sumak kawsay e a bicicleta

pedalar para um bem viver, ora pois!

0399-750x1000

sumak kawsay é uma ideologia fantástica.  imagine-se: ir ao trabalho, que é algo cansativo para muita gente, pode ser prazeroso. sim, pois o trajeto pode ser percorrido de uma forma lúdica.

já pensou chegar em seu trabalho ou sua escola com um sorriso no rosto e a sensação de ter feito uma coisa boa?

e se você puder fazer esse trajeto sem poluir o ar que todos respiramos?

aí a diversão é outra. uma diversão sem culpa, não? claro, culpa pela poluição que se produz só alguns sentem. uma parte dos humanos não está nem aí para o que acontece ao seu redor. mas se você é das pessoas que se preocupam com o ambiente, poder desloca-se sem poluir é melhor, não é?

ainda mais se esse deslocamento lhe fizer bem. se houver o gosto pela subida… a delícia da descida. ciclistas entendem o motivo pelo qual cachorros colocam a cabeça pra fora da janela do carro…

existe algo diferente de uma vida melhor materialmente. claro, precisamos de melhorais materiais, mas precisamos de melhorias  materiais efetivas, não da enganação que nos empurram em toda publicidade.

um colega, profissional renomado de TI, bem remunerado e sem o menor problema para adquirir os mais caros celulares, usou iphones durante três anos e meio. sempre gostou das particularidades do iphone.

o iphone é sempre um ícone de poder aquisitivo, ao menos no brasil.  mas esse amigo meu tem uma visão um pouco diferente de mundo.

não sei por qual motivo, está há alguns meses usando um celular com android. e o pior: gostando muito. o iphone está aposentado.

o celular com android é mais baratinho. mas não por isso. oferece outras possibilidades para ele que, como poucos nesse mundo, não precisa mais provar nada pra ninguém.

seu veículo mais habitual não apenas é bicicleta. tem lá sua dobrável cara com suspensões. tem sua bicicleta com freios a disco e etc. mas gosta mesmo duma antiga monark dos anos 60… anterior às barras circulares.

usa no dia a dia uma bicicleta com mais de 50 anos. um celular simples.  e isso não diminuiu seu padrão de vida. apenas simplificou-a, e tornou-a mais prazerosa do que o padrão da sua faixa de poder aquisitivo: iphone e carrão.

esses dias esse amigo postou uma foto no instagram, com seus calçados especiais para pedalar na chuva: sandálias havaianas.

num outro local, um pessoal tem promovido a “vida editada”. u vídeo, para quem compreende em inglês, sobre o assunto:

basicamente significa ter menos, ter melhor. em vez de uma grande biblioteca, livros no e-reader, por exemplo. e apartamentos menores. e menos jipões mas mais viagens.

claro, isso não é tão simples. há algum tempo um  outro amigo tentava me convencer que QUALQUER livro eu acharia em versão digital. propus que me achasse a versão em português dos “prolegômenos” de ibn khaldun. não achou. mas eu tenho os 3 volumes em papel, da única tradução (os três volumes editados, respectivamente, em 1959, 1960 e 1961).

há alguns limites para a vida editada, embora se deva conhecer o conceito, nesse link aqui, pois é a partir dele que surgem alguns apartamentos agora à venda: “estúdios” (antes chamávamos de quitinetes) com muita tecnologia pra facilitar a vida.

é. uma vida mais simples. mas, para quê?

o que as pessoas estão tateando?

o que move algumas pessoas à feirinha da praça da liberdade comprar talheres de bambu, mesmo não sendo nisseis? ou faz pessoas assistirem o sol se pôr ali na praça do pôr do sol?

o que está fazendo pessoas que migraram, nos anos 70 e 80, para grandes condomínios residenciais com grandes casas, distantes dos centros, migrarem de volta pras regiões centrais?

a distância, o tempo perdido no trânsito. o ter que acordar todo dia às 5:30 e chegar em casa perto da meia-noite.

mas há quem tenha feito o inverso: fugido das grandes cidades, indo morar em cidades menores. para criar os filhos. ou para passar uma velhice menos complicada.

todas essas pessoas estão tateando o sumak kawsay.

sumak kawsay é uma expressão em quéchua. kawsay é viver. sumak é plenitude. sumak kawsay é viver em plenitude.

esse conceito, conforme esse artigo no jornal inglês “the guardian”, consiste em fazer as coisas sempre dum contexto em harmonia com sua comunidade e com o meio ambiente, e duma forma também prazerosa. basicamente, fazer as coisas de forma gostosa sem ferrar a vida dos outros. uma forma de “menos é mais” sem o atropelo da vida em turbilhão da sociedade mercantil atual.

mas não, sumak kawsay não é incompatível com economia de mercado. mas um redirecionamento para o equilíbrio.

pois não há muita lógica pegar um carro pra ir andar numa esteira de academia. melhor caminhar no cotidiano.

da mesma forma, outros aprendem mais até sobre as bicicletas que usam. o neófito ainda acha a cor do quadro importante. mas quem pedala há tempos já pôde perceber o conforto dos quadros de aço, mormente cromo-molibdênio…

e aí o sumak kawsay: a pessoa nem sonha mais com a bicicleta de 55 mil reais da revista, prefere um quadro de 20 anos atrás, e com esse quadro antigo monta sua bicicleta de todo dia. e é que não faz como meu amigo, citado lá em cima: deixa as quase naves espaciais pedaláveis em casa, e vai mesmo com a monark dos anos 60…

eu, do ponto de vista de bicicletas, hoje só sonho com conforto: ausência de dores. tenho alternado o uso das minhas, pois cada uma com uma configuração diferente de altura e largura de guidão e comprimento do quadro, assim vario as posições.  devo migrar logo para uma reclinada, assim que o $$$ permitir.

mas não sonho com carros, com motos. sequer entendo o fascínio de pessoas por veículos que nem estão a seu alcance. e cujo uso nem é coerente com o que pregam: se diz ambientalista e usa jipão?

toda tecnologia que veio para melhorar é bem vinda. a internet, por exemplo, facilitou a comunicação e hoje diminui deslocamentos. home office se torna cada vez mais comum.  assim, emissões de carbono são evitadas.

mas há que se pensar em formas mais racionais de descarte dos produtos eletrônicos, e de se aumentar sua durabilidade. eu, em particular, prefiro desktops a notebooks, pois duram mais. teclados, por exemplo, podem ser usados por muitos, mas muitos anos. e há mais conforto ao digitar.

o fato é que o fetiche da mercadoria não combina com o bem-viver.  a mercadoria combina, mas seu fetiche não. bem viver é um selim confortável, não da marca X ou Y. pois é sua bunda que o usará….

há que se pensar. estão mortas velhas utopias. mas também o capitalismo selvagem desbragado também não nos trouxe ao paraíso, e está produzindo desgraças mundo afora. as guerras do oriente médio,por exemplo só se explicam pela sede pelo petróleo. e para quê tanto petróleo?

resta-nos o outro caminho. sim, somos parte dos 99% da população mundial que ficou com os 50% restantes que o 1% mais rico ainda não abocanhou. pois sim, 1% da população mundial detém 50% do capital planetário. e se você está lendo esse texto, assuma: você não faz parte desses 1%. você está nos outros 99%, junto com o menino sírio afogado no mediterrâneo, ou o rapaz negro executado pela polícia pois estava no lugar errado e na hora errada, e usando a cor de pele errada…  sim, você está nos 99% onde também estão os que moram nas favelas, os que fogem de guerras, os que sofrem violências, os que morrem de fome.

e então, o que nos resta? senão perceber que não há espaço para viver de acordo com as regras dos 1% que dominam.  o que nos resta é viver sob outros valores. que não os valores do fetiche, mas do uso das coisas. valor de uso.

bom, ciclistas entendem valor de uso: selins bons, quadros que não racham nem pesam uma tonelada….  é, ciclistas entendem o que é sumak kawsay. mas só aqueles que pedalam todo dia. e que entendem o que são as delícias da descida e a dignidade da subida. e portanto têm real leitura de mundo.

todo o resto é névoa… e correr atrás do vento. fui.

Uma resposta para “sumak kawsay e a bicicleta

  1. Nada como chegar ao seu destino revigorado e com a mente arejada após usar a bike como meio de transporte, ainda mais se puder chegar com segurança. Baseado nisto eu e mais dois amigos criamos um aplicativo para aumentar a segurança do ciclista. Se quiser ver como funciona, o site é http://www.radarbikeapp.com.br. Caso queira maiores informações entre em contato comigo no carlos_cover@uol.com.br

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s