pedalar é direito!

“feliz DMSC!” escreveu-me renata no início de uma mensagem.  é o desejo. e carlos vítor deu o recado: “eu venho lá do fundo da brasilândia e quero chegar aqui por ciclovia!”

saí de casa muito, mas muito cedo. mas não só eu. muita gente nessa cidade de São Paulo madruga, e sai com sono, como muito sono. no meu caso, foram míseras 4 horas de sono.  saí mais cedo que o normal, havia um desvio: a faixa lá na ponte, no viaduto sobre a avenida sumaré…

colocamos a faixa: “100 km de ciclovias para as periferias!”. sim, as periferias precisam de ciclovias, pra entrar e para sair.

trata-se de um direito, mas como? oras, pra quem está ligado no que acontece no mundo, pelo menos no Brasil, além da cotação do dólar, no dia 15 de setembro publicou-se a a Emenda Constitucional nº 90, oriunda da  PEC 90/2011, de autoria da deputada Luíza Erundina.  transporte agora é direito social. está no artigo 6º da Constituição Federal, ao lado da educação, da saúde…

é fato. pedalar é algo apenas um pouco além do andar. andar é o básico, a mais genuína manifestação do direito de ir e vir. não há liberdade sem o ir e vir, sem o andar e sua versão aperfeiçoada: o pedalar.

pedalar quintuplica o alcance do andar, senão mais até. mas ainda se é movido por si próprio, não dependendo de combustíveis, de motores, nada. ou seja, é o básico.

o básico é o fundamental. é o mínimo.  sem o mínimo, que será o resto?

pedalar é um direito: simplesmente subir na bicicleta e sair por aí, como se pode andar com nada nos bolsos ou nas mãos, sem lenço nem documento. simplesmente mover-se, o mínimo.

esse mínimo tem sido cerceado há muito tempo. fronteiras fazem isso. guaritas. barreiras, muralhas. cercamentos.  e também rodovias, grandes avenidas…

22/09 de manhã. nem lembro mais quem bateu a foto.

22/09 de manhã. nem lembro mais quem bateu a foto.

quem nunca viu aquela cena às vezes desesperadora dum cão vadio perdido numa estrada, tomando sustos com os carros indo e vindo? quem nunca observou nas estradas do brasil aquele humano desvalido, tentando atravessar uma rodovia num lugar onde não há passagem segura?

o pedalar é o direito básico. a posse duma barra circular ou barra forte permitiu muito trabalhador brasileiro fazer distâncias incríveis atrás de emprego. em 2003 foi lançado um filme baseado na história de Cícero Ferreira Dias e Rosalene Borges de Moraes, que vieram de Santa Rita, na Paraíba, ao Rio de Janeiro, com seus 6 filhos, em busca de trabalho. vieram por 3200 km em bicicletas.

é. quantos mais não vieram em suas barras-fortes, barras-circulares, talvez em trajetos não tão grandes, mas não curtos… e quantos não sobem em suas bicicletas e se deslocam diariamente? com ferramentas presas aos quadros… ou mochilinha às costas com muda de roupa e uma marmita.

esses brasileiros que não possuem 50 ou 60 reais para compra rum capacete.  que na zona norte de são paulo usam os coletes refletivos já doados pela ciclocidade até puir… pois dinheiro pra ficar colocando pilha em luz chumbrega e barata que dura pouco ninguém tem.  mas atropelado ninguém quer ser.

ontem, 21,  a negra linda perguntou ao negão Roberson: “mas a gente vem aqui no centro e vê o povo numas bikes invocadas, mas o meu irmão, lá na Cidade Tiradentes tem a bicicleta montada com as peças catadas…“. é, é a fala de quem sabe que às vezes há lugar onde não pode ir, embora não haja placa proibindo.

mas o Roberson retrucou: “durante 10 anos a cada 2 anos eu trocava de carro, sempre financiado…” e explicou como foi durante 10 anos escravo de financiamentos, e ao final não estava formando patrimônio nenhum.

é.

nas perifas falta tudo. às vezes, pra não dizer que pobre não tem nada, ele só tem direitos. é o seu direito à educação que força o município e o estado a construírem escolas, é o direito à saúde que faz criar-se o SUS. e claro, na falta de tudo, o que vem de estrutura é lucro.  se vier uma faixinha vermelha permitindo rodar na avenida sem tomar fina… ah, é, tem buraco.na verdade sempre teve buraco….

há avenidas em São Paulo construídas há 30 ou 40 anos e nunca recapeadas. ás vezes, só receberam os préstimos da “operação tapa-buraco”.  asfalto padrão “50 tons de cinza”…

né?

né?

a faixa vermelha não deixa o asfalto liso… mas a preocupação passa a ser apenas o buraco.  e não mais a fina do busão, da van,  da picape, do fusca, da moto…

pois havendo estrutura, ela é usada.

o que se quer é o mínimo. não se trata de exigir o pleno direito ao transporte, nos termos do artigo 6º da Constituição Federal, mas de se ter acesso à cidade inteira, com segurança, pelo simples fato de se ser o que se é: cidadão, cidadã.

cidadão, cidadã, tem direitos. devem ser respeitados pois tem direitos. ao menos o direito de ir e vir com um mínimo de segurança, ir e vir além do alcance do andar.

claro, ainda há muito ódio aos pobres no Brasil.  grande parte da reação às ciclovias é isso. grande parte das agressões gratuitas aos ciclistas é uma versão desse ódio, mesmo que agressão a um ciclista de alta classe. mas não importa, na bicicleta somos sempre o mais frágil, o menor, o mais pobre, o mais fraco.

enquanto não se pode contar como respeito dos motorizados, a faixinha vermelha nos protege.  e é só essa proteção, a básica, que se quer, por toda a cidade, para todas as periferias.

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bem-viver é algo que todo mundo tem direito.  é o ter um teto onde se abrigar, comida no prato, roupa no corpo, educação plena, participação na auto-determinação dos povos.

há brasileiros que preferem a vida subalterna no dito primeiro mundo à vida no topo do terceiro. fazem isso por preferirem um certo bem-viver.

coincidentemente,  moram em cidades marcadas não pelo predomínio dos carros, onde crianças andam em suas bicicletas nas ruas em segurança. felicidade todo mundo quer, mas ela é mais comum onde há mais igualdade, onde acesso a determinados bens, como moradia, trabalho, saúde, educação, transporte, não dependem tanto das diferenças na renda.

os locais sempre mirados como pequenos paraísos desejados por brasileiros começaram a se organizar h’á mais tempo, mas passaram sim por etapas parecidas com as que passamos agora.

sim, o dólar sobe, mas desce. qualidade de vida não é um creme caro para o rosto, mas o sossego que não cria rugas na testa.

não há cicloativismo forte em copenhague.  afinal, não precisa. afinal, movimentos sociais são apenas o sintoma das falhas  sistêmicas da sociedade.

ainda há muita luta, mas o primeiro passo  está sendo dado. essa geração, daqui a décadas será reconhecida como a geração dos pioneiros. mas se os novos ouvem com curiosidade os relatos de batalhas dos mais velhos, estes não têm saudades das trincheiras. que um dia essa luta seja passada, e que a renata nem se lembre de me desejar “feliz DMSC!”, sendo todos os dias mundiais sem carro.

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