o que é a bicicleta na sua vida?

o que é a bicicleta na gramática da vida, na gramática da sua vida?

vai, apegue-se aos seus preconceitos e aponte todos os erros dessa foto.

vai, apegue-se aos seus preconceitos e aponte todos os erros dessa foto. (e antes de xingar a “nordestina pobre”, saiba que a ciclista chama-se Lucia, e a foito foi tirada na Eslováquia)

cara, não se se você entende. mas hora do pedal, o dia do pedal, é uma porta prum universo paralelo. por que, saca só: eu paro tudo. eu desço do salto, eu saio da roupitcha do trampo. meu cabelo vira uma paçoca mas não estou nem aí, tá debaixo do capacete. é assim, enquanto eu ainda estou me vestindo, boto a bike no carro, chego, lá, desmonto a bike, ainda tá tudo ok. mas coloquei o capacete na cabeça, ouvi o apito do guia, pedalei… aí é o outro universo, esquece tudo. aí é O pedal. esquece tudo, já era! , o marido, filha, meu gerente, minha sogra, vai tudo pra casa do chapéu! babau! aquele momento é meu!”

isso ouvi duma participante de pedais noturnos em são paulo. desceu uma caloi ventura de um honda CR-V, ou melhor, os amigos de pedal ajudaram atirar a bicicleta do suporte. acho que seu capacete custou mais que a bicicleta.

ouvi muitas falas, anotei algumas, no decorrer da feitura da minha tese sobre cicloativismo. escrevi sobre cicloativismo, mas gostaria de ter 20 anos pra fazer a tese, e aproveitar pra mapear todo o universo da bicicleta em são paulo e no brasil.

eu sou representante da bike no Conselho Municipal de Transportes, participo aqui e ali de associações de ciclistas, tava nas primeiras bicicletadas do brasil, saio em reportagens falando da bike. sou tido como cicloativista. mas também sou nerd de bike: adoro discussões intermináveis sobre solda em aço e alumínio, sobre eficiência de freios e etc. a melhor lembrança que tenho do dia da assembleia de fundação da ciclocidade era  do arturo alcorta emprestando uma bicicleta pro cleber anderson e explicando que os aros tinham virado um oito e ele tinha realinhado tudo. e eu cheguei perto e apenas comentei: “cantilevers!” e tomei uma aula-sabão sobre a eficiência dos cantilevers do arturo – mal sabendo ele que não contou nada que eu já não soubesse e que eu adoro cantis….

então eu frequento diversos universos. adro falar de soldas. mas também de fibra de carbono. discutir selins. participar de longas pedaladas. de viajar de bicicleta. competi uma nove de julho – na categoria café-com-leite, claro. mas também gosto de ouvir as mulheres sobre as questões de gênero relativas à bicicleta. gosto de ouvir as falas de quem treina todo dia. de quem pedala pouco mas passa o dia inteiro consertando bikes alheias. e etc.

e no decorrer da feitura da tese fui recolhendo falas sobre o que é a bicicleta na vida das pessoas. muitas frases me surpreenderam a fala da jovem senhora que abre esse post pra mim é um achado.  como também a fala da hoje diretora duma certa associação, sobre o pedalar: “minha bunda subiu e minha auto-estima subiu junto!

ou a fala duma amiga: “sem pedal as cólicas me tomam! você não entende, mas bike torna minha vida suportável naqueles dias mensais onde eu penso que a morte é uma opção factível. ontem fiquei o dia inteiro subindo e descendo a sumaré em cima da bicicleta falando ao celular, pra poder trabalhar…..”

mas às vezes a fala não vem direta. um participante dum fórum de bicicleta, dos vários existentes, contou sobre sua depilação – sim, era um tópico sobre depilação masculina para ciclistas, que fazem isso há décadas sem a menor intenção estética, mas puramente funcional – sobre como a depilação semanal já é um ritual seu enquanto ciclista que treina, que acorda cedo pra rodar antes do trabalho,que frequenta pelotes, que participa de competições, que o definem nesse mundo como “ciclista“, não como diretor duma empresa, ou pai de família, ou sei lá mas qual papel social desempenhe.

pois, pra pensar: num país ultra machista como o brasil, o que é para um diretor de empresa ter as pernas depiladas?  muitas vezes precisa esquematizar com uma depiladora, chegar nos locais de depilação por uma porta lateral, atrás, um horário diferente e etc.

a se notar também a imensa quantidade de pessoas cuja foto de perfil lá no facebook é tirada de cima da bicicleta, ou quando está pedalando. ou simplesmente sua cara com capacete e óculos de pedalar.

sim, “óculos de pedalar”.  – há uns 15 anos ou mais, apareci numa descida de serra com um ray-ban aviador: gozação geral, não era “óculos de pedalar“.

as identidades são importantes.  no facebook marcam muito minha profissão: “biker”! – é assim que muita gente me identifica. mas o que é essa identidade?

“cara, dá pra ver lá tua banca com roupa de gente, e não de terno e essas coisas?” – foi a pergunta dum amigo na véspera da minha defesa da tese. e respondi que poderia ir com “roupa normal” e ele foi:  sapatilhas, calça de ciclismo, camiseta e colete verde-limão. o capacete e as luvas ele tirou na sala onde se deu a defesa. e ele não era o único assim.

eu tava endo: calça jeans tenho uma só, uma calça social, mas bermuda e calça de ciclismo, contei 27. bermuda ‘normal’ minha mulher comprou duas quando fomos pra praia no carnaval…”  – segredou-me alguém ano passado.

mas, em outra ponta, uns dizem que bicicleta é só bicicleta. “ah, é só meu veículo. eu monto em cima e vou aonde tem que ir, simples assim.”., disse a pessoa, e em seguida começou a perguntar de pneus pra asfalto.

pra algumas pessoas, a bicicleta cotidianizou-se. “você pedala o tempo todo?” perguntou-me certa vez um repórter. e eu, respondi sem prestar muita atenção: “não, só quando saio de casa…”  e o câmera deu uma gargalhada da cara do repórter. expliquei depois que não tava sendo irônico, mas que não costumo sair dirigindo, pegar ônibus, essas coisas. sei lá, faço isso umas 2 vezes por mês.  e então foi que percebi, diante da cara que fez o repórter, do quanto o não-ciclista vê de estranho em pessoas como eu.

mas um colega duma periferia de cidade grande, diz com seu forte sotaque nordestino: pedalar aqui no meu bairro é normal. bicicleta é o carro do pobre: leva bujão, leva a feira. mas o povo assim que pode compra um ‘poisé’ e larga a barra-forte. mas quem vive da mão pra boca pedala muito….

mas na perifa de são paulo ouvi: eu uso capacete. pra não tomar esculacho. os hômi num vêem gente da minha idade como trabalhador. se é tiozim com enxada na bike não toma esculacho. mas vêem os manos dando grau e já colam. eu depois que passei a usar capacete numa mais fui parado. só por deus, viu?  a fala é  dum rapaz evangélico, 21 anos, um filho, casado desde os 19, auxiliar de serviços gerais numa empresa da barra-funda, e mora distante 30 km do seu local de trabalho. o irmão está preso.

o capacete gera  falas díspares. há quem use para marcar sua identidade enquanto esportista. há quem não use justamente para não parecer esportista.  e há quem procure o capacete coquinho para usar um capacete mas não parecer esportista: “é mais bonito, não fica cm aquela cara de quem tá indo treinar, combina mais com a roupa“, comentou uma moça que pedala de vestido sua bicicleta com quadro step-through, e alforjes coloridos.

não sou bicicleteiro, sou ciclista, uso capacete!”  – foi a bronca que levei há uns 6 meses no trânsito, de um ciclista ao meu lado. eu com minha trek, uma speed “hibridizada” com guidão reto e cassete e câmbio traseiro de MTB, para-lamas, jeans, camiseta, óculos escuros, uma messenger nas costas, e ele com uma trek MTB com freios a disco, pneus lisos, uniforme completo de ciclismo e mochila nas costas. a conversa começou comigo cumprimentando-o, perguntando de onde vinha, comentei tb que até vinha de mais longe, e ele já foi falando que eu estava “todo errado“.  (mas quem tava com selim baixo era ele… um dia o joelho dele mostra quem estava errado…)

era um discurso de classe, claramente um discurso de afirmação de pertencimento à classe média. eu compreendo: a classe média precisa de constantes afirmações de classe, dado o fato que, no brasil, o pertencimento à classe média é precário e não raro a lembrança da pobreza é recente.

aliás, é uma forma de discurso de direita movido justamente por essa insegurança. a se notar: um fator exterior ao uso da bicicleta em si, mas que o contamina. pois parte da resistência ao uso da bicicleta, ao menos enquanto transporte, se deve a questões de classe: bicicleta ainda é vista, em muitos locais, como veículo do pobre – embora de fato o seja, e portanto, não possa ser usada por quem teme (em razão de sua insegurança) ser confundido com pobre sem o ser.

daí também parte do discurso de que o uso da bicicleta só possa ser episódico, uma janelinha pra outra dimensão, ocorrendo num momento previamente delimitado, e não possa ser cotidianizado.

é se levando esses fatores de classe que se deva ler a seguinte pesquisa, nesse link publicada, pela folha de são paulo, principalmente o item 5, onde se demonstra que a maior aprovação à instalação de ciclovias e ciclofaixas ora em curso no município de são paulo se dê justamente entre os que recebem mais de 10 salários mínimos e tenham ao menos nível superior de escolaridade.

agora tá mudando, mas até 2 anos atrás, só 3 pessoas iam de bicicleta para o trabalho: eu e dois porteiros” – segredou-me um diretor de banco, há uns 3 meses.  os porteiros por necessidade e ele por hábito, depois de morar em amsterdam, londres  e berlim e, claro, hoje morar a 4 km do emprego.

e é também nesse contexto que precisa se entender a fala de ferréz, sobre seu carro, e dizendo que bicicleta rola na vila madalena, mas não na periferia. é o discurso de classe média ascendente.

https://www.youtube.com/watch?v=tqh7-pK0-OI

o fato é que muitas formas de preconceito racial, social e de gênero, permeiam o uso da bicicleta, e mesmo o impedem.

mas o interessante é notar o quanto o uso da bicicleta nos permite justamente ver e questionar essas estruturas sociais. essas fraturas no tecido social, o eterno conflito entre os estamentos.

e claro, pertencer à classe média ou alta, e escolher usar a bicicleta, implica em muitas vezes enfrentar os preconceitos, que que vão da hostilização gratuita no trânsito a uma hostilização velada: a eterna falta de ter onde estacionar a bicicleta, mesmo que haja lei determinando que o estabelecimento deva fornecer local adequado para a parada da bicicleta.

ou até mesmo a pressão para que se trabalhe com uma certa aparência, que vá além da escolha das roupas e chegue aos cabelos. “aqui, cabelo armado nem pensar! quem tem crespo alisa senão roda!”, segredou-me uma lojista, enquanto com os olhos controlava os movimentos  da dona da loja.

é nesse contexto que hoje compreendi a frase duma aluna:  “esquece professor! pedalar e andar desmonta meu cabelo! já era! é carro, táxi, busão e metrô senão eu desmonto o carão!”

também foi a frase duma amiga, num pedal dominical qualquer: foto só na primeira meia hora, depois o cabelo desmontava. e daí a justificativa: “tá vendo por que não vou de bicicleta pro trabalho?”

de fato, a estrutura social brasileira discrimina muito a atividade física, às vezes só permitida se se tratar da atividade esportiva. assim, um pedal noturno de 15 ou 20 km é treino, mas pedalar 40 km por dia indo e voltando ao trabalho não…

ou então, ao ser reconhecido como alguém do pedal, imediatamente lhe perguntam a que grupo de pedal noturno pertence. perdi a conta de quantas vezes me pediram pra eu apresentar minha turma de pedal. normalmente digo que são sete mil – os sete mil que apareceram na bicicletada de 27/03.

ah, sei lá.  meu capacete quebrou depois da 9 de julho que corri nesse ano. não comprei outro. minhas bermudas de ciclismo estão poídas. comprarei outras bermudas e capacete ano que vem, quando se iniciar a série de audaxes de 2016.

tenho pedalado com roupas +/- “normais” e não tenho tido muita paciência para tribinhos urbanas de pedal, até por que sempre sou muito questionado em razão de minhas escolhas ditadas pelas minhas dores e meus trajetos.  e mais pra frente, quando passar a usar quase diariamente uma reclinada, vou ouvir um monte de impropérios e comentários esdrúxulos, eu sei. “E.T.”,  é o comentário menos ofensivo que se ouve numa reclinada em são paulo.

o brasil como um todo é um país onde se deslocar na sua bicicleta, sem poluir, sem fazer barulho, e tentando ser feliz, ainda é visto com algo reprovável. paciência, um dia a coisa muda.

mas até lá hipsters vão brigar com ciclistas de passeios noturnos, que brigarão com os ciclistas dos pelotões, que reclamarão dos bike-messengers, que reclamarão dos triatletas, que falarão mal dos commuters, que reclamarão dos cycle-chics, que falrão mal dos mecânicos, que difamarão os donos de bicicletarias, que xingarão os fabricantes… e todos serão unidos nas  pedradas e atropelamentos que sofremos.

tem muita coisa pra se mudar nesse país no que tange à bicicleta. mas isso não me preocupa: não vivo de bicicleta, que na gramática da minha vida, é meu veículo, meu lazer, e caminho para conhecer um monte de gente, todas elas com um monte de feitos, assim como eu.

pedalemos, pois, que pra esse país virar uma terra decente ainda falta muito, e tudo isso depende de nós.

 

 

 

 

 

 

2 Respostas para “o que é a bicicleta na sua vida?

  1. Muda sim, Odir!

    Parabéns pelo blog! Aqui em Teresina (PI), o uso da bicicleta como meio de transporte ainda é restrito aos “peões”, pobres e invisíveis. É uma derrota ser visto em cima de uma bike indo trabalhar, por exemplo. A moda aqui são os audaxes e ciclismo de final de semana. Tanto que na ciclovia destinada a todos, não raro temos que sair da frente dos velozes e furiozos pedalando suasl curvelo, os “profissa” (Ciclovia não é a pista adequada a esses treinos, não em dias “normais”, pelo menos)

    O segurança de onde trabalho me chamou num canto ao me vir deslocando de bike e disse:”rapaz, a gasolina tá cara, né? Por que você não compra uma POP 100?” (Tive de explicar que se quisesse, poderia compra uma Á VISTA, mas gostava mesmo era da bike, rs). Um outro segurança “perdeu” a moto para um bandido. Mora a 12 km. Disse pra ele vir de bike e ele topou. Agora vem trabalhar todos os dias.

    Um dia muda, e muda mesmo. Pois o sufocamento provocado pelos carros há de forçar essas mudanças. E em meio a alguns corajosos aqui e ali, pode demorar, mas a gente acaba tendo que se adaptar a outras alternativas de modais. Afinal, se até a “tia” Falzoni foi uma pioneira/”estranha” no seu tempo, mas permaneceu aguerrida e hoje, colhe-se os frutos, sabemos que o caminho é esse.

    A luta deve continuar, sem perder a gentileza jamais!

    Grande abraço!

    Lucas RUAN

  2. Ah! E o que a bike representa na minha vida? SImplesmente viver! Estar sempre em movimento!

    That’s All!

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