Papai Noel, a bicicleta e a periferia

natal é uma época estranha. uns estão eivados de bons sentimentos, outros percebem as desigualdades, e outros se revoltam, e eu apenas sinto….

um calor danado! - foto do roberson

um calor danado! – foto do roberson

minha ascendência um tanto germanizada fez-me herdar uma visão um pouco estranha sobre o natal. e o fato de, há alguns anos, ter passado o natal só, numa cama de hospital, com uma infecção grave, longe da família, e, naquele momento, sem a menor esperança de sobreviver, fez-me agora olhar cada festa natalina com uma intensidade grande, e não necessariamente boa, mas sempre com atenção.  quando a gente vive uma segunda vida no mesmo corpo, a relação com os tempos e as coisas mudam, muito. 

na tradição germânica, são nicolau é que, na véspera de natal, vai ter com a criança e verificar se no ano ela foi boa ou não. e junto a ele vai o krampus, um demônio, que pune as más. pode ser um contato meio assustador com são nicolau: inquirindo à criança se ela foi bem-comportada enquanto o krampus vai gritando e pulando em volta.

meu pai, certa vez, foi chamado pelo primo para ver são nicolau no sótão da casa de madeira, e ao subir as escadas correndo, o primo deu-lhe um berro e assustou-o. meu pai rolou escada abaixo, machucando bem a cabeça. tinha 5 anos, e claro, era época de natal.

alguns natais foram estranhos, outros alegres. alguns com muita gente, outros com pouca gente. alguns com muita gente que já se foi.

um natal  marcou-me muito. havíamos mudado de cidade. não conhecíamos quase ninguém naquela outra cidade. mudança provocada por doença de meu irmão, à procura de clima mais adequado à saúde dele.  naquele natal, presentes bem simplesinhos, conforme explicou minha mãe.  mas eu, aos 8 anos, estava bem feliz com um caminhãozinho de plástico. meu irmão com outro. minha irmã com uma boneca. nada de mais, nada de menos.

um outro menino, que conhecia há pouco, ao ver meu presente, comentou: “você só ganhou isso? que pobre!” – e então eu aprendi que pobreza é um conceito relacional, não absoluto.

mas naquela época eu já tinha minha bicicleta, e claro, usei muito, lá pelos 7 ou 8 anos, para explorar os confins do universo, que era umas 2 ruas pra trás…. cidade nova, melhor não se perder, não é?  ainda mais quando se sabe direito o endereço de onde se mora, nem como chegar lá.

bicicleta, pruma criança, é tudo. para os adultos libertos, também!

ainda não é natal. mas isso não impediu que nós, do cicloZN, um coletivo de ciclistas da zona norte de são paulo, fôssemos dar um jeito de ajudar a consolidar uma das ruas abertas do programa ruas abertas da prefeitura de são paulo.

a abertura aos pedestres e ciclistas estava meio caótica, não muito clara, se ia abrir a parte de cima ou de baixo da av koshun takara. um rolo só, mediado pelo roberson. mas feito o acordo com a parte de cima e a de baixo, tudo resolvido, abriram os dois lados da avenida, interditada para o trânsito.

e claro, passamos à nossa ação. eu me vesti com a roupa quente de papai noel que o roberson comprou, e fomos distribuir os presentes simples que compramos a rodo. eram bonecas, bolas ioiôs, carrinhos.

papai noel, desta vez, em bicicleta, sem trenó, sem rena, nem helicóptero. e com uma barba esquisita.  e de sapatilhas pra pedalar, em vez de botas.

em 3 locais montamos a fila de crianças para receberem os presentes, as bolas acabaram rapidamente, depois foram as bonecas. depois carrinhos e ioiôs.

emocionado, o menininho nem vê que o papai noel é fajuto.

emocionado, o menininho nem vê que o papai noel é fajuto. foto da carla.

mas o interessante era o olhar das crianças. as mais velhas, já olhando só o presente, as mais novas, olhando-me fixamente. um olhar cheio de sorrisos, de abraços.

meus duendes era a carla, o roberson,o cauê, o reinaldo e o roberson. com exceção da carla, um duende mais feio que o outro!  mas duende é assim, né?

parte do jd peri é ocupação. algumas destas, já com anos, décadas. é a classe C, D e E. e um monte de crianças. com bicicletas velhas ou novas, com roupas limpas ou sujas, mas apenas crianças.

crianças pra todos os lados, inclusive todas as idades, e uma criança talvez mais velha que eu, já com alguns cabelos brancos, querendo tirar fotos com papai noel e implorando uma boneca: uma doente metal.

ela só queria uma boneca, que saiu ninando alegremente, após pedir algumas fotos ao lado do papai noel. foto da carla

ela só queria uma boneca, que saiu ninando alegremente, após pedir algumas fotos ao lado do papai noel. foto da carla

para parte dessas crianças, esses presentes simples que dávamos serão o único presente de natal. para outras, não.

alegria e felicidade são coisas diferentes. hoje foi um dia alegre pra criançada. e felicidade?

talvez os mais pobres brasileiros da atualidade tenham mais acesso a uma série de bens que os antigos reis da idade média.

hoje, enquanto distribuía presentes para crianças descalças, algumas delas sacavam celulares e fotografavam.  uma menininha linda, sem os dentes da frente, e usando um conjuntinho de crochet azul pediu pra tirar foto comigo.  horas depois, sem a fantasia de papai noel, a vi do outro lado do rio, com a boneca na mão, brincando. pois, para muitas, as bonecas simples eram a barbie.

quantas fotos? não sei. diversas. com crianças menores e maiores, algumas com as jovens, às vezes bem jovens, mães ao lado.

na fila, aguardando os presentes que o papai noel de araque distribuía. foto da carla

na fila, aguardando os presentes que o papai noel de araque distribuía. foto da carla

um rapaz que não devia ter uns 35 anos, com um filho pequeno no colo, pede um segundo presente, “para o neto”.  sim, paternidade  e maternidade precoces são comuns onde a estrutura estatal rareia, e onde as expectativas de realizações na vida são baixas, pessoas casam cedo, muito cedo.

o fato é que são paulo cresceu repentinamente, e sem preparo, em muitas áreas. governantes omitiram-se no quesito moradia, e deixaram as leis de mercado agirem: e, no mercado, compra quem tem, não quem precisa.

e na carência do ter, o processo do adquirir perde a importância, diante da necessidade da posse e do uso.  um celular, pago, financiado, ou mesmo furtado, é necessidade última pra quem dele precisa para acertar os bicos dos quais extrai a renda que permite pagar a conta de luz, de gás, de água, o aluguel do barraco e etc.  e também a gasolina do carro sem seguro, antigo, não raro com licenciamento atrasado, mas que serve pra subir o morro, serve pra levar as ferramentas, serve pra pegar a filha no terminal, para que ela não tenha que pegar o segundo ou terceiro ônibus, que levará uma hora pra fazer um trajeto que, de carro ou bicicleta, leva 15 minutos.

periferias do mundo são tragicamente parecidas: as carências quase sempre se igualam: se a comida existe em diversas formas, a fome se manifesta de uma forma só.

diante das inúmeras carências, o que são ioiôs, bonecas, bolas, carrinhos? mas por outro lado, pra quem nada tem, um pouco é tudo.

mas o fato: a menina de uns 8 anos que ganha a boneca e diz: “oba! minha primeira boneca só pra mim!”

é….

depois de acabados os brinquedos, retirada a roupa, rolê pela festa do time da vila dionísia e a festa do reggae do primo do do roberson, e então, a chuva forte, a tempestade, na volta pra casa pelo meio do horto florestal. subi a peri ronchetti debaixo de um temporal e pedalei pelo horto  enquanto a água formava pequenos riachos sobre os caminhos. chuva forte pra lavar a alma.

pois todo o resto é apenas névoa e correr atrás do vento. הַכֹּל הֶבֶל, וּרְעוּת רוּחַ.

e assim se foi um domingo em cima duma bicicleta.

 

 

 

 

 

 

 

 

Uma resposta para “Papai Noel, a bicicleta e a periferia

  1. Odir,

    (Lágrimas nos olhos). Num mundo cão como este que vivemos, prefiro mil vezes ser a “doida”, a criança adulta, e desejar apenas uma boneca e uma foto com um papai noel de mentirinha, do que ser a ostentação, e desejar um mundo fútil e desigual que me tire do patamar dos ‘mortais-pobres’ e faça de mim um “semi-deus”. Pobre eu!

    Afinal, a tentação do diabo-divisão desde o início não foi esta “Vocês serão como DEUS”? Mentira, nunca seríamos, mas em nosso mundinho, poderíamos ser a própria encarnação de Lucifer….

    Uma coisa é “construír sonhos” dominicais, reformar casas com o gordo dinheiro de patrocidadores ávidos não em fazer o bem, e sim em aumentar o seus mercados, tudo isso regado a muito emocionalismo barato, que faz a pessoa beneficiada refém do apresentador ‘gênio-da-lâmpada-de-araque’. Outra bem diferente é ser papai noel numa periferia qualquer, sem trenós nem renas, nem carruagem especial (apenas uma bicicleta) e realizar pequenos sonhos (“oba! minha primeira boneca só pra mim!”, rs) que dificilmente sairão da cabecinha daqueles pequenos. Sem ninguém ver….

    “Quando deres uma esmola, que tua mão direita não saiba o que faz a esquerda” (Mestre Jesus).

    Que mais posso te dizer?

    Baruch Hashem! (Que Deus te abençoe!)

    Feliz Nalal, Ogro!

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