ônibus & bicicletas – notas sobre a licitação dos transportes coletivos de São Paulo

São Paulo, maior metrópole da América Latina, está elaborando o processo de licitação da concessão do serviço de transportes coletivos, por 20 anos, prorrogáveis por mais 20 anos. O processo abre novas possibilidades de evolução do serviço, mas precisa melhorar a integração com o modal bicicleta.

nem sonhe, essa não é uma possibilidade.

nem sonhe, essa não é uma possibilidade.

Se você quiser entender um pouco o que se passa agora na licitação, esse post no blog do ônibus ajudará.

Mas falo aqui na posição de representante titular dos usuários do modal bicicleta no Conselho Municipal de Transportes, reforçando minha fala na Reunião do Conselho ocorrida hoje de manhã.

Não enxergo na atual minuta contemplada a intermodalidade com o uso da bicicleta. Ou seja, não se delineia como se dará essa intermodalidade.

A se lembrar: intermodalidade é a conjugação de transportes, de modais diferentes, a cada trajeto feito.

Ora, para quem usa o sistema de ônibus e faz grandes trajetos, a bicicleta representa uma forma rápida de se chegar a um terminal de onde saia uma linha expressa para outro ponto da cidade.

Mas para que isso ocorra, é necessário que algumas condições se coloquem.

1 – Uma possibilidade é transportar a bicicleta no ônibus. Para tanto, necessário se faz que o ônibus esteja adaptado para tanto, funcionando em linhas regulares. Essa forma ocorre em diversos locais do planeta, com diversos modais. Por exemplo, o sistema de trens londrino permite a entrada de bicicletas dobráveis em qualquer horário, assim como o metrô, e nos ônibus, a critério do motorista, em razão do tamanho e da lotação.

Em diversos locais, bicicletas podem ser levadas em ônibus em bagageiros externos especialmente preparados para tanto, todavia essa possibilidade não encontra guarida na legislação brasileira, de modo que é necessária a adaptação do interior de alguns ônibus para que se transporte as bicicletas com segurança.

A quem interessa essa possibilidade? A quem faz um primeiro trajeto em bicicleta, um segundo trajeto mais longo em ônibus e um terceiro trajeto novamente em bicicleta.

2 – O segundo caso é representado pelas pessoas que usarão a bicicleta para chegar ao terminal mais próximo, e então utilizar-se-ão do transporte público. Ao final da jornada de trabalho retornarão ao terminal e resgatarão a bicicleta, para voltarem então às suas casas.

Esse é o caso da grande maioria das pessoas que querem conjugar os dois transportes. Não raro são trabalhadores de baixa ou baixíssima renda e o uso da bicicleta para acessar o terminal mais rapidamente – lembrando que economizar meia hora no trajeto para quem gasta 4 ou 5 horas por dia no transporte, significa um aumento considerável de qualidade de vida.  Costuma optar também por essa possibilidade quem não está bem servido pelo transporte público em sua residência, pelos mais diversos motivos.

Essas pessoas precisam de bicicletários que funcionem em espaço de tempo superior ao horário dos terminais, pois há quem pegue o primeiro ônibus, há quem chegue no último.

Muitos desses trabalhadores utilizam bicicletas que lhes foram doadas, ou que custaram, usadas, 100 ou 200 reais. Bicicletas simples, e com renda baixa, não se pode exigir que comprem uma trava mais cara, uma u-lock de boa qualidade. E, por outro lado, a perda por furto dessa bicicleta representará um gasto adicional a corroer sua combalida renda. Assim, se faz necessário que o bicicletário seja fechado e controlado, de modo a não se permitir o furto e roubo das bicicletas.

3 – Uma terceira hipótese de intermodalidade bicicleta-ônibus é representada pelo uso das bicicletas compartilhadas, hoje em sistema privado permitido, mas como Jilmar Tatto imagina, num futuro deve ser esse sistema público e cobrado pelo mesmo sistema utilizado para se cobrar a tarifa de ônibus.

Mas a quem aproveita essa intermodalidade? Apenas a uma classe média em trânsito entre os pontos  A e B num certo horário. Pois o sistema como hoje funciona exige um cadastro prévio. E não apenas: quem pode pegar uma dessas bicicletas e pedalar até em casa, e devolvê-la apenas na manhã seguinte?

Ou seja, é um sistema para uso ocasional. Ou como fazem alguns estudantes  universitários de São Paulo, o trajeto entre o trabalho e a faculdade, noturna, é feito numa bicicleta dessas.

Mas a se notar: o edital, como está, não prevê a necessária construção de bicicletários em todos os terminais, nem adiciona a possibilidade de instalação de estações de estacionamento de bicicletas compartilhadas também em todos os terminais.

Um outro problema é a ausência de diretriz para a ligação dos terminais com a rede cicloviária, tanto atual, quanto futura, prevista no Plano de Mobilidade Urbana já elaborado.

Ou seja, inobstante as respostas atenciosas dos direitos Adauto e Almir, e mesmo do Secretário Jilmar Tatto, a impressão é de que a bicicleta, talvez por representar hoje ainda 1% das viagens diárias na cidade de São Paulo, não tenha atraído tanta atenção nesse certame. Mas a se lembrar que, no horizonte de 20 anos, prazo pelo qual vigorará o contrato de concessão, a expectativa é que se chegue, sem exagero de 20 a 30% dos deslocamentos diários feitos em bicicleta.

Isso pois São Paulo tem repetido a trajetória de outras grandes cidades ao redor do mundo: instalada uma inicial rede cicloviária, há uma explosão no seu uso, que cresce exponencialmente até um patamar em torno de um terço das viagens,  como hoje se verifica em Londres, Amsterdam, Berlim, Copenhague, Paris e tantas outras, que ou já se estabilizaram no terço do total de viagens em bicicleta, ou estão caminhando a passos largos nesse sentido.

Uma medida da explosão do uso da bicicleta em São Paulo é o número de bicicletas vendidas na cidade. Basta uma boa conversa com qualquer dono de bicicletaria que ele cita aumento de vendas, uns mais, outros menos, mas todos registram alguma forma de aumento de vendas.

A se lembrar que o Brasil é o terceiro ou quarto mercado mundial para bicicletas, com potencial de crescimento ainda, uma vez que nossas condições climáticas ajudam: a ausência de invernos verdadeiros, com neve, facilita o uso de bicicletas como transporte o ano inteiro, muito embora nos países onde a bicicleta está consolidada, nem a neve atrapalha o pedalar nosso de cada dia, como se vê no vídeo abaixo, gravado em Utrecht.

Em Utrecht, também a chuva não pára os ciclistas:

O fato é que a bicicleta precisa ser lembrada como modal de transporte, não apenas para uso eventual e para trajetos curtos, mas também para uso diário e em alguns casos, seu uso é conjugado com o uso de outros modais de transportes públicos, que tem estar preparados para receber a bicicleta e o ciclista.

A se lembrar que, embora com atraso, o uso de bicicleta como transporte cresce a olhos vistos e, sim, se caminha na mesma direção que outras grandes metrópoles, muitas das quais aprenderam como solucionar um outro problema existente na convivência do uso da bike com outros modais.

Neste sentido, é de se lembrar também a ainda conflituosa relação entre ciclistas e motoristas de ônibus, que insistem em desrespeitar o artigo 201 do CTB, que determina que o motorista sempre passe com seu veículo a no mínimo 1,5 metro de distância do ciclista.

Ora, isso é um mandamento legal e ninguém pode alegar desconhecimento da lei. Assim, chega ser um contrassenso pensar-se no treinamento de motoristas de ônibus para que passem a cumprir a lei. Mas esses treinamento se faz necessário pois há um reiterado descumprimento do mandamento constante no artigo 201 do CTB, que pode acarretar atropelamento e morte do ciclista ultrapassado.

Nesse sentido, observe-se o vídeo abaixo. Nele, se vê um atropelamento de ciclista ultrapassado por ônibus, em Manaus:

Ônibus são veículos de grande massa, causando grande deslocamento de ar. Facilmente derrubam um ciclista e o atropelam com as rodas traseiras, como aconteceu no caso do vídeo acima, pelo simples fato de passarem bem rentes ao ciclista.

Todavia, deve o treinamento constar do edital? Tenho dúvidas, mas de fato, uma fiscalização dura acerca do comportamento da tripulação dos ônibus deve ser feita. A se responsabilizar também duramente as empresas concessionárias acerca da convivência com outros modais no trânsito, em especial o modal mais fraco: o ciclo, o veículo não-motorizado, e seu ocupante. Responsabilização que vá além da responsabilidade penal do condutor e da responsabilidade civil da empresa-empregadora, em caso de dano, mas também duras penas não apenas para casos de dano inequívoco, mas de ameaça à integridade do ciclista.

Nesse sentido, aparelhagem de vídeo, câmeras, muito podem ajudar, em conjunto com outros elementos, tais como sistemas de GPS e outros controles tecnológicos possíveis, para não apenas evitar mortes e atropelamentos, mas para que a experiência de pedalar nas ruas não seja aterrorizante para o novel ciclista.

É fato. Há muito o que se acrescentar nesse edital no que tange à bicicleta, e também em relação a outros temas, tais quais o uso de combustíveis menos poluentes, à forma de remuneração das empresas e etc. Não que o edital, como se encontra, seja ruim, mas há muito o que se possa melhorar, numa concessão cujo contrato durará 20 anos, duas décadas, uma geração.

Há que se pensar de forma a contemplar não apenas as necessidades atuais, mas as de um futuro previsível, como o incremento no uso da bicicleta como modal de transporte usado de forma massiva. A não se repetir o erro da concessão feita pelo Governo do Estado de São Paulo, para a exploração de pedágio no sistema Anchieta-Imigrantes. Hoje, como está, bicicletas podem rodar o Brasil inteiro mas não podem livremente ir de São Paulo a Santos: estrutura não há, embora proibição haja e a concessionária, Ecovias, cinicamente alega sempre que a bicicleta não está prevista na concessão…

Ora, urge contemplar, a intermodalidade bicicleta-ônibus, nas três formas delineadas no início desse texto, sob pena de se ter uma caótica situação futura, de muito conflito, muitas pressões,  e eventualmente mortes.

E o que tenho inicialmente a notar sobre esse assunto, ao qual voltarei nos próximos dias.

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