step-through!

você já deve ter visto por aí quadros de bicicletas com tubo superior do quadro bem baixo e curvo, ou eventualmente inexistente. mas sabe o porquê de existirem bicicletas assim? se pensa que é uma questão de estética, sinto dizer, errou.

ilustração de corrida feminina em velódromo. nada de quadros step-through, nem de saias: elas estão usando bloomers, antecessoras das calças compridas.

ilustração de corrida feminina em velódromo. nada de quadros step-through, nem de saias: elas estão usando bloomers, antecessoras das calças compridas.

no mundo da geometria das bicicletas, a forma segue a função dentro dos limites técnicos de fabricação do tempo em que o quadro foi produzido. assim, claro, não há como exigir de uma bicicleta dos anos 1940 as formas que os quadros de fibra de carbono atuais podem ter.

mas a necessidade também dita as geometrias das bicicletas. elas ditam as funções e formas de uso que terão. por isso touring bikes têm traseiras bem compridas de 46 cm, que podem deixá-las lentas em subidas, mas acrescentam um conforto fenomenal. e estradeiras, de competição, costumam ter traseiras de 40,5 cm ou até menos (minha khs aeroturbo tem 37 cm de traseira, do centro do eixo da pedivela ao centro do eixo da roda traseira, e por isso tem um tubo vertical curvo, que não está lá pra ser belo, mas pra permitir a traseira curta). e porquê tão curtas, se isso traz desconforto? pois quadros de traseira curta torcem menos, portanto são mais ágeis em subidas e sprints….

claro, o estado da técnica determina os limites das soluções a serem encontradas. assim, temos que elevar em conta a tecnologia existente em cada época para entender também por qual motivo se usou essa ou aquela geometria.

mas vamos ao início. na época das penny-farthing, com suas imensas rodas dianteiras, o quadro nada mais era do que um tubo que vinha da caixa de direção e chegava a um garfo que prendia a roda traseira. a tração era dianteira. e claro, muito propensa, essa geometria, a tombos em que o ciclista era projetado à frente, principalmente quando algum incauto resolvia numa descida colocar os joelhos sobre o guidão para a roda dianteira girar livremente.

agora imagine um tombo desses num mundo sem antibióticos, e com uma medicina que mal começava a diferenciar-se da bruxaria…

morria muita gente em bicicletas assim. tanto que imaginaram uma forma, rapidamente, de criar uma bicicleta mais segura, uma “bicicleta de segurança”, invertendo-se as rodas, colocando a rodinha na frente. mas ainda se utilizava uma forma direta ou semi-direta de se pedalar a roda traseira, mas já ganhando uma estabilidade que as penny farthing não tinham.

will robertson descendo a escadaria do capitólio americano em 1885, par ademonstrar a estabildiade de uma bicicleta de segurança da marca american star bicycle

will robertson descendo a escadaria do capitólio americano em 1885, para demonstrar a estabilidade de uma bicicleta de segurança da marca american star bicycle

 

na foto ao lado, note que a bicicleta já apresenta um quadro triangular, mas um triângulo com ponta para cima. esse formato de quadro logo vai se transformando numa coisa diferente.

com a invenção da transmissão por corrente, logo se descobriu que se poderiam usar polias de tamanhos diferentes, e permitir a multiplicação das voltas da roda em relação à volta da pedivela. numa relação com coroa de 44 dentes e pinhão de 22 dentes, uma volta da pedivela equivale a duas voltas da roda.  graças a esse efeito multiplicador, a roda traseira não precisava ser tão grande. e a roda dianteira, antes pequena, cresceu de tamanho para aumentar o conforto.

observe a rover meteor nº 2 da foto abaixo. note que ela possui rodas imensas (nessa época, ainda não adotados os pneumáticos, eram rdoas de madeira maciça ou no máximo com uma tira de borra dura a recobri-la, e rodas grandes davam conforto.

rover meteor nº2.

rover meteor nº2.

note que o freio está sobre a roda da frente: uma “pá” que cria atrito na roda dianteira.  o tubo vertical do quadro é curvo para encaixar a roda traseira e o tubo superior parte do meio do quadro, preso por um cachimbo. a saída é em 90 graus. não há tubo inferior, mas apenas uma haste, para estabilizar o quadro (aliás, sem muita estabilidade). é uma bicicleta alta, bem alta.

mas os pneumáticos foram inventados, e a transmissão também. assim, rodas grandes diminuíram de tamanho. e aquele formato de quadro que se vê na rover meteor nº 2 do desenho acima evolui da seguinte forma: o tubo inferior ganha de fato as dimensões de um tubo, e o superior sobe. assim nasce o quadro diamante,  padrão para a produção das bicicletas até hoje.

o quadro diamante – salvo falemos de bicicletas reclinadas – tem vantagens inquestionáveis sobre qualquer outra variação. usa menos material, é mais forte, estável e mais leve. pois um triângulo é uma estrutura mais estável que um U, que sempre pode dobrar, ou flexionar.

1895. mulher em bicicleta com quadro diamante, que força-a a usar uma vestimenta que já aponta par ao uso das calças pelas mulheres. um escândalo na época.

1895. mulher em bicicleta com quadro diamante, que força-a a usar bloomers, uma vestimenta que já aponta para o uso das calças pelas mulheres. um escândalo na época.

 

mas temos que lembrar que, se de um lado, as mulheres encontravam caminhos para a liberdade no uso das bicicletas   – e é nesse sentido que afirma susan b. anthony:  “Let me tell you what I think of bicycling. I think it has done more to emancipate women than anything else in the world. It gives women a feeling of freedom and self-reliance. I stand and rejoice every time I see a woman ride by on a wheel…the picture of free, untrammeled womanhood.” – de outro lado ainda há muita repressão às mulheres.

e, do choque entre essas duas tendências – de um lado mulheres querendo mais e mais liberdade, de outro amarras diversas, inclusive, é claro, da indústria da moda – que há uma adaptação do quadro diamante para que seja usado por mulheres que não ousem  usar calças.

o quadro tem então o tubo superior ou suprimido ou rebaixado ao máximo, e são adicionadas guarda-saias, para impedir que as saias enrosquem na roda traseira.

mulheres e suas bicicletas em c. 1900. note o tubo superior em U profundo e guarda-saias presos ao paralama traseiro.

mulheres e suas bicicletas em c. 1900. note o tubo superior em U profundo e guarda-saias presos ao paralama traseiro.

ou seja, aquela liberdade, emancipação, da qual fala susan b. anthony, é de alguma forma tolhida.  pois se fazem bicicletas que não forçam as mulheres a abandonar as roupas tradicionais,  que lhes tolhiam os movimentos.

menina em bicicleta. a liberdade: usar calças e pedalar qualquer bicicleta. c. 1950

menina em bicicleta. a liberdade: usar calças e pedalar qualquer bicicleta. c. 1950

o quadro step-through tem essa genealogia. e carrega problemas. para se estabilizar uma estrutura em U, temos que usar muito mais material, portanto o peso aumenta consideravelmente. de outro lado, sempre haverá alguma forma de flexão, inclusive lateral.

mas a estética do formato fixou-se. e claro, como sempre, quando a estética se sobrepõe à funcionalidade, prejuízos se contam. pelo menos no que tange às bicicletas, essa é uma verdade insofismável.

de um lado, as conservadoras pedalavam os quadros step-through, enquanto as feministas perceberam a ditadura das roupas. leia esse post no blog saints, sisters and sluts, escrito por susan ozmore, sobre a relação entre o uso de bicicletas e a progressiva flexibilização da ditadura da moda, antes da revolução empreendida por chanel.

é interessante notar as bicicletas da imagem abaixo:

dois modelos luxuosos de bicicletas para mulheres, duas concepções de mundo diferentes.

dois modelos luxuosos de bicicletas para mulheres, duas concepções de mundo diferentes.

a bicicleta à esquerda foi criada pela casa chanel, fundada pela lendária coco chanel. a bicicleta da direita, vermelha, pela casa fundada por guccio gucci.

as bicicletas são reveladoras do espírito de cada maison. a casa chanel produz a bicicleta que exige a liberdade das calças (coerente com um certo viés libertário de coco chanel), e a casa gucci por usa vez mantém os problemas dos quadros step-through, cristalizado como bicicleta feminina por excelência. claro, maison gucci, fundada por um homem…

mas se tiver tempo, leia esse post interessante de carmen mills, bicycle buddha… trabalhando em bicicletarias, vendendo bicicletas, ela define essas ditas bicicletas femininas como “shit bikes”.  e a descrição que ela dá do que seja pedalar essas bicicletas nos morros de vancouver não é muito diferente daquela dada por uma amiga dona de bicicletaria: “bike-arado”.

de fato, é até uma maldade imaginar uma moça de 1,55 de altura levantando uma dessas bicicletas numa escada. elas pesam não raro mais de 16kg, sendo que o quadro, sozinho pesa 3 ou 4 kg, ao contrário dos menos de 2 kg que pesa qualquer quadro-diamante de alumínio.

acrescentem-se alguns balangandãs inúteis mas decorativos e voilà! uma bicicleta pesada para se carregar escada acima ou abaixo, um desestímulo ao uso da bicicleta.

mas os orientais e seu pragmatismo funcional resolveram o problema das saias – e do irracional medo de que o tubo superior machuque as partes íntimas femininas num tombo – fabricando quadros diamante com o tubo superior inclinado para baixo.  assim, o aumento de peso é menor.

uma mtb com tubo superior do quadro rebaixado.

uma mtb com tubo superior do quadro rebaixado.

 

numa outra direção, o surgimento da geometria slooping, que “espreme’ o diamante, baixando tubo superior e os stays traseiros, acabou por criar uma geometria com o tubo superior numa posição que muitas mulheres preferem à geometria tradicional, que usa o tubo superior numa posição horizontal, paralela ao solo.

não chegam os quadros slooping a serem quadros step-through, mas acabam tendo o mesmo efeito. e claro, permitem a montagem da bicicleta com peças bem mais modernas, mais leves. são uma boa opção para quem tem dificuldades de levantar a perna para passar por cima do tubo superior do quadro de uma bicicleta com geometria tradicional.

mas os quadros em U realmente são os únicos que algumas pessoas conseguem usar, em razão dessa imensa dificuldade de levantar as pernas. pois é a única coisa que justifica o uso desses quadros. pois essa baboseira de “estilo vintage”, “estilo retrô” é só pra pegar bobos, vender bicicletas caras com componentes low-end. mas é o mercado, não é?

lilica e a minha trek. sem medo da geometria tradicional.

lilica e a minha trek. sem medo da geometria tradicional.

 

 

 

 

2 Respostas para “step-through!

  1. Fuji Crosstown Ladies é quadro stpe-thru, vindo das profundas da Era Meiji, e é leve e rende que é uma maravilha: zero problema para encarar as ladeiras de Salvador…

  2. Infelizmente não é difícil encontrar nos noticiários os diversos casos de ciclistas assaltados e bicicletas roubadas. Particularmente, eu já tive minha bicicleta roubada, entretanto agradeço por não estar presente no momento. Além disso, o grande número de acidentes, geralmente pela falta de respeito e conscientização de motoristas, agrava esse quadro- fazendo com que muitas pessoas deixem suas bicicletas em casa. http://bhcidadao.com.br/as-dificuldades-e-desafios-para-o-uso-das-bicicletas/

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