só sobraram as bicicletas

“não sei se caso ou compro uma bicicleta” era o dilema de  antigamente: liberdade versus estabilidade. hoje, a única estabilidade é a bicicleta. o resto, tudo tão sólido, desmancha no ar.

o mundo desenhado por quem não tem os olhos abertos.

o mundo desenhado por quem não tem os olhos abertos. à direita a foto do casamento, à esquerda o que há de real na jornada do amor verdadeiro.

 

 

 

 

 

 

 

o fato é que o mundo está se liquidificando. bauman já escreveu sobre isso, mas muito antes, a dupla foucault/deleuze já falava de sociedades disciplinares, duras, que caminhavam para sociedades do controle, fluidas.

e isso chegou ao amor, à tinderização do amor. aqui você entenderá que é isso.  é mais ou menos como as bicicletas de aluguel por aí. tudo mediado por um banco, você vai lá, com seu cartão de crédito, celular e libera uma bike por meia hora. vai do ponto A ao ponto B.  é o que você quer: não tem que fazer manutenção, não tem que ajustar nada. prático? sim, e você nunca saberá o que seja pedalar de verdade.  nem conseguirá o fit perfeito. mas ok, você nem sabe o que é isso.

o mesmo tem acontecido com as relações amorosas. cartões de banco imperam, presentes dão a medida da paixão pelo preço. mas relações descartáveis,  ou então obsessivas, pois se alguém se endivida pra comprar rum veículo, fica desesperado para que ele satisfaça as expectativas.  assim é: ou é um relacionamento de uma noite, ou é a exigência do par perfeito.

e as bicicletas? os newbies reproduzem essa lógica quanto a elas. ou estão aí nas bicicletas dos bancos, sem nem entender o que pedalam, fazendo propaganda gratuita, ou escolhem a bicicleta pela aparência,  às vezes gastando mais na produção da roupa para pedalar que na bicicleta, ou então prestando mais atenção na cor da bicicleta do que no material do quadro.

mas intimidade com as bicicletas é como a intimidade de um casal. os corpos se casam bem, senão é apena suma relação amistosa, como bicicletas bacanas que vemos por aí, mas que não são do nosso tamanho. bicicleta exige intimidade, exige a atenção aos detalhes: o material do quadro, o tipo de pneu, a calibragem periódica, a corrente de vez em quando lavada e limpa, lubrificada. coisas que não se devem terceirizar, assim como não se deve terceirizar a satisfação da outra parte do casal.

bicicleta exige uso, e só pode palpitar sobre o seu uso quem de fato pedala. mas não é o que vemos por aí. como aceitar os palpites de quem diz que a bicicleta só é atrativa para trechos de 4 ou 5km, ou pega um spray e pinta a bicicleta de qualquer jeito, praticamente pichando-a? das duas formas temos o desrespeito ao pedalar e às bicicletas…

e bicicleta exige respeito, senão o tombo é certo. cada bicicleta exige sua forma de pedalar, seu jeito, assim como cada relação amorosa também é exigente não nos gastos, mas nas formas de comunicação.

os chineses, em sua sabedoria milenar depurada por grandes desgraças, guerras e fomes, dizem: case-se com alguém com quem goste de conversar. pois, afinal, é isso que sobra, é isso que permite um liame mais sólido que apenas a fricção dos corpos.

e com as bicicletas, não é assim? não tenha bicicletas que não tragam conforto ao pedalar. a aparência, nas bicicletas, é tão importante quanto um par de tênis o é para um peixe. pois nas bikes, a forma segue a função e toda fuga a essa regra é peso, desconforto, dor, lentidão, por mais bonita que a pessoa se sinta, todo mundo percebe as besteiras feitas….

bicicletas… ao final, só elas sobram atualmente.  o resto, tudo flui. pessoas vão e vem e, por mais que uns poucos ainda sonhem com relações estáveis, elas hoje são tão sólidas quanto pregos fincados na areia…

em tempos de tinder e okcupid, o melhor a se fazer num 12 de junho é ficar só, só com sua bicicleta, e rodar à noite, pedalar morro acima. o resto, é apenas falsidade, fingimento e ilusão.  não perca tempo com pesos desnecessários. pois leveza é necessária, e só assim se percebe a dor e a delicia de ser o que se é.

 

 

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