o capacete para ciclistas e o macho alfa de playground de prédio

para gerações e gerações de pessoas criadas em ambientes puramente urbanos, o espaço da rua é essencialmente perigoso e imprevisível. criados em espaços fechados, não conseguem ir à rua sem proteção de alguma forma: a armadura dum carro, o capacete de ciclista, o tênis no pé. sair a pé, ou pedalando sem capacete ou simplesmente andar descalço na calçada constitui, para essas pessoas, um risco insano, uma irresponsabilidade.

com exceção dos óculos, todo o resto é placebo. cliquena imagem eleia a reportagem.

com exceção dos óculos, todo o resto é placebo. clique na imagem e leia a reportagem.

o fenômeno não é atual. já no início do século XX lord baden-powell percebeu que os meninos ingleses das grandes cidades em nada se pareciam com os jovens que encontrara nas campanhas na índia e principalmente na guerra do transvaal.  eram medrosos e desconhecedores de técnicas básicas da vida, que iam de saber amarrar os sapatos corretamente a cozinhar um ovo numa fogueira sem ter uma panela. sistematizou um método: o escotismo.

de lá pra cá, é fato que as grandes cidades continuam a gerar pessoas medrosas. e com medos não raro totalmente infundados: horror a cobras, por exemplo. horror a pisar no chão com os pés nus.

ao mesmo tempo, possuem uma crença irracional na proteção dada por objetos e práticas dos mais diversos tipos. p. ex as travas finas de bicicleta ( travas psicológicas, só fazem efeito na cabeça de quem usa, pois o ladrão as corta com um alicate qualquer). ou mesmo essa profusão de lutas ensinadas por aí para “auto-defesa”, eficientes nos treinos mas cujas técnicas nem de longe são aplicáveis a um assalto na rua, com dois ou mais bandidos com armas de fogo.

nessa lsita de produtos com eficiência super-hiper-mega valorizada está o capacete a ser usado por ciclistas.  não é preciso ser muito inteligente para perceber que aquela casca de plástico e isopor não protege o crânio contra um esmagamento por choque com ônibus, que é o tipo de acidente mais comum em mortes de ciclistas em são paulo. a se lembrar que as três pessoas em bicicletas atropeladas por ônibus na paulista, na ordem, márcia, juliana e marlon, não apenas usavam capacetes, mas estes apenas serviram para complicar a perícia médica, de tão esfacelados.

em lugares como inglaterra ou austrália, onde leis obriga o uso do capacete 9ao contrário do brasil), após anos de obrigatoriedade pesquisadores os mais diversos clamam pela revogação das leis.  nesse sentido, leia essa reportagem do jornal inglês “the telegraph“.

mas é fato: a lei brasileira não obriga o uso de capacete por pessoas que usem as bicicletas nas ruas, segundo a linha  usada por grande parte dos países europeus e mesmo do resto do mundo, onde usar ou não o capacete é escolha puramente pessoal.

agora, uma regra é universal: usar a bicicleta com o selim ou banco na posição errada causa lesões nos joelhos. selim muito baixo (no caso das bicicletas convencionais) e banco pouco recuado (no caso das bicicletas reclinadas) não apenas torna o pedalar mais penoso, as subidas mais íngremes e a bicicleta mais pesada, como lesiona as articulações.

e, no caso das bicicletas convencionais, no mais das vezes o hábito de usar o selim muito baixo é puro medo, e falta de domínio da bicicleta.

no videozinho abaixo a moça ensina a montar e desmontar de uma bicicleta com o selim na altura correta, mesmo que seja uma bicicleta com quadro step-through e cestinha:

viu o vídeo? quantos capacetes há no vídeo?

agora perceba a altura dos selins das bicicletas em amsterdam no vídeo abaixo:

claro, nenhum capacete. mas dirão: na holanda todos seguem as regras de trânsito, e portanto é mais seguro andar em bicicleta. de fato, veja o vídeo abaixo acerca do exemplar cumprimento de regras de trânsito na mesma amsterdam:

ok, amsterdam tem muitas ciclovias segregadas, com proteção física par ao ciclista. como em copenhague?

se tem uma coisa que o ciclista holandês, alemão, francês, dinamarquês, suceco, e etc, difere do ciclista em algumas cidades brasileiras é a ausência da “fantasia de ciclista”. são simplesmente pessoas que subiram em suas bicicletas.

nada de roupas especias, luvas, capacetes, nada! mas sempre os selins na altura certa.

mas em são paulo tem proliferado o modelo inverso: capacetes, luvas, spandez e selim baixo. e não raro, ditando regras para os demais: “e o capacete?”

é o macho alfa de playground de prédio se manifestando.  o menino que tem muitos brinquedos de plástico, mas não aprendeu a amarrar os sapatos corretamente.

nó errado

e esse menino cresce, se encanta como mundo “lá fora”.  sonha com grandes aventuras mas morre de medo de andar a pé no centro de São Paulo.

nó certo

ditar regras aos outros não deixa de ser uma forma de sentir-se um pouco menos inseguro. ditar regras, carregar um monte de “EDCs” constituídos por canivetes de combate e etc.  ter um canivetinho à mão é de fato útil – adoro, sempre tenho algum, pra apontar lápis, abrir embalagens, descascar uma laranja- mas daí pra achar que sacará rápido um canivete de combate e esfaqueará ladrões é um salto gigantesco!

mas o medroso não tem uma percepção real do mundo, e subestima alguns riscos e sobrestima outros. 

a se ver sobre o discurso acerca das ciclovias e ciclofaixas de são paulo. uns sobrestimam a proteção dada pelas faixas pintadas no asfalto, e entram em pânico ao ter que pedalar fora delas.  outros acreditam que o aumento do número dos ciclistas implicará no aumento de roubos, latrocínios, estupros e etc.

aliás, essa última posição é escudada pela OAB/SP, cujos representantes entenderam que a redução da velocidade máxima para os veículos automotores nas marginais  ocasionaria a existência de arrastões (???).

todavia, os medrosos não se rendem aos números. rendem-se sempre à sensação de medo, mas não aos números. ignoram que estar num carro aumenta bastante a possibilidade de sofrer alguma violência (pessoas normalmente ignoram que é mais seguro esperar alguém fora do carro que dentro dele, por exemplo, e que não há sequestro relâmpago de ciclistas). e, claro, criados dentro de cercadinhos, temem absurdamente o pedalar só…

é o eterno medo de sair do cercadinho, da armadura, da proteção, da vila…  o espaço pequeno onde se é o macho alfa, o playground do prédio, onde o filho da emprega não brinca.

ah, o capacete…  o capacete…

dentro do discurso acerca do capacete há muito de discriminação social: “sou ciclista, não bicicleteiro!” – perdi a conta de quantas vezes já ouvi isso.

pois se trata de uma fala de afirmação de classe: não quer se confundir, esse cidadão de classe média, com o pobre que também pedala. pois a bicicleta… deus do céu, é democrática demais, não é?

é.  capacete, selim baixo e nariz empinado. tsc. muito pedal pela frente, muito pedal pela frente, muito pedal pela frente….

em tempo: sobre (in)eficácia de vestimentas de alta visibilidade para ciclistas no trânsito, que se leia o seguinte estudo.

e se quiser pedalar nas cidades, simplesmente pedale e siga as regras de trânsito e, se for o caso, use um par de óculos, e à noite, luzes, e sempre como selim ou banco na altura ou distância correta, sem medo de ser feliz. todo o resto pode ser tão eficiente quanto qualquer outro tipo de placebo.

 

 

Anúncios

13 Respostas para “o capacete para ciclistas e o macho alfa de playground de prédio

  1. E isso é perceptível em todo canto. Aqui na minha cidade (Boa Vista-RR) onde andar de bicicleta sempre foi até algo normal, há alguns anos atrás ocorreu o boom do ciclismo mais paramentado e junto a isso a cultura do medo. Agora tem os nichos de ciclistas onde eu preciso ter uma bicicleta “TOP”, onde um arranhão na bike é algo terrível, onde eu preciso estar com capacete, com roupas coloridas e tal, onde chegar com uma bicicleta velhinha no meio de um grupo desses ciclistas é sinônimo de risos (como se a pessoa nessa bicicleta surrada não rodasse bem mais que aquelas com suas bikes top). Fomentar que o mais importante é pedalar de fato é uma tarefinha complicada, mas tento explicar que uma bike bem regulada, com a manutenção em dias e saber como se portar no trânsito já é mais que meio caminho andado para se pedalar sem tantas preocupações.

  2. Acho que o capacete protege para pequenos acidentes (uma fruta caindo de uma árvore ou bater a cabeça numa pedrinha pontiaguda no chão, quando levar um tombo). Ou não?

  3. Sempre no ponto! Vou compartilhar. Não sei se estou muito “roia”, mas não vi uma fanpage do blog no facebook. Seria um canal interessante para divulgar os textos. Já tem?
    Abraços de beozonte

  4. Capacete é igual camisinha: usando é mais seguro, sem é mais gostoso…

  5. Uma coisa é certa, capacete não protege 100%, mas é mais seguro andar com do que sem.

    Luvas são inúteis até que vc tome um tombo e tente aparar sua queda com as mãos.

    Bermudas de ciclismo são feias e justas, mas são muito mais confortáveis para se pedalar.

    Acho que você deveria parar um pouco de ser o caga-regras de “como ser ciclista e hipster” e deixar as pessoas andarem do jeito que quiserem.

  6. Pingback: O capacete para ciclistas e o macho alfa de playground de prédio |

  7. um capacete nao vai suportar um onibus ou carro, mas vai evitar que quedas bobas na rua se tornem algo tragico. luvas, etc…e assim vai. Melhor com de que sem. Uma coisa é pedalar pequenas distancias, para a rotina diária, outra é praticar esporte de ciclismo. Nestes países europeus, nas fotos tiradas, são de centros urbanos, em que as pessoas usam a bike para suas rotinas, mas vá viajar e ver um domingo de manhã na Dinamarca, França, Itália, etc pelo interior – cheio de ciclistas parametrados.
    acho que quem escreveu este artigo é que morou em playgrounds….e conhece o mundo de fotos.

    • Luva é importante sim, numa queda ajuda muito.
      O capacete realmente não ajuda muito a reduzir impactos, em casos leves, no entanto é eficiente. Mas o que eu acredito no uso do capacete, que uso de vez em quando, é que ele ajuda a chamar atenção, ajuda na visibilidade do ciclista. E isso auxilia os motoristas e pedestres a enxergar.
      Eu acho….

  8. achei o comentário interessante, apesar de preferir usar roupas coloridas qdo saio e uma capa de mochila coloridona tb (antes tinha uma mochila toda ela refletiva e me parecia eficiente). uso o capacete, pq acredito q, num tombo ou trombada leve, ele pode, sim, me ajudar. já tentei pedalar com roupas normais, as mesmas q usaria no trabalho, e não deu certo… uso sempre uma calça de compressão e uma camiseta de manga cumprida por dois motivos simples: são mais confortáveis e me protegem do sol do meio-dia, q é meu horário de ir pro trabalho. tb uso luvas, nem tanto pelas quedas, mas mais pq melhora a pegada, a freada e a troca de marchas. tenho um corta chuva na mochila q é amarelo e o escolhi justamente pela cor ser chamativa. parte do meu percurso é relativamente mal iluminado, então creio q estar mais visível é melhor do q não estar. tb tem aquele lance de q as pessoas reagem mais rápido ao se depararem com cores primárias (o amarelo, no meu caso)… sei q meu equipamento é dispendioso e qdo vou ao mercado fazer compras e uso o bicicletário, vejo pessoas com bem menos recursos e q andam com suas bikes sem nenhuma luz de alerta ou vestimenta q tenham alguma refletividade ou q deem mais conforto (térmico, inclusive)… o exótico sou eu no bicicletário do bergamini. mas, especialmente à noite, percebo q os motoristas ao me notarem pelas luzes de alerta a minha presença, dão uma facilitada. outros, ao contrário, renovam sua cota de ódio e de algum modo tentam me prejudicar. eu diria q há um empate nesse caso e, ao me sentir um pouco mais visível e seguro, a minha pedalada é melhor.

  9. Não entendi um texto tão intenso para criar polêmica onde não é necessária. O uso do capacete pode não ser o que vai salvar a vida do indivíduo atropelado por um ônibus, mas pode evitar um trauma cranioencefálico grave em alguém que cai em uma trilha usando sua BTT. Roupas coloridas são exóticas, mas são muito mais visíveis durante o dia que qualquer pisca-alerta. Bermuda aperta? Experimente fazer um pedal de 100k sem uma boa bermuda de ciclismo almofadada. Luvas são supérfluas? O autor nunca teve a oportunidade de cair em um downhill sem luvas e ter suas palmas das mãos lixadas pelo cascalho!! Também não esqueça do frio quando se pedala de madrugada…
    Ainda esqueceu do corta-vento, item essencial para quem pedala de verdade, quem adora cruzar quilômetros atrás do desafio de superar seus limites. De brinde, você sempre encontrará lugares e vivenciará situações que alguns poucos “ciclistas” urbanos, na sua bolha de pseudocicloativismo, experimentarão e sequer irão entender.
    Resumindo: generalizou? Está errado.

    • olá, acho que vc é novo no meu blog. por acaso não viu meus post sobre brevets e etc. eu não luto contra o uso do capacete ou a roupa de ciclismo, principalmente em provas longas, como já fiz, que já brevetei algumas avezes até 400 km. uso capacete em viagens, usa bermuda de ciclismo. todavia. oque ocorre em são paulo é um processo de elitização do uso da bicicleta. não há motivo para utilizar-se de uniforme completo de ciclismo para se fazer um percurso de 5 km, há? e não sendo o uso do capacete obrigatório no brasil, que motivo há para se ficar pressionando diariamente, múltiplas vezes, quem não o usa? essa é a questão.

  10. É…Muita gente leu mas não entendeu o conteúdo do texto, muito bom.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s