sobre vida e morte

um domingo. um domingo de vida. embora a morte se fizesse presente na sexta.

menino "dando grau" em sua bicicleta....

menino “dando grau” em sua bicicleta…. foto de r.m. santos

assim, uma porta aberta por um motorista imbecil, repentinamente, derrubou a ciclista. parece engraçado para você? pis ela teve um severo traumatismo craniano, seguido de morte cerebral. morte declarada na sexta.

e assim encerrou-se a vida de detinha son, mãe de duas filhas, esposa, anjo nas bicicletas de vila velha. uma mulher sorridente.

carros são instrumentos de morte até quando parados.

mas chegou o domingo. domingo, em são paulo, em certas regiões, é um dia com outro sentido agora. seja na central avenida paulista, seja na longínqua avenida kshun takara, é dia sem carros, sem motos, sem motores. e a bola corre solta.

na av paulista as pessoas andam, correm. na av koshun takara a molecada solta pipa. menino de apartamento da região central nãos abe o que é isso.  o magrão, lá da zona leste, veio com a filha lygia. teve criança brincando de corrida de saco. jogando pião. tinha a meninada correndo atrás das pipas derrubadas. verdadeiras batalhas aéreas.

até cachorro passeando...

até cachorro passeando… foto de roberson

mas foi um domingo de morte também.  na BR-277, estrada onde já pedalei, um caminhão perdeu os freios, tombou, e causou um estrago  e tanto, com várias mortes. leia aqui e veja s fotos. 

é fato que a sociedade humana motorizou-se demais. está na hora de desacelerar. existem vários movimentos nessa direção. que abrangem até o comer. a motorização levou a aceleração. já ouviu falar do “slow food“? é a reação ao império do “fast food”.

está na hora de se questionar uma série de cosias, de atos, de formas de viver. aliás, uma das coisas a se questionar é a vida em caixotes.

moradora dando depoimento emocionado à rede globo, sobre o que significa um domingo feliz.

moradora dando depoimento emocionado à rede globo, sobre o que significa um domingo feliz. foto de miguel santos

pessoas há que não pisam na rua. vivem em caixotes: apartamentos, de onde saem para outros caixotes, os elevadores, para nas garagens, que são imensos caixotes, entrarem em caixotes com rodas, que são os carros. e os carros as levam para os escritórios – outros caixotes, cheios de baias – e dali saem para fazer compras em caixotes chamados de shopping centers. e o que é a vida na rua, para essas pessoas? sei lá, acho que medo, o horror…

um dia li um conto de isaac asimov – num livro emprestado pela minha amiga láritschka (seu apelido em russo, língua de seus pais, ela, loira ortodoxa por acaso nascida no brasil) há alguns anos. não lembro o nome do conto, mas nesse conto, num futuro incerto, tendo falhado o mecanismo que transportavas pessoas dum lado para o outro, o menino que ficou pra trás na escola faz algo inédito: abre uma janela e sai da escola, conhece o ambiente externo. descobre o perturbador mundo externo, com plantas e animais… perturbador não pra ele, claro.

a menina que invadiu a reportagem para dar sua mensagem

a menina que invadiu a reportagem para dar sua mensagem. foto de biosbug

esse futuro estranho já chegou para muita gente.  conheço inúmeras pessoas que moram em são paulo, vão inúmeras vezes para a baixada santista e nunca conheceram nenhuma das cachoeiras da serra do mar. e algumas eu prefiro que não  conheçam mesmo, seriam capazes de urinar e defecar na água, só pelo prazer de estragar algo natural.

são paulo vive um momento estranho. de um lado, uma série de pessoas estão participando de iniciativas fantásticas, como o programa ruas abertas, da prefeitura, onde o tráfego de algumas ruas pela cidade é interrompido, e as pessoas reocupam esse espaço, dos carros, com algo que eles não trazem: vida.

estudantes estão se manifestando de diversas formas contra as arbitrariedades do governo estadual. nesse final de semana, a fábrica de cultura da zona norte, um estabelecimento estadual, na brasilândia… fundão da zona norte de são paulo. claro, polícia levou todos par a delegacia, sendo enquadrados.

em são paulo, protestar contra o governo é pedir enquadro. o desgovernador geraldo alckmin  acaba de passar pra gestão privada, mais de 20 parques. sim, em sp vc pagará pra entrar em área pública natural.

parece, pra quem olha bem os sinais, haver uma disputa entre luz e trevas. e claro, o desgovernador, pelo lado das trevas. toda vez que a população se organiza pra protestar por algo justo, lá vem bomba. aliás, a violência policial é tanta em são paulo, que não é de se estranhar que a própria bandidagem tenha se organizado para caçar policiais.  mas lembremos, o soldado cumpre ordens. é o comando que deve responder pelos atos do comandado. e claro, a bandidagem é burra -se fosse esperta, fundaria bancos, em vez de roubá-los.

criança andando na minha reclinada vermelha.

criança andando na minha reclinada vermelha. foto de roberson miguel

é. tempos estranhos. de um lado iniciativas fantásticas, de outro, o mundo ruindo. de um lado, a vida, de outro, a morte. de um lado o pensamento livre, de outro, apenas a submissão. e afinal, de que lado você está?


estou desde esse sábado brincando com uma reclinada.  novos textos sobre essas bikes logo virão. são divertidas. e no trânsito? até agora, contei com um respeito grande. sei lá, devem me confundir com pessoas com deficiência….

 

 

 

6 Respostas para “sobre vida e morte

  1. Odir, mais uma vez um belo e provocador post.

    Sobre o lamentável caso da Detinha Son, não é um bom exemplo para usar capacete?

    Não estou isentando a responsabilidade do motorista. Alias, ele foi autuado?

    • se o capacete tivesse feito diferença nesse caso… (morte cerebral, meu caro, talvez nem capacete de moto permitisse essa proteção). e a se lembrar. antes de começarmos uma campanha na linha “use capacete”, comecemos uma campanha “abra a porta do carro com cuidado!”. essa sim mais importante, pois o capacete não nos protege a ponto de evitar braços e pernas quebrados.

  2. Em fevereiro deste ano tive um punho quebrado por conta de um senhor que abriu a porta sem o devido cuidado, foram 75 dias de licença e não recuperei completamente os movimentos da mão.
    Sem dúvida precisamos rever nossa relação com a velocidade e os veículos motorizados.

  3. “….em sp vc pagará pra entrar em área pública natural….”
    Nunca foi ao Jardim Botânico de SP? Paga-se p/ entrar em uma área pública natural há trocentos anos……… Isso p/ citar um parque próximo. Itatiaia, Serra dos Órgãos, Cataratas, Serra da Canastra, Chapada dos Veadeiros, são todos pagos.

  4. Odir, vc fez sua reclinada? Tenho muita vontade de testar uma

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