da paulista à periferia, da periferia à paulista

ciclovia da paulista quase pronta. falta poder chegar lá.

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na avenida paulista, a ghost bike de minha amiga julie, vítima inocente de décadas de omissão do poder público, ora sendo sanada, para nos proteger, mas tarde demais para a linda juliana ingrid dias.

 

a ciclovia na avenida paulista é uma baita conquista para os ciclistas de são paulo. pois logo que o CTB foi aprovado, essa avenida tinha o absurdo limite de velocidade para os motorizados em 70 km/h! e claro, “autoridades” sempre desinformadas para nos prejudicar, interpretavam o artigo 219 do CTB, que transforma em ilícito trafegar em velocidade inferior à velocidade máxima (salvo na faixa da direita, algo sempre ignorado contra nós) como aplicável às bicicletas: se não andasse acima de 35 km/h, fora!

éramos enquadrados pelas viaturas nas esquinas. expulsos da avenida paulista e de outras avenidas. ainda há agentes de trânsito que nos dizem para sair de avenidas. e por muito tempo a CET insistia em nos mandar para as vias laterias da paulista, com seu trânsito atravancado e paradoxalmente com sensação de perigo muito maior que na grande avenida.

numa periferia, o verde transita sobre o asfalto, o homem pobre mas livre levando a saúde aum mundo doente - foto de roberson miguel.

numa periferia, o verde transita sobre o asfalto, o homem pobre mas livre levando a saúde a um mundo doente – foto de roberson miguel.

não à toa a primeira bicicleta foi marcada – e continua saindo do mesmo local- lá na avenida paulista. era necessário ocupar o centro do império.

nas periferias a bicicleta sempre rodou. mas só nas periferias.  o problema sempre é sair das periferias.

em todo o mundo é assim: as periferias são o dormitório e o gueto dos mais explorados, há muito tempo. há 5 décadas os habitantes do tremembé, bairro pequenino da zona norte, sempre diziam: “jesus cristo não passou no tremembé”. no bairro não tinha nada. só a linha do trem da cantareira, que levava até o centro. mas garantia as roupas furadas pelas fagulhas que maria fumaça soltava. maria fumaça que é linda nas fotos, mas na memória de quem as usou era a garantia de chegar no centro sujo: os pés enlamados da via não pavimentada, e o resto da roupa enegrecida e furada pelas fagulhas, sempre os expondo aos olhares preconceituosos.

periferia não é apenas um conceito geográfico. mas social e econômico também. na economia do mundo o brasil é periférico. mas o império tem suas filiais mesmo nas periferias. na paulista, é primeiro mundo para o diretor do banco que lá tem sede, e terceiro mundo par ao porteiro que no mesmo prédio trabalha.  o gerente de contas recebe bônus, e a faxineira, terceirizada, há 3 meses sem receber salário.

ser periférico é estar fora do centro, e o centro é onde estão as estruturas da vida: o trabalho, o estudo, a renda, a saúde, a cultura. na periferia ou não tem nada disso, ou só tem de forma precária.

precariedade é o que marca a periferia, precariedade das estruturas, pois há quem monte palácios nas periferias. palácios periféricos.

mas há quem se contente em adentrar o palácio, sem perceber que continua na periferia do império: quem trabalhava no palácio de pôncio pilatos estava em roma ou permanecia na palestina dos tempos do filho do homem?

em roma vigorava o direito dos cidadãos, o direito civil. no resto do império, apenas o direito das gentes… jus civilis em roma, jus gentium fora da sede do império, nas suas periferias.

hoje são paulo reproduz essa lógica, assim como recife, assim como porto alegre, assim como nova york, assim como moscou. a esquerda que veste vermelho falhou no seu projeto mundial de igualamento das condições sociais das pessoas. só a esquerda que veste negro é que consolida progressivamente o consenso em torno de suas bandeiras do século XIX apenas no final dos séculos XX e XIX: bandeiras dos apocalíticos anarquistas, que pregam o amor livre (onde as pessoas ousam escolher maridos e esposas, em vez de submeter à vontade paterna) e da perigosíssima igualdade entre sexos ou escolaridade como direito a todos.

mas as cidades permanecem desiguais. e não apenas na igualdade da conta bancária, mas na desigualdade do acesso aos serviços públicos. e é essa desigualdade que causa dos descontentamentos, que vão da baixa auto-estima ao limite das revoluções.

são paulo gerou uma forma refinada de exclusão no decorrer das décadas: a geografia. o centro expandido, entre rios, concentrando  as oportunidades.  e amassa trabalhadora, sempre relegada ao papel único e exclusivo de ser mão de obra, gente, e não cidadão, adentrando o centro expandido só para trabalhar.

não é de agora que fora dos rios só há os dormitórios: quarteirões e quarteirões bem antigos na moóca com sobrados justapostos… sem praças, sem bancos nas ruas, sem nada a não ser o espaço mínimo de sobrevivência de cada família.

e claro, sem a possibilidade de sair de lá para usufruir o centro: o transporte, nos finais de semana, diminui… e como pode o ciclista, morador do palácio no jardim amália franco, ir ao centro pedalando em sua bicicleta com segurança?

pois o periférico, morando no barraco ou palácio, deve permanecer indivíduo-consumidor, não cidadão. cidadão exerce direitos, independentemente do conteúdo da carteira. mas o indivíduo-consumidor deve permanecer comprando ou sonhando comprar carros…

sem nunca ter lido rosa luxemburgo, versão, nascido éverson (membro de um dos primeiros grupos de rap de são paulo, “muralha negra“, ainda dos anos 80), lá da zona sul, entendeu rapidamente o motivo pelo qual rosa luxemburgo dizia que ninguém é mais conservador que um operário bem remunerado. 

versão sempre dizia do “nego do pouquinho”, o negro pobre que consegue algumas conquistas em matéria de bens e portanto se contenta com isso, e passa a achar que o mundo é justo, afinal, ele conseguiu o seu “pouquinho”…. 

periferia é periferia, dizem os racionais. mas há periféricos e periféricos. existem os humanos que estão enredados nos seus sonhos de consumo, novas versões dos pobres encantados com o ouro que baudelaire descreve, e existem os humanos que souberam perceber que o ouro reluz apenas para os outros, e é preciso construir outra realidade.

pois a realidade muitas vezes é de pânico, como cantam os racionais, pânico na zona sul, norte, oeste e leste. m’boi mirim, águia de haia, inajar de melo, estrada do campo limpo…. em cada lugar um pobre que se recusou a ser o “nego do pouquinho” e prefere tomaras rédeas do seu transporte, sofre com a agressividade dos outros enredados pelo brilho do ouro, os motorizados.

o humano livre que prefere andar a pé, como os partidários de rosa parks em montgomery,  ou então prefere o andar sobre rodas, e toma rédeas do seu transporte, mas encontra as barreiras.

pois a estrutura é feita para que não usufrua do centro, ou não seja livre para nele chegar senão pelos meios motorizados e controláveis.

e assim e, ns periferias de são paulo, ou lagos, ou para sair do alto do josé do pinho, não se sai a não ser para trabalhar. os domingos são dias mortos, pois trânsito vem, trânsito vai, e nas calçadas ninguém sabe para onde ir.

tito fantasma (nascido wagner) em 1987 organizou o primeiro festival de rap da cidade tiradentes, aquele conjunto habitacional imenso no extremo leste, pra onde removeram famílias nos anos 70, 80 e 90 de bairros mais centrais. 

tito chegou à faculdade só nos anos 2000, e numa prova de direito empresarial, no seu único código,não achava as sociedades limitadas. pede ajuda ao professor, que descobre ser aquele um código penal, de outra matéria. justifica-se: “professor, na minha quebrada, é só esse código que vigora”.

nas quebradas, é preciso ser forte. mesmo que se seja apenas uma criança, protegida apenas por uma frágil casquinha na cabeça.

avenida parada pinto. foto de robersom miguel

avenida parada pinto. foto de roberson miguel

 

as estruturas ainda não chegam aos fundões, ou chegam pouco, poisa periferia é muito maior que o centro expandido.

a zona leste concentra 33% da malha cicloviária, e isso é nada perto do seu imenso tamanho. e como se sai da zona leste para chegar ao centro? se o metrô de são paulo não quer nem ceder uma mísera faixinha de terra para que a prefeitura faça um pedaço de ciclovia onde não há?

como chega o ciclista da zona leste à ciclovia da avenida paulista? como chega oc ciclista do peri à ciclovia da paulista? com vem o ciclista lá do grajaú à paulista? como se pedala do cantinho do céu à paulista? como se atravessa a ponte joão dias?

o metrô chega até o tucuruvi. zé pedala do jardim flor de maio até o metrô, quando pode. mas só nos finais de semana, quando a bicicleta embarca, pois durante a semana não tem onde deixar a bicicleta. já teve uma bicicleta roubada, presa a um poste ali na praça em frente à estação do metrô.  ficou encantado com o bicicletário do largo da batata. e com inveja do primo que mora no jardim helena e estaciona sua bicicleta na estação do trem da CPTM. 

zé não tem onde prender sua bicicleta com segurança. não consegue economizar o ônibus que pega até o metrô tucuruvi. e parte do mês, volta a pé, do metrô, à noite.  são quase 10 km. na rua dos pinheiros (jd. joana d’arc), uma vez, foi assaltado, lhe levaram a mochila com uma blusa e a marmita vazia, e tomou uns tapas pois não tinha dinheiro na carteira, afinal, voltava a pé para economizar.

o periférico vive assim: percebendo o que a ele é negado. pois o dinheiro sempre acaba antes que a melhoria chegue a ele. sempre começa pelo centro, e aos pucos se espalha até as periferias. como na antiga roma, que só tardiamente expande o direito civil a todas as gentes do império.

mas são as periferias que invadem e desmontam os centros, quando esses mantém um diferencial um tanto grande demais. o império romano foi invadido pelos bárbaros a partir das bordas.

a herança maldita do governo lula é a carrolatria desenfreada, que faz os bobos pagarem pelo carro mais caro do mundo (ah, e não me venha com aquela balela que o preço é alto pelos tributos, pois qualquer economista sabe que não é) e lotarem as ruas com suas máquinas poluidoras. e claro, nas periferias, o fetiche pelo carro sempre em alta, pois ninguém quer ficar preso em sua casa num domingo, pois o ônibus não passa, e a bicicleta não chega à ciclovia.

urge lembrar que na quebrada forte, a ciclovia é necessária, é preciso ciclovia na periferia, mas não para ficar rodando no bairro, mas para se chega onde estão as estruturas da vida, as estruturas da gramática da vida.

pois há vida nas periferias, vida precária muitas vezes, mas vida. nas periferias onde o minhocão não se interrompe no final de semana, e não há jazz no parque.

e o homem periférico se vê diante do dilema, de ser o “nego do pouquinho“, o periférico indivíduo-consumidor que se agasta por tentar comprar aquilo que não consegue (fazendo o jogo das grandes indústrias), ou ser o cidadão pleno, que exerce o seu constitucional direito de ir e vir com segurança.

malcom little era um capeta, até dentro da cadeia. era o nego do pouquinho na versão mais agressiva: assaltava pra ter o que queria. mas só na cadeia entendeu que direitos são mais importantes que coisas. que é uma questão de direitos, não de acesso às coisas. malcom little era malcom X.

ciclovias das periferias ao centro não é uma questão de coisas vermelhas, de artérias vermelhinhas fervilhando de vida em direção ao centro, apenas. é muito mais do que isso. é a marca de uma sociedade que se proponha de fato democrática, e não um pastiche.

por isso, #ciclovianaperiferia”, pois é a #quebradaforte.  praquele povo que não veste camisa da CBF pra protestar contra corrupção.  pois não é uma questão de tinta, mas de direitos.

 

 

 

 

 

 

2 Respostas para “da paulista à periferia, da periferia à paulista

  1. mais do que uma questão de direitos, é uma questão de superar a gramática dos direitos, tornar a necessidade mesma de direitos obsoleta – porque a liberdade se torna um fato consumado.

  2. Mais sobre questões urbanas relativas à construção da periferia e de seu modo de vida:

    http://seresurbanos.blogfolha.uol.com.br/2015/05/26/obra-mostra-vies-politico-da-producao-habitacional-no-brasil/

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