crônica de um dia de indifereça

um pneu furado, depois uma roda entortada por um ônibus, cacos de vidro pelo chão. veículos na ciclovia e na ciclofaixa. tudo num dia só, o que mostra como o homo brasilis não é capaz de enxergar além do próprio umbigo.

saí de casa para uma reunião e para também dar uma entrevista rápida pra TV brasil. e aproveitar para ver se meus diplomas de mestrado e doutorado desencantaram.

na ida, havia esquecido que, sendo quinta-feira, havia feira no último quarteirão da avenida engenheiro caetano álvares. como sempre, no finalzinho, carros estacionados de qualquer jeito. em cima da ciclofaixa, do canteiro central, das calçadas… importa é chegar perto da feira, danem-se todos os demais, é o que pensam esses motoristas… mas depois da feira, os motoristas estacionaram ao lado da ciclofaixa. ou seja, fizeram o que a lei manda, e só. não atrapalharam ninguém.

mas eu saio depois da avenida e subo a rua domingos da costa mata. o limite é de 30 km/h, mas acho que só eu respeito esse limite. tem escola na rua, mas os motoristas, sempre que podem, voam baixo. não há radar, é rua de bairro… necas de fiscalização.

no finalzinho da subida, sinto o pneu dianteiro murcho. mas havia uma bicicletaria a menos de quarteirão dali. fui até lá. o furo? caco de vidro, caquinho que furou a fita anti-furo.  

ok, câmara trocada, enquanto eu batia papo comum cliente da bicicletaria, meu amigo, marcelo cabeção.

sigo no pedal após o conserto: troca de câmera, coma prórpia, tudo calibradinho e montado. 25 reais a menos na carteira.

na ciclovia da avenida cruzeiro do sul, onde sempre tem pedestre bloqueando a via, uma novidade:

caminhão da prefeitura estacionado na ciclovia. note, ciclovia, não ciclofaixa. ele manobrou bem para entrar aí de ré.

caminhão da prefeitura estacionado na ciclovia. note, ciclovia, não ciclofaixa. ele manobrou bem para entrar aí de ré.

interessante, né?

o caminhão manobrou bem pra entrar na ciclovia de ré. não é uma ciclofaixa, asfalto pintado de vermelho. é uma ciclovia no canteiro central.

dentro do caminhão, funcionários e funcionárias rindo.

dou a volta pela vegetação. vou adiante. na rua pedro vicente, sempre em frente aos correios…

todo dia, 10 hs e18 hs. e claro, o ciclista que desvie, pela contra-mão.

todo dia, 10 hs e18 hs. e claro, o ciclista que desvie, pela contra-mão.

 

sempre, todo dia, sempre, 10hs e 18 hs, pontualmente, sempre lá… ligam o pisca-pisca e o ciclista que se dane, que vá pela contra-mão, que tome finas de frente, que seja esmagado pela dianteira….

sigo adiante, chego atrasado pra entrevista, gravo ali na frente da faculdade de direito. depois, aproveito pra ir ver se meus diplomas chegaram. pois é.

eu atravessava a rua riachuelo empurrando a bicicleta. na esquina com a cristóvão colombo, mas ainda na faixa de pedestres, empurrando a bicicleta, por trás de mim passaria um ônibus e eu a dois ou 3 passos da calçada. mas uma pedestre avantajada adentra a faixa de pedestres desavisada, olhando o celular. dou um passo pra trás para não bater de frente com a mulher e o ônibus que desce a riachuelo no pau pega a roda traseira da minha bicicleta.

um barulho alto, a bike sobe debaixo do meu braço direito, e voam pedaços do para-choque traseiro do ônibus. e claro, a roda torta. o ônibus nem parou….

o resultado...

o resultado…

o ônibus estava errado? sim: não tendo o pedestre – nesse caso eu, empurrando a bicicleta – terminado de fazer a travessia, o veículo automotor não deve avançar.  isso dita o CTB, e assim o faz pois o pedestre pode ter vários problemas antes de terminar a travessia. cair, por exemplo.

bom, daí minha manhã já foi pro espaço. cancelada a reunião. vamos tentar consertar esse troço.

os amigos, pelas redes sociais, deram várias sugestões de locais pra consertar. tentei o ceará, na general jardim, mas estava ele sem estoque de aros 700c. fui levando a roda até a casa alberto, na rua vitória.

a bicicleta ficou no local de trabalho do prestimoso mário shimabukuro, que a guardou enquanto eu ia procurar conserto.

na casa  alberto, passa o tiago barufi, colega das louras de pedal. pega suas pecinhas, segue adiante par ao trabalho. e eu fico lá esperando a troca do aro por um vzan flyer. pelo menos não teve que trocar raios. 77 reais amenos na carteira.

volto com a roda pro trabalho do mário, ele me ajuda amontar a bike. me dá aguinha gelada… mário é muito gente boa.

saio de lá com fome. já eram 13 hs. fui almoçar na liberdade. ia passar pelo viaduto do chá, mas acabei indo pela maria paula, viaduto dona paulina… tomando uma fina aqui, outra buzinada ali… não vi que se formava a manifestação dos taxistas.

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em cima da ciclofaixa… todo mundo pode…

o prefeito haddad resolveu regulamentar o uber em são paulo. nesse momento, etão todos dentro da prédio da prefeitura, sitiados pelos taxistas, que são contra o uber, e na verdade contra qualquer mudança no sistema de táxis de são paulo.  segundo a folha de são paulo, nessa manifestação até agrediram equipe da rede globo.

bom, isso é briga entre motorizados. meu mundo é sem motor.

almoço feito, vou à sanfran, e recebo a notícia que meu diploma de doutorado sairá antes que do mestrado…  kafkiana a situação, mas não entrarei em detalhes.  o povo da seção de pós tá fazendo tudo o possível, mas o campus só erra…

deixa pra lá, volto pra casa. sol, 35 graus. pedalando devagar pra não ferver.  o boné preto de “mano” cobria bem o rosto.  boné que achei na rua, há umas 3 semanas. boné volcom todo preto, aba reta.  fico com cara de mano usando esse troço. é engraçado…

na cruzeiro do sul… no trecho antes da ponte. em frente à faixa de pedestres que dá à frente da escola federal. pedestres amontoados esperando o semáforo abrir. e tomando o cuidado para não ficarem em frente à saída da ciclovia, com cruzamento com um retorno ali.  menos uma pessoa.

uma mulher alta, de idade. alta e magra. bem vestida. esperava parada bem na frente da embocadura de saída da ciclovia. parei a bicicleta, esperando ela se mexer. mas ela olhou-me firme e disse: “seu lugar é aí!”, e virou a cara, continuando a bloquear meu caminho. nem me mexi, fiquei apenas olhando, pensando, observando….

fiquei pensando como aquela mulher alta, branca idosa, magra, bem vestida,  olhos claros, destoava de todas as pessoas no entorno. pensava no porquê da resposta agressiva a mim. talvez o fato de estar de bermudas e com um boné de mano de perifa a fizesse sentir-se de alguma forma superior a mim.

na verdade, nos quase 10 minutos que fiquei ali naquele ponto paralisado pensando, muita coisa veio à cabeça.  a frase agressiva que a mulher soltou era igualzinha à que ouviu um grande ciclista do passado, meu vizinho, há umas 3 décadas.

ele treinava na estrada de santa inês e na descida um ônibus jogou-se para cima dele que, para não ser atropelado, foi com bicicleta e tudo para um acostamento que era um leito de pedras, rasgando os dois pneus tubulares. para a bicicleta,o ônibus parou ao seu lado, abriu a porta e o motorista gritou-lhe: “seu lugar é aí!”.

é, ciclistas são insolentes que não sabem seu lugar. qual lugar?

ciclovias e ciclofaixas permanentes em são paulo são apenas 2,3 % das vias. sim, apenas 2,3% das vias de são paulo têm estrutura para ciclistas. nos restantes 97,7% das vias, o ciclista é tratado no mais das vezes como intruso.

e mesmo nesses 2,3%, todo mundo se acha no direito de invadir essa mínima cota de sossego para os ciclistas… as fotos aí em cima mostram.

mas saí da paralisia e segui voltando para casa. prestando atenção em cacos de vidro em algumas ruas. é incrível como há ruas em são paulo com uma profusão de cacos de vidro. a rua augusta, nos sábados e domingos pela manhã tem suas laterais cobertas por cacos de vidro e garrafas long neck de cerveja quebradas.

é, joga-se no chão o que não mais se quer carregar.  se alguém se cortar, ou pneu rasgar… bom, isso é sorte ou azar, né? como o matador que diz que quem mata é a divindade, ele só faz os furos com sua arma de fogo…

mas tinha surpresa mais adiante, no caminho de casa.

hoje, à tarde.

hoje, à tarde.

é….

também hoje à tarde

também hoje à tarde, na contra-mão…

 

sem adequada fiscalização, carro para na ciclofaixa até na contra-mão.

claro, todo mundo tem N motivos para não respeitar os míseros 2,3% de estrutura cicloviária existente. pedestres pois o caminho é mais curto pela ciclovia. motoristas, pois estacionar na ciclofaixa é para não atrapalhar o trânsito.  caminhões, pois precisam fazer entregas, reparos e etc.

2,3%. dois vírgula três por cento. e nem aí o ciclista é prioridade.  sempre pessoas em outros modais são mais importantes, nunca a pessoa em cima da bicicleta.  nunca.  nunca. nunca, ninguém acha isso. ninguém.

míseros 2,3%, e nem aí você é prioridade, ciclista. nem aí. nem aí. ninguém. nunca.

 

 

 

 

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4 Respostas para “crônica de um dia de indifereça

  1. Tem dias…..

  2. Infelizmente parece que a população de São Paulo vive no “FODA-SE”…

  3. Revoltante. Tanto que fa z a gente querer desistir…

  4. Rapaz…. que dia hein!

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