bicicletas: la dolce vita ou buen vivir?

joie de vivre! quem não quer? e sobre as bicicletas temos la dolce vita ou buen vivir? pois são duas formas diferentes de entender o que queremos do mundo.

sempre dá pra trazer alguém pras bicicletas, mesmo quem não sabe.

sempre dá pra trazer alguém pras bicicletas, mesmo quem não sabe pedalar. ainda.

“la dolce vita” é um dos meus filmes preferidos.  fellini fez uma obra prima! a cena da fontana di trevi é memorável e anita ekberg encarna aquela mulher que é capaz de fazer qualquer homem perder a razão. adoro esse filme, e confessemos! que homem não teve algumas dessas deusas a lhes causar estragos em suas vidas e deixar um rastro de corações infelizes?

“la dolce vita” é um filme fantástico. perdi a conta de quantas vezes o assisti. mas também é uma crítica de fellini a um certo hedonismo então reinante naquela roma de meio século atrás. um hedonismo que, como tal, é, por sua própria natureza, predatório, extrativista. pois, para que uns poucos vivam uma vida altamente prazerosa, muitos sofrem. você consegue imaginar pessoas morrendo para que você tenha algum conforto específico? como fez elizabeth bathory, a quem se atribui o ato de banhar-se com sangue de mulheres virgens para melhorar sua pele.  ou francisco de assis pereira, que obtinha prazer no estupro e assassinato.

esses são exemplos extremos de pessoas a quem cujas necessidades ou desejos se sobrepunham à vida de outros. mas quanto de nossas práticas não são formas variadas e/ou ocultadas dessa forma de se relacionar com os outros? quanto das nossas necessidades ou prazeres não custam a vida de outras pessoas, mesmo que nós no mais das vezes não saibamos?

“la dolce vita” é a crítica dessa postura. fellini critica esse hedonismo, no mais das vezes, parasita.

bicicleta não tem nada disso, pedalar não é isso, não é uma exaltação da “dolce vita”, amarga para outros, a não ser que você ache normal apontar a arma para a cara de alguém para lhe tomar a bicicleta desejada.

usar bicicleta, como transporte, ou como lazer, é outra coisa. é ‘buen vivir”, como aprendi nesses últimos dias.

buen vivir é um conceito latino americano em formação.  vem do pensamento de esquerda, mas esqueça aquele fascínio das velhas esquerdas pela experiência soviética. buen vivir é outra coisa, completamente diferente.

buen vivir é assumir que a vida pode ser boa, num mundo mais justo.  é sim você ter menos incômodos em sua vida. é não viver estressado. é comer bem. é ter saúde e, sobretudo,ter uma vida desacelerada.

hoje a vida acelerou-se de tal forma que tem até empresa propondo que uma vida estafante seja padrão. duvida? veja essa publicidade com os olhos abertos. cadê o tempo de respirar? cadê o tempo de descansar o corpo? cadê o tempo de olhar outra pessoa nos olhos e ter a sensação de que seus lábios tocaram a eternidade?

uma vida plena não é só um monte de bens materiais. sim, a materialidade é necessária, pois comemos, nos vestimos e etc.  mas o nosso buen vivir não implica na morte de outrem, no sofrimento alheio, ou mesmo no nosso sofrimento.

buen vivir é um conceito que aprendi com mario rodriguez ibañez, da wayna tambo – red de la diversidad. uma pessoa de ideias fantásticas.

buen vivir é ter onde morar sem ser ameaçado o tempo todo, é ter acesso à água e ao alimento, é por estar limpo, é poder pertencer a um meio, a participar das trocas, materiais e imateriais que uma comunidade permite. pois são bens que precisamos para viver: o alimento e o afeto, o corpo e o espírito.

o conceito de buen vivir vai além das limitações impostas por algumas análises econômicas. o pensamento de esquerda tradicional perdeu um tempo danado vendo apenas questões econômicas duras. não viram o espaço de outras lutas, manifestadas em maio de 68, e que apontavam para outras direções além da mera distribuição de bens que, dependendo de como fosse feita, resultaria um desastre. se duvida dessa minha última afirmação, basta perceber que a popularização do automóvel, cuja posse está cada vez mais democratizada, transformou nossas cidades em verdadeiros infernos poluídos.

precisamos mais do que mudanças econômicas, mas mudanças culturais. é preciso mudar a alimentação, tanto diminuir o consumo de carne quanto o de soja – sorry, amigos veganos, o plantio da  soja é tão ou mais danoso ao mundo que a produção de gado de corte.

precisamos rever nossa gestão das águas. em são paulo os reservatórios baixando, em buenos aires, ao norte, em tigre, os condomínios fechados construídos em regiões alagadiças com elevação do solo hoje transtornam a vida de antigos moradores. inundações ocorrem com frequência.

las tunas, ao lado do "countrie" el encuentro. note à direita o quanto o solo do condomínio murado foi levantado. hoje o bairro ao lado sofre com sucessivas inundações.

las tunas, ao lado do “countrie” el encuentro. note à direita o quanto o solo do condomínio murado foi levantado. hoje o bairro ao lado sofre com sucessivas inundações.

a se perguntar: esses condomínios são exemplo de buen vivir? não, não são, são “la dolce vita” de alguns graças à desgraça de outros. e exemplos assim não ocorrem apenas no delta do rio paraná, mas no mundo inteiro.

paraisópolis e morumbi, além da novela. um dos bairros mais desiguais de são paulo, e por isso mesmo um dos mais violentos.

paraisópolis e morumbi, além da novela. um dos bairros mais desiguais de são paulo, e por isso mesmo um dos mais violentos.

 

 

 

 

não há buen vivir onde há ódio, não importa de que tipo for.  não há buen vivir onde o prazer de poucos se dá à custa de muitos. não há buen vivir onde há fome, sede, insegurança de todos os tipos (e não acerca da posse dos bens dos mais ricos), não há buen vivir onde  não se pode respirar.

são paulo, não canso de repetir, tem 4.600 mortos ao ano em razão da poluição produzida por veículos automotores.  passei 3 noites fora da mancha urbana e bastou uma noite na mancha urbana, em minha casa para o corpo reagir à volta da poluição. tosse, rouquidão, espirros, o escambau. conheço bem meu corpo, isso não é resfriado, não é gripe. todo alérgico conhece bem seus próprios sintomas.

em nome de la dolce vita daqueles que não largam o carro nem a pau, não há buen vivir para ninguém.

é aí que a bicicleta entra na equação. bicicleta está no campo do buen vivir. pois pedalar é saudável. mas não apenas isso. melhora o humor, e mais: faz tudo isso sem contribuir para essas 4.600 mortes anuais e para o mal-estar de uma quantidade talvez 100 vezes maior de cidadãos – o que me inclui.

então, o cidadão que pedala usa menos o sistema de saúde, trabalha melhor, convive melhor, e não causa danos. isso é buen vivir.  e aí a joie de vivre não se confunde com la dolce vita, pois não é predatória. não é uma alegria funesta.

nas artes marciais japonesas do bushido, não se comemora a vitória num combate. no kendo (como seria bom eu estar bem do ombro para voltar a treinar!), em campeonatos, o vencedor que comemora tem seus pontos anulados, como se vê no vídeo do link. há sabedoria nisso: se fosse um combate real, o oponente estaria morto, e não se deve comemorar essa morte.

temos esse respeito pela vida nas nossas disputas? no capitalismo mais selvagem não. o mais forte simplesmente comemora. é uma metáfora do trânsito: o mais forte impera, o mais fraco que morra.essa é a postura de motoristas que jogam carros para cima de ciclistas.

ou mesmo de motoristas como um que comentou comigo: “a ciclista tava abusando, andando bem no meio da faixa. tive que mudar de faixa pra ultrapassá-la! um abuso!“. ora, a ciclista em questão, que desconheço, apenas estava agindo como manda a lei.  e claro, o motorista em questão, agindo como se vivesse la dolce vita: o carro impera e o ciclista é apenas um entrave para o seu direito de passar por cima dos outros.

e é assim que grande parte dos motoristas age. essa reportagem demonstra como impera no trânsito de cidades como são paulo a lógica da força e da esperteza, e não da lei. ora, dirigir uma tonelada de aço impondo-se pela força é buen vivir? obviamente não.

vivemos tempos estranhos. eu me assusto com líderes religiosos que vêem “vitórias” quando seus fiéis compram carros novos. isso me assusta, pois se sabe do aquecimento global, se sabe dos danos da queima dos derivados de petróleo. como alguém que supostamente  fale em nome daquele que cria a natureza comemorar a aquisição de uma forma de degradá-la? bom, pelo menos em sentido inverso o papa francisco publicou encíclica que vai na esteira do pensamento de naomi klein, talvez a mais lúcida pensadora do século XXI: não há diferença entre problemas ambientais e sociais. é tudo  a mesma coisa. e, assim, a justiça social naãoé uma mera questão de distribuição de bens, mas de administrar os recurso naturais de forma a preservá-los, não de se deixar levar por um extrativismo insano.

sinceramente, não comemoro a encíclica papal. pois sendo a igreja católica tão conservadora, o fato dessa encíclica ter saído agora significa que estamos com a água pelo pescoço, e não na bunda, quando ainda dava tempo de aprender a nadar.

bom, eu continuarei a fazer minha parte na construção de uma sociedade onde impera o buen vivir: sem usar carros, andando em bicicletas, sem fazer publicidade para empresas predadoras do meio ambiente, como montadoras, bancos e etc.  mas há muito o que se fazer, muito o que se mudar.

mas quem já larga o carro em casa e passa a usar carro, não fuma (já viram a quantidade de trabalho infantil nas fazendas de tabaco do brasil? – o cigarro não faz mal apenas ao fumante ativo ou passivo, mas à quem está em toda a cadeia de produção), e se preocupa com o que consome, de roupas a alimentos, inclusive com sua cadeia de produção, já está fazendo bastante. se todos fizessem isso, já seria o suficiente. mas fazem?

essa é a questão. la dolce vita seduz, o buen vivir talvez seduza menos, ou não. não sei.  sei lá.

saí de um seminário realizado pela fundação rosa luxemburgo com um zilhão de ideias na cabeça e apenas duas certezas: tengo que aprender español para hoy y chino para mañana! e uma terceira certeza: sim, se há salvação para nossas cidades, elas passam pela bicicleta. e também por telhados verdes, por estacionamentos transformados em hortas, pela captação de água de chuva, pelo reuso de água e etc.  é, minha amiga malu tem razão: talvez eu seja mais alemão que pode pressupor minha cara de árabe, ou isso talvez seja só uma forma de dizer que algumas das minhas ideias sejam meio europeias ou moderninhas  demais, mas o mundo é outra coisa.

pedalemos, pois.

 

4 Respostas para “bicicletas: la dolce vita ou buen vivir?

  1. Poderia colocar um botão para compartilhar no Facebook?

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s