WNRB/16 – longa vida aos pelados!

em SP, nesse sábado 5 de março, aconteceu a 9ª edição da World Naked Bike Ride. mas não só em são paulo, em salvador, blumenau, rio de janeiro, vitória, florianópolis…

ZN de SP marcando presença

ZN de SP marcando presença – foto de federica fochesato

“que monte de gente feia!” gritou  uma mulher numa esquina, enquanto outra, rindo, com o celular fotografava ou filmava a passagem de monte de cilistas nus ou seminus, com os corpos pintados, com frases alusivas à segurança no trânsito.

nu você me vê!” gritava um rapaz trajando apenas tênis e boné, sentado em sua bicicleta num cruzamento,discutindo com um motorista, ali na vila madalena.

na frente da prefeitura de blumenau, valorosos cicloativistas enfrentando o conservadorismo de bulmenhell (expressão que aprendi com cicloativistas de lá), e protestando contra as omissões do governo municipal, que, como em curitiba, não cumprirá as metas de construção de ciclovias prometidas na última campanha para a prefeitura pelo candidato vencedor.

em curitiba, pena, não teve! e olha que merecia: em março de 2015, 6 (seis!) ciclistas morreram atropelados naquela cidade.

em belo horizonte, na av. paraná, 3 transeuntes resolvem acompanhar a bicicletada pelada, arrancam suas roupas e vão andando e correndo um trecho junto com o povo das bicicletas.

mas que diabos é isso?” perguntava-me um amigo carrólatra, hoje, vendo um monte de fotos publicadas na net.

bicicletada pelada, nome que demos no brasil às nossas edições da world naked bike ride, que começou em junho de 2004 – verão no hemisfério norte! – simultaneamente, na austrália, rússia, estados unidos, itália e países baixos, em no brasil, desde junho de 2008, quando em são paulo foi então preso o cicloativista andré pasqualini.

mas o que é isso? é o mais festivo dos protestos de ciclistas, é a mais séria festa de ciclistas.

pois, inobstante ciclovias, campanhas educativas e eo escambau, motoristas continuam passando por cima de ciclistas, no mundo inteiro. mas nunca um ciclista pelado é atropelado e morto.

peladões diante da prefeitura de blumenau - foto de sheila hempkemeyer.

peladões diante da prefeitura de blumenau – foto de sheila hempkemeyer.

essa é a questão. a #wnrb  é um evento anula pra chamar atenção áà questões de segurança dos ciclistas que vão muito além da construção de estrutura cicloviária, mas passam pelo comportamento dos motoristas.

pois um motorista é uma pessoa permanentemente armada: basta virar o carro e acelerar em direção errada e lá se vão vidas embora.

“isso é a total subversão do uso do espaço urbano!” me gritou magrão, professor de história, líder cicloativista da zona leste de são paulo. e claro que ele tem razão.

num país de forte origem escravocrata, a força sempre tem mais poder. as regras, o direito, bem menos. os que estão em situação de poder sempre se acham acima das regras, e claro, o carro dá poder. vide o caso de ricardo neis, o funcionário público gaúcho que acelerou e atropelou intencionalmente uma massa crítica de ciclistas que lhe atravancavam o caminho. pra ricardo neis, ciclistas e cones de borracha eram e são a mesma coisa, e não seres humanos, sujeitos de direitos que deveriam por ele serem respeitados.

pedacinho da massa em SP - foto de eduardo magrão

pedacinho da massa em SP – foto de eduardo magrão

pois no mundo inteiro já se percebeu: veículos motorizados alimentam a sensação de poder e de se estar acima das regras, do respeito, e por isso veículos motorizados matam tanto.  raciocine: quantas das mortes no trânsito não envolvem pelo menos um veículo motorizado? afinal, pedestre atropela pedestre?

pois aí entra e questão a nudez. nu se sente o ciclista o tempo todo. agasalhado, só meramente agasalhado, nas ciclofaixas e ciclovias, mas nu o tempo todo, pois o tempo todo desprotegido. e desprotegido em relação aos que trafega em veículos automotores, que se descumprem as regras de trânsito, sempre matam os mais fracos: pedestres e ciclistas.

em BH, javert dá o recado. foto BH em ciclo.

em BH, javert dá o recado. foto BH em ciclo.

e mais, a própria nudez é o desafio. ciclista, antes de tudo, precisa e quer conhecer o próprio corpo.  quem pedala passa a ter com o próprio corpo uma outra relação, muito mais funcional do que narcisista. pois o implante de silicone na panturrilha em nada aproveita ao pedalar.

ciclista, quanto mais pedala, mais se reconcilia com o próprio corpo, compreendendo o quanto a forma segue a função, e ser mais magro ou mais musculoso não é questão de estética, mas de propensão genética, e tendo implicações fortíssimas na sua forma de pedalar.

essa nova relação com o copro implica num segundo momento na aceitação da sua própria estética, que raramente segue os padrões de beleza irrreais propostos pela mídia.

sim, havia muita pança, muita celulite, muito peito caído, muitas cotas peludas, muita bunda estranha.

mais bundinhas, menos bundões!” estava escrito nas costas de um ciclista. “+ amor – motor“, estava nas costas de uma moça.

é, muitas foram as pedaladas peladas no brasil nesse sábado 05 de março. muitos foram os corajosos que não temeram mostrar ao menos partes de seus corpos, protestar contra a invisibilidade dos ciclistas no trânsito, na convivência com os veículos automotores.

quem dera que não sejam mais necessárias ao redor do mundo essas festas de protesto, esses protestos festivos. que a vida dos ciclistas, vestidos ou pelados, seja sempre preservada, e que claro! que novas relações não financeirizadas com os próprios corpos as pessoas possam ter.

e que não se repita quela violência dos rapazes bêbados e agressivos que vimos na vila madalena em são paulo, tentando de todo jeito conseguir uma briga com ciclistas.

é aí que a WNRB mostra que não é uma festa de embriagados, mas de gente sensata. não é ocupar a rua com blocos de carnaval, com festas, com bêbados em torno de mesas. não é essa ocupação de rua que ciclistas, vestidos ou pelados, promovem.

é a convivência pacífica e alegue que se quer, não a conflituosa dos imbecis.

pois nossas cidades promovem sempre o conflito dos imbecis, criando fronteiras com avenidas largas, túneis intransponíveis para quem está a pé, viadutos intransponíveis para quem está de bicicleta. as cidades brasileiras primam pela divisão “lado de cá e lado de lá”. morro e asfalto. centro e periferia. divisões que sempre acarretam em rivalidades.

besteira. o que querem os ciclistas é apenas chegarem vivos em casa, vivos e felizes. pois obsceno é o corpo estirado no chão.

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em tempo. a PM de SP contabilizou 400 ciclistas. como conhecemos as estatísticas dessa polícia, multiplicar por 4 esse número é uma forma de se chegar a uma estimativa razoável. afinal, quantos ciclistas passaram só naquele videozinho postado lá em cima? e pra citar: a massa levava pelo menos uns 20 minutos para passar….. gente pra dedéu!

e pra ver mais fotinhos, vídeos e etc, procure no google, no site vá de bike, no facebook, nos jornais. vai achar muita coisa. aproveite para pensar um pouco sobre a violência no trânsito e sobre seus irreais padrões de beleza.

pois bicicleta é liberdade, sempre. até do que a mídia lhe impõe!

 

 

 

 

 

 

Uma resposta para “WNRB/16 – longa vida aos pelados!

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