a bicicleta e a subversão do just in time de gente

just intime de gente: expressão que uso em aulas, pra explicar a rotina do cidadão nas grandes cidades. sistema neurotizante, que pode ser subvertido. mas por poucos ainda.

terno e bicicleta. combinação ainda rara, em razão do anacronismo dessa vestimenta num país tropical.

terno e bicicleta. combinação ainda rara, em razão do anacronismo dessa vestimenta num país tropical.

tempo é vida. lembre disso. e pense no tempo que se leva de um ponto ao outro, numa cidade grande. o caio césar, nesse ótimo post, explica bem as dificuldades do periférico, seja o periférico de classe E, D ou mesmo C.

pois é. a se pensar claramente: não é essa forma de ocupação do espaço uma forma de evitar que a mão de obra se ocupe de algo mais do que apenas trabalhar?

meus alunos acordam 5 da manhã e saem de casa atabalhoados, chegando n trabalho minutos antes das 8 da manhã. trabalham ate o meio dia, e então tem uma corrida hora de almoço, voltam ao trabalho às 13 e trabalham até quase 18 horas (afinal, é preciso compensar as 4 horas faltantes pra completar a jornada de 44 horas mensais e não ter que trabalhar aos sábados). saem do trabalho e chegam na faculdade justo no tempo de entrarem em aula, às 19 ou 19:30, e sabem da faculdade, havendo aula ou não, puco depois das 22 horas. sim, se a aula se estende, eles abandonam. mesmo tomando faltas. mesmo tendo problemas. pois querem chegar em torno de meia-noite em suas casas e cochilar mais u menos da uma da manhã até às 5 h, e então recomeçar a labuta.

muitos começam os cursos e abandonam: não aguentam a falta de sono. a evasão nas universidades como um todo é grande por esse fator.

nos finais de semana, o transporte tem seus horários mais espaçados. do metrô, passando por trem e ônibus, tudo tem horários com maiores intervalos. e o táxi custa mais caro. tudo conspira para que não saiam de seus bairros-dormitório.

aluna minha relata que seu trajeto de hora e meia pra região central dura até 3 horas num domingo.  o ônibus que durante a semana tem intervalo de 5 minutos entre um e outro, tem intervalo de 30 minutos aos domingos.

claro, vamos entender: manter as populações imóveis quando não estão trabalhando é uma técnica de controle social. assim se mantém a hierarquia.

para que se possa ter um monte de serviçais, é preciso que não custem muito. e, portanto, que seu custo de vida também seja baixo: baixo custo de moradia, na periferia. e ausência de qualquer outro gasto, inclusive escolaridade, lazer e o escambau, para o salário de menos de 1.000 reais ser aceito.

yep! detalhes para se pensar: do alto do jd paraná ou do jd vista alegre, os dois bairros talvez mais ao norte de são paulo, onde se situa o CEU Paz e o ponto de wifi livre mais ao norte de são paulo – numa praça sem nome pois nenhum vereador botou o pé naquele fim de mundo e percebeu um apraça sem  nome para homenagear algum financiador de campanha – os ônibus tem intervalo grande e o trajeto até o terminal cachoeirinha demora 45 minutos ou mais. dá menos de 15 minutos numa bicicleta.

mas muita gente não usa bicicleta: não tem espaço pra guardar. e tem estação de compartilhamento de bicicletas? é óbvio, mais que óbvio, que não.

camila motagner fala sobre os sistemas de compartilhamento de bicicletas do brasil, nesse post aqui. entenda, são feitos  esses sistemas apenas pra aparecer em campanhas de marketing, não para funcionar como política efetiva. afinal, como o uber, só funcionam com cartão de crédito, coisa que muita gente do andar de baixo não tem…

uma historinha interessante do bicicultura: o itaú cedeu bicicletas emprestadas, as larajinhas, para participantes do evento. mais de 100 delas. uma delas foi usada por um dos voluntários, nos 4 dias. numa das suas idas pra casa, os “moleques” colaram nele, e ele já foi falando que tinha pego a bicicleta “solta”, na estação. ou seja, mentiu e falou que a tinha furtado. os “moleques” deram risada e comentaram que assim não ima tomá-la dele. pois laranjinha ou vermelhinha (do bradesco), nas periferias, só assim: tomada de alguém  ou furtada da estação….

o fato é que bicicleta e moto estão sempre com seu uso em crescimento em razão da necessidade de mobilidade nas metrópoles onde o o urbanismo não soube ser democrático.

motocicletas de baixa cilindrada, motonetas, ciclomotores e bicicletas apresentam maior velocidade de deslocamento. nos desafios intermodais que o Instituto  CicloBR realizava – em outros tempos – só amoto rivalizava com a bicicleta, nenhum outro modal competia para fazer o trajeto de 10 km no horário do rush abaixo dos 20 minutos.

a se entender: ficar parado é perder tempo de vida. por isso, há quem aja como cidadão do vídeo abaixo, que adora acelerar fundo em sua moto no trânsito de são paulo:

claro. nem todo motociclista anda assim mas é inegável que boa parte deles andam nos corredores entre os carros, nos horários de rush, assim como os ciclistas.

e aí entra o segundo ponto: hoje motos com espaço cada vez mais restrito para parada. isso tem feito uma parcela ainda pequena de usuários de motonetas, scooters, terem migrado para o uso de bicicletas: todo poste é um lugar de parada, e uma bicicleta barata com uma boa u-lock  dá trabalho demais para o ladrão, para ter pouco resultado.

o fato é que o trânsito não tem solução pois o urbanismo, a ocupação urbana está errada. não há lógica em se fazer 3.5 milhões de pessoas saírem da zona leste de são paulo diariamente para suas atividades. esse é o tamanho da população do uruguai!

e a população de mais baixa renda percebeu o logro do crescimento econômico: passaram a usar celulares  mais caros e ter mais pares de tênis, mas continuam levando duas horas para chegar ao trabalho, em um transporte cada vez mais cheio. a se notar: na estação penha do metrô, em são paulo, durante a semana, 45 minutos de fila para entrar na estação.

vamos entender: tudo está feito para não funcionar. tanto que, se alguém tenta uma mudança, o foguetório o atinge. a se lembrar da esdrúxula ação do Ministério Público de São Paulo tentando barrar a construção de ciclovias na cidade. capítulo muito triste da história do MP…

mas há como subverter o sistema? sempre há. usar a bicicleta, seja para o trajeto inteiro, seja por parte do trajeto, já é, por si só, subversão. pois não apenas economiza-se tempo, mas ganha-se em qualidade de vida, gratuitamente: a atividade física vem do próprio transporte, e não duma academia cara que não se consegue frequentar apesar de se ter assinado o convidativo plano de 12 meses…

claro,  não é solução para todos. mas para alguns é.  solução para todos numa cidade desse tamanho eu não vislumbro. há quem vislumbre sem investimentos fenomenais?

mas uma coisa é certa: meras intervenções estéticas não servem para nada. e simplesmente ampliar a construção de avenidas e túneis apenas pioram problemas.

enquanto isso, meus alunos, nesse domingo, ou estudam, ou dormem.  amanhã 5 horas da manhã levantam e recomeçam a labuta semanal.

afinal, essa é a vida dentro do just in time de gente, onde dias e semanas se sucedem até o final da vida, vida que é apenas sobrevivência e não vida plena.

 

 

 

 

 

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