a heróica luta pela desmotorização das cidades entre o divino e o diabólico

O Brasil é um país encantado. Nunca desencantou-se. O sobrenatural reina acima da realidade, e o carro tem centralidade quase divina nas mentes que povoam as cidades brasileiras.

carro

É fato. O brasileiro, se não é religioso, é místico. Roberto DaMatta escreveu há algum tempo um livro interessante: “Fé em Deus e pé na tábua – como e por que o trânsito enlouquece no Brasil”.

De fato, melhor benzer o carro do que aprender a dirigir corretamente. E mais, sendo a posse do carro um presente divino, o radar só pode ser coisa diabólica a impedir o uso da graça recebida de 4 rodas.

Quem, com um olhar externo observa determinados fenômenos no Brasil, percebe também a imensa religiosidade do povo. E historicamente entende como as ideias se perpetuam.

A Igreja Católica perdeu fieis a rodo nas últimas décadas. Perdeu fieis na medida em que deixou de promover o sobrenatural. Milagres e exorcismos desapareceram e com eles os fieis.  Mas toda vez que aparece algum fenômeno católico que retome esses temas novamente há algum afluxo de fieis.

As igrejas protestantes tradicionais se depararam nas últimas décadas com o neopentecostalismo. Um coleguinha estudioso do assunto, líder duma igreja tradicional, dizia há algum tempo pra mim que é o mundo AM/PM: antes e depois de Edir Macedo.

As neopentecostais divulgam uma teologia do sucesso e da prosperidade. As históricas muitas vezes focam mais o processo, mas a teologia da graça prescinde disso.  E há que se lembrar sempre: neopentecostais acolhem todos.

Em muito lugar que não chegou o Estado ainda, que não tem asfalto, não tem ligação de água, não tem ligação de luz, já tem lá um igreja. Há séculos, era uma capela. Hoje, uma construção recente, sem reboco ainda, mas já tem um pastor lá. Nas cadeias, tem lá gente fazendo trabalho sócio-religioso. Nos hospitais, também.

E no mundo encantado, o óbvio, o natural, o real, não tem espaço. Na teologia da prosperidade, bicicleta é sinal de pobreza. Carro é a marca da graça.

Presta atenção amiguinho, presta atenção amiguinha: como souberam muito bem as grandes empresas drenar a renda do brasileiro oferecendo facilidades instantâneas que atendessem às teologias do sucesso e da prosperidade que estão no Brasil desde 1500.

Antes artesãos vendiam seus trabalhos ao fausto dos grande senhores de engenho que doavam às obras da Igreja Católica. E claro, conseguiam um túmulo dentro da igreja. Hoje, permanece a vaidade da exposição da graça. Não é mais doando pra se fazer um belo altar folheado a ouro, mas ainda doando, e mais expondo a prosperidade: o carro novo, o celular mais caro e etc. E não se pensa nisso como ostentação, pois resultado da graça divina.

Notem os nomes: aparecem muitos Isaías, muitos Oseias. Samueis.  Amós não. Amós era o profeta da periferia, pregava contra a ganância.
Portanto é incômodo, pra não dizer o mínimo, para muitos dos que hoje se debruçam em cima da teologia procurando  mais do que a salvação da alma, mas a do corpo e talvez de sua parte mais sensível, o bolso. Outros nomes do Antigo Testamento pululam, Amós não.

E aí, maluco, no trânsito o bicho pega. Há mais de 10 anos, eu numa reclinada SWB – que acabei desmontando – passando na frente duma igreja onde o culto terminava,  ouvi duma velha senhora, brandindo a Bíblia: “meu filho deixe disso, aceite Jesus!”. há 2 meses, em Florianópolis, eu e o Nino, cada um numa reclinada, ouvimos que pedalávamos “virados no cão”.

Acidente de trânsito é marca da maldição, né? Então vale tudo pra proteger o carro. E claro, quem faz campanha contra seu uso, sua restrição… Se não é o maldito, é vagabundo e etc.

"Reduzir velocidades salva vidas", diz a faixa. Ação de hoje cedo, e os abnegados que acordaram às 4 da manhã pra colocar a faixa e estavam às 8 no trabalho ouviram muitos "vai trabalhar, vagabundo!"

“Reduzir velocidades salva vidas”, diz a faixa. Ação de hoje cedo, e os abnegados que acordaram às 4 da manhã pra colocar a faixa e estavam às 8 no trabalho ouviram muitos “vai trabalhar, vagabundo!”

E aí, qual o espaço para desmotorizar a cidade? Pequeno, muito pequeno. Isso explica por qual motivo as óbvias políticas públicas de desmotorização da cidade são tão combatidas. Por exemplo, deixar de usar o carro e passar a usar ônibus pode ser visto como marca da falta de fé…

Mas o que importa é a fé. O político pode ter sido condenado por corrupção várias vezes, mas sendo homem de fé… De qualquer fé….

Nesse contexto, as falas de proteção à vida ecoam no vazio, não raro parecem pregações n deserto. Não adianta explicar que redução de velocidades salva vidas: a pessoa n”ao “acredita” nisso, como se a validade do dado dependesse da crença. Não viu, não acredita, e daí não vale.

As Marginais, onde se reduziu velocidades máximas, tiveram reduções drásticas de atropelamentos. Mas quanta gente não “acredita” em atropelamentos nas Marginais? Claro, nunca prestaram atenção nos “chapas”, nos vendedores ambulantes, nos agentes da CET e outros tantos mais que estão a pé nas marginais. Nesse link aqui há dados interessantes sobre a redução de velocidades nas Marginais. Saiba, por exemplo que a 50km/h um carro precisa em média de 65 metros para parar. E a 70 km/h o mesmo veículo precisa de 110 metros para parar.

Mas as pessoas não acreditam nisso. Simplesmente isso: jogam tudo pro campo da crença, da fé. E o que pode ir contra a crença de que o carro é uma graça recebida? Como ir contra essa crença?

Lembremos que crenças prescindem de racionalidade, por isso o discurso racional, baseado em dados, não funciona. E por isso o discurso na atual campanha eleitoral, por parte de alguns candidatos, na elevação das velocidades máximas em diversas avenidas. Sabem que o eleitorado não crê nos dados. Ou seja, negam a realidade.

Fé é uma coisa sempre complicada de se discutir. Afinal, não é uma discussão racional, pessoas tomam partido sempre da sua própria fé, que não raro satisfaz seus próprios desejos. E hoje, ter um carro tem como fundamentação apenas o desejo. Pois, que rapidez há em, por exemplo circular na Radial Leste em São Paulo logo cedo pela manhã? Lá os carros ficam tanto tempo parados que estão quase deixando de pagar IPVA para pagar IPTU…

Ah, fazer o quê? Deixar pra lá. No final só dá pra tentar salvar a alma, pois o corpo já era, estendido no chão por causa do atropelamento, da batida de um carro no outro e etc. E se é resultado maldição ou sei lá o quê, o fato é que dava pra evitar. E assim os cemitérios se enchem de gente chorando, das mais diversas crenças. Pois morte é morte.

Eu não sou uma pessoa religiosa. Devo ser considerado herege por qualquer religião, qualquer crença. Até amigos marxistas e ateus me chamam de herege. Não ligo.

Admiro as crenças e religiões que fazem o cidadão melhorar, não no material, mas na conduta.  As que tiram do vício, da violência e etc. Acho bonito esse trabalho. Consertar gente não é pra qualquer um.

Mas enxergo uma cegueira nessas religiões todas. Poucas tem uma pegada mais ecológica. Poucas pregam que menos é mais, oque deveria ser uma regra num mundo tão assoberbado pelo consumo.

Tava na hora dos líderes religiosos se tocarem. Os cristãos, por exemplo, deveriam ser lembrados que, há 2 mil anos, o carro era a biga, e ônibus, a carroça. E o cavalo era a motocicleta. E JC andava a pé e entrou em Jerusalém montado na bicicleta da época: o jumento.

Ou melhor, nem deveriam ser lembrados. Esse parágrafo ai em cima vai fazer muita gente me mandar para o inferno.  Paciência, eu cansei.

Pois hoje é Dia Mundial Sem carro. 22 de setembro. Estava na bicicletada do 22 de setembro de 2003, faz tempo que milito. Hoje não consegui acordar a tempo – duas horas de sono eram poucas, acabei dormindo 4 horas, e perdi a hora- de ajudar os colegas de militância heroica pendurarem faixas grandes em duas pontes. A Ponte Estaiada, e a Ponte da Casa Verde.

O irônico é ser essa ação de madrugada, até por que todo mundo depois tinha que trabalhar. E eles na ponte da Casa Verde foram tão xingados….

São Paulo tá com quase 400 km a mais de estrutura cicloviária, aumentou em mais de 60% o número de usuários de bicicleta, diminuiu o número de mortes, mas o povo não enxerga. Mas a gente continua a luta. Um dia essa cidade fica agradável. Vai demorar, mas um dia as crenças todas mudarão. Serão as mesmas,mas diferentes. Assim espero, essa é minha crença. E a de todo mundo que hoje está em alguma atividade relacionada ao Dia Mundial Sem Carro no mundo inteiro.

É, vamos ver o que nos aguarda nas cidades brasileiras em 2017. Quem serão os prefeitos eleitos, e que boas ou má gestões farão.

Sobre Fernando Haddad, só tenho uma coisa a dizer: vai ser lembrado daqui a 3 décadas. Bem lembrado. Pois querendo ou não, essa gestão foi um marco: 400 km de ciclovias e ciclofaixas, diminuição da dívida da cidade, diminuição das mortes no trânsito, melhora na saúde… Só não vê o paulistano que não quer, e muitos não querem. Paciência. Nem perco tempo discutindo (vai aparecer um monte de gente trollando mesmo…).

Cansei. Vou bater as sandálias e pregar em outro lugar. Uns ouvirão, outros ficarão presos no trânsito. Cada um, cada um.

Vai lá, gasta seu dindin no possante. Vai lá, a escolha é sua. Eu vou é de bicicleta.


E como tem uma turma que adora hebraico, não entende p. nenhuma mas adora, tó, um pedacinho dum versículo que pra mim define o fascínio pelos carros.   הֲבֵל הֲבָלִים הַכֹּל הָבֶל – vai, tá fácil de entender, tem até os diacríticos… Procura lá, segunda metade do segundo versículo do capítulo primeiro do Eclesiastes. Vai, procura. E vê se entende. Afinal, você conhece melhor religião que eu, cita bastante coisa. Então você deve entender o básico, né?

 

 

 

 

 

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2 Respostas para “a heróica luta pela desmotorização das cidades entre o divino e o diabólico

  1. Acho legal vc ter suas conviccões, acho errado vc criticar todo mundo que tem convicções diferentes das suas. Isso é um traço do fascismo.

    O Haddad fez uma série de coisas muito boas, corredores, ciclovias só que pecou no cuidado com a cidade que está abandonada… Não adianta ter só boas idéias tem que trabalhar também.

    Porto Alegre reduziu os acidentes na cidade sem a redução de velocidade.
    Aqui a prefeitura prefere investir em radares a investir em educação, ou sinalização…

    Haddad não vai conseguir se reeleger, não vai sequer disputar o segundo turno, nem em terceiro lugar vai ficar, por uma razão muito simples é fraco, é ruim.

    • Estranho as pessoas se incomodarem tanto com os radares, para quem dirige dentro da lei, respeita os limites de velocidade, eles não atrapalham em nada.

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