a ciclovia desabada e a prova na escola

uma onda mais forte num dia de sol, sem tempestades ou tsunamis, levanta um trecho da ciclovia tim maia, ao lado da av. niemeyer, no rio de janeiro, que desaba. ao menos 2 mortos e 3 feridos. 

a ciclovia desabada, em foto do G1

a ciclovia desabada, em foto do G1

“a ciclovia mais bela do mundo!”, meu amigo carioca me dizia em janeiro, e eu quase abreviei minha viagem em SC pra me dirigir à inauguração da bela ciclovia tim maia, no rio de janeiro.

pois hoje uma onda um pouco mais forte, no costão, levantou a ciclovia, desabando-a. sim, uma onda mais forte, num belo dia de sol. que se diga de maré mais forte ou o escambau, mas é onda previsível para o local.

não há notícia de tsunami no meio do atlântico. godzilla não está chegando ao rio de janeiro. a lua não despencou no meio do atlântico.

das duas uma: ou erro de projeto, ou erro de execução do projeto. em todo caso, uma irresponsabilidade.

mas como isso acontece?

a má formação de profissionais é recorrente no brasil. aí o problema. sim, sendo professor, eu sempre me questiono sobre o ensino tradicional, com aulas, lousa e giz, cobrança de presença e provas. mas e as alternativas?

o brasileiro é, em geral, analfabeto funcional. sim, pessoas evitam filmes legendados pois não acompanham a leitura das legendas. livros não são lidos. citar algum pensador numa discussão é mal-visto.

isso impacta brutalmente o sistema educacional. colegas professores em cursos de engenharia diversos reclamam de alunos que não dominam matemática. colegas professores de cursos de arquitetura reclamam sistematicamente de alunos preocupados apenas com questões meramente estéticas.

a superficialidade reina nas faculdades, como reina no ensino médio, como reina no ensino básico, e começa em casa: moradias lindas onde não se vê nenhum livro a não ser algum livro de figuras como parte da decoração da mesa de centro.

construções mal-projetadas ou pior ainda, mal-executadas, são mais comuns do que se imagina. e isso sem falar nas eternas construções sem projeto nas inúmeras periferias do brasil.

fazer tudo a olho ou a partir dum belo traço num guardanapo, é sempre muito bem visto.

lina bo bardi, quando projetou o masp, passou os desenhos para os engenheiros fazerem os cálculos. arquiteta com sólida formação na itália, ouviu que seria impossível construir o prédio. retrucou que já tinha feito os cálculos, mas não poderia assiná-los, que os engenheiros refizessem os cálculos. refizeram, e claro, o belo prédio do masp está lá até hoje.  e ela sempre criticou a formação de arquitetos e engenheiros no brasil.

o fato é que sempre tem algum prepotente que se acha dominador da técnica construindo algo, ou executando algo de forma a sobrar mais grana. quem não lembra dos prédios de sérgio naya e seu desabado prédio palace II?

economizar no projeto, na qualidade do material, o custo da mão de obra, são práticas recorrentes de aumento de lucro nas construções feitas para o poder público no brasil.

e como se dá? como se faz a escolha que acarreta no desastre? a má formação permite o profissional não enxergar os riscos da besteira que está fazendo.

e como se dá a má formação? quem não está no sistema educacional não costuma perceber a soberba do aluno universitário brasileiro. a soberba que é inimiga do estudo aplicado. a falta de humildade em reconhecer que não sabe e precisa sim aprender.

essa soberba o brasileiro traz de fora da faculdade. e de fora do ensino médio. ele chega soberbo na escola, no ensino básico. toda vez que é repreendido por fazer alguma besteira seus pais vão tomar satisfações com os professores. essas situações são recorrentes nas escolas particulares. na escola pública, professores são até agredidos.

é esse aluno que chega ao ensino superior soberbo: “eu venho na aula, sete é obrigação do professor!” – quantas vezes o aluno universitário não repete isso?

nas más faculdades, verdadeiras fábricas de diplomas, esse aluno progride e se forma. pois a própria direção da escola repreende o professor que exija mais nas provas.

imagine o nível do profissional que esteja saindo desses cursos, se sua carreira profissional não passa por um crivo de órgão de classe, como os advogados, que precisam passar nos exames da OAB, ou juízes e promotores, que precisam passar em rígidos concursos.

acrescente a isso a irresponsabilidade de escritórios e empresas que preferem usar estagiários em projetos mais importantes, a pagar mão-de-obra qualificada.  pois mão-de-obra qualificada custa. e precisa ser bem remunerada. é custo de folha de pagamento, né?

pra cada 6 estagiários um trainee, pra cada 6 trainees um funcionário júnior, pra cada 6 funcionários júniores, um funcionário sênior.

essa é a regra em um zilhão de empresas espalhadas pelo brasil.

e assim, a mediocridade vai se espalhando pelo país. e com ela, os riscos.

um belo exemplo dessa gritante mediocridade são as reações em são paulo à “indústria de multas”. é interessante como pessoas do vulgo se comportam como se soubessem muito mais de trânsito que os próprios técnicos de trânsito.  é incrível como todo motorista de SP imagina que sabe muito mais que um engenheiro de trânsito para ir a 120 km/h numa via cujo limite é 50 km/h.

e a notícia da brutal diminuição de mortos no trânsito nos últimos anos na cidade não interessa. interessa apenas o privilégio de acelerar….

e assim, a burrice generalizada vai causando seus estragos.

em 2009, tive uma grave infecção. estava internado, e na véspera de natal presenciei uma cena triste. no corredor do hospital, sentado numa poltrona com as bolsas de antibióticos ligadas ao meu braço, lia uma nova tradução de “a ética protestante e o espírito do capitalismo” do max weber quando gritos chamaram minha atenção. era um pai, com duas crianças de uns 3 ou 4 anos, gritando com a enfermeira chefe que impedira a entrada das duas crianças na ala de infectados onde estava internada a avó. essa abnegada enfermeira explicava ao irritado pai que naquela ala crianças tão pequenas corriam riscos, uma vez que seus sistemas imunológicos ainda não estavam capacitados para enfrentar o que há nesse setor. e o homem, exasperado – que depois foi contido e expulso por seguranças – só gritava: “o que que tem, 5 minutos não mata ninguém, as crianças não ver a avó na véspera de natal? 5 minutos não pega doença nenhuma, sua vaca!” , e a enfermeira tentava a todo custo explicar a gravidade da situação, mas o panaca não queria entender. afinal, num país onde a dica de medicação da cabeleireira vale mais que a receita do médico, o leigo pode saber mais de imunologia que uma enfermeira formada, não é?

fazer as coisas com o projeto adequado é a lógica inversa do eterno “puxadinho” que marca a visão do brasileiro sobre todas as construções. num país onde o estético se sobrepõe ao funcional, essas coisas ainda acontecerão com frequência.

agora foi um erro crasso de projeto ou execução que permitiu uma onda mais forte levantar e desabar uma ciclovia. mais pra frente será um viaduto que cai. ou mesmo um ônibus que cai dum viaduto. ou um prédio que desaba. ou um barco que vira, dada a superlotação e outras falhas…

bom, o fato é que a imprensa internacional já faz suas críticas. o jornal inglês the guardian já afirma que a queda da ciclovia já coloca em dúvida a credibilidade do rio de janeiro. leia nesse link.

em todo caso, enquanto a prefeitura do rio de janeiro fala na ressaca, o CREA-RJ já vê as falhas. 

mas até agora, na mídia, nenhuma comparação: ciclovia na oscar niemeyer: 44,7 milhões, para 3,9 km. mas todo mundo espinafra o prefeito de são paulo: 80 milhões para 400km de vias cicláveis. com buracos, é claro, mas nada desabando.

enquanto isso, famílias esperam a liberação dos corpos dos que estavam na ciclovia da oscar niemeyer quando ela desabou, e técnicos apontarão, só agora, as falhas dum projeto caro.

e outros projetos caros e falhos estarão sempre sendo executados, e por sorte, não desabalarão. ou não.

pois nas empresas e escritórios, trabalham os ex-estudantes pretensiosos mas mal-formados, para fazer suas besteiras. e todo mundo achará normal, no país onde as casas não tem livros, e onde os filmes não são vistos sem legendas, e não se precisa fazer um doutorado para ser chamado de doutor, bastando um mero bacharelado.

afinal, são sempre fatalidades… carros a 120 km/h nas cidades, ciclovias desabando por causa de ondas, dengue avançando.

e quando tiver que fazer um trabalho na escola, sempre tem um site que facilita tudo.  e assim se formam os profissionais que vão projetar as coisas, e assim se despreza a formação adequada e correta.

e assim as antices continuarão a existir no país das antas, e mortes evitáveis sempre ocorrerão. afinal, é tudo uma fatalidade, né?

erro-engenharia-28

força brasil!

 

 

 

 

 

Uma resposta para “a ciclovia desabada e a prova na escola

  1. Concordo que a formação profissional é fraca, por outro lado as obras públicas não prezam pela qualidade, “n” razões que todos conhecem.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s