quando passaram a causa prolema demais. Mas antes disso muita gente ganhou dinheiro prometendo proteger pessoas dos saques dos gladiadores revoltados. Províncias rebeldes de vez em quando recebiam algum tipo de combate. Bar Kochba, quando causou problemas demais, foi combatido. Vercingetórix cometeu o grande erro de unificar a Gália  e tentar livrar-se do jugo romano.

Ninguém jogou bombas atômicas para combater o Daesh. Marcola e Fernandinho Beira-Mar estão presos e suas organizações estão funcionando. Empresas de celular lucram várias vezes: quando você compra, e quando você compra depois de ter sido furtado e/ou roubado. E o celular furtado/roubado cai de novo n mercado e permite quem não pôde comprar pelo preço de um novo acesso aos serviços tarifados das telefônicas, que é o que interessa a elas. O mercado negro acaba sendo o fornecedor de produtos a quem não tem poder de compra. E alimenta o desejo pelo original, quando se fala das cópias falsificadas.

O que importa é manter o fluxo dos bens, e não necessariamente das pessoas. O México pode produzir bens (81% da economia mexicana é exportação das maquiladoras para os EUA), mas exportar mão de obra apenas se ela não tiver acesso aos direitos dos americanos: imigrante ilegal não se sindicaliza e sofre mais abusos dos patrões americanos. Na Alemanha, os turcos, que não receberam a nacionalidade alemã mesmo depois de décadas morando lá foram a mão de obra barata durante muito tempo (nesse sentido, “Cabeça de Turco”, de Günter Wallraff, faz a descrição por dentro da sistemática de exploração).

No Império Romano havia um fluxo de escravos. Para regular as relações com os povos submissos, havia o Ius Gentium, o direito das gentes. Mas apenas o cidadão romano tinha acesso ao Ius Civile, que só passa a ser disseminado quando a parte ocidental do Império Romano está se desfazendo e iniciando a  Idade Média. E não faltaram detratores para desmontar o antigo Direito Romano, e substituí-lo por normas derivadas do cristianismo. Some a crucificação como pena, surgem diversas outras formas de matar, mais espetaculares. Até que na Baixa Idade Média a pena por alta traição é Hanged, Drawn & Quartered . Clique no link para uma breve descrição da pena de morte tripla.

A sistemática de espalhamento dos direitos básicos, direitos humanos, não é uniforme. Chineses não conhecem a jornada de trabalho de 26 ou 40horas semanais. Brasileiros não conhecem o devido processo legal nem a correta apuração dos crimes (menos de 5% dos homicídios no Brasil tem autoria atribuída pela polícia, o que dirá punição para seus autores!). Inglaterra e Canadá, assim como Noruega, tem sistemas públicos  de saúde ainda muito bons. Mas não há isso nos EUA, no Brasil há filas imensas….

No antigo Império Romano, os veículos eram: o carroção para cargas, a carruagem para passageiros. As bigas (antecessoras das charretes) eram o veículo de velocidade, e o cavalo (de boa qualidade) o veículo de uso pessoal individual. Mas os anos, domesticados já no período mesopotâmico, se espalharam como veículo para pequenas cargas e de uso individual: dos mais pobres, que também andavam muito a pé…. Jesus em sua entrada triunfal em Jerusalém estava num asno.

Ao redor do mundo, entre os pobres, há asnos e bicicletas.  Jericos foram usados por centenas de anos no Nordeste Brasileiro, e por década conviveram com bicicletas de aço, modelos barra-forte ou barra-circular. Na Batalha de Dien Bien Phu, em 1954, os vietnamitas surpreenderam os franceses deslocando desmontadas imensas peças de artilharia, depois usadas na batalha. Bicicletas com até 200 kg de carga eram empurradas num terreno difícil, selva adentro…

a genial solução encontrada pelo gênio militar Võ Nguyên Giáp

a genial solução encontrada pelo gênio militar Võ Nguyên Giáp

A vida no Império Romano era difícil, mas a do medieval era pior. No Império Romano pessoas lavavam-se, na Idade Média não. Chefetes locais vão incorporando privilégios cada vez maiores, até que se chega à sistemática da nobreza, onde uns são “essencialmente” melhores que outros, que a eles se submetem… O antigo conhecimento grego é esquecido e só recuperado tardiamente pela influência muçulmana.

EUA parecem ter se cansado da globalização, Inglaterra investe no BrExit. A União Europeia enfrenta crises internas e sofre com as multidões de refugiados. Na América do Sul o Mercosul não virou um efetivo mercado livre, e a grande indústria paga royalties às matrizes, na Europa, nos EUA, , na Ásia. Protecionismos se levantam em todos os campos, e o fluxo de peças de bicicleta começam a inflar de preço em todo canto. Logo a tecnologia circulará bem menos.

Câmbio Dimosil, brasileiro, da década de 70. Produto de uma época em que importações eram proibidas.

Câmbio Dimosil, brasileiro, da década de 70. Produto de uma época em que importações eram proibidas.

A Idade Moderna começa com o Renascimento, cujo motor foi o conhecimento da Antiguidade. Nessa época europeus estão descobrindo o resto do mundo em grandes navegações. Arquimedes calculou a circunferência da Terra usando como número pi 22/7. Errou por pouco a circunferência. Medievais achavam que a terra ela plana. E Colombo tinha marinheiros que o creditavam louco, que iam cair com seus navios num precipício sem fim…. Medievais queimavam mulheres como bruxas….

Hoje o carro é símbolo da teologia do sucesso, e há locais onde o criacionismo frequenta as aulas de ciência. Sendo os problemas sociais resultado de maldição e não de condições socioeconômicas, quem liga pra políticas públicas? Ninguém. É aí que não importam os investimento em educação, e é aí que transporte público não importa, importa ter o próprio carro….

O Império Romano devastou. Havia leões na Europa. foram caçados ao extermínio. Florestas derrubadas. Enquanto isso, os privilegiados das capitais viviam sob pão e circo.  E por fim, os bárbaros vieram e impuseram uma nova ordem. E do amálgama de diversas culturas, ordenadas por um cristianismo que não lia em hebraico nem em grego, cresceu a Idade Média.

A indústria devasta, e fica impune, mesmo diante de simulacros de processamentos. Union Carbike de Bhopal, ExxonMobil no Alasca. British Petroleum no Golfo do México. Vale, Samarco e BHP Billiton no Vale do Rio Doce...

E sempre, de grandes líderes a míseros prefeitos, os menores são esmagados. As periferias esquecidas, e quando dão problema, levantam-se muros. Assim como no antigo Império Romano, e mais ainda na Idade Média, o caminhante ou cavalgador de um asno deveria abrir passagem para carruagens e bigas, hoje pedestres e ciclistas têm que abrir passagem aos motorizados.

Assim como antigamente a criação de asnos não tinha qualquer privilégio, as indústrias de bicicletas brasileiras não tiveram reduções de IPI. Nobre era  arte de adestrar cavalos, nobre é a arte de pilotar carros e motos.

Trump, Temer, Dória e mesmo Lula, são peças da mesma máquina. Uma grande máquina. A máquina, há 2 ou 3 mil anos, fazia você acreditar que os seus problemas são exclusivamente seus. A máquina hoje faz você acreditar que a solução é mera questão de força de vontade. São livros, filmes e biografias enaltecendo o talento individual e não a realização coletiva. Deng Xiaoping, que afirmou “É glorioso enriquecer”, transformou a ditadura comunista chinesa na ditadura capitalista chinesa.

Não há excluídos na grande máquina, no grande Império. Há apenas os incluídos de forma desejada e os incluídos de forma indesejada. Todas as formas de questionamento da estrutura são combatidas. Movimentos sociais são criminalizados.

Ou então o que pode ser uma mudança é logo absorvido pela máquina. Nas grandes cidades, a libertadora bicicleta vira um negócio gerido por bancos, e utilizam os que submetem ao negócio bancário. É preciso ter o cartão de crédito…. Ou em outro sistemas ao redor do mundo, um mínimo de institucionalização: ter residência conhecida, ser nacional. Em resumo, ter papéis…

Antes a massa de escravos e poucos libertos, hoje a massa que acorda às 5 da manhã e dorme depois da meia-noite, não importa se trabalhando no campo, ou morando nas periferias de São Paulo, Tóquio ou Paris, a vida é a mesma.  Como no curta de Walter Salles e Daniela Thomas, que faz parte dum filme sobre Paris…É preciso acordar cedo e deixar o filho na creche para ir cuidar do filho do mais abastado, para que se possa pagar a creche e dar de comer ao filho….

Loin du 16º

Não há nada de novo debaixo do sol. O mundo segue seu refluxo conservador e toda vez que isso acontece, os mais frágeis do trânsito sofrem. Estejam em asnos, estejam em bicicletas.

Conforme Festo em De Verborum Significatu:

At homo sacer is est, quem populus iudicavit ob maleficium; neque fas est eum immolari, sed qui occidit, parricidi non damnatur; nam lege tribunizia prima cavetur “si quis eum, qui eo plebei scito sacer sit, occiderit, parricida ne sit”. Ex quo quivis homo malus atque improbus sacer appellari solet.

Homo Sacer é aquele cuja vida é sagrada ao contrário: Não pode ser imolada aos deuses, mas não comete crime que o assassina. Ou seja, o que é morto sem que nada ou quase nada aconteça a quem o mata.

Hoje são as vítimas do trânsito. Hoje são as vítimas dos “acidentes” ambientais. Hoje são as vítimas dos bombardeios, os que morrem nas travessias dos mares fugindo da guerra. Os que se amontoam em barracos na pobreza. Os que morrem de doenças tratáveis por falta de assistência médica. Os que enfrentam a fome pelo fechamento de restaurantes populares. E outros tantos mais.

Os impérios caem por dentro. Mas o que sucede sua queda é uma desorganização predatória. diziam os chineses ao amaldiçoar: “que você viva tempos interessantes!”

Estamos vivendo esses tempos. E não há capacete que nos proteja deles.

Pedalemos, como ato de resistência da civilização contra a barbárie.

5 Respostas para “Trump, Temer, Dória…. e a bicicleta esmagada.

  1. Bar Kochba era um reacionário que queria impedir o cosmopolitismo descentralizador de Adriano: para o rabino, era preferivel uma Jerusalem em cacarecos a uma tão vivaz quanto Atenas, se para tanto ao lado do Templo de Salomão reformado tivesse de haver um Templo de Venus. Um monoteista raivoso e sectario contra um imperador cuja meta era distribuir o maximo de poder e diversidade cultural possível – e aí pouco me importa se Bar Kochba “representa” um “povo oprimido da periferia do império”: eu prefiro estar do lado do maior governante que o Ocidente já conheceu, o Imperador da Paz Elio Publio Adriano!

  2. E a unificação da Galia para resistir às Legiões foi ainda no biconsulado de Julio Cesar, antes do golpe e da guerra civil – Republica portanto. Idem para a destruição de Cartago.

  3. A Máquina não para. No meio deste post surge uma propaganda de carro dizendo “reconquiste o que é seu por direito!”

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