a cidade na janela do carro, e o relógio no pulso direito

relógios se usavam no pulso esquerdo, menos ativo. e se dava corda com a mão direita, foi assim que santos dummont projetou seu cartier. viva-se na cidade real. mas as cidades que se vê da janela do carro são mais bonitas, e o relógio vai para o pulso direito, por conta do ladrão. 

relógios de pulso eram coisas de mulher. homens usavam relógios de bolso. bem decorados, com belas correntes. dava status ter um patacão.

o relógio de pulso masculino surgiu da necessidade. em 1880 o kaiser guilherme I encomendou à girard-perregaux um equipamento militar: 200 relógios de pulso para oficiais de sua marinha.

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na propaganda, o relógio na direita como se usa em são paulo… afinal, a vida não está fácil pra quem se mexe pouco, né?

durante a guerra dos bôeres, soldados britânicos amarravam ao pulso seus relógios, para controlar o tempo para ataques coordenados.

fora de combate e ferido na guerra dos bôeres, um soldado britâniconão deixa de usar seu relógio de pulso..

fora de combate e ferido na guerra dos bôeres, um soldado britâniconão deixa de usar seu relógio de pulso..

santos dummont tinha dificuldades de calcular o quanto tinha de combustível em seus aparelhos voadores: dependia da quantidade de combustível o tempo de vôo, e pelo tempo que estava voando sabia o quanto ainda teria de combustível. mas como ver as horas soltando uma mão dos controles para pegar o relógio no bolso? preferiu desenhar o modelo que desejava e encomendou ao seu amigo, louis cartier, que fizesse um. até hoje o modelo santos da cartier está à venda, e constitui talvez o primeiro “pilot watch”.

durante a primeira guerra mundial os relógios de pulso se disseminaram. havia pulseiras de couro que acomodavam relógios de bolso no pulso. e claro,disseminaram-se os relógios feitos especialmente para se usar no pulso. nas trincheiras os soldados tinham seus relógios ao pulso.

soldados alemães durante a I guerra. no pulso à esqeurda do soldado à direita, um relógio de bolso acomodado numa wristlet, pulseira de couro especial para acomodar no pulso relógios de bolso.

soldados alemães durante a I guerra. no pulso à esqeurda do soldado à direita, um relógio de bolso acomodado numa wristlet, pulseira de couro especial para acomodar no pulso relógios de bolso.

e, como 90% ou mais da humanidade é de destros, e portanto mão direita, mais ativa, é a que dá corda, e também é a que mais se mexe e esbarra nas coisas, o relógio ficava no pulso esquerdo. e com a coroa, por onde se dava corda, ou, nos automáticos, apenas se acerta o relógio, no lado direito, para ser usada com a mão direita.

um dos palacetes prates, do parque anhangabaú

um dos palacetes prates, do parque anhangabaú

as cidades eram diferentes. o transporte das pessoas era feito por bondes, trens. em n. york já havia metrô, mas em são paulo não. los angeles tinha um fantástico sistema de bondes e trens, e ciclovias….

vale do anhangabaú visto do teatro municipal, em são paulo, em 1929, onde hoje, no palácio matarazzo, sedia-se a prefeitura, havia o palacete prates 3, onde funcionava o hotel la rotisserie

vale do anhangabaú visto do teatro municipal, em são paulo, em 1929, onde hoje, no palácio matarazzo, sedia-se a prefeitura, havia o palacete prates 3, onde funcionava o hotel la rotisserie

as cidades tinham vida. tinham esquinas onde as pessoas encontravam-se. onde num café, parava-se para um cafezinho, para um pão com manteiga.

os bondes, nas ruas, disputavam espaço com pedestres, bicicletas iam e vinham. carros eram poucos, as ruas tinham vida.

california cycleway, c. 1900. clique na imagem e saiba mais

california cycleway, c. 1900. clique na imagem e saiba mais

e a beleza arquitetônica das cidades era pensada na escala do humano. claro, as cidades eram menores, e as distâncias idem. quem morava na periferia não estava tão distante assim do centro.

sistemas públicos de transporte funcionavam, bem ou mal, mas funcionavam. e pouca gente tinha automóveis. assim eram as grandes cidades do mundo.

todavia a aliança entre petrolíferas e indústria automobilística, com seus lobbies, foram mudando muitas cidades, principalmente no terceiro mundo, sob regimes autoritários.

obras rodoviárias, que privilegiavam o carro coo transporte, pulularam nas cidades. los angeles desativou seu imenso sistema de bondes, substituiu-o por ônibus a diesel e depois por carros. hoje é um inferno de vias rápidas sonde a lentidão dos congestionamentos impera.

em são paulo, em 1970, um prefeito nomeado pela ditadura inaugura o minhocão. obra que degradou uma série de bairros da região central de são paulo, como viaduto passando a 5 metros de alguns prédios.

e as cidades retardaram seus investimentos em trens, bondes, metrôs. o metrô de são paulo cresce menos de 2 km ao ano. sua rede se expande em passos de tartaruga. curitiba, nem metrô tem, embora tenha investido há décadas num sistema de ônibus.

ora… ônibus! ônibus são transportes de média capacidade. não podem responder pelo grande transporte de massa nas grandes cidades.

e as pessoas, dadas as facilidades crescentes e cada vez maiores, passaram a comprar seus carros e o trânsito se torna, progressivamente, um inferno.

o trânsito das cidades progressivamente vai imobilizando as pessoas. é só nas cidades com trânsito pesado que os mensageiros conseguem fazer as loucuras que aparecem no vídeo abaixo, de lucas brunelle, que filmou corridas de bike-couriers ao redor do mundo.

sim, eles estão furando faróis vermelhos, andando na contra-mão, subindo em calçadas, costurando no trânsito. e só conseguem fazer tudo isso pois carros, vans, ônibus, estão todos mais lentos.

um amigo, carrólatra, viu esse vídeo e comparou esses ciclistas a ratazanas. de fato,já dizia renata falzoni: real leitura de mundo apenas a pé ou em bicicleta. e ciclistas conhecem todos os becos das cidades. e em todas as cidades do mundo desrespeitam a grande maioria das leis de trânsito.

mas não são a maioria dos deslocamentos, a não ser em cidades como amsterdam ou copenhague. onde daí são ordeiros. medianamente ordeiros.

a grande maioria das pessoas usam apenas um transporte ativo: andam alguns trechos a pé. de resto, são transportados por veículos motorizados.

o transporte motorizado vem deformando as pessoas, progressivamente, junto com a alimentação movida pela ansiedade, pelo stress, pela falta de sono.

e, de outro lado, pessoas paradinhas se tornam vítimas cada vez mais comuns das diversas formas de espoliação. da espoliação feita por ladrões à espoliação movida pelas empresas que entulham as pessoas de bens inúteis. ou versões caras, “gourmet” das coisas hoje mais simples….

sim, pois a grande economia de mercado nos empurra bens que afaguem nossa rebaixada autoestima. é a publicidade “eu tenho, você não tem!” que acaba por mais vender. afinal por que não carros mais rápidos para se ficar mais tempo parado no trânsito?

(nesse sábado de manhã eu me divertia indo ao trabalho em minha bicicleta,pela avenida cruzeiro do sul. pois várias vezes passei o mesmo carro, um mercedes-benz slk, vermelho. até que o carro não mais me alcançou, preso no congestionamento.e eu seguia pela ciclovia, na minha mais pesada e menos aerodinâmica bicicleta, a mas lenta de todas…)

é fato, as cidades deixaram de ser reais para serem hiperreais. já dizia baudrillard que o hiperreal não é real nem irreal, é outra coisa. é hiperreal a distância que se mede em tempo: “você mora a que distância do trabalho?” “moro a duas horas daqui…“. “more a 45 minutos do centro!” – esses são os diálogos, as publicidades….

e aí voltamos aos relógios. antes, equipamentos necessários, hoje acessórios. muita gente usa o celular como relógio de bolso.  mas… a bandidagem está de olho, né? então reloginhos baratos compõem o visual, para não se tirar o caro celular de bolso. e assim o iphone de última geração faz par com um casio f91w de 10 dólares.

outros usam o relógio como acessório. para compor o visual. por isso tantos relógios com visuais esdrúxulos, que servem pra tudo, menos pra ver horas.

ou então o relógio é símbolo de status. foi transformando-se  em símbolo de status que rolex sobreviveu à revolução do quartz e à invasão dos reloginhos japoneses. quem hoje usaria um rolex submariner para sua função há décadas atras, de se arrastar em areia e pedras no fundo do mar no pulso de mergulhadores profissionais?

e aí, com usar o relógio que é mero acessório, símbolo de status? ora, no pulso direito!

as pessoas hoje não são tão mais ativas que o relógio no pulso direito venha a se quebrar.  elas nem correm mais a não ser em esteiras ou então totalmente vestidas para isso, num espaço de tempo bem determinado em suas rotinas: sair para correr.  ninguém mais corre e se pendura no bonde. ninguém mais corre para pegar o trem. não se sobem mais escadas. os sapatos não servem mais para andar.

o mundo passa a ser apenas a paisagem enquadrada a se ver pela janela do metrô, do ônibus, do carro. janela fechada por causa do ladrão, e se motorista, relógio na mão direita para não sumir no assalto.

o mundo se torna apenas paisagem, paisagem essa a ser mostrada como bela. como brasília, como o rio, como curitiba. cidades sempre tão belas nas cenas de TV, mas muitas vezes ásperas para quem anda ou pedala.

brasília, a maior maquete do mundo, cidade sem esquinas…. o rio, paisagem natural tão bela, mas de vez em quando o morro desce. e curitiba? que se vende como modelo de gestão urbana desde… pelo menos os anos 90? mas vá pedalando do centro à santa felicidade pela manuel ribas, e seus carros passando rápido enquanto você lentamente pedala nas subidas….

as cidades brasileiras são ásperas, mas a paisagem da janela do carro é sempre bela. e assim deve se manter.

em curitiba, em 10 de março de 2015, a advogada mari kakawa, 40 anos, morreu atropelada em sua bicicleta, na avenida das torres. e os cilistas de curitiba a homenagearam com uma ghost bike. mari, cidadã japonesa radicada no brasil desde sua infância, trabalhava na copel.

ah, mas as belas paisagens! ghost bikes são agressões aos olhos de muitos, lembram o massacre, onde só se morre do lado de cá.

mas o príncipe akishino, do japão, esteve em curitiba nessa sexta-feira, e passou pela avenida das torres. viu a ghost bike em homenagem à sua conterrânea? descubra lendo esse post aqui do alexandre.

pelo  menos em são paulo as ghost bikes da avenida paulista ainda estão lá. no dia da inauguração da ciclovia, nos reunimos alguns diante da ghost bike da minha amiga julie. e choramos, e nos abraçamos. estávamos ali como ciclistas e amigos, e não éramos nossos cargos, nossos empenhos, nossos trabalhos. apenas ciclistas e amigos.

quem retira uma ghost bike está  matar a memória da pessoa que foi morta, e a desprezar luto dos que ficaram.

é, por essas e outras o inferno está cheio….

mas assista um filminho duma época em que ghost bikes não eram necessárias, e pessoas andavam pelas ruas, em caótica harmonia…

e as bicicletas iam rápido, em meio a senhoras e seus vestidos, carros aqui e ali, carroças acolá, e a visão do bonde dá medida do tempo, pois o tempo é o inimigo…

(mas a pergunta ficou no ar… instruíra o príncipe akishino a usar o relógio no pulso direito ou arrumaram a paisagem retirando ghost bikes, em curitiba, ou mendigos, em são paulo? afinal, o que é o brasil senão uma bela paisagem?)

2 Respostas para “a cidade na janela do carro, e o relógio no pulso direito

  1. Sempre achei e continuo com esta impressão, de que essas corridas de bike mensageiros acabam queimando nosso filme. De resto ótima leitura para começar o domingo.

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