ciclista: homo sacer

o ciclista, no brasil, é homo sacer

homo sacer era uma figura estranha no direito romano. era um humano vivente que não poderia ser sacrificado aos deuses. portanto desse lado era sagrado. em outro lado, não sendo sacrifício aos deuses, seu homicídio não era sancionado. ou seja, poderia ser morto por qualquer um, por qualquer motivo, que nada acontecia ao homicida.

no vídeo acima, o assassinato de antônio simão de lima, de 61 anos, na avenida djalma batista, em manaus. como se vê, o motorista não mantém a distância de 1,5m de distância (CTB – 201), dirigindo sem atenção (CTB – 169). 

mas noticia a empresa auto ônibus líder, à qual pertence o veículo que o atropelador usou para causar o homicídio, que um laudo preliminar da empresa de ônibus diz que o motorista não teria cometido nenhuma infração… e estava com velocidade compatível com a via…. duvida? leia aqui.

ou seja, o ciclista antônio poderia ser morto sem que nada aconteça ao seu homicida. sem apenamento. o ciclista é o moderno homo sacer.

o ciclista é desprovido dos seus direitos civis: são inúmeras as legislações ignoradas constantemente, quando se fala de bicicletas e ciclistas. não são só os artigos 169 e 201 do CTB. são as leis municipais e estaduais que determinam que se construam ciclovias nas grandes avenidas e estradas, e nada é feito. é o ir e vir entre uma cidade e outra que é impedido, pois não se pode atravessar uma ponte, não se pode usar uma certa estrada, e a autoridade legal ignora a lei.

em todo o brasil é isso que acontece. quando se fala de bicicleta, se ignoram as regras do CTB que protegeriam o ciclista. nos gerenciamentos de trânsito das cidades, no caso da bicicleta, ignora-se a lei 12.587/2012, principalmente seu artigo 6º, inciso II.

ao ciclista cabe apenas morrer,  por exercer seu direito de ir e vir. o soberano não lhe ouve, sequer o grito no momento da morte. a lei, paradoxalmente, tudo significa e nada significa. nem nomos, nem anti-nomos. não antinomias, mas anomias. a-nomos.nem nomos nem anti-nomos, mas a-nomos. o nada. a lei e a ordem abraçados, e ao ciclista, o nada.

o homo sacer é o único que, indistintamente, independentemente de sua condição  social, conhece a dança macabra que a todos nivela. o pedalar é uma totentanz, pois eterna celebração da vida e do bem viver, mas a todo tempo sendo o trânsito, os motoristas, gritando: “memento mori!”

antônio simão, como tantos outros, isso entendeu. e sabemos, nada acontecerá. homo sacer. somos todos em cima de nossas bicicletas. duplamente sagrados.

não é guerra quando só há mortos do lado de cá.

 

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