pequeno manual de sobrevivência pra ciclistas em cidades hostis

coleção de dicas que usávamos em SP até a construção da rede cicloviária, e que precisam ser lembradas. são úteis em outras cidades do Brasil.

pedalar numa cidade com avenidas com limites de velocidade altos pede que se tome uma série de medidas de segurança, que não passam pelo capacete, mas numa forma ativa de pedalar, de dirigir sua bicicleta. segurança ativa.

1. você precisa pedalar rápido. rapidez não trânsito não é velocidade final. mas acelerar rápido. pois o embate se dá de semáforo a semáforo, de farol em farol.

2. isso implica em ser bom de sprint. melhore isso com treinos de tiro. sério, única forma de melhorar. treine algumas vezes tiros de pedalada curtos. até o coração sair pela boca.  você precisa disso pra escapar dum ônibus por exemplo. ou pedalar rápido atravessando uma conversão, pra não dar tempo do carro fazer a curva fechando sua trajetória.

3. mas não basta seus músculos serem bons. sua bicicleta precisa sprintar. para isso a frente não pode ser muito alta, e nem o quadro pode ser muito longo. rodas menores aceleram mais rápido. se você tem menos de 1,75, é hora de recuperar aquela velha MTB 26, dar um tapa e prepará-la pra ser uma gladiadora nas ruas.

4. suspensão dianteira pode ser uma armadilha: tira suas forças ao sprintar. use uma com trava no guidão para rapidamente travar ao ter que sprintar no trânsito, ou use um garfo rígido mesmo.

5. as rodas precisam ser resistentes. escolha cubos e aros de 36 furos. aguentam mais a porradaria da buraqueira. sem ciclovias, seu lugar é o canto direito, onde as concessionárias estaduais, de água, energia, gás, e telefone cavam seus buracos e remendam daquela forma porca. nem adianta reclamar com prefeitura da sua cidade. quantas vezes as concessionárias não arrebentam “para obras emergenciais” (eufemismo para “não fizemos manutenção adequada e agora deu caca”) aquele asfalto novinho recém pavimentado?  acostume com os solavancos.

6. quados de aço fornecem algum conforto na buraqueira. prefira os de aço cromo. mas olhe a geometria. traseiras muito longas dão conforto mas tiram velocidade, tiram aceleração.

7. use guidão flat ou rise, e não guidão drop. dá mais manobrabilidade, e mesmo sendo mais largos, fica mais fácil desviar de retrovisores nos corredores entre os carros.

8. use uma relação de marchas bem ampla. você precisa desde marchas pesadas pra acelerar em descidas, como precisa de marchas leves para subir algumas paredes. a não ser que sua cidade seja plana, excepcionalmente plana, não se preocupe com “buracos” na relação. nada de cassete 11-21 de 11 velocidades. um 11-34 de 7 velocidades pode ser mais útil pra salvar sua vida numa subida com um ônibus pressionando você. pedivelas triplas são bem vindas. 48-38-28 é uma boa pedida pra uso urbano em MTBs.

9. não seja ciclista boboca que acha que misturar peças é heresia. sua segurança é importante, então vale sim meter guidão rise em quadro de speed, meter pedivela 50-34 em MTB, e etc. guarde a bicicletinha linda e top praquele passeio dominical. sua bicicleta do dia a dia precisa ser uma guerreira.

10. use pneus com pressão mais alta. você precisa de rodas que rodem bem. isso não se consegue com pneus de 2 polegadas usando 40 libras de pressão.  o ideal é 23mm(menos de uma polegada, para 700c ou 29) com 100 libras, mas dá pra rodar bem com 1,5 (26) e 65 libras de pressão. entre essas duas opções tem uma gama ampla de escolhas.

11. pedale rápido e prefira luzes a coletes refletivos.

12. deixe sua bike leve sem frescuras e sem gastar muito. freios a disco (o conjunto inteiro) pesam mais que freios de aro (sejam ferraduras ou cantis e v-brakes), por exemplo. um garfo rígido de aço pesa cerca de 1 kg, uma suspensão mediana cerca de 2 kg.  todos os penduricalhos pesam. bicicleta de cidade não precisa de ciclocomputador, nem mais que um porta-caramanholas. ursinhos de pelúcia, caixas de som e etc pesam. precisa mesmo mantê-los na bicicleta?

13. vale à pena também otimizar sua bagagem. dá pra pedalar bem na cidade sem sapatilhas e pedais de encaixe. assim você pode pedalar com o calçado que vai usar para trabalhar, carregando um par a menos de calçados na bagagem, por exemplo. vale à pena colocar num kindle, num tablet ou equivalente versões digitalizadas dos livros que tem que carregar. é uma forma de carregar menos peso. isso vale especialmente para profissionais e estudantes de direito.

14. na rua, parta do pressuposto que todo motorista é inimigo. essa é uma estratégia de sobrevivência, mesmo que não seja verdade esse pressuposto. na realidade, apenas uns 10% são agressivos, o resto é “sem-noção” mesmo. são os que veem você como um cone. até desviam, mas se pegar, pegou… como o motorista de ônibus que matou minha amiga Julie na Avenida Paulista em 2012.

15. Julie era um exemplo de todas as boas práticas: capacete, refletivos, luzes, sinalização, retrovisores. morreu gritando “olha eu aqui!”.  lembre disso para sempre rememorar: não basta ser visto.

16. tente andar na velocidade do trânsito, fluir com ele. tá difícil agora em SP pois o prefeito ora em processo de saída melhorou a fluidez do trânsito para os veículos automotores. mas o novo prefeito já anunciou as medidas que vai tomar, e logo o trânsito volta a ser dos piores do mundo, e congestionamento é a melhor coisa pra bicicleta: carros parados não atropelam.

17. lembre sempre: São Paulo não é Nova York, Recife não é Veneza, Rio de Janeiro não é Miami,  Porto Alegre não é Londres (e não, o Guaíra não é o Tâmisa!), Blumenau não é Berlim, e Manaus é bem Brasil. ou seja, todas essas cidades cheias de motoristas brasileiros. e isso significa que é todo mundo filhote de Ayrton Senna (o Brasil é o único local do mundo onde ônibus faz tomada de curva). anos e anos com o Galvão Bueno transmitindo F1 e voilà! o prefeito eleito de São Paulo fez o discurso da vitória com o tema de Ayrton Senna. Senna morreu como mesmo?

18. além do mais, motorista brasileiro sonha com a Autobahn sem limite de velocidade, sem ter a mínima ideia que a ausência de um limite de velocidade nas Autobahns é só pras duas faixas da esquerda, e na mesma estrada, os limites de velocidade vão caindo faixa a faixa em direção à direita. e também o motorista brasileiro nem sonha como são rígidas e duras as leis de trânsito na Alemanha. então já viu, né? ele dirige que nem um doido mesmo e acha que radar é uma forma de tolher o seu direito a dirigir que nem um idiota.

19. acostume-se com a ideia de que talvez você tenha que chutar uma porta: para se afastar do carro que está tentando atropelá-lo lateralmente, com  ou sem intenção. você se afastará e o motorista instintivamente se afastará. claro, depois ele virá pra cima de vc que nem um doido. então, se tiver que chutar, chute, e suba na calçada, e fuja na direção contrária, pois não há como explicar pro tapado que você estava tentando não ser atropelado ao chutar a porta daquele presente divino que é o carrinho pago em um milhão de parcelas.

20. pra chutar a porta, sua perna esquerda deve estar livre. esse é um bom motivo para não usar pedais de encaixe.

21. sinalize o que vai fazer. às vezes funciona, às vezes não. mas vale à pena. use o braço esquerdo pra dizer se vai virar à esquerda, ou passar reto numa conversão à direita.

22. lembre que o capacete não é uma armadura.

23. todo motorista é um potencial assassino. basta ele piscar os olhos para passar em cima de você com uma máquina grande. seja ela uma moto, um carro, um ônibus, um caminhão ou um trator. ele não precisa ter intenção em te matar. basta fazer uma caca e você já era. então, coloque-se numa posição que impeça-o de fazer isso.

24. motorista faz caca quando passa perto de você. e ele faz isso toda vez que você deixa espaço. então, ande na pista da direita mas no meio dela. para forçar o motorista a mudar de faixa para lhe passar. se você deixa espaço, ele passa rente e derruba você como retrovisor direito. você morre enquanto ele diz que foi sem querer…

25. lembre que pra cada motorista, você representa apenas um estorvo. sim, o seu sagrado direito de se transportar sem ferrar o ar dos outros, sem congestionar e sendo feliz é visto como estorvo pelos outros.  e continuará sendo visto como estorvo quanto mais obsequioso você for com o motorista. dê-lhe um espacinho e ele lhe toma tudo, até a vida.

26. seu maior aliado é o congestionamento. não fuja deles. o caminho congestionado é o melhor caminho: carros parados não atropelam. então, se você usar o waze, não seja você a informar que há um congestionamento à frente. usufrua-o.

27. não use as calçadas para pedalar. elas são território dos pedestres. claro, pedestres acham que ciclovias e ciclofaixas são extensão das calçadas, mas para isso existem buzinas e gritos.

28. carro parado em ciclovia é uma forma de impedir você de usá-la. é o tipo da maldade, do mais profundo desprezo pela sua vida. há ciclista que fica irritado e risca esse carro, joga ácido, quebra vidro, fura pneu. nunca fiz isso, mas não recrimino que o faça. pois é de se compreender a ira de quem tem a vida ameaçada pelo desleixo e egoísmo alheio.

29. e lembre que há muita gente que odeia você por ser ciclista ou simplesmente são totalmente indiferentes à sua vida, e não ligam se você morrer. em São Paulo esse número é quantificável. votaram em João Dória (cuja plataforma é retirar parte das ciclovias e aumentar os limites de velocidade, aumentando o risco de mortes de ciclistas), 3.085.187 pessoas. são 3.085.187 pessoas que apoiam explicitamente o maior risco de você, ciclista, morrer.  já 3.096.304 pessoas não foram votar, votaram em branco ou votaram nulo. são 3.096.304 pessoas que não ligam para que essa política seja implantada, portanto não ligam explicitamente para sua vida.  são 6.181.491 pessoas que ou querem que você corra mais risco de morrer ou não ligam se você corre mais risco de morrer por pedalar dentro da lei, exercendo seu direito.

30. sendo assim, pedale com cuidado. ande na velocidade do trânsito (o que pode ser difícil agora mas não será a partir de 2017 com as novas medidas congestionantes que serão implantadas), preste atenção nos movimentos dos sem-noção e dos agressivos, ocupe seu espaço, e sobretudo resista à barbárie.

31. são tempos difíceis. em todas as cidades estão se elegendo candidatos que ou odeiam ciclistas – como João Dória em SP – ou que são totalmente indiferentes a eles. mas sobrevive-se. pena que assim as cidades não andam pra frente. apenas estacionam no seu desenvolvimento. paciência. décadas fazendo propaganda da cultura do carro, o brasileiro tá abobalhado, bem abobalhado.

32. treine seus sprints, eles lhe salvarão a vida. pois do poder publico, pra variar, não se pode esperar nada. toque adiante, pedalemos. que venham os bárbaros.


em tempo. não agrida motoristas. se algum desses manés descer do carro pra lhe bater, evite o confronto. saia de perto. agressividade de motorista é comum, mais do que se pensa. às vezes o cara buzina, lhe passa e depois pára querendo lhe bater e você nem sabe o porquê. muita adrenalina, pouca endorfina e uma vidinha de m… atrás no volante deixam o cidadão assim. evite esses tipos. varie o caminho de vez em quando.  afinal, bicicleta é liberdade. carro é prisão. deixe os bandidos de 4 rodas pra lá. afinal, bicicleta não mata, quem mata é o carro, a moto, o caminhão, o ônibus, o trator….

3 Respostas para “pequeno manual de sobrevivência pra ciclistas em cidades hostis

  1. O ciclista que supostamente é o “paz e amor”, o feliz, o endorfina, vem aqui despejar seu discurso de ódio só porque seu candidato foi massacrado nas eleições.
    Na sua fúria nem pesquisou para descobrir que não existe cassette 11-21 de 11 velocidades. Recomenda pneus 23mm que não são usados nem no Pro Tour por serem muito finos (todos migraram para 25mm, são mais rápidos e confortáveis).
    Chutar porta de carros, riscar carros estacionados, jogar ácido(!?) essa apologia ao vandalismo não leva a nada.

    Cresça.

  2. Odir,

    Deixa pra lá. A maioria das pessoas não sabe ler mesmo. E com as novas medidas para reformar a educação, oriundas do governo golpista, o que era ruim vai ficar insustentável. Parafraseando um certo filósofo, triste das pessoas que só tem como neurônios o tico ou o teco (o a favor ou o contra).

    Paz-ciência, meu brother…

    OBS.: O grande vencedor da eleição em São Paulo (e na maioria das capitais), foi o NÃO VOTO (ou seja, NDA – nenhuma das alternativas). Isso é fato, não convicção!

  3. Realmente falta amor, mas interpretação de texto também.

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