trocadores de gatilho: a onipresença no país dos ciclistas de final de semana.

os trocadores rapid fire (shimano) e attack trigger (sram) têm presença hegemônica no MTB mundial e, no brasil, são praticamente a única alternativa nas bicicletas que não usam guidão drop, e não apenas nas MTBs, o que é um péssimo sinal. sinal que a indústria está cega.

soma buena vista: aros 65b (27,5, 26 1 e 1/2). tumbshifters. 5 tamanhos  disponíveis. clique na foto

soma buena vista: aros 65b (27,5, 26 1 e 1/2). tumb-shifters. 5 tamanhos disponíveis. infelizmente não disponível no brasil. clique na foto para mais informações.

anteontem, em 1º de abril de 2016, num post sério (e não num post brincalhão como o meu, na mesma data) a amiga renata falzoni bate na burrice da indústria brasileira. leia aqui nesse link, o texto é muito bom e vai ao ponto.

e eu venho reforçar o  que ela escreve: a indústria só vende MTBs e pra gente de 1,75 pra cima.

ora, entre as mountain-bikes, nas  competições mundiais, os trocadores de gatilho são hegemônicos. ainda se vê alguém aqui ou ali usando os excelentes gripshifters da sram, e praticamente não se vê mais a apesta da própria shimano e alguns anos atrás: a adaptação da tecnologia STI aos trocadores para guidões retos, chamada de dual control, que quando o trocador direito está conjugado com um câmbio de mola de ação invertida, geram uma forma deliciosa de se trocar marchas.

o fato é que a tecnologia desenvolvida para as MTBs há décadas têm sempre migrado pras ruas, por inúmeros fatores, mas com adaptações. lá fora a gama de ofertas contempla a todos, mas no brasil a indústria é cega, e só vê mercado nos competidores e nos ciclistas de final de semana, que pegam uma estradinha de barro aqui ou ali, e durante a semana participam de algum passeio noturno.

mas peraí, esse é mercado real? o mercado em ascensão? não.

no exterior, vemos os grupos shimano sendo ofertados à farta. FC-M670, por exemplo, é o código da pedivela do grupo SLX encontrável com as coroas com 48, 36 e 26 dentes. combinação perfeita para uma bicicleta com aros 26, ou 27,5 ou 29, que seja destinada ao transporte ou ainda ao cicloturismo.

cannondale bad boy 2005, tamanho XS. furtada em seattle, furto que não ocorreria aqui: nunca trouxeram uma desse tamanho para o brasil.

cannondale bad boy 2005, tamanho XS. furtada em seattle, furto que não ocorreria aqui: nunca trouxeram uma desse tamanho para o brasil.

ora, por que motivo a shimano mantém em sua linha essas pedivelas – essa combinação é encontrada em outros grupos, como no grupo acera, e também na linha mais baixa, muito usada em bicicletas urbanas – senão o fato de haver um mercado para essas peças?

sim, há, mas no caso do brasil, esse mercado parece inexistir. apenas parece, ressalto.

quanto aos trocadores, o mesmo acontece. os triggers se afirmaram no mercado competitivo por suas vantagens. mas no mercado das ruas e das estradas, não são unanimidade. nesse teor, ao redor do mundo, há quem adore thumb-shifters, cuja confiabilidade e facilidade de manutenção ainda é imbatível.

nas ruas e estradas do exterior também os trocadores rotativos – os gripshifters da sram, por exemplo – também têm seus fãs. e claro, também por suas qualidades: são uma delícia de usar, duráveis, intuitivos. mas tente achar gripshifters com puxada 2:1 no brasil. não achará.

o fato é que a grande indústria brasileira imagina que seu mercado, conforme a renata falzoni afirmou no seu artigo, é composta só de  mountain-bikers competidores e tem 1,75 de altura.

desde que a dorel indústries, que detém a marca cannondale, assumiu a caloi no brasil, desapareceram bicicletas de tamanho menor da marca cannondale. um bom exemplo é o modelo urbano bad boy.

aqui no brasil só apareceram por importação oficial bicicletas no tamanho M e L. um amigo, ainda mais baixo que eu, incomodado com isso, mandou inúmeros e-mails à empresa no brasil perguntando pelo tamanho menor, denominado “SM”. a resposta é que o estoque desse ano já acabou – venderam tudo até março????? – e até o final do ano virão outras.

é uma mentira.  se fosse verdade apareceriam bad boys tamanho SM usadas à venda. esse modelo é vendido no brasil não desde o começo desse ano, mas há mais tempo. mas não trouxeram o tamanho menor. é o que diversos lojistas que consultei – pois também queria eu uma pra mim – informaram.

da mesma forma a gama completa da shimano não é trazida, nem da sram. tente achar os buos de marchas de 8 velocidades da shimano. tente achar as peças que compõem seu kit completo…. tente achar cubos dínamo da shimano que não sejam os que um amigo trouxe de fora e está vendendo no mercado livre.

fabricantes de peças e componentes não acordaram para o crescente mercado urbano. a maior prova disso é ver a baixíssima qualidade das bicicletas urbanas vendidas pela dorel com a marca caloi: peças low end, ausência de informações sobre a geometria das bicicletas…. tente achar informações sobre os tamanhos disponíveis justamente do modelo chamado de “city tour”, nesse link aqui, do próprio fabricante. esqueça, não tem. não dá pra saber se tem tamanhos 17, 19 ou 21, embora isso não vá importar: de qualquer forma não se indica a distância que interessa: do tubo superior efetivo, a distância medida em paralelo ao solo do topo do centro do tubo da espiga do garfo até o canote.

ora, quantas pessoas não compararam bicicletas no tamanho errado, ou ruins, andaram um pouco e não apenas desistiram dessa bicicleta, mas desistiram de pedalar? ou seja, pela incapacidade da indústria de fornecer o produto adequado, o próprio mercado se retrai.

o fato é que a grande indústria perderá mercado para outros fabricantes. pessoas coo eu, que rodam no mínimo 200 km por semana (isso é o que pedalo apenas para ir e voltar ao trabalho, fora outros afazeres), rodando de 10 a 12 mil km por ano, acabam por procurar outras soluções. cresce aos poucos a clientela dos frame builders. para quem estão fabricando? para quem não tem o tamanho ideal de 1,75 de altura.

tom cox, da bornia & cox, por exemplo construiu pra si a única 29er na qual me senti confortável. ele tem mais ou menos a mesma altura que eu. construiu um quadro mais curtinho, e tomou cuidado ao construir o garfo, de modo que a roda dianteira não bate nos pés…

tenho certeza que klaus poloni e denis cardoso fazem o mesmo se solicitados. não tivesse eu já acertado minhas bikes – eu cato minhas velharias tamanho 17 a preço de banana, pois são quadros de 20 anos atrás, e dou uma modernizada nas peças, sem gastar muito.

bicicletas urbanas pedem uma geometria que não é das MTBs de competição. alguns colegas conseguiram alterar geometrias de suas MTBs 26, 27,5 ou 29 colocando garfos sem correção, ou seja, garfos que deixam a frente ligeiramente mais baixa que quando montada com a suspensão. isso aumenta o ângulo do tubo vertical do quadro, abaixa a caixa da pedivela, e também aumenta o ângulo da caixa de direção. e resumo, a bicicleta fica com dirigibilidade mais “nervosa” e com o centro de gravidade mais baixo, ficando também mais confortável.

isso explica tanta gente colocando garfos rígidos em MTBs, para andar nas cidades, nos seus trajetos diários.

e assim edson musa reclama que só vende MTBs. como a renata falzoni frisou: não ofertam nada decente para outros segmentos….

mas quem oferta, vende. a fila de trabalhos, em plena crise, que os frame builders brasileiros tem para entregar suas obras, é prova disso. assim como a venda de quadros de fabricantes chineses como mosso, montados por quem entende um pouco mais que o novato. quanta gente não está a essa hora olhando geometrias, escolhendo peças e etc?

eu mesmo, conforme repito, sou a prova do mercado perdido por fabricantes como caloi ou shimano: falta de informações adequadas, falta de ofertas adequadas ao meu tamanho, queimaram a imagem dessas marcas para mim. e não apenas para mim, para qualquer um que tenha menos de 1,75 de altura, ou quer uma bicicleta pra rodar todo dia, e não apenas numa estradinha de terra no final de semana e um mísero passeio noturno semanal.

e aí eu volto ao tema inicial: entre os usuários urbanos, o mercado cinza, a busca por alternativas permanece. garimpamos peças, pedimos que os amigos que venham o exterior tragam pecinhas…. compramos velharias, e vamos mexendo e adaptando.

e se os trocadores dual control da shimano não se firmaram no mercado MTB, para mim se revelaram excelentes trocadores para cidade. recomendo. assim como gripshifters da sram, thumbshifters, freios v-brake ou cantilevers e etc. só pra falar as opções que tenho montadas nas minhas velharias, meus “restos”, como certa vez disse um amigo.

e assim fica o mercado: aficionados como eu garimpam velharias ou encomendam quadros sob medida, para bicicletas para uso diário ou para cicloturismo.  já os demais usuários que estão chegando ao mercado… ou se encaixam na altura padrão ou param de pedalar.

e depois a indústria reclama, reclama, reclama…. e está o tempo todo dando tiros no próprio pé.

mas como camarão que não nada a onda leva, a grande indústria terá seu mercado corroído pelas bordas. e depois não sabem por qual motivo enfrentam uma crise num mercado que só cresce.  que se danem….

 

 

 

 

 

 

 

3 Respostas para “trocadores de gatilho: a onipresença no país dos ciclistas de final de semana.

  1. Odin,

    Muito bom. Talvez o problema seja que essas empresas são dirigidas por executivos que nao pedalam, que nao saem para pedalar anonimamente com grupos de ciclistas para entender as necessidades. Voce falou em thumnshifters – a Paul Componentes oferece um adaptador para converter alavancas de cambio p/quadro ou de triathlon em Thumbshifters!!! Sem falar no Imposto de Importação que e’ confiscatório e ai’ que os fabricantes e importadores fazem a festa.

  2. Odin, estou observando uma nova “onda” no mercado local: de linhas como a Shimano Alivio pra cima, só chegam coroas hiper reduzidas (Quando triplas: 40-30-22 ou 40-32-22), itens focados apenas no uso em MTB das aros 29″ e 27.5″, ao mesmo tempo, vejo muitos destes ciclistas procurando outras opções de pedivelas que atendam melhor um uso mais urbano (coroas maiores) Outros procurando opções a baixa durabilidade de alguns sistemas com coroa simples, estas sempre em alumínio (relações 1×10 / 1×11).

    Além disso, quando vi que as coroas de reposição das novas linhas da Shimano custam quase o dobro das linhas mais antigas (Uma Tiagra 4700 vs 4600, por exemplo). Sem falar da incompatibilidade por causa da furação assimétrica….bonitinhos, mas ordinários!

    Não consegui imaginar os dual control substituindo os triggers no MTB, mas comecei a pensar neles em uso urbano…humm, interessantes, vou procurar um modelo que tenha ajuste de puxada de cabo de freio – minhas velhas manetes Deore LX tem!.

    Já usei um thumbshifter Suntour muito bacana, montado por baixo do guidão, e bem durável visto a simplicidade da peça, já usei grips da Shimano, da qual desejei em vão a fabricação deles com melhor qualidade, me forçando a voltar aos triggers.

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