Dória será Trump, e não Bloomberg

o recém-eleito prefeito de São Paulo não apenas está mal assessorado e não entende nada de gestão de tráfego, com sequer compreende a diferença entre público e privado.

"eu não conheço n. york, só vou a orlando fazer compras"

“eu não conheço N. York, só vou a Orlando fazer compras”

Dória elegeu-se dizendo que aumentaria as velocidades máximas em São Paulo, para espanto dos profissionais de saúde do trânsito. e como afirmou que retiraria ciclovias “ruins”, ganho uma bicicletadinha pequena – 120 ciclistas apenas – na porta de sua casa no dia 5 de outubro. (claro, se um dia retirar uma ciclovia apenas, ganha uma bicicleta maior, uns 3 mil cercado seu veículo, por exemplo – e ele desconhece que 7 mil ciclistas param a cidade).

seus assessores passaram o resto da semana contatando quem eles conheciam no meio da bicicleta. não muita gente, óbvio. no sábado 8 de outubro, fizemos uma plenária do movimento, tomamos alguns encaminhamentos, sendo um deles de que não falamos com assessores, mas com o prefeito diretamente.

no próprio dia 08 à noite essa informação já tinha chegado ao prefeito eleito. seus assessores estavam em torno das 22 horas procurando seus contatos novamente, para que, no dia 09 de manhã houvesse uma pedalada de Dória com uns 3 ciclistas… formos em quase 30.

questionado, saía pela tangente. ora anuncia que não vai retirar ciclovias, ora anuncia que vai reformar as que tenham defeitos, ora anuncia que a iniciativa privada que vai pagar por isso (????) através de alguma forma de privatização (bicicleta pagando pedágio?).

coberturas bem feitas você encontra no vá de bike aqui. e mais ainda no bike é legal aqui.

declarações de Dória de que vai rever a promessa de aumento das velocidades máximas permitidas nas marginais reverberaram na grande mídia. alguns de seus eleitores se disseram traídos. ele voltou atrás nas declarações. a cada hora diz uma coisa. e cada vez mais fica claro que não entende nada do assunto.

nessa pequena reportagem da Folha de São Paulo há alguns dados para o leigo entender o impacto de redução de velocidades máximas. basta citar que, desde que reduzidas as velocidades máximas, zerou o número de mortes na Marginal Tietê em situações diversas (colisões e etc) que não sejam atropelamentos.

o que ocorre é que a energia cinética aumenta o quadrado do acréscimo da velocidade. basicamente, se se aumenta em 5 km a velocidade, se aumenta 25 vezes a energia cinética. se se aumenta em 10 km, o acréscimo de energia cinética é de 100 vezes. se aumenta-se 20 km a velocidade, o acréscimo de energia cinética é de 400 vezes.

essa energia cinética é liberada no choque. e humanos são frágeis.

no vídeo abaixo da Transport Accident Comission da Austrália mostra-se didaticamente a diferença de 5 km na velocidade em um atropelamento.

é fato, velocidade, quanto maior, mais mata. e o vídeo acima mostra a diferença de apenas 5 km na redução das velocidades.

como mudar isso? mudando de planeta. isso é física. independe da vontade humana. quanto maior a velocidade, no momento da colisão, ainda maior será a energia liberada.

e é por isso que em velocidades menores, o número de mortes cai. e não apenas de pedestres atropelados. os próprios corpos que estão dentro dos veículos sofrem menos.

no vídeo abaixo se tem uma ideia do que acontece com os passageiros de um carro quando esse veículo bate.

a questão é que sim, velocidade mata.

e no que implicam essas mortes? no que implicam também os danos causados?

há um custo muito grande em cada “acidente”. seguradoras, por exemplo, sabem que a partir de certa velocidade, a colisão acarretará na perda total do veículo que colidiu. por um outro lado, os hospitais estão com seus setores ortopédicos lotados de pessoas cujos problemas decorrem dos sinistros de trânsito.

isso sem falar nas perdas financeiras causadas pelos congestionamentos causados pela interrupção de tráfego causada pelas batidas, atropelamentos e etc.

por isso, diversos setores da economia pressionam pelo número menor de sinistros de trânsito, basicamente pois eles aumentam de sobremaneira os custos.

é aí que Dória mostra que não entende de gestão pública.

primeiro que o setor público não é uma empresa privada. uma empresa tem donos e clientes. não são a mesma pessoa. e uma empresa deve  proporcionar lucro. não aos clientes, mas aos donos.

se há alguma empresa levemente parecida com uma prefeitura, é a cooperativa, que não visa lucro e tudo é decidido em assembleia.

a gestão pública se orienta por outros critérios. não raro pela tomada de decisões do gestor público que podem não agradar seu eleitorado.

vide a ação do hoje ex-prefeito de N. York, Michael Bloomberg. N. York, desde 2007 – sob gestão de Bloomberg – investe na construção de ciclovias.

Bloomberg, a exemplo de Dória, é magnata da comunicação. mas as semelhanças param aí.

Bloomberg faz parte de uma certa elite norte-americana que tem noção de nacionalidade, portanto entende que todo novairquino é tão cidadão quanto ele.

essa forma de sentimento de nacionalidade permite o cidadão entender o que seja uma política pública que proteção ao cidadão em situação de hipossuficiência.

o ciclista é o hipossuficiente do trânsito. não tem o espaço territorializado pelo pedestre, que é a calçada, e é a parte mais fraca no trânsito. assim, sua segurança depende não apenas de si, mas de outrem.

Dória se parece muito mais com  Trump, outro magnata da mídia que meteu-se na política. Trump ora diz uma coisa, ora diz outra, como Dória. Trump faz o elogio do mais forte, e desfaz do mais fraco. e assim como quem entende um pouco de gestão pública teme o que Trump pode fazer se eleito presidente dos EUA, quem entende um pouco de gestão pública teme as patetadas que Dória pode fazer em São Paulo.

nesse link aqui, a Folha de São Paulo noticia que diversas entidades ligadas ao Governo Estadual de Geraldo Alckmin (arqui-patrono de Dória), trabalham contra o aumento das velocidades prometido por Dória e todo esse retrocesso por ele proposto.

a questão é: Dória terá a sabedoria de Bloomberg ou será um desastre como se espera de uma eventual gestão de  Trump? minha aposta é que Dória é muito mais Trump do que Bloomberg. aliás, Dória apresentou a versão brasileira de “O aprendiz”, o programa que celebrizou Trump nos EUA.

Dória uma mistura de Trump com Berlusconi, para citar outro político oriundo da mídia e, como Dória, já condenado pela justiça por alguma irregularidade na gestão pública.

mas pro enquanto isso são especulações. Dória ainda não assumiu a Prefeitura de São Paulo. se será uma gestão amorfa,um desastre ou (milagre!) algo parecido com a gestão de Bloomberg em N. York, com diminuição de velocidades, pedágios urbanos, uma rede cicloviária gigantesca, e etc, só o tempo dirá.

uma ciclofaixa novaiorquina, obra de Bloomberg, que Dória adoraria desfazer.

uma ciclofaixa novaiorquina, obra de Bloomberg, que Dória adoraria desfazer.

 

Uma resposta para “Dória será Trump, e não Bloomberg

  1. Oi Odir, só uma correçãozinha matemática (que não tira o mérito da questão, mas apenas para que o texto se torne mais correto). aumentar em 5Km/h a velocidade não implica necessariamente em aumentar em 25x a energia cinética. Por exemplo, uma carro (aprox. 1T) está a 30km/h, a energia cinética será de 69400J, a 35km/h será 94500J. Uma elevação be significativa de 36% (mais de 1/3) mas não 25x. Será 25x quando se aumenta a velocidade em 5x, por exemplo, quando se passa de 20km/h para 100Km/h. Quando vou dar exemplo do perigo da velocidade, eu gosto de trabalhar com dobrar a velocidade, por exemplo, de 30Km/h para 60Km/h, a energia cinética quadruplicará. Se a pessoa me diz que não é muito, eu falo: se vc tiver que pular do primeiro andar, uns 4m de altura, de um edifício (vamos supor, no caso de um incêndio). Vc vai sobreviver? sim, talvez torça o pé, em um raro caso, se cair de mal jeito, pode quebrar algo, mas é quase certo que vai viver sem sequelas. Agora tente pular do quarto andar! A situação vira completamente, a chance de viver será pequena, e se viver vai passar meses senão anos em recuperação, e certamente terá sequelas pelo resto da vida. Abs

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