a bicicleta e o resto do mundo

promover políticas de transporte por bicicleta ou a pé são formas de causar menos incômodo e degradar menos o mundo.

vivemos o antropoceno. a era em que a força que mais muda o ambiente, forçando a extinção de outras espécies, modificando o relevo, e mudando a atmosfera, e a espécie humana. todos nós temos responsabilidade por essas mudanças, para o bem e para o mal.

Arne Næss, um filósofo norueguês infelizmente já morto, juntamente com Félix Guattari, cunharam o termo ecosofia, um complemento à noção de ecologia profunda. na verdade, propõem que se viva em harmonia com o ambiente e não em confronto com ele.

não se trata de simplesmente voltarmos à caverna. mas de percebemos que não há hierarquia entre seres vivos. mas há uma espécie de equilíbrio dinâmico. vide que assim que humanos se sedentarizaram e montaram grupos grandes, as doenças também se multiplicaram. é o equilíbrio dinâmico da natureza agindo.

na prática, o que se precisa perceber é que humanos detonam o ambiente de diversas formas. veganos, por exemplo, gostam de demonstrar quantos mil litros de água se usa para produzir um litro de carne. portanto, o consumo de carne possui, por si só, um componente que gera degradação do ambiente.

não que as pessoas deixarão de ser carniceiras (humanos não são carnívoros, são carniceiros, pois não gostam da carne in natura, não mordem o bicho vivo), mas poderão as pessoas repensar as formas de consumo de proteína animal que sejam produzidas de forma menos danosa ao ambiente.

pois chegamos ao limite do uso dos recursos.

aí entra a bicicleta.

a bicicleta é o veículo que traz ao ambiente urbano a lógica  do “leave no traces“. “leave no traces” é a forma de adentra o ambiente natural sem deixar marcas ou deixar o menor impacto possível.  por exemplo, privilegiar o acampamento em redes e não barracas pois redes não deixam marcas no chão como as barracas, e se amarradas adequadamente, também não deixam marcas nas árvores. ou seja, polui menos, degrada menos.

a Alemanha, por exemplo, tende a banir os veículos com motor a explosão, pelo menos os carros, até 2030, como diz essa notícia aqui. mas mesmo lá, se faz o debate se não é simplesmente melhor banir os carros todos. por isso o investimento no aumento da malha cicloviária.

o fato é que em relação a carros, bicicletas usam menos recursos. os pneus usam menos borracha, os quadros menos metal. menor uso de lubrificantes e etc.

e diminuir o consumo como um todo é hoje um mandamento ecológico. tanto que a ecologia profunda, a ecosofia, tem ganhado relevância, pois propõem não um banimento do mercado (a bandeira da velha esquerda autoritária, que gerou economias planificadas que deterioraram em ditaduras brutais: URSS, China, Coreia do Norte, Camboja de Pol Pot – , mas também uma velha bandeira de uma direita autoritária, que manifestou-se por meio de figuras como Hitler, Mussolini, Franco, Salazar e outros como P. W Botha), mas uma outra forma de organização de mercado.

pois mercado não se mata, assim como não há excluídos do sistema: o que há são incluídos da forma não desejada por eles.

mas não há que se esquecer que nas democracias o estado interfere bastante na economia, e isso não é ruim. interfere da forma clássica que todos conhecem, mas também no dirigismo contratual (note que um contrato de locação não é livremente firmado: as partes não podem estipular, por exemplo que a garantia do pagamento do aluguel seja a cessão de um rim…).

estados, nas democracias, são limitados por leis. nas teocracias, pela moralidade religiosa. as democracias optam pelo império da lei, não da moralidade, seja que moralidade for. tanto que não pode o acusado de homicídio defender-se afirmando que não reconhece a autoridade do Código Penal. ou o acusado de estupro fazer a mesma fala. a “ultima ratio” é sempre a lei, nas democracias. nas ditaduras e teocracias não.

hoje nas democracias, aos trancos e barrancos avança uma legalidade que reconhece a capacidade danosa de ação do humano. esse é o campo do direito ambiental. que não abrange apenas o ambiente natural, mas também o ambiente urbano, o ambiente de trabalho e etc.

numa outra ponta, temos os direitos humanos que caminham para reconhecer a incolumidade da vida humana. ou seja, todo humano deve ser mantido incólume se essa for sua vontade. por isso, procedimentos médicos invasivos exigem autorização do paciente.

mas essa incolumidade não se refere apenas ao corpo (não ser morto, não ser violentado de qualquer forma e etc), mas também ao seu espaço de habitação, amplo e restrito. amplo pois se habita a estrada onde se  trafega, e restrito quando se fala da moradia.

embora as pessoas confundam o direito de morar com o direito de propriedade, notemos que o locatário, por exemplo, está protegido até do proprietário do imóvel, que não pode adentrar seu imóvel de propriedade sem autorização do locatário. não pode o proprietário simplesmente chegar pintando o imóvel sem autorização  do locatário, não importa que o imóvel seja seu.

é interessante que o direito ambiental e os direitos humanos se tocam mas não conflitam.  um bom exemplo temos no artigo 65 da lei de crimes ambientais (lei 9.605/1998, que usa o critério da incolumidade para diferenciar grafite de pichação (não, o critério não é estético, nem de longe):

Art. 65.  Pichar ou por outro meio conspurcar edificação ou monumento urbano:  

Pena – detenção, de 3 (três) meses a 1 (um) ano, e multa.   

§ 1o  Se o ato for realizado em monumento ou coisa tombada em virtude do seu valor artístico, arqueológico ou histórico, a pena é de 6 (seis) meses a 1 (um) ano de detenção e multa.  

§ 2o  Não constitui crime a prática de grafite realizada com o objetivo de valorizar o patrimônio público ou privado mediante manifestação artística, desde que consentida pelo proprietário e, quando couber, pelo locatário ou arrendatário do bem privado e, no caso de bem público, com a autorização do órgão competente e a observância das posturas municipais e das normas editadas pelos órgãos governamentais responsáveis pela preservação e conservação do patrimônio histórico e artístico nacional.   

note que eu grifei a menção a locatários e arrendatários, que, por excelência, não são proprietários. mas são os que usam o imóvel privado. moram ou exercem atividade econômica. e, portanto, tem na posse provisória e precária daquele imóvel a extensão do seu espaço de vida.

a conspurcação em geral está sendo banido ao redor do mundo. por isso as legislações se preocupam com derramamentos de petróleo, despejo de resíduos, pichações, emissões de carbono na atmosfera, lixo eletrônico e etc. e também nas formas de produção industrial ou agrícola.

e claro, essa preocupação com a conspurcação chega aos transportes. por isso progridem legislações que impõem o uso de combustíveis menos poluentes, ou a troca de motores a combustível por motores elétricos, e mesmo o banimento de motores. da mesma forma, intervenções na urbanização para reduzir deslocamentos.

nessa hora, países que sentiram essas necessidades antes tomaram medidas antes também. um exemplo é a Holanda.

em 1973, em plena crise do petróleo, o pequeno país que não produzia – nem produz – petróleo, começou a investir pesado na construção de ciclovias, na redução de oportunidades de uso do automóvel (decretando “domingos sem carro” por exemplo).

outros países tem seguido o mesmo caminho.

no Brasil,  a força dos lobbies das grandes empresas é grande. então os veículos elétricos ainda são muito tributados, como a produção doméstica de energia elétrica. há pouco inventivo ao transporte não-motorizado (inobstante o disposto na lei 12.587/2012, principalmente no seu artigo 6º). autoridades de trânsito não fiscalizam com base no artigo 201 do CTB, e por aí vai.

e não se pode esperar que fosse diferente. lembremos que a noção de incolumidade do corpo e do lar, da garantia de renda e alimentação, não é uma noção que o brasileiro aceite na sua integridade. uns acham que o estupro é culpa da mulher, outros acham que lar pode ser conspurcado, outros que o emprego deva ser precário, e outros que políticas de assistência como o bolsa-família criam preguiçosos e etc. e claro, todos tem teorias bem interessantes pra justificar todas as formas de violência contra incolumidade.

inclusive a incolumidade da vida, no que tange ao ar que se respira. ou aos danos causados por sinistros de trânsito.

a bicicleta, por sua vez, é o veículo individual que menos fere a incolumidade alheia. não há poluição doar ou sonora no seu uso, por exemplo. não gera sinistros de gravidade (quantas vezes uma bicicleta desgovernada invadiu um ponto de ônibus cheio e matou 15 pessoas, p. ex?).

mas não que seja a bicicleta um veículo perfeito nesse ponto de vista. sim, sua produção também polui. mas polui bem menos.

aí voltamos à ecosofia, à ecologia profunda.  humanos devem perseguir o menor consumo possível. pelo menos uma parcela considerável da população do planeta vive com superoferta de bens, que gera uma quantidade e lixo absurda. a obsolescência programada deveria ser vista como crime de lesa-humanidade. e aí o erro das sociedades: a visão das economias de mercado é vender, vender, vender, vender, vender….

aliás, usando técnicas de venda que chegam a recorrer ao rebaixamento da autoestima do potencial comprador. e assim, logo que podem, as pessoas vão se entupindo de bens. e descartando-os de forma inapropriada.

aí o efeito do antropoceno. aí se verifica a ação devastadora dos humanos sobre a superfície do planeta. cimentando tudo, desmatando, extinguindo algumas espécies, fortalecendo bactérias, aumentando a temperatura do planeta, elevando os níveis do mar. e mais uma lista imensa….

modificando tanto o planeta a ponto de criar condições para a própria extinção da espécie, ou mesmo de uma redução drástica de sua população.

(num limite, pergunto-me constantemente se tanto as guerras quanto os sinistros de trânsito não são mecanismos de controle populacional. lembrando que na natureza, todo mecanismo de controle populacional é brutal….. vide a ação dos predadores de topo de cadeia).

a escolha do uso de bicicleta em lugar de motocicleta ou carro talvez seja uma das formas de correção de rota. não há como ter certeza em relação ao futuro, mas sinais existem aos montes. e o incremento do uso da bicicleta pelos mais jovens é um desses sinais. pedalemos pois.

 

 

 

 

 

3 Respostas para “a bicicleta e o resto do mundo

  1. Prezado
    Após a morte do médico no Rio de Janeiro em um roubo de Bike, começamos a pesquisar e buscar uma solução que pudesse contribuir para inibir essa ação de bandidos, fomos a diversos países em busca de algo consistente e encontramos e nos levou a criar a Startup Bikelock Brasil. Ela nasce de um acordo operacional com uma empresa Americana com presença em vários países. Um post no seu blog, retratou esse crime crescente.

    É um sistema de Proteção as Bikes, com tecnologia super avançada(NFC, RFID, Certificado Icp Brasil, Bikelockdots, Etiquetas com Hologramas, Sistema UV, DNABIKE, Transponder(op), Ibeacon 4.0(op) App Android, Iphone) que irá identificar toda a bicicleta e partes da mesma(Peças), não é simplesmente uma etiqueta colada no quadro da Bike. Sucesso na Europa, Ásia, Austrália, EUA e África do Sul. http://www.bikelock.com.br
    Como funciona:
    O sistema BIKELOCK, que propõe o aumento da segurança dos usuários, por meio do registro único de ciclistas (criando o DNA da Bike com diversas tecnologias) e bicicletas, possibilitando a identificação da bicicleta e do dono, de forma rápida e simples, além de informar se a bicicleta é roubada ou não. A plataforma também permite contato direto com o dono da bicicleta roubada, criando possibilidades reais de devolução, caso ela seja recuperada.
    Após o registro, que terá certificado de atributo digital ICP Brasil, a bicicleta ficará em nome do proprietário e somente ele poderá alterar ou cancelar o registro, acionar alerta de roubo e transferir a bicicleta para outra pessoa. Fazendo isso o proprietário estará contribuindo com o combate ao comércio de bicicletas roubadas/furtadas no Brasil.
    O objetivo do sistema BIKELOCK é estimular a mobilidade urbana de maneira sustentável, promover a segurança do ciclista, combater o roubo, dificultar a comercialização e auxiliar na recuperação e devolução de bicicletas roubadas/furtadas no país.

  2. De acordo com você, idosos não podem pedalar. Na sua opinião, em uma cidade com ladeiras, o uso de bicicletas é proibido. Sim, foi o que você disse quando condenou a bicicleta elétrica, mesmo sendo ela utiliza menos recursos que um carro. Com ela é possível chegar a destinos onde você não chegaria com uma convencional (e precisaria usar carro para ir), sendo, portanto, uma solução mais adequada para cidades.

    A probabilidade de técnicos acertarem é maior que a de você acertar, de maneira que não seria arrogância minha afirmar que você errou e Paris acertou.

    Atenção a este trecho, do seu mais recente post:

    “a escolha do uso de bicicleta em lugar de motocicleta ou carro talvez seja uma das formas de correção de rota. não há como ter certeza em relação ao futuro, mas sinais existem aos montes. e o incremento do uso da bicicleta pelos mais jovens é um desses sinais. pedalemos pois.”

    Há duas correções de rota a serem feitas no seu texto.

    1. Melhorar o texto e diminuir o lugar-comum.
    2. Não falo nada sobre a ausência de maiúsculas, porque isso embora empobreça o seu discurso, parece ter sido uma opção estética.
    3. O ciclismo é um ato libertário e o tom do seu texto é quase sempre repressivo, o que é contraditório, faceta sociopata.

    No mais, é só isso mesmo.

    • 1. o ciclismo nem sempre é libertário. é um esporte às vezes bem elitizado, e restrito aos países onde as estruturas rodoviárias e patrocinadores permitem a formação de equipes. mas é um dos aspectos esportivos menores do amplo uso da bicicleta ao redor do globo, pois é apenas uma seção do esporte em torno da bicicleta, mas bicicleta é também transporte e também lazer.
      2. nunca condenei pedelecs: motores fracos e sem aceleradores. mas condeno a enganação da indústria que vende ciclomotores elétricos – cicloelétricos, segundo a legislação brasileira – e promovendo a convivência com bicicletas nas ciclovias, para perigo de quem a bicicleta usa. aliás, idosos devem evitar esses veículos com mototres mais fortes e aceleradores, que atingem velocidades maiores e são mais pesados, e exigem equilíbrio um pouco diferente daquele usado em bicicletas. uma pedelec pesa uns 15 kg, e nãopassa de 20 km/h, e um cicloelétrico não raro passa de 25 kg, o que para alguns idosos levantar é um suplício, e colocam uma pessoa sem prática dirigindo a mais de 30 km/h sem que necessariamente os freios estejam adequados ao uso que se dá. 3. maiúsculas ou minúsculas permitem identificar os inúmeros plágios. 4. melhorar o texto? esse é apenas o meu blog, onde eu escrevo algo um pouco mais elaborado que um post no facebook. textos mais elaborados eu publico em outros canais, impressos, e mais técnicos. e daí eu reviso, uso maiúsculas e etc. pois blogs são apenas blogs. 5. sim, melhor um cicloelétrico que um carro. assim como melhor uma roda triangular do que uma quadrada. mas sempre há uma bateria com vida útil curta perto da vida útil do quadro e com destinação nem sempre adequada. mas melhor nenhum dos dois e sim uma bicicleta. essa tem sido a escolha dos colegas de 60 e 70 anos que fazem os pedais de longa distância.

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