a bicicleta, a cidade fábrica e a cidade cidadã

emergem as lutas pelo direito à cidade. mas, no fundo, a luta é entre a mercantilização da vida versus bem-viver. e é nesse meio que a bicicleta aparece, mais do que tudo, como símbolo do não-financierizável, do não-mercantilizável.

o recado no cartaz!

o recado no cartaz!

consumidor e cidadão não são conceitos equivalentes. o primeiro exerce privilégios na medida em que paga. o segundo exerce direitos pois os tem, os construiu.

ontem fui me divertir no pedal nos rincões mais extremos da zona norte de são paulo. brasilândia, vista alegre, jardim paraná…  áreas ocupadas, onde muita gente, a grande maioria, não tem título de propriedade, onde o loteamento não seguiu regras de zoneamento, onde as construções se deram sem muito planejamento. vielas atulhadas de gente, de carros, de bicicletas, mas nenhum atropelamento, mesmo que o menino de uns 11 anos passe um bom tempo andando só na roda traseira da sua bicicleta na contra-mão… aliás, carros passando na mão, na contra-mão, bicicletas e pessoas a pé idem. e ninguém empurra ninguém pois todos estão em baixa velocidade. ninguém corre, todo mundo olha no olho do outro, cumprimenta, fala, gesticula.

mas claro, serviços públicos ali, pouca coisa. a praça com wifi livre mais ao norte de são paulo…. onde toda a noite o povo lota os bancos, todo mundo vidradinho no seu celular.

mas na segunda de manhã todo mundo desce a pé do jardim paraná e pega o ônibus ali no vista alegre mesmo. pra chegar no terminal da vila nova cachoeirinha. pra daí então pegar um segundo ônibus, um terceiro não raro um quarto, até chegar no trabalho.

duas, três ou quatro horas pra chegar ao trabalho. gente que sai da casa às 4:40 pra entrar às 8 no trabalho e, ao meio dia, está como estômago varado de fome. e às 17 ou 18 quando sai do trabalho engole qualquer coisa, uma bolacha, um pedaço de bolo, ou o que for, e ainda vai para uma escola, ou enfrenta a dura volta. 5 ou 6 horas de sono e olha lá, todo dia, toda noite. é entrar no ônibus e dormir, estando-se no banco ou mesmo em pé…  o cansaço sempre vence.

e assim se sucedem os dias e as noites, até o domingo, quando as ruas se enchem, gente faz compras, tem feiras e etc. mas na segunda volta tudo de novo.

toda segunda feira, todo carro é mio camburão e todo ônibus meio navio-negreiro. sempre se é mão de obra para a grande máquina, a grande fábrica chamada metrópole, que produz muitas riquezas mas pra muito poucos.

na frente de todo terminal, no entrono de todo grande ponto de ônibus, alguém tá lá, tentando sobreviver vendendo pedaços de bolo, vendendo café. no terminal santana a moça chega sempre lá pelas 5 da manhã, vende pedaços de bolo, vende copos plásticos de café.  no mesmo local, um pedacinho de calçada do terminal, um pedacinho de rua, no final da tarde é outra pessoa fazendo o mesmo. pessoas param ali, e num espaço entre um ônibus e outro comem, apressadamente.

os trabalhos, sempre subordinados.  vendedoras de lojas, ajudantes gerais, auxiliares administrativos e etc. num andar ligeiramente acima, os que possuem formação superior, mas não menos proletarizados.  os que acordam cedo para em seus carros  enfrentarem os congestionamentos.  os que chegam cedo nos arredores da avenida luiz carlos berrini e cochilam dentro dos seus carros. os que chegam no trabalho antes das 7 h e batem ponto às 8h, só pra não pegar trânsito. também morando em bairros-dormitórios…

é a grande máquina girando.  tudo virando dinheiro, tudo virando oportunidade de negócio, tudo se financeirizando. o uber é sintoma: o carro ocioso vira carro de aluguel. nada pode ficar parado, nada pode deixar de ser explorado. tudo é negócio.

michel foucault descreveu bem a sociedade disciplinar: a fábrica antiga, que dava conta de todos os aspectos da vida do proletário: da sua moradia às usas roupas, à escola dos seus filhos, tudo a fábrica determinava mas também fornecia. modelo que caiu pelo seu peso, pelo seu custo.

gilles deleuze descreveu bem a sociedade do controle, que sucedeu a sociedade dicicplinar. em seu “post scriptum sobre as sociedades de controle”, que pode ser lido nesse link aqui, descreve ele muito bem a sociedade atual, node não somos mais indivíduos, mas “divíduos”.  onde não somos pessoas, mas senhas, cifras, que nos permitem adentrar este ou aquele ambiente, efetuar esta ou aquela atividade.

de fato, a escravatura teve que ser abolida pois manter o escravo era caro. melhor remunerá-lo apenas pelas horas trabalhadas, sem se preocupar com sua moradia, com sua vestimenta, com sua saúde.

na américa latina o vínculo empregatício sempre foi precário e as pessoas acham que deva ser assim mesmo.  também deve ser assim mesmo: pobre tem que morar longe e em piores condições.  pobre não deve ter acesso às inúmeras facilidades que devam estar ao alcance apenas de uma certa faixa de renda. pois se algo possa ser barato, deve haver sua versão “gourmet”, diferenciadora e permitindo maior “agregamento de valor”, permitindo maior margem de lucro.

numa sistemática de constante política de rebaixamento de auto-estima, cujo levantamento se oferece apenas pela via do consumo,  a cidade fábrica gira, gira, gira… e o chão de fábrica é a periferia.

mas um problema: falamos de humanos.  falamos de pessoas. falamos de seres viventes, pensantes. embora muitas vezes só apareçam como pensantes os da região mais central.

no limite da diferenciação, temos as revoluções. assim foi a revolução francesa de 1789, a revolução russa de outubro de 1917… mas a diferenciação logo se restabelece e de novo a panela de pressão começa a funcionar.

no RJ, as praias viraram espaço de predação. o morro, quando desce, não faz revolução, só arrastão.  pois não se quer mudança de sistema, mas apenas Iphone e pulseira de ouro… não se quer outro padrão de beleza, mas apenas o cabelo liso. não se quer ser mais cidadão, mas apenas um consumidor com padrão de consumo mais alto. não se quer ruas melhores, mas se quer o jipão…

meu pai, sem querer, quando eu tinha uns 10 anos de idade, deu-me uma lição de vida fantástica. uma cachorra havia tido cria e os filhotinhos iam sendo doados… ficou uma cachorrinha. eu brinquei e coloque nela uma coleirinha. amarrei a ponta da cordinha presa na coleira no puxador duma gaveta do armário,perto da cozinha. a cachorrinha logo aprendeu a ir até apenas o limite da cordinha, enquanto eu olhava. meu pai chegou perto e me disse: “olha isso!”, e desamarrou a ponta da cordinha do puxador da gaveta. mas a cachorrinha continuou indo só até o antigo limite da cordinha, apesar de já estar solta novamente.  eu comentei com meu pai que ela era burra, e meu pai retrucou: “a coleira tá na cabeça dela…”. as coleiras mais eficientes são as internas.

nas cidades, as classes subalternas nãos e enxergam no direito de usufruir a cidade. como tantas vezes perguntam nos limites da cidade: “mas bicicleta pode atravessar a ponte? os homens deixam?“, “não é proibido pedalar pra além da ponte?

claro, não se pode pensar fora do esquadro, pensar fora do caixote. deve-se ser a eterna massa de manobra, o eterno mercado consumidor. como na fala do ferrez, abaixo, defendendo seu carrinho, com um monte de mimimimimimimi

a bicicleta é revolucionária, e por isso combatida. é revolucionária pois ela nega, em seu uso, a financeirização. como quantificar em dinheiro a delícia do vento na cara numa descida, no caminho ao trabalho?

é. a bicicleta torna o trajeto, o trafegar, o transportar-se, em algo prazeroso. não se vai no navio negreiro, se vai velejando… ou esquiando!

a vida das pessoas já é ordinária o suficiente e carente dos pequenos prazeres, dos pequenos momentos de bem-estar. não é preciso que fique ainda pior. e pode ser um pouco melhor. um pouco mais divertida. e claro, por que não, também mais barata?

é esse aspecto menos financeirizado, movimentando menos dinheiro mas entregando mais que torna a bicicleta algo a ser combatido numa metrópole duma cidade de país de economia periférica. bicicletas são perfeitas para berlim, paris, amsterdam. ou na fala de ferrez, pra vila madalena.

a mente colonizada, com coleira, não se permite pensar de outra forma. não se pode deixar de se desejar aquilo que as classes mais altas já possuem. afinal, não se pode sentir o vento na casa se não se tem um mercedes-benz conversível… afinal, o vento na cara na descidinha quando se está na bicicleta não vira dinheiro no bolso alheio… a bunda não-caída, empinada, da moça, tem que ser resultado de uma intervenção estética ou de muitas horas de academia… e não da sua pedalada diária até o trabalho…

nah. nah! nah! para quê um dia mundial sem carro? para quê se permitir um pouco de felicidade a caminho do trabalho?  para quê poder almoçar com gosto sem culpa pelas calorias, pois se vai pedalar mais 20 km para se voltar para casa?

tudo isso é muito subversivo, tudo isso está fora da ordem, tudo isso é muita liberdade para quem se sente apenas vivo, e como se isso fosse pouco…

e pensar que bicicletas não consomem nem gasolina nem álcool, portanto não queimam o sangue das guerras no oriente médio ou as vidas gastas no corte da cana….

bicicletas não são desse mundo. são apenas um veículo que veio lá do futuro e, como tal, sua forma de usar, que permite outro uso das cidades, não pode ser bem vista. não por conta daqueles que sempre surfaram a onda da sociedade velha, da cidade opressora e sugadora de vidas.

no final das contas, as bicicletas são só o símbolo da luta do cidadão pelo direito à cidade, a morte do mero consumidor, a emergência do cidadão.  uma fratura no just in time de gente que caracteriza as cidades brasileiras. afinal, por que fazer em 15 minutos de pedalada o que se pode fazer em meia hora de carro ou uma hora num ônibus? o que fazer com o tempo livre? ah, é muito tempo livre…

qualidade de vida não pode ser mercadoria. e qualidade de vida, numa grande cidade, só pela via das bicicletas. ah, poder parar na rua e cumprimentar os amigos… poder desviar o caminho e visitar uma loja, ou simplesmente parar para experimentar o sanduíche da tal lanchonete…  não dá, né? ter no cotidiano aqueles pequenos prazeres que só rico de novela tem? aí não dá, né? é mita insolência dessa gentinha que ousa querer ser feliz.

deixe de mimimi e vá ao trabalho em sua bicicleta pelo menos nesse dia 22 de setembro.  vai, ouse ser um pouco mais feliz. na pior das hipóteses, volte à sua rotina, à sua vidinha ordinária, no dia 23 mas ouse sentir um gostinho diferente, e ouse saber como é a cidade onde mora, de fato. ouse ver o mundo como ele é.

nesse 22 de setembro, seja menos consumidor e mais cidadão. seja menos colonizado, e mais livre. deixe o carro em casa e ouse viver. ouse ser cidadão. ouse exercer o seu direito à cidade.

 

 

 

 

 

 

 

 

Uma resposta para “a bicicleta, a cidade fábrica e a cidade cidadã

  1. Odir,

    Beleza demais!

    “E muito justo. É justíssimo.”😉

    Sumak Kawsay, na visão da maioria, só pela via do ShopTime, Polishop e claro, o bordo de um EcaSoprt (Bem vindo à vida? Qual???).

    Auto estima baixa, fruto da autovisão de eterno colonialismo e serventialismo, dos escravos que nunca deixamos de ser. Como vi em algum texto de um Brasileiro que mora na Holanda: aqui, a gente tem dificuldade em dizer não (afinal, não existe não pro sinhozinho nem pra sinhá!); e quando a gente não diz “sim”, pra fazer o “não” logo em seguida (mania de çlevar vantagem em tudo, já dizia Sócrates, o jogador).

    A bicicleta subversiona, pois nos trás de volta ao mundo real. Nos descapitaliza e nos torna gente de novo. è por isso que eu amo ser “bicicreteiro”.

    Grande abraço!

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