eu não pareço com você!

não, sr monstrorista, e não pareço com você. eu não grito para as pessoas na rua, eu não tiro finas assassinas, eu não sou um assassino em potencial.

sexta-feira, 15 de abril. após as aulas e uma conversa gostosa com alguns alunos, um, inclusive, declarando que finalmente entendeu os problemas da pena de morte, mesmo sendo ele alguém que, há 3 anos e meio perdeu a esposa ao seu lado durante um assalto, com um tiro na cabeça, eu subi pra avenida paulista.

sim, meus alunos em cursos de direito não raro chegam às aulas com algum sentimento muito forte de revolta, alimentado pela mídia. e progressivamente vão entendendo que o mundo é muito mais complexo e que a mídia mente.

na mídia o sr. desgovernador de são paulo prega maior tempo de internação para menores infratores, e omite que juízes do interior de são paulo se vêem obrigados a após 6 meses de internação liberar o menor infrator de novo para as ruas:  não há vagas no sistema, e não há investimento na estrutura. ou seja, os discursos de endurecimento são hipócritas.

não dou aulas sozinho. tenho como colegas advogados, promotores, delegados, desembargadores, gente de toda a máquina do judiciário, e então os alunos vão aos poucos entendendo o quanto há de discurso hipócrita na mídia, e o quanto também há de desvios em parte da máquina do judiciário.

a mídia mente sistematicamente, mas não apenas sobre isso. entre os programas de TV, a publicidade vende um sonho impossível: o uso do carro sem os congestionamentos, o uso do carro de forma limpa…

cidadãos enganados entram nesse sonho. são enganados, frustram-se.  e fazem besteiras.

pois é. em 10 de março de 2013, david santos de souza usava sua bicicleta para ir ao trabalho, às 5:30 da manhã de um domingo. um trabalhador…. colhido de frente, em sua bicicleta, por um carro dirigido pelo atropelador condenado alex kozloff siwek.  nesse link, leia mais sobre o caso, no qual david teve o braço direito violentamente amputado, e só não morreu graças aos primeiros socorros prestados por  um técnico de enfermagem, thiago chagas dos santos, que passava pelo local.

nesse 15 de abril, ontem, houve uma bicicletada, e eu fui ao finalzinho dela, depois do trabalho. encontrei amigos. conversei com david, que também lá estava.

voltei pra zona norte acompanhando minha quase vizinha, a natalia. wagner nos acompanhou por um trecho. despedi-me da natalia nos altos da avenida nova cantareira, e 500 metros adiante, numa curva…. a fina com o retrovisor encostando em mim e o grito pra eu ir pra ciclovia: “vai pra ciclovia, petralha!”

yep!  era um desses motoristas odiadores. dos monstroristas. dos que odeiam pobres, odeiam ciclistas, odeiam mulheres, odeiam negros, odeiam gays, odeiam tudo. os irracionais, pois o idiota não percebeu que não há ciclovia ou ciclofaixa na avenida nova cantareira.  e eu, pedalando com uma mochila nas costas, usando calças jeans, era apenas mais alguém voltando do trabalho.

esses irracionais nos odeiam. mas os cães ladram e a caravana passa.

não, sr. monstrorista, eu não apreço com você. eu pareço com as pessoas que estão tentando fazer algo para essa cidade ser melhor.

hoje, 16 de abril, um monte de voluntários está trabalhando na realização dum evento que ocorrerá em maio: o bicicultura.

hoje, 16 de abril, há voluntários lá na zona sul, no parque praia do sol, fazendo uma mão na roda itinerante. sabe o que é? é uma ficina voluntária para todo mundo consertar suas bicicletas.

hoje, 16 de abril, em algum lugar de são paulo, há alguém ensinando outra pessoa a andar de bicicleta. ou então ensinando como pedalar com segurança no trânsito. bike-anjos fazem isso com frequência.

hoje, 16 de abril, vai ter gente que vai sair pra tomar cerveja com amigos e voltar pra casa sem atropelar ninguém, sem matar ninguém, pois sairão em suas bicicletas.

hoje, 16 de abril, pessoas foram pela manhã em bicicletarias com seus filhos. preparar as bicicletas para o passeio de amanhã, domingo….

é, sr monstrorista, nós que escolhemos as bicicletas, escolhemos também viver em outro mundo.

a cidade de quem pedala é sempre diferente daquela cidade de quem dirige. quem dirige vive sempre na disputa de espaços, de congestionamentos. em busca de desesperados espaços para estacionar, e perdendo meia ou uma hora nos seus trajetos só pelo fato de errar uma entrada. um inferno…

e a cidade de quem pedala? noites de vento fresco batendo na cara. de árduas subidas, mas deliciosas descidas, de grandes e rápidos planos. a cidade de quem pedala é sempre outra.

sr monstrorista, faça um favor a si mesmo: largue a lata velha em casa e vá pedalar. gaste sua adrenalina pedalando morro acima.  delicie-se nas descidas. e pare de encher o saco de quem apenas  está voltado pra casa, sem atropelar ninguém, sem poluir o ar de ninguém.  ou continue na m.. que é o seu lugar.

 

 

 

 

2 Respostas para “eu não pareço com você!

  1. Essa é a cansada ideia do nós x eles… Um cara passou perto de vc de carro e com isso vc já assumiu que ele não gosta de pobres, de negros, de gays e de mulheres? O que é isso jovem?

    Um ciclista atropelou e matou um senhor que estava a pé sob o Elevado, ele também é um monstro que odeia gays e pobres e etc?

    Você é professor? Meu Deus…

  2. Ao ler o texto, tive a mesma impressão que o Jorge e concordo com ele até o segundo parágrafo.

    Lembrei daqueles caras da direita que frequentemente colocam homossexualismo e pedofilia na mesma frase.

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