“rasgaram minha avenida!” ou o woodstock das bicicletas

paramos na faixa para os pedestres atravessarem, e então a velhinha atravessou, falando pra outra: “que absurdo, rasgaram minha avenida, que horror! estragaram tudo!” “melhor um monte de carro passando, né vó?” perguntou uma moça, de cima da bicicleta, de uma das mais de 15 ou 20 mil bicicletas que passaram pela avenida paulista hoje.

o sorriso da dulce na avenida aberta às pessoas.

o sorriso da dulce na avenida aberta às pessoas.

ali, no memorial da minha amiga julie dias, o boney me abraçou. e não largava mais. esmagamento de emoção, claro, e nós dois, de olhos mais vermelhos que duas tias velhas vendo último capítulo de novela.

ali do lado, o haase, também com olhos avermelhados, e mais de nós. gilberto, irmão da julie, ali olhando a ghost bike da irmã.

o que era essa emoção? uma mistura de júbilo e dor. júbilo por termos vencido a resistência das hostes conservadoras retrógradas assassinas. dor, pois  se o poder público não tivesse se omitido por tantos anos, nossos queridos, amigas e amigo, márcia, julie e marlon, não teriam suas vidas ceifadas nessa que é a mais paulista das avenidas.

sim, a indignação com a morte injusta de pessoas que se deslocavam sem causar danos à cidade, ao contrário de todos os modais motorizados (inclusive transporte coletivo), pessoas que se deslocavam não a passeio, mas a trabalho, essa indignação é um motor poderoso. é um motor que dobrou resistências à toro e direito, daqueles que quiseram partidarizar a implantação de ciclovias e ciclofaixas em são paulo.

é justo que se recuse a instalar salva-vidas num barco pois não se gosta da cor laranja?

quem nunca foi atropelado numa ponte sobre a marginal, ou transitando pela rotatória insana da praça campo de bagatelle, não tem ideia do alivio que é atravessar a ponte da cruzeiro do sul pensando apenas no estreito caminho e as irregularidades do cimento.

ciclovia na periferia! foto de ivson miranda.

ciclovia na periferia! foto de ivson miranda.

então, se tão tenso, por que não se para de pedalar? porque não dá,  oras! como bem lembrou o marco aurelio braun há algum tempo, depois de se ter sido picado pelo bichinho da felicidade que é se pedalar pela cidade, não há caminho de volta. pois toda cidade, de cima de uma bicicleta é outra cidade. é outro lugar.  é outro tudo.

e muita gente foi picada por esse bichinho. dava pra ver na avenida paulista hoje, que a prefeitura acabou por interditar aos motorizados e abrir às pessoas em boa parte do dia de hoje. que festa, que coisa louca! um zilhão de ciclistas alegres, e não se via pessoa que não estampasse um sorriso no rosto!

mas as resistências sempre foram muitas. há aqueles que preferem ciclistas morrendo à sua porta do que uma faixa vermelha passando ali. há aqueles que odeiam as ciclovias e os ciclistas pelo fato de terem sido, por acaso, instaladas por um prefeito do PT, esquecendo que ele apenas cumpre o que manda a lei nº 12.587/2012, a lei de mobilidade urbana.  e há aqueles que odeiam ciclistas e ciclovias, simplesmente pelo hábito de odiar, pelo coração duro.

pra lembrar,pra nunca esquecer desses que amam odiar ciclistas, leia essa notícia velha aqui. note que queriam impedir essa ciclovia por questões partidárias. por briguinhas entre partidos, preferem que ciclistas morram!

você, que foi amigo de márcia, julie ou marlon, ou é amigo de david, como se sente ao saber que essas pessoas preferem que mais famílias fiquem enlutadas em razão de suas disputas partidárias?

pois é, não dá pra acreditar, não é? afinal, ciclovias apenas salvam vidas. sim, vidas de ciclistas, e vidas daqueles que morrem por doenças causadas ou agravadas pela poluição do ar. 4.600 ao ano morrem dessa forma na cidade de são paulo. é pouco?

nós, ciclistas, só queremos uma coisa: segurança para pedalar pela cidade. em troca, não poluímos, não congestionamos, não tomamos seu espaço no metrô ou ônibus.

quase não tinha gente, né? foto de ivson miranda.

quase não tinha gente, né? foto de ivson miranda.

mas hoje foi um dia de emoções contraditórias. muito. de um lado a alegria da conquista do espaço há muito tempo reivindicado. alegria por temos vencido imensas resistências das hostes conservadoras e trevosas na política paulistana. por outro lado a dor da perda dos amigos, o luto que não se supera, e a revolta em pensar que nenhum dos governos anteriores se predispôs a fazer essa obra. enão pensem que essa afirmação é uma defesa do PT, pois foi na gestão de marta suplicy, também no PT à época, que a velocidade máxima da avenida paulista chegou a absurdos 70 km por hora!

mas hoje foi um dia diferente. sem carros na paulista, floresceu a vida. a avenida paulista tem que um dia virar um boulevard. mas até lá, ela pode ser o que virou hoje, ela pode todo domingo ser aberta às pessoas.

que coisa linda ficou essa avenida!  que coisa linda! e quem pode duvidar que há ciclistas em são paulo? e quem pode dizer que pessoas não conseguem chegar em bicicletas até a avenida paulista?

pois tinha bicicleta em tudo quanto é lugar, tudo quanto é canto, ficou dificil parar bicicleta nos postes dos arredores dos bares e restaurantes na hora do almoço de tantas bicicletas amontoadas. uma loucura mesmo!

coisa linda de se ver! bicicleta pra cima, pra baixo, pra direita, pra esquerda, pra frente, pra trás. todas convivendo em paz, amor, harmonia. nada de brigas, nada de disputas, nada de agressões. só uns bocós que foram protestar contra o PT no lugar errado. tanto lugar pra protestar contra o PT, vão aloprar nossa festa?

pois sim, foi uma festa sim! um verdadeiro woodstock das bicicletas!

marque aí no seu calendário: 28 de junho de 2015. a tomada da bastilha carrólatra, apenas o começo da revolução. pois agora é que começa a mudança de fato.

ah, que cena linda veremos nessa segunda feira, dia 29 de junho, 13 anos da primeira bicicletada:  carros parados  no trânsito da avenida paulista, e as bicicletas passando. é lindo! acho vou pra paulista amanhã, mesmo sem precisar, só pra ficar lá, olhando bicicletas passarem e carros parados, parados, parados…

carrodependência tem cura, carrolatria tem tratamento, cidades podem se curar. amsterdã curou-se, qualquer cidade pode se curar. basta que seu povo queira, e pressione o poder político. pois sim, foi isso que aconteceu.

pra relembrar:

1º turno da eleição para prefeito em são paulo – 2012: 5 principais candidatos assinam carta compromisso com ciclistas.

2º turno: os dois candidatos prometem 400 km de ciclovias e ciclofaixas.

março de 2013 (prefeito com 2 meses e meio de posse): david santos tem o braço arrancado por um motorista bêbado na avenida paulista. no mesmo dia. quase mil ciclistas na frente da casa do prefeito cobrando o cumprimento da carta-compromisso assinada.

é, não deixamos o prefeito sossegado. ciclista é sim muito chato. não somos chamados de ciclochatos, talibikers? mas o que queremos é apenas ficarmos vivos. queremos apenas que se cumpra, pelo poder público, oque a lei  determina. nada além, mas nada aquém.

e ciclistas se infiltram em qualquer lugar. sim, meu caro carrólatra, é pior do que seitas esquisitas. em cada mesa ao lado da sua no trabalho pode ter um ciclista.  em cada família há alguém que prefere a alegria ao se deslocar do que o stress.  ciclista pode ser qualquer um, basta que suba numa bicicleta, basta que assim descubra como de fato são as cidades.

ciclistas são, antes de tudo, cidadãos. e como tal devem ser tratados. e a ciclovia na avenida paulista é um símbolo da virada nessa direção.

é, a cidade está mudando, rumo a um futuro melhor, e novo sempre vem. e sempre vence.

pois é, pois é. como lembrou o boney: agora é o brasil inteiro que vai seguir esse caminho. nós vamos mudar essa cidade, nós vamos mudar esse país. o legado maldito da redução de IPI pros veículos automotores será apagado. carro é uma coisa do passado.

e a luta continua! e agora, às periferias! tomado o centro, que as bicicletas tenham espaço nas periferias! todas! sem exceção!

pois se se consegue colocar uma ciclovia na avenida paulista, por que não se conseguiria colocar ciclovias na ponte do limão, na ponte da cidade universitária, ligar a ciclovia da radial leste ao centro…. tudo é possível!

sim, vamos reescrever a forma como são feitos os deslocamentos nessa cidade, usando a tinta da alegria e da felicidade.

que venham as bicicletas e as faixas vermelhas! nuestro pavés no romperás! torpe [carrolatra] burgués, ¡atrás! ¡atrás!

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em tempo, não vi todo mundo que queria ver, nem consegui conversar com todo mundo.  eu estava pilhado, e ainda estou. que loucura!  eu queria ter falado com um monte de gente, e alguns só pude cumprimentar rapidamente.  desculpem-me.

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