as fotos na ciclovia da avenida paulista

a ciclovia da avenida paulista, na região central de são paulo, ganha um melhoramento, uma ciclovia, que se inaugurará apenas em 28 de junho p.f. mas ciclistas já a invadem e nela tiram fotos. por quê?

a bike é dele, os óculos são dele, a cara é dele, o celular é dele, mas a foto é minha e a ciclovia é nossa.

abaeté fabio samori: a bike é dele, os óculos são dele, a cara é dele, o celular é dele, mas a foto é minha e a ciclovia é nossa.

disse o laercio que no cimento do piso dessa ciclovia, além de água, foi muito sangue, suor, lágrimas e saliva de ciclistas de são paulo.  e é verdade.

planos para construção dessa ciclovia são feitos há décadas. e digamos uma verdade: faltou vontade política a todos os prefeitos anteriores, que são dos mais diversos partidos, incluindo o PT de fernando haddad. mas o departamento de ciclovias da CET, ou departamento que deveria planejar e implantar essas ciclovias, devia ser uma espécie de terra do nunca.

nesse link aqui, você terá acesso a um boletim técnico da CET, do final da gestão kassab. meli malatesta montou esse histórico e, se você folheá-lo, notará que estão lá os estudos para ligar a cidade universitária ao parque do ibirapuera por uma ciclovia…. entre tantos outros!

cunhã silvia, visitando yby îandé, yby oré, yby asé.

cunhã silvia, visitando yby îandé, yby oré, yby asé.

estudos nunca faltaram, mas como sempre afirmava renata falzoni, não saíam do papel! estudos dentro da CET, inclusive para suspender o trânsito de veículos motorizados na avenida paulista, no minhocão, e etc, existem aos montes. estudos técnicos, coisa bem feita, e bem ao contrário do que fica a mídia divulgando.

mas era de se esperar, pois a mídia paulistana tem uma predileção especial por escolher lados partidários.  a não se esquecer aquela memorável capa da veja SP perguntando se não estava a população sendo injusta com o (péssimo) prefeito gilberto kassab.

gilberto kassab (PSD) e a capa da veja SP

abaité gilberto kassab (PSD) e a capa da veja SP, que com essa capa não foi justa com os leitores

a crítica insana da mídia de certa forma resultou numa visão polarizada da população acerca da implantação da rede cicloviária. há os que criticam pois odeiam bicicletas e odeiam qualquer coisa que o PT faça. e há os que aplaudem qualquer coisa que se faça que seja criticado por essa mídia partidarizada. (na linha: “se a veja criticou, deve ser bom”).

no meio desse tiroteio, ciclistas. e ciclista é um bicho chato.  chato que nem índio. não dizem que índio é mala? tá sempre reclamando, não contribui pra economia, vive de bolsa família e o escambau?

e ciclista não paga IPVA, passa em farol vermelho, atrapalha o trânsito  e etc?

abaeté paulo, em programa de índio.

abaeté paulo, em programa de índio.

pois é. mas índio e ciclista tem mais do que isso em comum: só lutam por suas vidas, por sua forma de vida, por sua possibilidade de vida, sempre ameaçada por uma forma específica de turbocapitalismo recente que transforma tudo em algo a ser monetarizado, quantificidado, financeirizado, precificado.  e, no limite, tanto o índio quanto o ciclista morrem.

pergunto a você: qual o preço duma descida deliciosa?

(ontem desci a peixoto gomide depois da paulista com o fabio, e até segurei o freio pra vê-lo curtir a descida com sua bicicletinha. “descida deliciosa essa, hein odir?” – comentário no semáforo  seguinte. qual o preço dessa sensação? isso vira dinheiro?)

índio pode largar mão de ser índio, ir pra cidade, aculturar-se. quantos brasileiros nesse brasilsão de deus não tem sangue indígena? quantas morenas de cabelos lisos e olhos levemente puxados não fazem tanto sucesso por aí? o índio sobrevive no caboclo….

e ciclista simplesmente também pode largar a bicicleta render-se ao carro. usar o carro pra tudo, deixar a perna afinar e a pança crescer e também aculturar-se….

mas dá pra fazer isso? não dá. o que é da gramática da vida não há como mudar. aquilo que é de cœur , é autêntico, não se muda.

assim como no debate “demarcação X não-demarcação” os índios tem a sensação de que por mais tenham falas participativas nesse processo, ninguém tá tendendo nada do que eles falam e as soluções parecem incompletas, o mesmo acontece com ciclistas.

sim, o poder público pode muitas vezes comemorar ter feito a via X ou Y, mas é o ciclista que passa ali e não consegue fazer a curva em ângulo fechado que a via propôs.  por mais que o crítico carrólatra diga que tá errado aquele caminho com 70 cm de largura na avenidona larga, o ciclista que ali passa sabe que aqueles 70 cm de largura lhe garantem a segurança diante do terror dos carros e ônibus passando tão perto a ponto de sujar suas roupas.

(ontem eu e rodrigo comentávamos quantas vezes nossas camisas estão sujas da poeira dos ônibus, no braço esquerdo, no ombro esquerdo. das finas tão próximas que as latarias encostam em nós, não chegando a nos derrubar).

e claro, assim como os índios pressionam sempre que podem o poder público, o mesmo fazem ciclistas. o tempo todo. e ao mesmo tempo, são alegres em seus ambientes. sempre.

werá, o índio que hoje tem 14 anos, na abertura da copa. um menino tímido que faz rap, filho do inteligentíssimo olívio.

werá, o índio que hoje tem 14 anos, na abertura da copa. um menino tímido que faz rap, filho do inteligentíssimo olívio.

índios precisam de terras demarcadas pois o espaço de fora lhes é hostil. ciclistas precisam de vias segregadas onde o espaço que lhe é exterior lhe é hostil. a lógica é a mesma e sim, dentro de cada ciclista tem um pouquinho de espírito de índio.

(aliás, não há umas pedaladas que para nós são deliciosas e para outros são penas programa de índio? descrever aquele domingão de muito suor e barro ou poeira de estrada, com as unhas ainda sujas de graxa, pros colegas de trabalho numa segunda-feira, com um sorriso dependurar atrás das orelhas, e ouvir dos colegas de trabalho que isso é programa de índio, quem nunca?)

e então, essa indiarada urbana que anda de bicicleta tem uma postura de fato diferente em relação a tudo que lhe compete. mais ou menos como fazia o cacique mário juruna, que andava com um gravador pra gravar tudo o que o homem branco prometia e não cumpria, ciclistas sempre colecionaram promessas inconclusas. é de fazer coleção mesmo do que já foi prometido em anos anteriores e ficou lá esquecido em alguma estante daquela “terra do nunca” que citei lá em cima.

e ao mesmo tempo, essa indiarada que anda de bicicleta não vê a rede cicloviária como um “presente”, um plus. nada disso, é apenas a restituição, pequena, das ruas que lhes foram tomadas pelos motorizados. pois, se for pra ser justo mesmo, é pra tirar tudo quanto é carro e moto das ruas e devolver aos motorizados: ruas para pessoas! ruas nossas, îandé.

por isso é que nem foi inaugurada ainda a ciclovia da paulista e os ciclistas estão invadindo.  não é um presente, é uma retomada de espaço que, desterritorializado, causou mortes. pois não se esqueça: de ciclistas, motorizados tomaram, na avenida paulista, três vidas e um braço.

e tiramos fotos sim, registramos a retomada do território. território îandé. nosso. é a retomada de posse.

abaeté rodrigo, mesmo na chuva, tomando posse.

abaeté rodrigo, mesmo na chuva, tomando posse.

claro, quem é de fora não entende. homem branco não entende índio. homem branco julga índio pelos seus valores, e não entende índio. homem branco não entende ciclista. homem branco acha que índio e ciclista só são estorvo, abusam, atrapalham. e índio e ciclista só precisam de espaço para serem o que são.

e claro, quem tá na sede, toma cada pingo de água disponível. desde que tiraram os tapumes, todo dia tem ciclista nessa ciclovia inconclusa verificado tudo, fazendo usa inauguração particular, se antecipando ao 28 de junho.

essa data é importante. 28 de junho é um domingo, e na segunda, 29 de junho de 2015, a bicicletada/massa crítica de são paulo fará 13 anos. 13 anos, viu gnomada?

13 anos de lutas articuladas não penas pela construção dessa ciclovia, mas de toda uma rede cicloviária, ainda pequena. afinal, 400 km prum universo de 17 mil km de vias é quase uma gota de água. mas quem tá com sede aproveita cada gota de água.

no dia 28 a avenida paulista estará aberta para pessoas. inaugura-se a ciclovia com motorizados impedidos de rodar na avenida. ou seja, também aberta a pedestres, e a quem mais aparecer sem motor: leve seu pogobol, seu monociclo, seu patinete, seu skate. é a reritorrialização do espaço público. retomemos as ruas!

e no dia 29, uma segunda, peque sua bicicleta e vá dar uma pedaladinha na ciclovia da paulista. sinta o gosto. 13 anos de lutas, as primeiras batalhas vencidas. mas só as primeiras, ainda falta muito: ligar a ZN ao centro, ligar todas as regiões aos centros, fazer as conectivades. falta muito ainda. pois, putz, nada de ciclovia na ponte do limão até gora, cazzo!

é, a gente é chato. afinal, a carta compromisso assinada pelos 5 principais candidatos à prefeitura em 2012 fala, em seu item 8, em travessia segura em todas as pontes sobre as marginais. todas, sem exceção. ainda faltam muitas, e cobraremos. afinal, se assinou, tem que cumprir. (aprendemos muito com mário juruna…).

e o próximo alcaide, seja quem for, que faça mais 1000 km de ciclovias e ciclofaixas. estão no plano de mobilidade, e, agora, a prefeitura ter expertise pra construir. tem até já uma máquina que permite recapear com asfalto vermelho faixas estreitas como as das ciclovias. não há desculpas par ao novo prefeito, que tomará posse em 2017, para construir ciclovias já a partir de 1º de janeiro. tá tudo planejado, tem corpo técnico, tem material, tem ferramentas. não há desculpas! (e que não venham com aquela lenga lega de “temos que rever, reavaliar” e blablablá.).

dia 28, não perca: grande retomada de território na avenida paulista.  e não esqueça do seu grito de guerra:

#chupaandreamatarazzo!  (clica no link, clica no link!)

———

p.s. abaEté é o contrário de abaIté. abaEté é homem bom.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

3 Respostas para “as fotos na ciclovia da avenida paulista

  1. Muito bom o texto.
    Mim quer pedalar

  2. Para mim uma reconquista simbólica que enche de esperança todo mundo que anda de bicicleta no país inteiro. A rua mais famosa do Brasil também é nossa agora.

  3. Pode divulgar? Eu não poderei ir mas fica aí a dica para os cariocas:
    Bonde do Rio para inauguração da ciclovia da Paulista. Ainda tem vaga. Importante: confirmação até terça!
    https://www.facebook.com/events/402444853291021/

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