o roubo de bicicletas vai aumentar em SP.

o numero de furtos explodiu e o de roubos tem aumentado fortemente, o que gerou até uma reunião entre associações e a Secretaria Estadual de Segurança. mas as medidas propostas pela Secretaria são pífias. e o buraco é mais embaixo.

roubada

roubo de bicicleta flagrado por câmeras em 2013, em SP, na Rodovia dos Imigrantes

estudar um pouco que seja de criminologia permite percebermos o quanto há de discursos vazios, de “papagaiada”, de politicagem em algumas falas de governantes. vamos entender um pouco qual o mecanismo por trás da ação da ladroagem.

quem é o ladrão que furta, e pior ainda rouba? o furto é feito sem violência, o roubo se dá sob violência ou grave ameaça.  vamos entender separadamente essas duas formas de você perder sua amada bicicleta.

antes tínhamos basicamente furtos: você deixava sua bicicleta em algum lugar e alguém a surrupiava. colocava uma trava, e essa trava era arrombada, levavam embora.

furtos de bicicletas são comuns no mundo inteiro. por isso é justamente nas grandes cidades do mundo as estratégias de evitar isso são desenvolvidas.  melhor trava da empresa americana Kryptonite não se chama “New York Fahgettaboudit Mini” à toa: ela se propõe a manter sua bicicleta segura mesmo em N. York, onde a quantidade de furtos é assombrosa.

por outro lado, nas grandes cidades europeias as bicicletas já são fornecidas com os olhais no quadro para instalação da “ring lock”, ou “o lock”: uma trava circular que trava apenas a roda traseira. assim, se a trava principal que prende a bicicleta ao paraciclo for estourada, a trava da roda traseira impede que a bicicleta circule.

da mesma forma, mais ainda na Europa, se desenvolvem blocagens antifurto – para você não perder suas rodas e ou selim com cante e tudo – luzes que dificilmente serão furtadas e etc.

bom, se isso acontece lá fora, imagine aqui, não é? pois bicicleta furtada é pra levantar uns trocos. é pra sustentar vício ou pagar o quarto de pensão. e esse ladrãozinho de bicicleta não é violento.

o fenômeno particular brasileiro, mais presente ainda em São Paulo, é outro, e muito pior: o roubo.

o roubo se dá, conforme o artigo 157 do Código Penal da seguinte forma:

“Subtrair coisa móvel alheia, para si ou para outrem, mediante grave ameaça ou violência a pessoa, ou depois de havê-la, por qualquer meio, reduzido à impossibilidade de resistência.”

notou o detalhe da ameaça ou violência? o roubo da bicicleta se dá quando lhe derrubam para subtrair a bicicleta, quando lhe apontam uma arma para levar a bicicleta, ou quando até lhe matam para levar a bicicleta.

aí a particularidade brasileira. no Brasil mata-se por uma bicicleta.

era um 24 de agosto de manhã. eu o tinha visto pela última vez na noite do 23 de agosto. ele ainda me chamou para aquele pedal, mas por preguiça não fui. na manhã do dia 24 de agosto de 2013,na Rodovia Castelo Branco, próximo a São Paulo, Silvia e Igor trafegavam quando jovens ladrõezinhos derrubaram Igor da bicicleta pra roubá-la. mas Igor caiu na estrada e um caminhão atropelou-o. os ladrõezinhos nem levaram a bicicleta…. Igor tinha 18 anos.

a lógica do roubo é outra. ela implica num risco muito maior par ao ladrão. sim, par ao ladrão também, além da vítima. toma rum tiro, pegar uma pena maior e etc, até o limite do linchamento num país em que a brutalidade é generalizada.

tendo isso em mente, como o número de roubos tem subido tanto – apesar de estatísticas da Secretaria de Segurança Pública não indicarem isso, e sabemos o porquê – a ponto das Associações de Ciclistas de São Paulo terem feito uma reunião com a Secretaria de Segurança Pública que acenou com uma solução que já tem…. leia mais aqui. mas que obviamente não resultará em nada.

o número de assaltos com violência em São Paulo é alto. todos sabemos. quem não conhece alguém que estava num carro e sofreu um assalto com arma apontada para si ou acompanhante?

pois essa sistemática chegou às bicicletas. ao seu uso. o mercado inundou-se de bicicletas com maior valor agregado – por exemplo, aquelas às quais acrescentaram um motor elétrico – que custam acima de 2 mil reais e claro, são de marcas conhecidas e desejadas.

assim, se criou também um mercado que escoasse essas bicicletas furtadas e roubadas. seja o mercado de peças usadas, o mercado de bicicletas usadas pela internet, e até a exportação para outros estados.

esse mercado já era alimentado pelo furto – como em outros países – e agora pelos roubos. a questão é: como se chega a essa violência?

a violência da criminalidade brasileira tem diversos componentes. dados inegáveis, no que tange a esses crimes é que eles aumentam à medida que o desemprego cresce. nisso o Brasil não difere de nenhum outro país. também aumenta à medida em que há uma diferenciação no padrão de vida.

esse é o detalhe que importa num esgarçamento do tecido social a ponto de se chegar à anomia, que aqui uso n sentido dado por sociólogos conservadores como E. Durkheim e R. Merton. do que falo?

se você se der ao trabalho que ouvir quilo que é o hino do sistema prisional, a música “eu sou 157” dos Racionais MCs, ouvirá fala do ladrão violento.

na violência do roubo está implícito o desprezo pela vítima. a questão é: como se chega a esse desprezo?

essa relação de anomia com os demais na sociedade a ponto de chegar a violência potencialmente mortal decorre de um transtorno acentuado. conforme bem explica Dave Grossman em “On Killing: The Psychological Cost of Learning to Kill in War and Society“, matar tem um custo.

mas esse custo é zero quando o desprezo pelo outro é zero. e o desprezo pelo outro é zero quando a sensação é de que o mundo lhe deve algo, e portanto se é credor da sociedade.

pois a questão: é difícil encarar o mundo dessa forma vivendo numa sociedade onde  se percebe claramente que as “oportunidades” não são democraticamente distribuídas e isso é visto como natural?

esse texto aqui, de um brasileiro que vivia na Holanda em 2009 explica o que é uma sociedade bem pouco violenta. pelo menos àquela época a Holanda não tinha violência, pois a sensação generalizada era de uma igualdade potencial: o doutor e o encanador tomando cerveja no mesmo boteco e morando no mesmo prédio…. e claro, o encanador percebendo que é encanador por vocação, não por falta de oportunidade.

essa não é a lógica da sociedade brasileira, muito antes pelo contrário. ressentimento social é um sentimento generalizado que distribui-se até a classe média alta.

isso explica o fato da classe média ser escrava de um certo padrão de vida.é a sua “vingança” por uma origem humilde ou a afirmação necessária do seu status em razão da insegurança do mesmo.

o comportamento no trânsito dessa classe média demonstra bem: o “direito a dirigir” de qualquer forma, exercido quase da mesma forma que um privilégio da nobreza medieval, um graça divina, não pode ser tolhido por regras de trânsito, e a autoridade que multa o mau motorista, está a alimentar uma “indústria da multa”.

todo motorista brasileiro, ou quase todo motorista brasileiro age assim. aliás, quantos não atribuem à intervenção divina em suas vidas, à graça divina, a posse ou propriedade de um carro?

não sendo um país que tenha passado pela reforma protestante, todas as teologias aqui presentes privilegiam a graça que não deriva da obra, do agir, e portanto o processo de acumulação de dinheiro, posses e etc, não interessa. interessa apenas o resultado…. importa ter, não importando como.

por isso o desprezo generalizado pelo estudo, ou a conservação de bens (quem se orgulha de conservar um carro antigo normalmente até visto como excêntrico, por exemplo), e mesmo à estrutura das coisas. importando apenas o belo na superfície….

na outra ponta, as relações de trabalho cada vez mais precárias, não inspiram a sensação de estabilidade. no andar mais baixo, os eternamente tungados, espoliados, funcionários  do setor de limpeza servem de exemplo negativo: a tiazinha da limpeza que sai de casa às 5:30 da manhã e volta às 22 hs, ou até mais tarde, sempre ganhando mal, não é exemplo a ser seguido pelos mais jovens.

querer ter as coisas que sabidamente não se obtém pelo trabalho é o motor de inúmeras atividades ilegais e ou apenas imorais. aliás, coisas cada vez mais desejadas, em razão da ação eficiente das técnicas de publicidade e marketing.

rouba-se tênis e até cachorros… sim, um cachorrinho de raça que lhe acompanha em vida pode ser o motivo pelo qual lhe apontam uma arma. na prática, o que move o ato de roubar o que você tem é o mesmo motivo pelo qual você comprou o objeto: o desejo. a se lembrar que o objeto roubado será depois ou usado ou revendido, a outra pessoa que também o deseja. motocicletas, por exemplo, são roubadas para a venda das peças, ou par auso em outros crimes, e até para serem usadas apenas por diversão no final de semana. inúmeros casos de roubos das chamadas big trails nas quintas e sextas feiras são solucionados com o encontro das mesmas motocicletas às segundas e terças, abandonadas todas amassadas, raladas: roubadas pra ficarem empinando no final de semana.

o interessante é que a classe alta não sofre com esses atos. os choques ocorrem internamente à classe média e à classe baixa. o motoboy muitas vezes tem a motocicleta roubada ou furtada por  alguém do mesmo bairro…

o ladrão que furtou essa motocicleta. espalhada essa imagem, a motocicleta do motoboy foi abandonada em outro lugar. foto fornecida por um colega.

o ladrão que furtou essa motocicleta. espalhada essa imagem, a motocicleta do motoboy foi abandonada em outro lugar. foto fornecida por um colega.

a anomia presente nas grandes cidades brasileiras é que permite a violência crescente. violência que vem crescendo desde os anos 80, mas os paulistanos agindo como os sapos na fervura: se um sapo é jogado na água quente, ele pula fora. mas se está na água fria e progressivamente a água vai esquentando, ele é cozido e não reage.

nos anos 70 as relações anômicas estavam apenas nas periferias distantes, onde, por exemplo, o assim denominado Cabo Bruno passou a agir a partir dos anos 80. as periferias dos anos 70 e 80 cresceram, sem que tenha havido um esforço maior por parte dos poderes públicos no sentido de promover inclusão social.

hoje é comum que o paulistano de classe média ou classe média baixa, e também da classe baixa, tenha um deficit de sono considerável, em razão do tempo gasto no transporte. e o crescimento econômico das duas primeiras décadas do śeculo XXI não resultaram em melhora do padrão de vida: continua-se a morar longe demais de todas as atividades, a escolaridade média continua muito baixa, senão em anos de escolaridade, mas na sua qualidade: continuam todos analfabetos funcionais, mesmo chegando ao ensino superior.

a universitária surpreendeu-se. estudava filosofia por um livrinho chamado “o mundo de sofia“,  que só depois descobriu ser um livro paradidático europeu escrito para ser lido pro crianças de 10 ou 11 anos de idade…

a se entender o caldo: escolaridade de má qualidade generalizada, forte influência das técnicas de publicidade, ausência de senso crítico, autoestima baixa, desejos de posse de bens nunca satisfeitos pois não raro insanos, tudo isso cria um caldo que predispõe à quebra de regras, sejam as do código penal (furtos, roubos, corrupções, sonegações e etc), sejam as que tratam até dos ilícitos de trânsito. pois a anomia generaliza-se, carregando consigo a percepção do estado de exceção.

some-se a isso a ação atrapalhada dos corpos policiais, mais envolvidos no combate a “perigosos” manifestantes…. chega a ser hilária a ação farsesca com uso até de helicópteros para prender uns 20 estudantes no Centro Cultural São Paulo por conta de uma manifestação…. (clique no link, a matéria da Globo é boa!).

é, ciclista de São Paulo, a polícia não evitará que roubem a sua bicicleta, mas quando você protestar por isso, pode ganhar sua própria bomba de efeito moral.

e enquanto você lê esse texto, em algum lugar, um rapaz de 13 anos está sendo cobrado pela facção criminosa pelos 600 reais semanais que deve entregar. assim, logo mais ele estará com um ou dois colegas derrubando alguém de uma bicicleta, e depois de outra, de outra e de outra…. até cumprir a cota. pois a facção lhe dá também todo o abrigo que o estado e a família não forneceram. afinal, ninguém foi às ruas exigir a construção de escolas em período integral nos bairros distantes, ou exigir que se construa metrô rapidamente até as periferias.

e não, as coisas não vão melhorar pois a economia não vai melhorar. nesse curto artigo publicado no Diplô Ladislau Dowbor demonstra como o sistema financeiro tem travado o desenvolvimento brasileiro, e nesse outro artigo, Geraldo Epstein e Juan Antonio Montecino demonstram que o mesmo ocorre nos EUA.  e sabidamente, criminalidade contra o patrimônio baixa quando há crescimento econômico e aumenta quando há crise.

mas crises… isso é coisa do capeta, né? tenha o capeta o nome que você quiser.

o fato é que, celulares, relógios, bicicletas, carros, tênis… tudo o que gera desejo gera também perigo. se não quer perder, não exponha. esse não é país onde você poderá andar com seu Rolex no pulso seguramente, após ter lavado seu próprio banheiro. é, a vida de sinhozinho ou sinhazinha implica sim em conviver com a rebelião escrava. não importa a cor da sua pele.

e o que tiver, guarde na garagem e deixe lá. afinal, conforme demonstrou o coleguinha, não falta garagem em São Paulo. não mesmo….

é, vou pedalar minha reclinada. esquisita demais pra alguém querer. melhor assim, né?

 

 

6 Respostas para “o roubo de bicicletas vai aumentar em SP.

  1. Quando uma pessoa diz que gostaria de andar armado e que atiraria para proteger o seu patrimônio. Eu penso que um ladrão que mata por um objeto, e um proprietário que mata para defender seus pertences são definitivamente iguais! Os dois acreditam que um objeto vale uma vida…

    • né? concordo. só é uma pena que as minhas duas bikes furtadas foram as duas únicas que consegui, à época, fit perfeito. como daí não conseguia com o mesmo fit, andando de fit errado, fiquei lesionado. achei recentemente do mesmo tamanho, mas é tarde, o ombro já era. então, toda vez que acordo com dor, lembro dos ladrões. nunca corri atrás das bikes, e poderia. deixa. a vida vai ser madrasta com eles. já era antes, depois de furtarem minhas bikes vai ser mais ainda. o que é horrível nisso tudo, Ricarte, é que o ladrão vê valor econômico, praquilo que às vezes tem valor de uso. por exemplo, a cadeira de rodas de um conhecido, certa vez roubada, sendo o cadeirante deixado na rua. ou o latrocínio no qual mataram comum tiro na cabeça a esposa dum aluno meu. pergunto-me que transtorno psiquiátrico sofre uma pessoa que mat anum assalto, ou deixa um cadeirante jogado na rua. sério mesmo, e fico me perguntando o que fazer para que essa pessoa que fez isso consiga de novo conviver pacificamente com outras pessoas.

    • Visão distorcida… Meus carros e minhas bicicletas tem seguro.
      Eu ando armado para defender a minha vida.

  2. Por mais paradoxal que seja, está ficando mais difícil de me empolgar em usar a bicicleta como meio de transporte, mesmo com a ampliação das ciclovias, pois nós ciclistas sofremos mais riscos ao pedalarmos sozinhos, principalmente sendo mulheres. Como esporte, conseguimos pedalar em grupo com mais facilidade e isso nos traz mais segurança.
    Uma trava ulock dessa marca está saindo por volta de R$200,00 e deve pesar uns 4kg, mas penso que não vale tanto a pena o investimento se formos pensar que temos uma chance muito alta da subtração ocorrer por meio da violência. Ultimamente tenho usado uma trava grossa com anéis articulados e, ainda assim, só encosto a bike se estiver praticamente do lado, e à vista.
    Entendo que quanto maior a popularização do ciclismo e de bicicletas circulando, maior será a infraestrutura investida e o respeito no trânsito. Porém, a contrapartida fica por conta do aumento de furtos e roubos. Lei de oferta e procura.

  3. Odir, que coincidência: ontem resgatei a minha bicicleta amarela, a maravilhosa Amarilda que me acompanha há 10 anos. Eu tinha emprestado ela prum amigo que emprestou pra outro amigo que foi assaltado e jogado 30m da ponte no rio Madeira. Sobreviveu por milagre.
    http://meninamalouca.blogspot.com.br/2016/09/nao-vai-ser-o-rio-madeira-que-vai-me.html
    Porto Velho tem aeroporto e shopping, mas está bem longe de ser considerada uma cidade grande.

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