a bicicleta incomoda o poder imperial

logo após o terremoto de fukushima, em março de 2011, em tóquio as bicicletas sumiram das lojas: era a única forma de se chegar em casa após um desastre.

japão, 2011, depois do terremoto: apenas pedestres e ciclistas.

japão, 2011, depois do terremoto: apenas pedestres e ciclistas.

logo após o 11 de setembro, a polícia de NY passou a restringir movimentações de massas de pessoas. a massa crítica de NY foi afetada. são inúmeros os vídeos no youtube de guardas se jogando em cima de ciclistas para prendê-los.

The Beach Beneath the Streets: Contesting New York City’s Public Spaces” é um livro de Benjamin Shepard e Gregory Smithsimon como diversos atores sociais em NY , inclusive ciclistas, gays,, oradores de rua e etc, mudaram o controle de diversos espaços na cidade, transformando-os de áreas privas de pura exploração capitalista em áreas de convívio para o público e do público.

em são paulo, as massas da periferia diariamente enfrentam de uma a duas horas por dia para chegar ao trabalho, em transportes públicos. usam ônibus, trens, metrôs.

esses meios funcionam relativamente bem nos períodos de lotação: poucos intervalos, por exemplo. lotados, funcionam que é uma beleza: mais rápidos. mas, nos horários de menor lotação, e dias de descanso – domingos à tarde, por exemplo – o intervalo entre ônibus, ou mesmo, trens, e mesmo metrôs, aumenta.

em alguns casos, linhas de ônibus não circulam, ou passam a ter intervalos horários. houve uma época em que um alinha de ônibus que vinha à minha casa, rápida, desaparecia aos domingos,era substituída por outra, que também cobria outro percurso: duas linhas em uma, serpenteando e levando quase uma hora num percurso que se fazia de 15 a 20 minutos. não fosse a bicicleta, eu hesitaria bastante em sair de casa aos domingos.

essa é a questão. o carro é a liberdade de locomoção, restrita pelos congestionamentos, acessível à classe média. à classe baixa, apenas os transportes públicos, cujo controle de uso não é do usuário. ou seja, é um transporte controlável, podendo ser suspenso.

tanto pode ser suspenso por tragédias naturais, como citado bem no início desse texto: um terremoto, uma inundação. mas também pode ser restrito por motivos de controle de fluxo de populações, restringindo o direito de ir e vir.

é aí que entra a luta de ciclistas no pós 11 de setembro em NY, quando aproveitando o clima de medo os conservadores americanos no poder tentaram de toda fora controlar fluxos de pessoas pobres naquela cidade. desencorajar ciclistas era uma dessas formas.

de fato, conter pessoas a pé ou em bicicletas exige um forte aparato. barreiras, pessoas armadas e etc. algo muito mais difícil do que conter veículos automotores ou transportes públicos.  pessoas a pé ou em bicicleta desviam de barreiras. passam por grades. pode-se saltar um muro e levar a bicicleta junto.

no século XX, muitos exércitos tinham batalhões de infantaria ciclística. até hoje, há modelos de bicicletas militares, que não raro acompanham alguns paraquedistas em missão.  americanos usam um modelo da montague, dobrável, que pode ser visto na foto abaixo, tirada numa missão no afeganistão.

abaixo do soldado, a bicicleta dobrada

abaixo do soldado, a bicicleta dobrada

ora, o soldado ao lado carrega a bicicleta que lhe dará mobilidade maior do que a pé.  pois a bicicleta permita que se trafegue pelo menos cinco vezes mais rápido do que a pé.  como espaço é tempo,  no tempo que se cobre 10 km a pé, se percorre 50 km em bicicleta.

e ainda mais, sem depender de pontos de reabastecimento de combustíveis.

uma grande massa de ciclistas não é controlável. e não se submeterá a falhas sistêmicas de um transporte, como sistema de trens de são paulo.

na região metropolitana, o sistema de trens falha sistematicamente.  mas só nos horários de pico: pela manhã, ou ao fim da tarde, quando grande número de  pessoas se socorrem desse transporte para suas moradias.

o vídeo abaixo é de 20 de outubro, 2 dias atrás:

essas falhas são sistemáticas. se se digitar a expressão “caos cptm” no youtube, pululam vídeos diversos. sempre ocorrendo a mesma coisa: “falhas técnicas”, e falta de informação para os passageiros.

o mesmo ocorre com muito menos frequência no sistema de metrô, e menos ainda nas linhas que alimentam a avenida paulista.

claro, se falamos com funcionários desses sistemas de transporte, todos darão explicações técnicas que chegam, num dado momento, à falta de investimentos na rede.  mas por que esse investimento não ocorre? não é falta de dinheiro.

mas a desimportância em ver o transporte como direito, como complementação do direito de ir e vir, e só ver sua importância quando a massa de mão de obra não chega aos seus trabalhos.

como diz sempre um amigo, no primeiro dia de greve dos ônibus, o operário desespera-se. no terceiro dia, é o patrão que se desespera.

em março de 2012, a prefeitura de são paulo (gestão gilberto kassab) restringiu o horário de circulação de caminhões de carga, e então os caminhoneiros que dirigiam caminhões tanque, fizeram uma greve. no vídeo abaixo, notícia da época:

o interessante daqueles dias era que a circulação de ciclistas aumentou, e estava delicioso pedalar em uma são paulo bem mais  vazia, mesmo que ainda sem sobra da estrutura cicloviária que por ora usufruímos.

as bicicletas não sofreram com o desabastecimento.  e muitas vezes sequer com as enchentes.

enchente em calgary, em junho de 2013. ciclistas passaram

enchente em calgary, em junho de 2013. ciclistas passaram

a versatilidade do uso de bicicletas é tamanho que chega a ser subversivo. para driblar uma lei russa que impede o cruzamento de fronteiras a pé, refugiados sírios chegam à noruega pedalando, por pelo menos 100 metros.

dentro dessa lógica, incentivar o uso de bicicletas, principalmente como transporte, se torna algo subversivo diante da lógica de produção que negri e hardt caracterizam como imperial.

o antigo império romano era policêntrico, mas dominado por uma língua comum, por um direito internacionalizado, e por diversas formas de pessoas  físicas e jurídicas exercendo poder. mais ou menos como hoje: obama, putin, google, merkel, microsoft, hollande, shell, texaco, e etc.

e tal qual o antigo e extenso império romano, temia-se mais os condottieri do que os inimigos, pois deles é que vinha o perigo. assim, dessa forma, é que antigos jagunços viraram inimigos: saddam, osama…  e da mesma forma, vigiar os aliados é importantíssimo

dentro dessa complexa lógica de poder militar e econômico, ciclistas, sem perceber, aparecem como subversivos a todo um sistema muito lucrativo: há lucro na venda do carro, na venda do combustível do carro, e na prestação de serviços médicos produzidos pelo uso do carro (a lista nesse caso é extensa: dos problemas ortopédicos decorrentes das colisões à hipertensão e diabetes decorrentes do sedentarismo).

bicicletas usam tecnologia simples, e nenhum grande fabricante de bicicletas sequer chega ao tamanho e peso de uma pequena petrolífera.  viver de bicicleta e difícil: embora donos de bicicletarias bem administradas vivam até confortavelmente, nenhum virou um grande magnata.

por outro lado, os benefícios todos que a bicicleta traz implicam em não alimentar outras demandas. assim, só há lógica em implementar e incentivar o uso da bicicleta como transporte onde as outras demandas seriam caras demais. por exemplo, nos países europeus onde a saúde é totalmente pública, e não tem acesso a petróleo próprio: holanda investe em ciclovias para acabar com gatos na saúde de trânsito e em plena crise do petróleo de 1973 e anos seguintes, por exemplo.

uma coisa a se pensar: como se mantem uma longa dominação sem consenso do dominado? não se mantém.

então, a lógica imperial deve ser reproduzida pela multidão global, sob pena de implodir o império. desta forma, para que o complexo petrolífero-automobilístico-financeiro se mantenha ocupando posição proeminente  dentro da lógica de economia de mercado, a ideologia carrólatra precisa se auto-reproduzir: é preciso que muitos enganados fascinem-se e espalhem seu fascínio pelas máquinas caras que não se pode comprar, ou não se pode comprar sem um financiamento, e que gerarão um consumo de combustível. perde o indivíduo, mas ganha o fabricante do carro, a petrolífera, e claro, o banco que financia a compra da lata fumacenta.

nos anos 60, o movimento hippie causou furor não pelos cabelos compridos, ou pelas roupas estrambólicas, mas por causar um questionamento da sociedade de consumo dentro daquele que era um dos dois polos imperialistas do mundo. e ao gerar esse questionamento, questiona o próprio envolvimento americano em conflitos longínquos, como a guerra no vietnã.

enquanto outros movimentos jovens até então eram basicamente estéticos, o movimento hippie extrapola os limites da aparência, e vai à essência. claro, jimi hendrix não sabia disso. ninguém sabia.

da mesma forma, cada um que escolhe usar a bicicleta como transporte não tem ideia do quanto há de subversividade a um padrão vigente ao fazer isso. raríssimas pessoas tem consciência disso, e depois vão aos poucos colhendo a mudança nos próprios padrões de consumo.

aliás, muitas vezes as pessoas tomam atitudes que julga individuais, mas não são. essa inflexão dos hábitos de consumo de carno, por exemplo, no sentido de um vegetarianismo  ou veganismo, ajuda a preservar a amazôna – matas são menos derrubadas para virar pasto para um gado que não será abatido – mas isso nem passa pela cabeça do rapaz vegano.

pois o que traz resultados são os atos, e eles indicam essa direção.

claro se olharmos do ponto de vista de um único indivíduo, uma mudança de conduta não fará diferença ao sistema. as ninguém morre de uma picada de abelha,mas se pode tomar 500 picadas, não é?

existe hoje um conflito entre uma velha economia e uma nova. uma amiga, que há uns 2 anos passou a usar bicicleta de forma exclusiva, sempre conta que a bike lhe fez sustentar uma bicicletaria e a comprar muitos guias de viagem. mas deixou desempregadas a cabeleireira e e a personal trainer. mudaram seus padrões de consumo de alimentos também. e hoje mudou até sua moradia.

mas não, bicicletas não vão revolucionar o mundo. não exageremos. mas que são um componente forte duma resistência a uma certa lógica econômica global, isso são.

pois subvertem a circulação pelo espaço. pois subvertem a economia da saúde e da doença. pois subvertem a indústria da moda e da aparência. pois… tanta coisa!

mas só quem pedala todo dia sabe. pedalemos pois.

 

 

 

 

 

 

2 Respostas para “a bicicleta incomoda o poder imperial

  1. “no pós 11 de setembro em NY, quando aproveitando o clima de medo os conservadores americanos no poder tentaram de toda fora controlar fluxos de pessoas pobres naquela cidade.”

    Qual a fonte dessa informação?

    • Diversas notícias de época e o próprio livro de Benjamin Shepard. Mas se procurar achará críticas de Noam Chomsky e outros acerca da área de exclusão em torno das ruínas das Torres Gêmeas.

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