ciclovias também para as periferias

as periferias pedalam (e como pedalam!), e querem ciclovias, não apenas dentro dos seus bairros, mas também para percorrer a cidade inteira.

bela arte do cauê rangel - ciclozn

bela arte do cauê rangel – ciclozn

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

às vezes pessoas tem dificuldade de entender o óbvio, talvez por estar tão à frente dos seus narizes que se torna invisível.

as cidades foram segregadas pelo urbanismo rodoviarista. e, com isso, negaram o acesso à cidadania a uma parcela expressiva de seus cidadãos. dentro de uma lógica que leva em conta a paz social, o urbanismo rodoviarista atenta contra os pressupostos que permitam convivência pacífica entre pessoas, el estimula o conflito até a sua forma extrema: o crime, que varia do sequestro relâmpago de motoristas ao atropelamento impune de ciclistas.

essa mesma forma de urbanismo relegou aos mais pobres a moradia nos locais mais distantes.  nabil bonduki relata a história das políticas de moradia, de uma forma fantástica, mas é preciso também entender como a ocupação irregular de áreas distantes forma bairros, sem nenhuma estrutura, que aparece aos poucos, em pequenos arroubos, suspiros de políticas públicas, e nunca contemplando de forma igual às áreas centrais no que tange ao acesso aos serviços públicos básicos: saúde, educação, água, luz, e tão importante quanto, transporte. pois dos grandes subúrbios o cidadão não tira seu sustento e nele seu filho não estuda: todos tem que sair e voltar, diariamente.

são paulo, por exemplo, criou um perverso “just in time” de gente.  por exemplo, tenho alunos que acordam e saem correndo para chegar no trabalho justo no tempo de trabalhar. saem do trabalho para chegar à faculdade justo no tempo de estudar, saem da faculdade e chegam em casa justo no tempo de dormir. assim é a semana inteira, tendo o sábado tomado pelas outras exigências da gramática da vida: a casa, ou seja, supermercado, faxina, lavar roupas, cortar o cabelo. no domingo é que conseguem 5 minutos para olhar onde moram. se conseguem…

percebe-se quem está imerso no just in time de gente pelo desespero em postar fotos em atividades estimulantes no domingo. no domingo tem que se fazer algo legal.  é um tempo que não se pode gastar em algo que não seja extremamente prazeroso, pois todo o resto da semana é agastante e, não raro, desprovido de sentido.  por isso a exposição quase que obrigatória do exercício de alguma atividade um mínimo prazerosa: a procura da confirmação alheia de que seu domingo foi prazeroso.

e quanto menor a renda, maior a necessidade de dar sentido aos atos da vida, nem que seja pelo consumo. a se verificar o discurso de canibal, vocalista da banda devotos (antiga devotos do ódio) antes de cantar a música “eu tenho pressa” (no caso, de vencer, de vingar – no sentido de dar certo, da palavra vingar).

canibal canta lá do alto josé do pinho, subúrbio recifense, mas sua fala é universal nas periferias, onde a sensação da exclusão é permanente e acompanha o indivíduo desde cedo, desde as primeiras lembranças da infância, conforme narra roberson miguel, nesse post,  onde o ambiente que serve para a manifestação da ira materna é a escada de barro, feita pelo andar, e não a escada de cimento, feita pelo poder público. ira que surgiu pela falta de estrutura.

nas periferias a estrutura é uma desestrutura, e a única coisa permanente é a precariedade.  muitos vivem, como se dizia no nordeste, “da mão para a boca”. um dia após o outro, sem horizontes dados pelo mundo real, mas apenas descritos pelo mundo surreal do irreal: a TV ou as falas dos líderes religiosos, uns prometendo um futuro nos céus e outros o sucesso na terra, para o verdadeiro crente. afinal, a teologia do sucesso grassa onde o fracasso é rei. não pode e não há como ser diferente.  a vida é sonho e precisa ser sonho para quem vive no pesadelo.

sérgio vaz, via cooperifa, afirma acerca da produção literária que emerge da periferia: ” uma semente a mais nessa primavera periférica que aos poucos enche de flores nossas vidas áridas e sedentas por cultura”, pois, afinal, nas periferias há gente pensante, falares pensantes, andares pensantes, pedais pensantes. talvez as periferias tenham em toneladas aquela forma de sofrimento angustioso do excluído que o faz entender e dar sentido às falas, pois, por exemplo, a alta classe russa nunca produziu grande coisa em matéria de literatura – salvo um tolstói, por exemplo. mas são os  que penaram nas prisões e gulags que emergem com suas falas poderosas, como um dostoiévski ou soljenítsin, para não falar do grande mestre desaparecido num gulag em data incerta: isaac babel.

mas não é apenas a literatura que, como uma planta que teima em crescer na rachadura do cimento, emerge das periferias, mas também o olhar afiado e penetrante de quem entende o mundo exatamente como ele é, sem mistificações.

o periférico entende muito bem o trânsito como forma de exclusão. as grandes avenidas como desertos por onde passam os que apenas se deslocam para o just in time de gente. um fenôneno que sequer é paulistano, é mundial. tanto que tom waits canta sobre as meninas do brookly, em seus trens, espinhos sem rosas, desesperadas para sair de seus mundos pequenos.  nas grandes cidades onde o just in time de gente grassa, a sensação ruim de ser explorado apenas, de ser desconsiderado, reina.

pois a sensação reflete a realidade. afinal, quando é feita a ponte, ela não contempla o mais pobre, apenas o que tem dinheiro para ter um carro. assim é a ponte estaiada na zona sul de são paulo, o estilingão (ponte octávio frias de oliveira) : propositadamente sem calçada para não permitir que os moradores da comunidade do outro lado do rio atravessassem a pé para o lado do centro. e claro, você não verá a comunidade ao passar em seu carro, pois ela tem sua vista convenientemente coberta por uma fileira de prédios do programa cingapura de moradias populares. não à toa essa ponte foi inaugurada sob protestos, inclusive de ciclistas: por la não passam pedestres, ciclistas ou mesmo ônibus.

claro, impedir o cidadão que mora na comunidade e não possui um carro de passar pela ponte é aforma de impedir seu trafegar. exemplos como esses, representados por viadutos sobre linhas férreas,  pontes sobre os rios e etc, são inúmeros. inúmeros, inúmeros!

onde entra a bicicleta? entra no poder de mobilidade.

pedalar é uma extensão de andar. assim como andando o humano povoou o planeta inteiro, pessoas dão voltas ao mundo em suas bicicletas. o paradoxal é que se pode dar a volta o mundo numa bicicleta e muitas vezes não se consegue ir ao bairro ao lado. mas se tenta. e às vezes se morre.

mas a bicicleta é a liberdade de qualquer adolescente.  hobsbawn descreveu sua adolescência com um primo, algumas barras de chocolate e suas bicicletas, viajando por toda inglaterra. sim, a bicicleta é o veículo barato e com gasto zero de combustível.  é a extensão do andar.

é aí que a bicicleta aparece como elemento pacificador social: seus valores, os valores do mundo das bicicletas não são os valores da excludente economia de mercado.

no mundo da bicicleta, os valores são os de mérito, mérito pelo que se constrói, não pelo que se tem. o pedalar mal ou bem vem da prática, não do dinheiro. o prazer da pedalada não vem do dinheiro, vem da descida, vem do plano com vento a favor, vem da subida vencida. e isso mesmo no simples pedalar até o trabalho.

é esse elemento que é amplamente ignorado pelos especialistas que não conseguem enxergar o modal apenas como complementar a outro, no transporte urbano. esse é o erro na visão da promotora camila, que tentou a todo custo desfazer a construção de uma rede cicloviária em são paulo, ou de sérgio ejzemberg que insiste em suas falas na bicicleta como  modal alimentar dos outros modais.

essas pessoas não entendem que um trajeto de 15 a 20 km de pedalada até o trabalho não é algo penoso, mas prazeroso! essas pessoas não entenderam por que ciclistas não abandonaram nem abandonam o trafegar na avenida paulista, mesmo com 3 mortes num trecho de poucas centenas de metros, tornando-a  avenida mais mortal para os ciclistas em são paulo. a mais mortal mas também a mais deliciosa.

essa instância do prazer de pedalar que aparece em qualquer pedalada não é enxergada pelo poder público ou pelo grande capital. pois é algo que não se pode traduzir em dinheiro, não é quantificável de forma mais óbvia, mas somente a longo prazo pela melhora geral da saúde física, mental e emocional de quem em cima da bicicleta vive.

negar ciclovias nas e para as periferias das grandes cidades é negar seu trânsito pela cidade inteira, bem como negar acesso a essa outra forma da gramática da vida, fora do ter, mas dentro do fazer.

essa é a mudança de cultura necessária para nossas sociedades doentes. e ela não pode esperar uma incerta e futura revolução total, e deve começar pelo mais simples: a construção de estruturas viárias que permitam segurança para toda a população pedalar.

pois junto com o pedalar diário virão outras formas de pensar, outras formas de ser, outras formas de viver, que só quem já pedala todo santo dia sabe.

quem pedala todo dia a partir da periferia tem o olhar diferente, afinal, a bicicleta não combina com os valores de uma economia de mercado: poluição, exploração, diferenciação. por isso, para o periférico, nada mais contraditório do que uma bicicleta com um logotipo de banco. é estranho, bizarro, quase uma agressão. e isso no mundo inteiro…

bicicletas do sistema barclays cycles de londres. clique na imagem e leia sobre o melhoramento nessas bicicletas

bicicletas do sistema barclays cycles de londres, do banco do mesmo nome. clique na imagem e leia sobre o melhoramento nessas bicicletas

 

a se notar que sim, mundialmente a bicicleta é vista como algo fora da lógica de mercado, por mais que exista um específico mercado de bicicletas e produtos correlatos.  mas quem ficou biliardário nesse mercado?  donos de bicicletarias vivem e sobrevivem, no máximo têm uma vida confortável.

mas a questão: como contrariar o urbanismo rodoviarista? ora, com as ciclovias chegando e saindo das periferias. não fechando os ciclistas dentro dos bairros, apenas no deslocamento local, mas permitindo o acesso à toda a cidade.

para que não circulem apenas CNHs e CPFs, mas humanos. humanos circulando, seja do centro, seja das periferias. pois humanos são todos iguais, e suas diferenças são circunstanciais.  e que seja essa diferença manifesta nas suas pernas, não nas suas carteiras.

 

 

 

 

 

 

 

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