a bicicleta e os partidos políticos

a pior coisa que pode acontecer ao cicloativismo e à implantação de estruturas cicloviárias é cicloativista entrar pra política partidária.  entendamos o porquê.

"crap cycle lane" em wellesley road. imagine o quanto cicloativistas ingleses não criticaram esse troço. clique na imagem e saiba mais sobre esse local.

“crap cycle lane” em wellesley road. imagine o quanto cicloativistas ingleses não criticaram esse troço. clique na imagem e saiba mais sobre esse local.

a política partidária brasileira é interessante. mal ou bem estão formados partidos e a política não passa mais pelos quartéis, nem a caserna quer se imiscuir nela (inobstante os delírios de alguns em torno de uma certa “intervenção militar constitucional“).

e partidos políticos têm políticas de governo. políticas de governo são políticas que duram os tempos dos mandatos. muitas delas não são continuadas quando há troca de governantes.

todavia, questões como educação, saúde, transporte, segurança e etc são questões de estado, questões de políticas de estado. por isso, quase sempre suas questões são dominadas por quem pensa a estrutura estatal além dos limites do governo do partido X ou Y. por isso vemos nessas questões uma multidão de tecnocratas e também uma multidão de movimentos sociais.

pelo menos desde maio de 68 se percebe que a política das ruas não se confunde com a política partidária. na verdade, já há muito tempo partidos e sindicatos, tão importantes no século XIX e na primeira metade do século XX não dão conta das pautas sociais, hoje muito mais abarcadas pela ação de uma miríade de formas de organização nascidas numa categoria que foi criada para abarcá-las, pela dificuldade de classificá-las: terceiro setor.

sinalização em ciclofaixa em higham... ciclistas adoraram, né? clique na imagem e saiba mais.

sinalização em ciclofaixa em higham… ciclistas adoraram, né? clique na imagem e saiba mais.

primeiro setor é o estado, o segundo setor é a iniciativa privada (buscando lucros). terceiro setor se caracteriza pelas formas associativas sem fins lucrativas, embora de direito privado. muitas com ações financiadas pelo poder público e também pela iniciativa privada, mas nem por isso essas organizações se tornam empresas ou estado.

no setor da saúde, vemos claramente essa miríade de entidades. exemplos são as santas casas de misericórdia. a irmandade da santa casa de misericórdia de são paulo, por exemplo, atua hoje na saúde, educação e pesquisa. sua fundação remonta a mais ou menos 1560.  não é empresa, não é estado, mas sendo entidade privada, atua dentro de políticas de estado, tendo sido, por centenas de anos, o único local de atendimento médico aos mais pobres, muito antes da criação do SUS.

um outro exemplo é a AACD, referência no suporte e tratamento a pessoas com deficiências diversas. fundada há 65 anos, contanto com patrocínio de diversas empresas, conforme explicita em seu site.

o sucesso dessas entidades decorre do seu não-envolvimento na política partidária. são entidades políticas  na melhor acepção do termo, que é a arte de participar na gestão da pólis.

ciclovia ruim posteriormente "melhorada" em westfield stratford.  imagine um ciclsita trasnformado em gestor público tendo que defender isso perante seus colegas ciclistas.

ciclovia ruim posteriormente “melhorada” em westfield stratford. imagine um ciclista transformado em gestor público tendo que defender isso perante seus colegas ciclistas.

a experiência tem mostrado que cada vez que os partidos cooptam ativistas sociais, dos mais diversos meios, para as suas fileiras, o partido não ganha muita coisa, mas o movimento social perdem um bom ativista. pois o ativismo social de sucesso age fora da política partidária, por ser essa caracterizada pelo enxugamento de forças.

a vida partidária abduz muito do tempo da pessoa. a rotina de um vereador, por exemplo, é atender um sem-fim de solicitações clientelísticas, e cuidar dos seus lobbies. e participar de reuniões sem fim com outros vereadores, em comissões e etc. no mais das vezes não dá em nada, mas absorvem um tempo doido da vida da pessoa em questão. além do mais, pela própria lógica parlamentar, vigora um toma-lá-da-cá entre os vereadores: para fazer aprovar seu projeto, o vereador X tem que ter os votos dos colegas e só o terá se também apoiar os projetos desses colegas.

ciclovia especialmente projetada para uso de reclinadas, e triciclos cargueiros.... em lancashire. clique na imagem. e imagine-se defendendo essa obra....

ciclovia especialmente projetada para uso de reclinadas, e triciclos cargueiros…. em lancashire. clique na imagem. e imagine-se defendendo essa obra….

é nessa hora que o “vereador do jogo de bocha” vira o vereador do partido X ou Y. e o jogo de bocha continua na mesma situação de sempre.

em algumas cidades do brasil, a política partidária já cooptou ativistas da bicicleta. para se exemplificar, é o momento em que o ativista X ou Y passa a exercer um cargo na administração municipal. prefeitos têm feito isso com frequência. e o resultado é a desarticulação do movimento, ou sua momentânea acefalia, e a não efetivação das políticas públicas, servindo o ativista transformado em político como para-choque, amortecedor das pessoas que outros ativistas façam. é o momento da eterna fala: “olha, é difícil, pois tem que fazer isso, depende daquilo, a verba tem que vir com o carimbo tal, eu estou tentando, a coisa não anda…” é uma fala sincera. o antigo ativista e atual político está mesmo se desdobrando pra fazer coisas que estão muito além dos poderes que lhe foram conferidos. e muitas vezes ressente-se das justas críticas dos outros ativistas. mas críticas justas, pois a estrutura cicloviária X ou a política ciclista Y não saiu do papel.

a política das ruas, que abrange das multidões às organizações do terceiro setor, trabalha com uma lógica de resultados. pois, querendo ou não, é composta de cidadãos que se vêem como tal, ou seja, moram na cidade, habitam a cidade constroem a cidade. ao cadeirante que não consegue subir na calçada com sua cadeira pela falta de uma rampa, importam quantas reuniões a bancada da imobilidade fez? não: o fato é que falta uma rampa no seu caminho.

ora, são esses cidadãos que agirão, organizadamente ou não, pressionando o poder público das mais diversas formas, nem que seja produzindo um conhecimento e disponibilizando-o ao poder público (pois de fato a administração pública brasileira em geral carece dos dados mais diversos), seja exercendo pressões mais fortes e extremas.

existe o ativismo doce e o ativismo azedo. o ativismo doce dialoga, quando há a janela de diálogo. o ativismo azedo manifesta-se, aciona. ou seja, promove as passeatas, os atos,entra com ações judiciais e etc.

claro, o ativismo é sempre mais eficiente se caminha ao lado da legislação: pressionar o poder público pelo cumprimento de legislação é sempre mais fácil que pressionar o poder público contra a legislação.

e é contra essas pressões, que os partidos procuram cooptar os ativistas.  conforme citei ali em cima: o ativista cooptado vira o para-choque da gestão nos inevitáveis choques com o ativismo, principalmente no que tange à política de transportes por bicicleta, onde todas as cidades do brasil falham, mais ou menos, mas falham. na verdade, em muitos locais do mundo o poder público falha nas implantações de estruturas cicloviárias.

mas infelizmente muitos são seduzidos tanto coma promessa de ganhos quando a entrega de cargos onde se teria espaço para ação. essa é a  maior mentira. pois se não há vontade política vinda de cima, do soberano, seja ele o prefeito, o governador ou o presidente, a política pública não se implantará. quem duvida disso que compare as promessas de candidatos a prefeitos eleitos na última eleição e o que cumpriram, no que tange às estruturas cicloviárias, as obras viárias mais baratas que uma cidade pode realizar, pois no mais das vezes são só sinalização de solo…

a se lembrar: primeiro setor é primeiro setor, segundo setor é segundo setor, terceiro setor é terceiro setor. quem é eficiente num setor não necessariamente o será em outro. pois o ativista que pode dedicar-se à causa enquanto ativista, não poderá fazê-lo se eleito vereador, por exemplo.

pois  todo parlamentar tem que neuroticamente aparecer, o tempo todo. exemplo? a barulheira da bancada da (i)mobilidade na câmara de vereadores de são paulo. bancada da imobilidade, o que teve de gente que perdeu tempo conversando com esses vereadores…. e com as diatribes do vereador-despachante…

nah! não perca tempo, coleguinha. tomates bem atirados, tortas na cara, bicicletadas, bicicletinhas pintadas no chão na calada da noite, tudo isso é mais bem eficiente.

pois uma grande mudança urbana, que consiste na inserção e legitimação das bicicletas no trânsito das grandes cidades, não se faz de forma suave. em qualquer lugar do mundo  foi conflituosa e até hoje, mesmo onde o poder público pare ter acolhido a bicicleta, os ativistas estão lá pressionando pela efetiva implantação das estruturas, da fiscalização das leis e etc.

a se lembrar sempre: ursinhos carinhosos não fazem revoluções, nem as revoluções floridas, de veludo e etc. e bicicleta tem que ser política de estado, não de governo, política de estado, não de partido.  e nesse quesito, ressalto: ou se é tecnocrata do estado, ou se é ativista, do terceiro setor.

e se quiser viver de bike, abra uma bicicletaria!

em tempo: se quiser ver erros de implantação de ciclovias e ciclofaixas ao redor do mundo, digite “crap cycle lane” no google imagens e divirta-se.

só eles não reclamam de ciclovias. pelo menos nesse planeta.

só eles não reclamam de ciclovias. pelo menos nesse planeta.

 

 

 

4 Respostas para “a bicicleta e os partidos políticos

  1. Existe um ponto em que discordo. Um tecnocrata do estado pode não ser um político, no sentido partidário da palavra. É frequentemente um cara envolvido em políticas de Estado, e não de Governo. Ou seja, as idéias dele, mesmo que não levadas sempre a cabo, mesmo com as limitações, prosseguem entre as diferentes gestões políticas. Isso parece evidente em Florianópolis. Não que isso faça as coisas acontecerem, mas certamente se não fossem os funcionários de carreira, a cidade estaria muito pior para se pedalar. Apesar disso, ele fica, assim como as áreas de saúde, educação etc, à mercê dos políticos politiqueiros. Por vezes com maior atuação, por vezes com menor, mas a política cicloviária vai sendo implantada. Mas ele não é uma pessoa a priori do terceiro setor, embora o apoie e até mesmo seja cicloativista. Não considero de todo ruim um ciclista adentrar em política. Ser vereador não costuma ajudar, visto que ele pouco pode fazer. Mas ser parte do poder Executivo, com ele sabendo das suas limitações e oportunidades – algo raro de se acontecer – pode realizar um bom trabalho. Pode ajudar a implantar nos colegas servidores de carreira a paixão pelas duas rodas. E, com isso, ajudar a fazer da bicicleta uma política de Estado., a despeito dos reveses dos governos.

  2. Aqui em São Paulo, a prefeitura colocou “cicloativistas” em comerciais de TV e a câmara de vereadores tem link patrocinando o site vadebike.org, agora esse pessoal fica apoiando a prefeitura e o site virou um site “chapa branca”… Triste

  3. Mas quando um governo arregaça as mangas e começa a fazer malha cicloviária como nunca antes foi visto na história da cidade, como é o caso de São Paulo, não é caso de aplaudir mesmo o que está sendo feito?
    E não entendi a parte que reclama de sinalização de solo. Na maior parte das vezes a melhor opção é essa mesmo, tirar a faixa de estacionamento e criar uma ciclofaixa com sinalização de solo. Qual é o problema? Seria absolutamente impossível fazer ciclovia com segregação física em todas as vias.
    Temos que reclamar sim onde existem problemas, mas também temos que reconhecer quando o poder público toma medidas históricas e importantes para a mobilidade em geral e especificamente para a mobilidade de bicicleta.

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