o colete salva-vidas

ação de ciclocidade e cicloZN distribuiu 100 coletes refletivos em meros 40 minutos, das 6:30 h Às 7:10 h, no início da ciclovia da avenida inajar de souza, na zona norte de são paulo. na tímida estrutura cicloviária, passam de 130 a 200 ciclistas por minuto.

coletes! - fodo de odir.

coletes!  banco de mobilete pra levar a namorada – foto de odir.

–     tem colete ainda? – perguntou o homem de sua bicicleta, arfando, vindo do sentido contrário de onde todos vinham, vindo do centro, não do bairro.

–      não! acabaram já.  – respondeu o voluntário, e diante da inequívoca cara de decepção do ciclista, que se prepara pra fazer a meia volta, chama-o de volta e entrega o próprio colete verde-limão com faixas refletivas que estava usando. – tó, pega esse!  o último! tá vindo de onde?

–        eu passei cedo, tava lá na lapa, me falaram do colete, vim correndo tentar pegar um. – respondeu o rapaz, tentando vestir o colete sem tirar a mochila das costas. e logo saiu, se despedindo e justificando que tinha que bater ponto no emprego.

então desmontamos a estrutura antes montada: uma mesa de plástico, dois banners fixados no chão. a caixa de papelão com os coletes vazia, amassada.

a ação é parte dos eventos da semana de mobilidade, mas aqueles ciclistas nem sabem disso, nem tem como. bicicleta ali é necessidade. é fato que muita gente nem vale transporte recebe. numa conta simples, R$ 3,50 na ida e outro tanto na volta, por 22 dias no mês, dá R 154,00 de gasto. em 3 meses a bicicleta usada de 350 reais, comprada ali na quebrada, tá paga, o resto é lucro. ou melhor, é pão na mesa dos filhos.

colete para o pai, segurança para o filho. foto de roberson miguel

colete para o pai, segurança para o filho. foto de roberson miguel

todos nós já ajudamos alguém a ter alguma bicicleta simples. e sabemos da história: se o cidadão quebra essa bicicleta, ele chega a fazer o trajeto a pé até conseguir consertar a bicicleta. não dá pra voltar a pegar ônibus: custa, e o dinheiro foi incorporado ao gasto cotidiano.  afinal, ninguém mora lá longe por ter dinheiro sobrando. paga-se aluguel, ou mesmo se mora na ocupação, que já tem décadas…

mais da metade não usa capacete. mas não por opção, é por falta de dinheiro mesmo. gostariam de usar, pois capacete dá um certo status para o ciclista de periferia.  sei lá, o faz afagar um pouco a auto-estima, embora continue morrendo quando o ônibus atropela.

esse atravessou a avenida só para pegar o colete.

esse atravessou a avenida só para pegar o colete. foto de roberson miguel.

luzes, pouquíssimas bicicletas tem. luzes mais duráveis custam caro. as baratinhas, chinocas, duram pouco, gastam muita pilha e param de funcionar na primeira chuva. e pilha também custa.  quem tá com o salário lotado de prestações das casa bahia de vem em quando tem que rodar muito tempo até ter os trocados pra comprar um pacote de pilha.  “eu já tive luzinha, deu pra manter não….” – quantas vezes não ouvi essa frase?

a mochila da copa e o sorrisão no rosto

a mochila da copa e o sorrisão no rosto, e nas rodas, kenda flame . foto de roberson miguel.

as periferias pedalam. e pedalam muito. sempre pedalaram, durante décadas com as barra-fortes e barra circulares, e hoje com mountain-bikes  com quadros de alumínio baratos. muita bicicleta com freio a disco em cubo de rosca.  freio a disco baratinho, pois permite frear mesmo com roda desalinhada, e o que não falta é roda desalinhada nas buraqueiras dos asfaltos das periferias.

caloizinha com freio a disco e nem sombra de luzinha alguma.

caloizinha com freio a disco e nem sombra de luzinha alguma. foto de roberson miguel.

o fato é que impera a lei da economia. são essas pessoas que adoraram o colete refletivo, a proteção da visibilidade que ele promete. pois as finas são sempre muitas, principalmente nas pontes onde ainda não há ciclovias.

guerreira solitária, única mulher entre os 100 ciclistas que receberam os coletes. foto de roberson miguel

guerreira solitária, única mulher entre os 100 ciclistas que receberam os coletes. foto de roberson miguel

é, pena que não rolou o café. não sei o porquê, mas o fornecedor não deu as caras hoje cedo lá na vila nova cachoeirinha.  mas distribuímos os coletes rapidinho. não seria diferente com os lanchinhos.  mas ok, pobre tá costumado mesmo a passar fome.

periferia é isso. falta tudo. falta a extensão dessa ciclovia da inajar de souza, que a subprefeitura local não se mexe pra fazer, falta a travessia da ponte, falta até um recapeamento da própria inajar, que existindo há 30 anos, só recebeu tapa-buraco, nunca um recapeamento.  é assim na vila nova cachoeirinha, mas também é assim em outros cantos da zona norte, da zona sul, da zona leste, da zona oeste… rua do horto, por exemplo uma lástima, até mesmo por que congás e sabesp adoram abrir a buraqueira e depois remendar o asfalto  com a mesma perícia que o dr. frankesntein remendou o monstro.

indefectíveis kenda flame nas bicicletas

indefectíveis kenda flame nas bicicletas. foto do roberson miguel

o asfalto geral de são paulo é uma lástima, com a prefeitura não dando conta e as concessionárias dos serviços estaduais jogando contra constantemente. por isso hoje vimos tantas bikes com o indefectível, inefável kenda flame, pneu de mais de 2 polegadas e baixa pressão, barato, durável e macio. a bicicleta fica lenta, mas se vai se tomar fina mesmo andando rápido…. kenda flame, presença marcante em todas as periferias do mundo.

é. a atividade de hoje valeu, como sempre. e, como tal, só confirma: quem se propõe a legislar por aí sobre bicicleta, dando palpites sobre capacetes, luzes e joelheiras obrigatórias, nem de longe conhece o pedalar nas quebradas, de quem o faz por necessidade.

e sim, as periferias precisam urgentemente de mais estruturas cicloviárias. conforme a nota emitida pela ciclocidade, que você pode ler aqui nesse link.

a turma de hoje.

a turma de hoje. foto do esquerdinha.

a ação valeu muito, e resultou do esforço de muita gente. por exemplo, aleba, que ontem silcou os 100 coletes. e claro, da turma que madrugou, como o patrício que saiu do carumbé às 4 e lá vai pedrada, e viu o sol nascer na ciclovia.

cedinho... foto de patrício elias

cedinho… foto de patrício elias

aos poucos a gente vai fazendo isso. enquanto uns querem mais é fazer dinheiro, a gente prefere fazer história. e firmar o direito do cidadão paulistano, não importa a classe social, a ter seu transporte individual não poluente e saudável respeitado, a ser tratado de fora digna.

bicicleta é isso: a cada um o que é seu, a todos o que é de todos. pois isso é o verdadeiro bem-viver.

pedalemos, pois, eis que ainda falta muito pra essa cidade ficar mais humana.

2 Respostas para “o colete salva-vidas

  1. Que texto da hora, mano. É a cara da perifa.
    Parabéns, ciclocidade, pelo projeto e por sempre estarem promovendo ações na perifa.
    SÓ BIKE SALVA!

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