o just in time de gente e a superficialidade, ou como pedalar para o trabalho pode ser um desentorpecer da razão

é fato. a vida moderna das grandes cidades coloca as pessoas num cotidiano entorpecedor. da classe B à classe E, todos entorpecidos e assim, maleáveis, se prestam aos mais abjetos interesses. e sair da matrix pedalando, causa escândalo.

crianças brincando numa rua aberta às pessoas, na Av. Koshun Takara, nesse domingo. foto de Roberson Miguel Santos.

crianças brincando numa rua aberta às pessoas, na Av. Koshun Takara, nesse domingo. foto de Roberson Miguel Santos.

da classe B à class E, todos escravos da aparência. vestir apenas o que se tem de mais simples causa problemas.  ser negro, estar de camiseta, bermudas e boné, e chinelos, vestimenta óbvia num país tropical, e andar pelas ruas nas periferias de São Paulo é pedir uma geral da PM. fazer o mesmo nos bairros mais centrais, é pedir várias gerais.

coleguinha ciclista morador da vila madalena, mas negro. com capacete, tomava geral todo dia pra explicar o que fazia no bairro. sem capacete, duas por dia.  aluno meu, negro, motorista de ambulância, já sabe como responder nas abordagens quando não está dirigindo a ambulância, mas o seu carro. aprendeu desde pequeno: na infância era o único aluno negro duma escola particular. aliás, o único negro na escola: professores, faxineiros, todo mundo branco.

mas o periférico brasileiro no mais das vezes é branco. o fenômeno recente do funk (o miami bass que primeiro se espalhou nas favelas cariocas e não parece nem um pouco com o verdadeiro funk, que reaparece apenas em produções de músicos estrangeiros) fez aparecer uma série de MCs branquinhos.  e com a fala das periferias. vêm na esteira de fenômenos internacionais como Vanilla Ice ou Eminem. mas se a música é de origem negra, o MC branquinho sempre faz mais sucesso. ou pelo menos é mais vendável.

esse é o ponto: o vendável. músicas hoje tem em média 3 minutos. essa é a versão comercial. a versão de pista, dançante, tem de 6 a 8 minutos.

a música de 3 minutos permite no rádio operar-se da seguinte forma: 3 músicas: 9 minutos. mais 30 segundos de fala do DJ, 30 segundos de uma inserção comercial e temos um bloco de 10 minutos. e uma hora possui portanto 6 blocos de 10 minutos. e assim se organiza a rádio comercial.

a música, por sua vez, tem funções específicas. a música para articular a fala das desilusões amorosas (e depois beijinho no ombro!), a música pra levantar a moral, a música pra incentivar. o que ouvir pra ir ao trabalho e o que ouvir na volta.

longas idas e longas voltas. para quem mora longe e pega os metrôs e trens da vida, os fones ajudam a suportar o tratamento parecido ao do transporte de gado. para quem ganha um pouco mais e e compra um carro, não importa se da classe D, C ou B, a música permite suportar os longos congestionamentos sentado, com a circulação parada. muita gente desce do carro na frente do trabalho e precisa se alongar, esticar. uma ou duas horas na mesma posição…

não importa a classe social, o tempo gasto no transporte é considerável.  e também é uma fora de nunca se viver o real, mas uma espécie de hiperreal. afinal, Baudrillard estava  certo: não vivemos o real ou o irreal, mas um hiperreal. não sabemos a distância que percorremos, pois e mora “a 2 horas daqui“.

o que difere o apartamento da vila dionísia do apartamento perto do ibirapuera? se não pega sol, é gelado igual no inverno. as metragens não diferem.  padrão médio de construção é padrão médio de construção aqui ou ali. em ambos a televisão de 40 polegadas é de tela plana e está pendurada na parede.

não há diferença entre as salas. a TV está conectada ao videogame que servirá para, na sexta à noite, no sábado à noite, na tarde de domingo, para se chegar à  fase 1265748ª do game “hyper doom mega blaster”, onde seu personagem é um duende ET do planeta fúcsia,  que usa uma metralhadora giratória para eliminar os incas venusianos que invadiram a roma do século III aC.

vive-=se parte da vida por personagens. a persona que aparece no facebook (muita gente seria bem feliz se sua vida fosse como mostram nas suas próprias páginas do facebook), outra persona no instagram, outra ainda no twitter. pois sempre vigiados por empregadores, não podem mais sequer reclamar do chefe assediador sem perder o emprego.

isso serve para auxiliares de atendimento em alguma clínica, ganhando 1.500 reais, ou mesmo para um juiz de direito, ganhando bem mais que isso. a máquina engloba a todos.

todos escravos duma aparência. pensemos nas camisas sociais. cuja lavagem se dá na máquina de lavar mesmo, pois ninguém mais tem tempo pra lavar de outra forma. os mais endinheiradinhos terceirizam as lavagens para as lavandeiras que já tem pacotes fechados por semana, por mês, ou deixam o trabalho par auma diarista. os menos endinheiradinhos tem uma máquina de lavar em casa.

é fato que essas camisas logo ficam com punhos e colarinhos encardidos. a poluição dos carros em SP ajuda bastante a acelerar esse processo. em poucos meses a peça de roupa, íntegra ainda, é descartada.  e nova leva é comprada.

e assim, a cada X meses, há uma conta nas lojas a ser paga, pois uma nova leva de roupas é comprada. e assim se drena parte da renda.

renda essa que é drenada de inúmeras formas. celulares caros, comprados em 24 parcelas, drenam parte da renda. as faturas do cartão de crédito. as parcelas do carro. as parcelas da TV. as parcelas do tablet. coisas que podem ser roubadas, furtadas, e devem ser substituídas. coias, como celulares, com alto valor e que ficam expostas, na mão da moça que, na frente dum boteco da rua augusta, na sexta, via mensagens quando um rapaz numa bicicleta subiu na calçada e vlupt! arrancou-lhe o celular na mão. e ela só gritou: “meu i-phoneeee!“. o celular virou o jantar de sábado de alguém.

a se pensar em como estamos vivendo numa hiperrealidade:  o escândalo público que foi a suspensão dos serviços do whatsapp por pouco mais de 24 horas, recentemente. não há vida fora do whatsapp?

não há vida fora do facebook? do instagram? do telegram? não há vida fora dos computadores, dos celulares, dos tablets?

talvez as pessoas não enxerguem mais isso. roupas hoje são para “produções”. é isso que consta no site duma rede de roupas bem popular.  não se trata apenas de se vestir, mas de se produzir. em especial um visual que permita uma boa fotografia.  essa roupa não será usada até o fim. logo estará atulhando algum canto do guarda-roupas.

tudo correndo num nível de superficialidade. da roupa que se usa, da comida que se come, da cama onde se dorme, da casa onde se mora. aliás, se no passado a bauhaus pensou na casa como máquina de morar, são paulo inventou a arapuca onde morar.

vida difícil. “tá difícil viver” escreveu uma aluna hoje.  uma dessas lutadoras que enfrentam horas de transporte para o trabalho. uma mulher que sobreviveu a um estupro há anos atrás.  e o difícil viver que descreveu hoje é o cansaço da rotina. da drenagem da renda.

pessoas não percebem. mas quanto de renda de mulheres com cabelos mais crespos é drenado apenas para quem mantenham o emprego?  pois sim, o belo cabelo crespo pode ser um grande impeditivo para um emprego qualquer. aqui nesse link, a notícia no site do Ministério Público do Trabalho sobre um banco que impede cabelos naturais que não os lisos dos brancos….

não, não somos treinados para ver isso. isso não se enxerga. os padrões de vestimenta e aparência que drenam renda. os padrões de transporte que drenam renda, por que não?

ladislau dowbor publicou, em fins de 2014, um artigo demonstrando  como o sistema financeiro impede o crescimento o país, pois drena a renda. pode ser lido aqui, em publicação do “le monde diplomatique”.

yep, esta é a questão. sua renda é drenada continuamente, como seu tempo de vida. seu desespero existencial é permanentemente encoberto por uma sucessão de pequenos atos, impressões, chapações, entorpecimentos, imagens, sons. sua atenção sempre disputada por um zilhão de gadgets, de publicidades, de produtos, de falas.  todas visando a drenagem da sua renda. afinal, como ficar um dia sem comprar nada?

tente ficar dois dias sem usar dinheiro, seja em papel moeda, em moedas, ou mesmo eletrônico, cartões de crédito ou débito.  você não consegue mais comer em casa, você não consegue se transportar de moto próprio. nem conseguirá conversar com alguém, pois isso implica em tomar um café, um chá, uma bebida, uma cerveja….

e quando procura refúgio….  bom, as igrejas estão aí para isso. igrejas diversas hoje que viraram depósitos de desesperados dos mais diversos tipos.  isso não é novidade, pois desde sempre o humano procura o além quando o desespero bate.

e em alguns casos a igreja substitui outro drenador de renda qualquer. o dinheiro que ia pra cerveja hoje vai para o pastor.  e como não se usa mais a cara camiseta de marca, mas a barata camisa social (pois sim, vestir-se com roupinhas de trabalho, terninhos, pode ser mais barato que algumas produções de alguns manos, com tênis caros, bonés mais ainda, e camisetas com dourados verdadeiros….), se passa a impressão geral de melhoria de vida.

e às vezes é sim uma melhoria, quando se abandona o porre semanal.  igrejas todas possuem um fator de acalmamento social.

e também, claro, drenam os ódios também.  essa sua face tenebrosa.

né?

né?

pois a questão, onde achar o fio do real? onde está o caminho, seja para um sidarta gautama moderno, sair duma gaiola dourada, seja para ser um amós moderno, indo além da miséria cotidiana e enxergando as estruturas de exploração?

nãos ei. mas parecem ter achado o fio par a realidade, para fora da matrix, para o desentorpecimento, sem precisar jogar tudo par ao alto e fugir, os que usam a bicicleta no cotidiano.

pois “fugir do sistema” e simplesmente sumir por aí é o caminho de muitos.  desde os que caem na estrada sem rumo, aos que chapam de vez nas drogas, estão todos em fuga.

onde o caminho do meio?

não sei. mas os ciclistas urbanos começam a desenhar esse outro caminho. quando o celular não importa mais se é caro u barato, mas precisa caber no bolso da calça. e também caber na carteira…. quando a calça não mais é comprada por marca ou estilo, mas pelas costuras internas…. quando o mais, o motor, é substituído pelo menos,a bike de relação fixa…

quando a descida longa e rápida dá mais prazer do que muita coisa comprada por aí…. quando uma comida barata, a banana, se torna uma delícia…. junto com a paçoquinha de amendoim mais barata….

há algo de diferente no ar quando o transportar deixa de ser suplício e passa a ser prazer.  quando se recobra a real leitura de mundo. não importa a classe.

pois, como cantaram os racionais, todo mundo está com raiva por dentro, a caminho do centro. mas não quem pedala.

mas o uso da bicicleta o único caminho? não. várias pessoas estão experimentando desconfortos nessa vida e de alguma forma saindo dela. mudando de profissão, mudando de cidade. cidades como são paulo, rio de janeiro e outras vivem um êxodo contínuo. mas cidades do interior começam a crescer e apresentar problemas semelhantes.  cidades como florianópolis vivem hoje um trânsito infernal .

mas sempre me pergunto por qual motivo uma imensa massa não se levanta? toda vez que vejo aquele metrô lotado da ZL de são paulo, aquele s trens lotados, aquela humilhação diária de quem vive na ZL nos transportes, me pergunto onde e quando será o levante.  que nunca vem.

nunca vem pois estão todos absorvidos pelo just in time de gente. pois a vida difícil suga as forças, e o domingo é apenas para dormir. e nada além.

mentes entorpecidas… a máquina faz isso. e assim, só resta ler as notícias no facebook, pedir pena de morte pra cada ladrãozinho, e achar que o trânsito são os outros, orar pra ganhar mais e pagar plano de saúde e sair da fila do SUS, e que o pobre Deus lhes dê um carro.

a matrix é poderosa. e só a enxerga quem a quer ver.

 

 

 

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