excesso de ciclovias, onde?

Colunista de jornal critica o “excesso de ciclovias” em Joiville – SC, e afirma que Joinville não é Copenhague… pra rir, não é?

minha bicicleta na Rua das Palmeiras, no centro de Joinville, em janeiro último.

Minha bicicleta na Rua das Palmeiras, no centro de Joinville, em janeiro último.

Prezado ciclista brasileiro, responda a essa pergunta: onde, nesse país, há excesso de ciclovias? Onde, no mundo, há excesso de ciclovias? Nem na Dinamarca!

Mas um colunista polêmico de uma cidade do interior de Santa Catarina, Joinville, das mais populosas do estado, na coluna deste link aqui, escreve algumas besteiras acerca das parcas ciclovias da cidade.

Na coluna ele descreve uma pretensa fixação do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Joinville na criação de ciclovias pela cidade. Basicamente, seu argumento, é que ciclovias devam ser única e exclusivamente para o trabalhador ir ao seu local de trabalho.

Bom, só nesse argumento ele revela um tom discriminatório. Bicicleta é apenas para o assalariado ir ao trabalho? É apenas a forma de transporte que permita melhor a exploração de mão de obra?

Em segundo, diz que matriz de transporte desde o governo JK é o carro  (certo) e não é a construção de ciclovias que vai mudar isso (errado!)  e claro, Joinville não é Copenhague (certo) e pelo tom que escreve, não tem nada de germânica…

A tradição germânica é de intenso uso de bicicletas. A se lembrar que o melhor cubo de marchas internas é o germânico Rohloff. E os melhores alforjes do mundo são Ortlieb, Vaude, MRX… Seria só acaso serem alemães?

O alemão tem dois verbos ïr”: gehen, basicamente equivale a andar, ir andando, e fahren, que é ir com um veículo.  Atualmente, se usa o termo  “Fahrrad” para denominar bicicleta. Vem de   “Radfahrervereinen”, e tanto no termo do século XIX como no termo atual se manterm o radical da fahren: FAHRrad, fahr + rad.

Ir, que não seja a pé, na cultura germânica, é, por excelência, ir em bicicleta. É o que a língua nos entrega.

Também ignora o clunista que cidades alemãs tem feito esforços para eliminar o uso de carros em suas cidades. Hamburgo quer tirar os carros das ruas até 2024. Leia mais aqui.  mas claro, Hamburgo não é Copenhague (embora haja uma ciclovia ligando Berlin a Copenhague).

Mas falemos de Brasil. Nem citemos o exemplo de São Paulo, que construiu até agora cerca de 75% dos 400 km de ciclovias e ciclofaixas prometidas em campanha pelo atual prefeito Fernando Haddad e então seu oponente, José Serra.

Fiquemos apenas no campo da legislação. A lei !2.587 de 03 de janeiro de 2012, entrando em vigor 100 dias depois, estabelece no seu artigo 6º as diretrizes de planejamento de mobilidade urbana a serem seguidos pelos municípios, e no inciso  II desse mesmo artigo, insiste-se na prioridade do transporte coletivo sobre o individual e do não motorizado sobre o motorizado.

É lei brasileira, não dinamarquesa, ressalte-se, que determina que o planejamento urbano, em matéria de transportes, privilegie ônibus e bicicleta em detrimento do carro…

Ora, e o que é construir ciclovias? Ciclovias são caminhos segregados, por onde circulam apenas os ciclos como determinado no Código Brasileiro de Trânsito. Elas servem tanto para proteger os ciclistas, quanto para orientar seus trajetos. Em qualquer horário, e transitando por qualquer motivo: ir ao trabalho ao lazer… Não importa.

Se a construção de ciclovias implica na retirada de pista de rolamento destinada aos motorizados, tanto melhor! Se elimina vagas de estacionamento, tanto melhor! Se está, desta forma, cumprindo a lei.

Deve, todo município, desestimular ao máximo o uso de veículos automotores de transporte individual.  Não apenas por uma questão de imposição legal, mas também para evitar a emissão de carbono. Pois não importa que a cidade tenha bons ventos, todo carbono liberado na atmosfera contribui para o aquecimento global, e o país como um todo é signatário de tratados internacionais nos quais se compromete a reduzir as emissões de carbono.

Em outra ponta, o mercado mundial tem observado o aumento exponencial do uso das bicicletas nas cidades. Um exemplo nos dá a Levi’s, que já lançou uma linha de roupas a serem usadas por quem vai em bicicleta ao trabalho: Levi’s Commuter. Se um grande fabricante de roupas, marca mundialmente conhecida, está avançando nesse mercado, seria ele pequeno?

Claro, o colunista que escreveu a indigitada coluna ignora isso tudo. Ignora que talvez esteja o IPPUJ a adequar a cidade de Joinville às novas formas de planejamento urbano do século XXI, do urbanismo pós-automóvel, das cidades desmotorizadas.

E em vez de reclamar que uma ou duas pizzarias sofrem com uma ciclovia passando perto por falta de local para estacionar (ué, elas não oferecem área de estacionamento aos seus clientes?), deveria incentivá-las a instalar paraciclos, que são aquelas armações de metal onde se trava corretamente uma bicicleta, em formato de U invertido.

Pois o cliente da pizzaria que vai de carro não come tanto e nem pode tomar uma cerveja, por conta da lei seca. Mas ciclista tem sempre fome, queima bem o que come, e claro, de bike não tem lei seca!

É. Faria melhor o jornal “Notícias do Dia” simplesmente trocar de colunista. Assim essas besteiras não teriam sido publicadas.

E vale sempre à pena rever o videozinho abaixo, que mostra como a Holanda, que tinha coo matriz o transporte individual motorizado tornou-se o país das bicicletas.

Ah, e favor lembrar: Copenhague não fica na Holanda.  :)

 

 

 

 

 

3 Respostas para “excesso de ciclovias, onde?

  1. Entretanto, por ser um meio barato, fácil e prático, por que as bicicletas não são tão populares pelas ruas do Brasil? O que falta para nossos possíveis ciclistas?

  2. Me espanta o jornal manter um colunista desse, polêmica gera mídia mas idiotices denigrem a imagem de um meio de comunicação

  3. O ano passado tive o privilégio de visitar a cidade de São Paulo…grande cidade. Caótica no que se refere ao trânsito. O facto de morar no outro lado do Atlântico, levou-me a pensar o que é que aconteceu à cidade de SP? Está completamente pensada para os carros? Serão estes sustentáveis no futuro próximo? Contribuem para a conservação do meio ambiente?
    Porque é que os governantes não pensam nas pessoas?Porque é que não têm mais ciclovias?
    Julgo que há espaço para todos nessa cidade.
    É uma cultura que se constrói…ou não funcionava em muitas cidades europeias e não só.
    Boas pedaladas por SP…saudades de voltar aí…talvez próximo ano possa vir a ciclar em mais espaços de SP.

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